Um irreal que parece real.
Acho que não tem maneira de explicar melhor, mas para fazer um universo fantasioso realista (mesmo que soe contraditório.) A melhor forma é a de traçar paralelos com o mundo real, de uma forma que mesmo algo impossível se torne palpável ao leitor.
Com o que aquilo se parece?
O primeiro ponto a se pensar, é qual a semelhança direta entre objetos reais e os imaginados, como cores, formato, textura e etc. Por exemplo:
Um homem de barba grisalha aparece diante do corredor formado pela multidão, de armadura e cabelos prateados, com uma espada de lâmina enorme que arrastava ao chão, maior que uma espada bastarda, que uma espada de duas mãos, até mesmo que uma espada inglesa, que chega á 1,8m. A lâmina era branquíssima, parecendo cerâmica. A armadura tinha um grande leão entalhado no peito e a guarda da mão era talhada suavemente para lembrar os pelos de uma juba.
Aqui, são traçados paralelos entre espadas reais e objetos do nosso mundo para facilitar a imaginação de algo que nunca existiu, mas uma espada ainda é uma tarefa simples, já que uma lâmina grande e branca não é algo tão fantasioso assim. Agora vamos ver como descrever objetos mais irreais ainda.
Encaixar o que não é real no que já conhecemos.
Agora vem a parte mais importante, colocar a parte que não seria possível no nosso mundo, como espadas que mudam de forma, armaduras de materiais impossíveis ou guerreiros inumanos. Veja aqui outro exemplo, de um capacete feito para seres com chifres.
O sátiro entrega a alabarda para um soldado próximo, pega o capacete com as duas mãos. Agora é possível ver dois buracos na parte superior e uma fissura que divide o capacete no meio. Ele puxa, separando-o em dois, Django arregala os olhos. “Eu preciso de um desses pra mim.” Pensou o minotauro. O bode encaixa os chifres nas metades do capacete, e vai girando-as com as mãos, ao chegar próximo ao seu rosto, as metades se aproximam e encaixam instantaneamente. "Um capacete magnético, uma estrutura interessante, eu diria." Pensou Gaiseric, analisando a tecnologia das novas armaduras, que ultrapassaram em muito as suas. “Será que não enfraquece a durabilidade?” Completou.
Veja que o exemplo a seguir já é um pouco mais difícil de ser visualizado, e são feitos poucos paralelismos para imaginar. A melhor maneira de prender a imaginação do leitor, nesse caso, é análisar a própria estrutura mágica. Um capacete com uma fissura seria estruturalmente mais fraco, e um golpe no centro poderia separá-lo e amassar com facilidade, isso instiga o leitor a pensar não só na utilidade do objeto, mas também em cenas de combate, e já dizia Vygotsky:
"Eles sugerem que as ações, quando repetidas, acumulam-se, umas sobre as outras, sobrepondo-se como numa fotografia de exposição múltipla; os traços comuns tornam-se nítidos e as diferenças tornam-se borradas."
Quanto mais vezes um objeto aparecer em cena, tanto em utilização ou em descrição, mais fácil do leitor integrar as informações dadas em uma imagem sólida, os paralelismos e repetição de conceitos já existentes são indispensáveis. Em certo trecho de O Nevoeiro (Stephen King), um tipo de aranha desconhecida solta lances de teia da parte superior da cabeça, uma teia quente, e o autor descreve como: a sensação de segurar uma linha de pesca entre os dedos e puxá-la com força, o que dá uma realidade muito mais palpável do que uma simples teia quente e carmesim, mas sim a sensação lancinante e aguda de uma corda áspera passando rapidamente por uma mão desprotegida. Esses paralelos servem para tudo, desde descrever um clima, como: "As árvores do deserto de Alqasrail tem troncos negros e parecem se alimentar mais da vida do que o próprio sol." (Um teor macabro e deseperançoso, já que as próprias árvores não são abrigo para os habitantes do deserto.) ou uma sensação de último recurso durante uma queda livre:
"Lucky respirou fundo, "Concentra caralho, concentra!" Pensou ele, tentando fazer chamas abaixo de seus pés, na tentativa de criar uma propulsão que o impedisse de mergulhar no lago. De início, as chamas apareciam rapidamente abaixo deles e apagavam por conta da velocidade, como um isqueiro em uma ventania. "Mais potência! Relaxa Lucky, relaxa!" Pensou, colocou as mãos também apontando para baixo, enquanto tentava regular a emissão de fogo nas palmas das mãos e solas dos pés, soltar fogo pela mão é simples, mas com o pé é muito mais desgastante, é como se tentasse segurar algo com eles."
Caro leitor, espero que esse texto tenha sido lido com carinho e que meus exemplos tenham ajudado, a maioria deles foi tirado de minhas obras, ou seja, se eles tiverem falhado na sua imaginação, então eu ainda não aprendi o suficiente!