O melhor escritor é o não-escritor!
A frase logo assim de cara pode parecer fraca e paradoxal, mas peço que você me acompanhe mais um pouco nessa tese simples.
1. Não existe personagem perfeito (e isso é bom!).
Nenhum personagem precisa ser 100% lógico nas ações, por que nenhuma pessoa é assim, seja um humano, elfo, minotauro ou até robô. O que eu quero dizer é: O robô criado como arma também afaga um cachorro sem dono, o monge pacifista também golpeia alguém pra longe quando assustado, o príncipe cruel também engole em seco quando algum herói sem medo de autoridades confronta-o. São os pequenos nuances que deixam o seu personagem mais real.
2. O mundo é tão vivo quanto os seus protagonistas.
É bom lembrar que o seu personagem ainda está lá mesmo quando o assunto não é com ele, se duas pessoas começam a discutir: ele tenta apartar, sai de cena, escuta de canto ou tende pro lado que gosta mais? Tudo isso diz sobre o caráter do seu personagem e mostra que não só ele interage com o mundo mas o contrário também pode acontecer, favorecendo ou desfavorecendo seus objetivos.
3. Todo personagem é a favor ou contra algo.
Todo personagem na história tem alguma funcionalidade, desde o personagem secundário com uma subtrama que explica o passado do vilão até o coadjuvante que pede alguma informação, o que você precisa pensar é: Esse personagem se move em função da história?, se o seu personagem não se opõe a nada, não apresenta algo novo, não tem uma trama própria ou nem sequer será mencionado futuramente, é de se pensar na sua permanência na trama ou no mínimo um reajuste das aparições em!
4. "Ogros são como cebolas, tem camadas."
Se o seu personagem já tem uma função, uma meta, um opositor e defeitos, ele já está muito próximo de completo, agora só faltam duas pequenas coisas, e uma delas é dilemas sobre dilemas, por exemplo:
Um espadachim que foi tirado da sua família jura vingança contra seu sequestrador.
Já é uma trama fechada, mas e se esse espadachim sentir medo de se tornar igual aqueles que lhe machucaram? Agora você pode criar um dilema em cima do outro, assim:
Um espadachim que foi tirado da sua família jura vingança contra seu sequestrador, mas quanto mais forte ele fica, mais gosta de matar, e quanto mais gosta de matar, mais se odeia.
Desse jeito, você joga uma pergunta de volta ao leitor:
Nisso, você coloca mais dilemas sobre dilemas, ele gosta de matar, mas se odeia por isso, ele quer se provar melhor, mas não sabe se força é o caminho, ele quebra seus juramentos, pois não é isso que ele quer, mas quanto mais quebra-os, mais ele sente que suja a honra da família injustiçada.
5 O melhor escritor é o não-escritor.
Digo isso no sentido de que, o bom escritor é aquele que consegue se colocar em papéis que não são os seus, é o homem conservador que consegue incorporar o jovem progressista, o menino privilegiado que consegue entender as dificuldades raciais na periferia, a pessoa popular que entende a dificuldade de um introvertido. Quando se escreve uma mulher sendo homem, não se pode "pensar como uma mulher" por que fica caricato e duvidoso, mas também é prepotência dizer que é a mesma coisa que escrever um homem, pois existem diferenças sociais aí, e é nesse dilema que o escritor sobrevive, incorporar papéis que não lhe pertencem pra dar vida a personagens cativantes!
"Se ser o personagem é não incorporar aquilo que você ACHA que ele é, até onde ser escritor não é incorporar o que esperam que você escreva?"