Pular para o conteúdo

Construindo a Tensão - A Escrita de Terror — Edson Shad | Adquira Conhecimento · Portal do Escritor · THE AUTOR

Narrativa · por Edson Shad

Aprenda a construir momentos de tensão, seja em livros de terror, thrillers ou ação.

Se você escreve Terror, Horror Cósmico, Thriller ou afins, já deve ter escutado essa definição:

Terror é sentir o cheiro de morte na sala. Horror é quando se tropeça no cadáver.

Esse foi um conceito muito bem cunhado por Devendra Varma, estudioso da literatura gótica. No entanto, há outra citação famosa, desta vez de Ann Radcliffe, a mãe do Terror Gótico, em O Sobrenatural na Poesia (1826):

Terror e horror são tão opostos que o primeiro expande a alma, e desperta as faculdades a um grau elevado de vida. O outro as contrai, congela e quase as aniquila.

Você decidiu, então, que quer escrever terror. Ama assistir filmes de terror e tenta replicar as sensações que vê na tela para dentro das páginas. Isso, infelizmente, é um erro inicial que muitos cometem.

A Diferença entre Audiovisual e Literatura

Filmes, séries e jogos de terror são meus favoritos. Apesar de eu ser um escritor deste tipo de tema, também sou medroso e consigo aproveitar todas as nuances que estes filmes me trazem. Os meus favoritos, claro, são os de Terror Psicológico. A Bruxa, Hereditário, Obsessão, Nosferatu... São obras que trabalham muito bem a construção do mistério e do medo dentro da gente. Sem muitos jump scares, apenas algo acontecendo no fundo da tela, sem que o protagonista veja.

No entanto, obras visuais contam suas histórias e criam sua tensão através de dois elementos: Visual e Trilha-Sonora.

Já nos livros, isso não é possível. Claro, escritores modernos costumam colocar em alguns capítulos sugestões de trilha-sonora para aquela situação, o que eu acho um absurdo cosmético terrível, mas TALVEZ emule uma parte da sensação de estar assistindo um filme de terror. No entanto, se você é como eu, vai querer aprender da maneira correta a construir a tensão. E a primeira coisa é entender que, aqui, nós podemos contar com apenas um elemento: Imaginação.

E imaginação não precisa de orçamento, não tem corte de câmera e não tem limites.

Já reparou que você nunca toma jump scare quando lê um conto ou livro de terror?

E se eu te falar que você reparou errado?

Conforme uma aula anterior aqui no Ponta da Estrela, é possível aprender que até palavras, frases e parágrafos devem constituir um design maior. Claro, jump scares como os dos filmes é bem difícil de acontecer, mas certamente você já virou uma página e, logo na primeira linha, seu personagem favorito tem a garganta cortada, ou algo muito ruim acontece, deixando seu estômago gelado e uma vontade de chorar entalada na garganta.

Isso é surpresa. E isso é design de escrita. E para um conto ou livro de terror, o design de escrita conta muito.

Como criar tensão

  1. Solte a mão do leitor - Eu sei que você deve ter pensado num cenário magnífico para aquela cena de terror. As ruínas de um castelo abandonado, o porão antigo de uma casa, uma lavanderia movimentada, uma balada... Mas me responda uma coisa: O que dá mais medo? Ver um monstro num lugar desconhecido ou imaginar esse monstro em um lugar que eu conheço? Portanto, seja descritivo, mas não tente controlar o ambiente em que o leitor está. Acredite, é uma batalha perdida. Um exemplo? Bem, é IMPOSSÍVEL você ler A Guerra dos Tronos hoje e não imaginar Tyrion Lannister sem que seja como Peter Dinklage, a menos que você nunca tenha visto a série. Sua mente fará associações com aquilo que você conhece, vai imaginar lugares que você já viu misturados com elementos que o autor colocar na obra. Então descreva, mas deixe um espaço para o leitor construir o cenário também. Seja sucinto na descrição espacial.
  2. Não solte TANTO assim - Apesar de você não precisar ser exaustivamente descritivo com o cenário, o mesmo não pode ser dito de outros sentidos. Certo, você não tem controle total sobre o visual, mas os outros sentidos são absolutamente seus para trabalhar. Descreva o odor, geralmente terrível, opressivo, pungente, assustador. O cheiro de mofo de um lugar antigo, o cheiro de baratas (tem uma parcela da sociedade que é capaz de sentir esse cheiro através de uma variação genética, acredite), o cheiro de deterioração e de decomposição. Depois, descreva o que o personagem ouve. Um arranhar suave atrás da parede, como pequenas garras, ou unhas curtas, arranhando e arranhando sem parar. Um pinga-pinga de água em algum lugar... Mas será que é água mesmo? E quanto ao gosto? Seu personagem está comendo uma carne, mas ela é meio dura, com um gosto diferente, fibrosa... Será que é um simples contra-filé? A tensão é criada de acordo com a sua percepção de ambiente, não apenas com o visual. Um monstro assusta, mas o terror que ele causa é o que será transmitido para o leitor.
  3. Não tenha pressa! - O que é a tensão, senão a preocupação com a nossa vida ou a vida de algum personagem? Eu sei que é tentador demais pular imediatamente para a parte do susto, do gore, para tentar chocar o leitor, mas nada disso vai adiantar se você não CONSTRUIR o personagem primeiro. A tensão só surgirá se o personagem que está correndo perigo for importante. Você já percebeu que em certos filmes, você consegue se preocupar mais com o estereótipo da Final Girl/Virgem, do que com a do estereótipo de "Gostosa Burra"? Eu sei, os termos são terríveis, mas são os estereótipos explorados com exaustão pelo cinema em filmes de cabana. Nós conhecemos o passado da Final Girl, acompanhamos ela de perto, sabemos suas motivações e o quão importante é pra ela superar aquele desafio. A gostosa burra? Bem, ela vai ter uma morte chocante depois de fazer sexo em um lugar perigoso e inapropriado e a única coisa que saberemos sobre ela é que ela gosta MUITO de sexo. E é muito burra também. Apenas isso. Quando ela morre, beira o cômico. Em livros, você tem todo o tempo do mundo para desenvolver todos os personagens, para fazer com que todos eles fujam de estereótipos e que passem a importar para o público.
  4. Evite a Síndrome da Mulher Escrita por Homem! - Muitos autores homens acreditam que, para uma mulher ser demonstrada forte, ela precisa agir como homem. Em livros de terror, isso fica ainda mais definido, já que estamos trabalhando o psicológico da personagem desde o início. Para enfrentar um alienígena xenomorfo, sua protagonista não precisa raspar a cabeça e agir como o Rambo. Existem outras formas de ser forte sem que a protagonista seja transformada em homem. "Ah, mas algo aconteceu e a personagem passou a agir como homem como forma de se proteger para não passar mais por algum tipo de abuso físico, psicológico..." Parabéns! Você está construindo sua personagem. Portanto, volte para o passo número 3 e não tenha pressa.
  5. Não se preocupe com clichês - Clichês existem porque funcionam. Não há problema algum usar clichês em seu livro. Também é legal pensar em subverter esses clichês, dando golpes e mais golpes de oportunidade em seu leitor, sem que ele saiba para onde essa narrativa está caminhando. Para escritores de terror, esse é o maior trunfo. Manter a imprevisibilidade. Mas para ser imprevisível, de vez em quando é necessário usar clichês. Sim, o mordomo matou a Sra. Carmody, mas por estar possuído por uma entidade demoníaca que entrou na casa junto com a protagonista. Sei lá. Inventa aí.
  6. Expectativas criadas devem ser entregues - Lembra lá do começo? O terror é sentir o cheiro do cadáver e o horror é tropeçar no corpo? Bem, se você está narrando perfeitamente o terror, lembre-se de entregar um horror à altura. E quando é o momento de fazer a entrega, não poupe descrição. Como o monstro arrancou a cabeça do personagem? O que ele fez com o sangue? Como o protagonista encontrou seu namorado no chão? Como ele reagiu? O que ele fez com isso e como vai agir depois desse momento? Enlouqueceu? Está enlouquecendo? Vai passar pelas cinco fases do Luto? O monstro é fácil de descrever ou ele é uma massa disforme? Se é uma massa disforme, como o personagem principal o interpreta? Acredite, esse é o seu maior momento de brilhar.
  7. Não entregue tudo - Essa é principal para quem escreve contos. Ninguém precisa REALMENTE saber de onde está vindo o vírus que transformou a população em zumbi. Se o seu protagonista é um ajudante de pedreiro que vai domingo sim, domingo não para a missa, não INTERESSA pra ele saber como o demônio que tá perseguindo ele surgiu. Ele precisa fugir. Não se preocupe com a origem, a menos que a história exija isso. Mas exija mesmo! Tome como exemplo os contos de H. P. Lovecraft. Você sabe de que planeta veio Cthulhu? Sabe como o Yog-Sothoth veio parar na Antártida? E isso importa? Claro que não. Guarde informações para si. Entregue ao leitor somente o que ele precisa saber e deixe que ele construa o resto. Se quiser fidelizar a leitura, deixe pistas para que eles abram questionamentos na internet e falem sobre sua obra. Enquanto isso, você vai vendo as teorias, analisando e depois escolhe a melhor e diz que pensou naquilo desde que tinha 7 anos de idade. Tipo a Rowling.

Espero que com estes passos você já comece a escrever melhor e mais segurança os seus contos e livros. Aparecerei aqui mais vezes, com mais dicas. Não se preocupe. Não, não chore, eu volto. Prometo.

Mas não olhe para trás. Não vai querer que eles descubram que você sabe da existência deles, né?