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A Princesa Silenciosa · Capítulo 1 — A princesa que preferia ficar em silêncio — joaovictorgazola114@gmail.com

Por joaovictorgazola114@gmail.com

No Reino de Navarra do século XV, o silêncio pode ser a maior virtude de uma princesa — ou a sua ruína. Sofia tem dezessete anos, é a única herdeira da coroa de Navarra e tem uma certeza: o mundo seria um lugar infinitamente melhor se todos falassem metade do que dizem. Tímida, reclusa e apaixonada por livros, bordados e pelo som forte e apaixonado do seu cravo, ela prefere a penumbra da biblioteca às intrigas da corte de Olite. Sua mãe, a carinhosa mas implacável Rainha Clarissa, sabe que a timidez de Sofia é um prato cheio para reinos vizinhos gananciosos. Em uma Europa dominada por arranjos políticos e homens ambiciosos, ser uma princesa silenciosa é visto como um sinal de fraqueza — e Navarra não pode se dar ao luxo de parecer frágil. Quando o salão de baile se enche de diplomatas e pretendentes vindos de Castela e Aragão, Sofia é forçada a sair de seu refúgio e encarar o jogo da nobreza. Pressionada a encontrar sua própria voz antes que outros decidam seu futuro por ela, a jovem herdeira descobrirá que nem todos os que sorriem no salão são aliados — e que, às vezes, as melodias mais ruidosas e transformadoras nascem justamente naqueles que mais sabem escutar. Com a narrativa envolvente, romântica e bem-humorada que consagrou a autora de A Seleção, A Princesa Silenciosa é uma viagem inesquecível a uma corte medieval repleta de segredos, expectativas sufocantes e a jornada de uma garota em busca de seu próprio lugar no mundo.

Capítulo 1 — A princesa que preferia ficar em silêncio

Se o mundo dependesse da minha capacidade de discursar diante de uma multidão para continuar girando, temo que todos nós já tivéssemos despencado no abismo.

Meu nome é Sofia. Sou a única herdeira da Casa Real de Navarra, o que, em pleno século XV, deveria me transformar em uma jovem impecável, altiva e dona de uma postura assustadora. No entanto, minha maior habilidade social consiste em me misturar com as tapeçarias do salão real até que todos esqueçam que estou ali.

Para a nobreza que frequenta o castelo, sou o que costumam chamar delicadamente de "delicada" ou "reservada". Para os guardas do portão, sou a garota que provavelmente tropeçará na própria barra do vestido se tentarem puxar assunto. Eu leio devoradores tomos de história, bordo lírios tão perfeitos nas almofadas do castelo que parecem reais e me refugio na música. Quando me sento ao piano, minhas mãos — habitualmente trêmulas diante de estranhos — encontram uma força que nem eu mesma sei de onde vem. As teclas pesadas ecoam pelo salão com uma firmeza que minha voz simplesmente se recusa a ter.

Na teoria, sou uma princesa. Na prática, sou uma garota que preferia mil vezes conversar com páginas de papel a ter que encarar uma sala cheia de duques e condes famintos por alianças casamenteiras.

E o meu maior pesadelo estava prestes a atravessar a porta do meu quarto, carregando um envelope.

— Sofia, minha querida, se você continuar se escondendo atrás desse livro, vou começar a achar que ele tem feições mais agradáveis que as da sua própria mãe — a voz suave, mas impregnada de uma autoridade inquestionável, ecoou pelo recinto.

Ergui os olhos da página e dei de cara com a Rainha Clarissa. Minha mãe é a clássica mãe de princesa de contos de fadas, mas com uma dose fatal de realismo que só quem governa um reino ao lado de um pai cabeça-dura como o Rei Ricardo consegue ter. Ela é amorosa, doce e compreende minha timidez como ninguém... o que a torna duplamente perigosa, porque ela sabe exatamente como usar essa compreensão para me desarmar.

— Não estou me escondendo, mamãe — murmurei, ajeitando a saia do vestido e fechando o volume sobre a mesa. — Estou apenas... apreciando a companhia dos mortos. Eles raramente exigem que eu faça contato visual.

Clarissa suspirou, um sorriso benevolente nos lábios enquanto caminhava até mim. Ela me puxou pela mão com delicadeza e se sentou na borda da minha cama de dossel, fazendo sinal para que eu me juntasse a ela.

— Seu pai e eu nos preocupamos com você — começou ela, acariciando meu rosto com os nós dos dedos. — Sabemos como o mundo lá fora pode parecer barulhento para alguém que prefere o silêncio. Eu nunca exigi que você fosse uma guerreira ou uma articuladora política, Sofia. Sempre tolerei seu jeito tímido porque sei a alma linda e sensível que você tem.

Senti um aperto caloroso no peito. É isso que Clarissa faz: ela amacia seu coração antes de disparar a flecha.

— Mas... — continuei por ela, franzindo o cenho. — Sempre há um 'mas' quando a senhora usa esse tom carinhoso.

— Mas — completou minha mãe, sem perder a doçura —, o reino de Iléa enviou uma correspondência formal.

O ar sumiu dos meus pulmões por um segundo. Iléa. O reino distante e fascinante sobre o qual todos comentavam nas cortes europeias.

— Uma carta? O que Iléa quer com Navarra? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos já estivessem procurando o tecido da minha saia para torcer.

Clarissa tirou do bolso de veludo um envelope pesado, feito de um papel refinado que eu nunca tinha visto igual, selado com o brasão real em cera dourada.

— O Príncipe Herdeiro henry de Iléa atingiu a idade limite — explicou minha mãe, os olhos brilhando com uma mistura de orgulho e firmeza realista. — Eles estão convocando a Seleção. Princesas e jovens nobres de diversos reinos foram convidadas. E este envelope... é o seu convite oficial.

Fiquei encarando o pedaço de papel como se ele fosse um dragão prestes a cuspir fogo nas minhas cortinas.

— Não — disse, quase num sopro. — Mamãe, não. A senhora sabe como eu sou! Eu tremo quando preciso pedir água para os criados! Como quer que eu vá para um palácio estrangeiro disputar a atenção de um príncipe com dezenas de garotas confiantes e perfeitamente treinadas?

— Sofia... — Clarissa segurou minhas duas mãos, impedindo que eu continuasse me torturando. — Não é uma disputa vulgar. É uma oportunidade para o nosso reino e para o seu futuro.

— É um massacre para alguém como eu! — rebati, e a ironia de ser uma garota fraca tentando soar firme não passou despercebida por mim mesma. — Eu nem consigo olhar nos olhos das pessoas por mais de dez segundos sem querer que a terra me engula! O que o príncipe de Iléa faria com uma princesa que se esconde atrás de um piano?

Clarissa endureceu o olhar, tocando exatamente no meu ponto fraco — a consciência dolorosa que eu tinha da minha própria vulnerabilidade.

— Ele veria a mesma coisa que eu vejo — disse ela, o tom agora maternal e afiado. — Uma garota inteligente, talentosa e profundamente sensível que está usando a timidez como uma armadura para não encarar a vida de verdade. Minha filha, você não é fraca. Mas se continuar agindo como se fosse feita de vidro, o mundo vai tratar você como se fosse quebrar a qualquer momento.

As palavras dela cortaram fundo. Não porque foram ditas com crueldade, mas porque eram a mais pura e dolorosa verdade. Minha mãe me amava demais para me deixar definhar no meu próprio conforto.

— Ricardo e eu já conversamos — continuou ela, o tom voltando a ser brando, quase um afago. — Seu pai concorda comigo. Você é nossa única filha, Sofia. Tudo o que queremos é que você descubra do que é capaz fora das paredes deste castelo.

Olhei para o selo dourado na mesa. O envelope parecia pesar uma tonelada. Em Navarra, eu tinha meus livros, meus bordados e as teclas do meu piano que me ouviam sem julgar. Em Iléa, sob os olhares de uma corte inteira e de um príncipe desconhecido, eu seria apenas a princesa silenciosa que todos esperavam ver falhar.

— Se eu for... — comecei, com a voz embargada —, e não conseguir falar uma palavra sequer na presença dele?

Clarissa sorriu, inclinando-se para beijar minha testa com todo o carinho do mundo.

— Então toque para ele, minha querida. E deixe que a sua música diga o que a sua voz não tem coragem de pronunciar.

Ela se levantou, deixou o envelope dourado sobre a minha escrivaninha e caminhou em direção à porta. Antes de sair, olhou para trás uma última vez.

— As malas começam a ser prontas amanhã ao amanhecer. Descanse, Sofia. Iléa a espera.

A porta se fechou com um estalo suave. Fiquei sozinha no quarto, encarando o papel reluzente que garantia minha passagem para o maior desafio da minha vida. Suspirei, caminhando até o piano no canto do quarto. Aproximei os dedos das teclas, mas não toquei. Se eu quisesse sobreviver à Seleção de Iléa, teria que aprender a fazer barulho. De um jeito ou de outro.