Capítulo 1 — A princesa que preferia ficar em silêncio
Se o mundo dependesse da minha capacidade de discursar diante de uma multidão para continuar girando, temo que todos nós já tivéssemos despencado no abismo.
Meu nome é Sofia. Sou a única herdeira da Casa Real de Navarra, o que, em pleno século XV, deveria me transformar em uma jovem impecável, altiva e dona de uma postura assustadora. No entanto, minha maior habilidade social consiste em me misturar com as tapeçarias do salão real até que todos esqueçam que estou ali.
Para a nobreza que frequenta o castelo, sou o que costumam chamar delicadamente de "delicada" ou "reservada". Para os guardas do portão, sou a garota que provavelmente tropeçará na própria barra do vestido se tentarem puxar assunto. Eu leio devoradores tomos de história, bordo lírios tão perfeitos nas almofadas do castelo que parecem reais e me refugio na música. Quando me sento ao piano, minhas mãos — habitualmente trêmulas diante de estranhos — encontram uma força que nem eu mesma sei de onde vem. As teclas pesadas ecoam pelo salão com uma firmeza que minha voz simplesmente se recusa a ter.
Na teoria, sou uma princesa. Na prática, sou uma garota que preferia mil vezes conversar com páginas de papel a ter que encarar uma sala cheia de duques e condes famintos por alianças casamenteiras.
E o meu maior pesadelo estava prestes a atravessar a porta do meu quarto, carregando um envelope.
— Sofia, minha querida, se você continuar se escondendo atrás desse livro, vou começar a achar que ele tem feições mais agradáveis que as da sua própria mãe — a voz suave, mas impregnada de uma autoridade inquestionável, ecoou pelo recinto.
Ergui os olhos da página e dei de cara com a Rainha Clarissa. Minha mãe é a clássica mãe de princesa de contos de fadas, mas com uma dose fatal de realismo que só quem governa um reino ao lado de um pai cabeça-dura como o Rei Ricardo consegue ter. Ela é amorosa, doce e compreende minha timidez como ninguém... o que a torna duplamente perigosa, porque ela sabe exatamente como usar essa compreensão para me desarmar.
— Não estou me escondendo, mamãe — murmurei, ajeitando a saia do vestido e fechando o volume sobre a mesa. — Estou apenas... apreciando a companhia dos mortos. Eles raramente exigem que eu faça contato visual.
Clarissa suspirou, um sorriso benevolente nos lábios enquanto caminhava até mim. Ela me puxou pela mão com delicadeza e se sentou na borda da minha cama de dossel, fazendo sinal para que eu me juntasse a ela.
— Seu pai e eu nos preocupamos com você — começou ela, acariciando meu rosto com os nós dos dedos. — Sabemos como o mundo lá fora pode parecer barulhento para alguém que prefere o silêncio. Eu nunca exigi que você fosse uma guerreira ou uma articuladora política, Sofia. Sempre tolerei seu jeito tímido porque sei a alma linda e sensível que você tem.
Senti um aperto caloroso no peito. É isso que Clarissa faz: ela amacia seu coração antes de disparar a flecha.
— Mas... — continuei por ela, franzindo o cenho. — Sempre há um 'mas' quando a senhora usa esse tom carinhoso.
— Mas — completou minha mãe, sem perder a doçura —, o reino de Iléa enviou uma correspondência formal.
O ar sumiu dos meus pulmões por um segundo. Iléa. O reino distante e fascinante sobre o qual todos comentavam nas cortes europeias.
— Uma carta? O que Iléa quer com Navarra? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos já estivessem procurando o tecido da minha saia para torcer.
Clarissa tirou do bolso de veludo um envelope pesado, feito de um papel refinado que eu nunca tinha visto igual, selado com o brasão real em cera dourada.
— O Príncipe Herdeiro henry de Iléa atingiu a idade limite — explicou minha mãe, os olhos brilhando com uma mistura de orgulho e firmeza realista. — Eles estão convocando a Seleção. Princesas e jovens nobres de diversos reinos foram convidadas. E este envelope... é o seu convite oficial.
Fiquei encarando o pedaço de papel como se ele fosse um dragão prestes a cuspir fogo nas minhas cortinas.
— Não — disse, quase num sopro. — Mamãe, não. A senhora sabe como eu sou! Eu tremo quando preciso pedir água para os criados! Como quer que eu vá para um palácio estrangeiro disputar a atenção de um príncipe com dezenas de garotas confiantes e perfeitamente treinadas?
— Sofia... — Clarissa segurou minhas duas mãos, impedindo que eu continuasse me torturando. — Não é uma disputa vulgar. É uma oportunidade para o nosso reino e para o seu futuro.
— É um massacre para alguém como eu! — rebati, e a ironia de ser uma garota fraca tentando soar firme não passou despercebida por mim mesma. — Eu nem consigo olhar nos olhos das pessoas por mais de dez segundos sem querer que a terra me engula! O que o príncipe de Iléa faria com uma princesa que se esconde atrás de um piano?
Clarissa endureceu o olhar, tocando exatamente no meu ponto fraco — a consciência dolorosa que eu tinha da minha própria vulnerabilidade.
— Ele veria a mesma coisa que eu vejo — disse ela, o tom agora maternal e afiado. — Uma garota inteligente, talentosa e profundamente sensível que está usando a timidez como uma armadura para não encarar a vida de verdade. Minha filha, você não é fraca. Mas se continuar agindo como se fosse feita de vidro, o mundo vai tratar você como se fosse quebrar a qualquer momento.
As palavras dela cortaram fundo. Não porque foram ditas com crueldade, mas porque eram a mais pura e dolorosa verdade. Minha mãe me amava demais para me deixar definhar no meu próprio conforto.
— Ricardo e eu já conversamos — continuou ela, o tom voltando a ser brando, quase um afago. — Seu pai concorda comigo. Você é nossa única filha, Sofia. Tudo o que queremos é que você descubra do que é capaz fora das paredes deste castelo.
Olhei para o selo dourado na mesa. O envelope parecia pesar uma tonelada. Em Navarra, eu tinha meus livros, meus bordados e as teclas do meu piano que me ouviam sem julgar. Em Iléa, sob os olhares de uma corte inteira e de um príncipe desconhecido, eu seria apenas a princesa silenciosa que todos esperavam ver falhar.
— Se eu for... — comecei, com a voz embargada —, e não conseguir falar uma palavra sequer na presença dele?
Clarissa sorriu, inclinando-se para beijar minha testa com todo o carinho do mundo.
— Então toque para ele, minha querida. E deixe que a sua música diga o que a sua voz não tem coragem de pronunciar.
Ela se levantou, deixou o envelope dourado sobre a minha escrivaninha e caminhou em direção à porta. Antes de sair, olhou para trás uma última vez.
— As malas começam a ser prontas amanhã ao amanhecer. Descanse, Sofia. Iléa a espera.
A porta se fechou com um estalo suave. Fiquei sozinha no quarto, encarando o papel reluzente que garantia minha passagem para o maior desafio da minha vida. Suspirei, caminhando até o piano no canto do quarto. Aproximei os dedos das teclas, mas não toquei. Se eu quisesse sobreviver à Seleção de Iléa, teria que aprender a fazer barulho. De um jeito ou de outro.