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A canção de Rosalie · Toda rosa tem seus espinhos — Beatriz Costa

Por Beatriz Costa

Toda rosa tem seus espinhos

Na penumbra de um quarto, onde o vento não chega,

Ela canta baixinho, numa voz serena,

Seus olhos guardam segredos que o mundo não vê,

E em seus lábios rosados, uma canção faz nascer:

Na palidez de sua pele, sob a luz da solidão,

Cada verso que murmura revela uma aflição.

Houve um tempo em que a semente foi plantada,

Em uma terra estéril, numa estufa sagrada.

Queriam uma pétala alva, perfeita e delicada,

Uma boneca de porcelana, por fora adornada,

Mas por dentro, em silêncio, inteiramente quebrada.

A pureza que exibia, coroada de alegria,

Era apenas uma máscara que a todos iludia.

Enquanto isso o caule, escondido, chorava em vão,

Sob o peso dos espinhos e da própria aflição.

E a rosa não se rebela contra quem a cultiva,

Mesmo quando a mão que a toca lhe rouba a alegria.

É rasgada pelas garras de quem jurou protegê-la,

E seu sangue, entre as pétalas, chamam de amor por tê-la.

Enfeitam seus castelos com espinhos de pudor,

E escondem suas feridas sob o nome do amor.

A ferida mais profunda permanece esquecida,

No fundo daquele vaso, longe dos olhos da verdadeira vida.

Onde a água já secou e a alma definha,

E o silêncio, pouco a pouco, faz da dor sua rainha.

A menina respira e suspira, então,

Erguendo os olhos além da escuridão.

Contempla os velhos vitrais, tão distantes, tão frios,

Enquanto o tempo escorre por caminhos vazios.

E termina seu verso com um sorriso gelado,

Com a voz quase muda e o olhar resignado.

Mas não chores pela pétala que hoje se inclina,

Pois o destino lhe reserva o fim de uma rotina.

Um dia, essa rosa será arrancada pela raiz,

Para saciar a fome de um jardim que se diz feliz.

Onde um império de rosas, imenso e voraz,

Engole outras flores em nome da paz.

E sua pureza, retalhada e fingida,

Servirá de adubo para outras plantas feridas.

E a lua, em seu encanto, ilumina o céu azul,

E derrama sua luz sobre o jardim ao sul.

Naquele recanto onde a esperança se desfaz,

Uma harpa esquecida ainda suspira pela paz.

E ao toque de uma corda, tão frágil e sereno,

Ressoa a voz da rosa em seu destino pequeno.

Pois mesmo entre espinhos, na noite mais fria,

Ainda resta uma canção que ninguém... silencia.