Toda rosa tem seus espinhos
Na penumbra de um quarto, onde o vento não chega,
Ela canta baixinho, numa voz serena,
Seus olhos guardam segredos que o mundo não vê,
E em seus lábios rosados, uma canção faz nascer:
Na palidez de sua pele, sob a luz da solidão,
Cada verso que murmura revela uma aflição.
Houve um tempo em que a semente foi plantada,
Em uma terra estéril, numa estufa sagrada.
Queriam uma pétala alva, perfeita e delicada,
Uma boneca de porcelana, por fora adornada,
Mas por dentro, em silêncio, inteiramente quebrada.
A pureza que exibia, coroada de alegria,
Era apenas uma máscara que a todos iludia.
Enquanto isso o caule, escondido, chorava em vão,
Sob o peso dos espinhos e da própria aflição.
E a rosa não se rebela contra quem a cultiva,
Mesmo quando a mão que a toca lhe rouba a alegria.
É rasgada pelas garras de quem jurou protegê-la,
E seu sangue, entre as pétalas, chamam de amor por tê-la.
Enfeitam seus castelos com espinhos de pudor,
E escondem suas feridas sob o nome do amor.
A ferida mais profunda permanece esquecida,
No fundo daquele vaso, longe dos olhos da verdadeira vida.
Onde a água já secou e a alma definha,
E o silêncio, pouco a pouco, faz da dor sua rainha.
A menina respira e suspira, então,
Erguendo os olhos além da escuridão.
Contempla os velhos vitrais, tão distantes, tão frios,
Enquanto o tempo escorre por caminhos vazios.
E termina seu verso com um sorriso gelado,
Com a voz quase muda e o olhar resignado.
Mas não chores pela pétala que hoje se inclina,
Pois o destino lhe reserva o fim de uma rotina.
Um dia, essa rosa será arrancada pela raiz,
Para saciar a fome de um jardim que se diz feliz.
Onde um império de rosas, imenso e voraz,
Engole outras flores em nome da paz.
E sua pureza, retalhada e fingida,
Servirá de adubo para outras plantas feridas.
E a lua, em seu encanto, ilumina o céu azul,
E derrama sua luz sobre o jardim ao sul.
Naquele recanto onde a esperança se desfaz,
Uma harpa esquecida ainda suspira pela paz.
E ao toque de uma corda, tão frágil e sereno,
Ressoa a voz da rosa em seu destino pequeno.
Pois mesmo entre espinhos, na noite mais fria,
Ainda resta uma canção que ninguém... silencia.