Abismo
Vinícius se olhou pela décima vez no espelho em um curto espaço de cinco minutos. Tinha de estar perfeito para ver Gabriela. Toda vez era a mesma história. Ela ligava, dizendo que precisavam conversar. Ele, como melhor amigo e extremamente apaixonado pela garota, corria para ela como um inseto atraído pela luz na escuridão. Como sempre, nem mesmo se importando se ele estava perfumado, ajeitado e de cabelo cortado, ela deitava em seu colo e chorava sobre algum outro filho duma puta que tivera a oportunidade que ele queria e simplesmente dispensou isso e destruiu o coração dela.
Mas ele precisava estar preparado para a melhor situação, sempre. Pedro, seu melhor amigo na escola, tinha contado uma história sobre como ele acabara indo para um encontro sem tomar banho e a menina lhe propusera um boquete do absoluto nada. Tem que estar pronto para essas merdas, cara. Elas simplesmente acontecem.
E ele se preparava. Amava Gabriela desde o nono ano, mas foi incapaz de sair da maldita friendzone. Os adultos riam dele, falavam que aquelas merdas não existiam, mas ele discordava. Amarrava o sapato dela, dava chocolates quando ela estava naqueles dias, dias estes que ele tinha decorado perfeitamente. Gabriela nem precisava falar mais nada para ele. Vinícius chegava com o seu chocolate favorito e massageava suas pernas, tentando esconder a maldita ereção que insistia em se revelar quando ele a tocava. Cara, isso é muito coisa de virgem! Sabe disso, não sabe?, dizia a voz de Pedro na sua cabeça. Sempre espirituoso, o Pedro. Sempre o mais comedor-da-porra-toda, como ele gostava de se chamar. Vinícius achava que ele era virgem também.
Sendo sincero, ele nem tinha esperança com Gabriela. Ele a amava, sim, mas sabia que ela apenas o enxergava como amigo e que ele estava indo na casa dela de novo para ouvi-la desabafar. E tudo bem, sério, ele nem se importava mais. Ele nem se importava mais com o sexo igual Pedro.
Só que ele sentira algo diferente na voz dela naquela vez, não? Uma espécie de ansiedade e preocupação. Talvez as coisas fossem realmente diferentes naquele dia. Por isso também estava mais ansioso do que o normal. Por isso não avisou Pedro para onde ia. Por isso não quis escutar a perversão do amigo, porque as coisas daquela vez realmente podiam ser diferentes e ele não queria estragar tudo.
Ou ela estava ansiosa porque, de alguma forma, as coisas já estavam estragadas. Vai saber…
Pediu um carro por aplicativo na porta da sua casa. As pernas tremiam levemente, mesmo depois de quatro anos fazendo a mesma coisa. A esperança de que as coisas fossem diferentes… Vinícius não era um menino feio. Era magro, atlético, o que já era um ponto importante para um estudante do Ensino Médio. Tecnicamente, não deveria estar sofrendo por mulheres naquela idade. Porra, talvez não devesse estar sofrendo por Gabriela. Quantas oportunidades devia ter perdido por esperar que dois mais dois de repente decidisse dar cinco ao invés de quatro?
Todo o trajeto não durou mais do que dez minutos. Santa Fé era um ovo de cidade, apesar de ser a maior da região do Panelão. Era chamada assim por ficar situada num vale, rodeada por uma cadeia de montanhas e morros que cercavam a vista para qualquer lado com uma mata verdejante de dar inveja a qualquer paulistano. Mesmo assim, o fluxo de carros na Av. Anhangabaú, no centro, era um verdadeiro inferno. Esta avenida cortava a Av. Anhanguera, outra grande confluência de veículos. No final, Anhangabaú descambava no bairro Nova Cidade, de classe média alta. Era onde Gabriela morava.
Já Vinícius morava no Itatiaia, um pouco afastado do centro e com casas mais populares e alguns apartamentos do governo. Aquilo era o suficiente para aumentar ainda mais a distância entre ele e Gabriela. Ela certamente ganharia um carro aos dezoito anos. Já ele se contentaria com uma bicicleta nova com o banco novo e com nove marchas. Talvez ganhasse sua habilitação também.
Gabriela não estava esperando por ele no portão como de praxe. Vinícius pagou a corrida, checou o celular e mandou uma mensagem avisando que chegou. Ainda assim, teve de esperar alguns minutos, olhando para os lados naquela rua quase deserta, bem no meio do Nova Cidade. Ali, era evidente que o bairro havia sido projetado recentemente e que visava casas e condomínios de luxo. As quadras eram praticamente iguais e quase não se via lixo nas ruas. Num dos postes havia uma placa pendurada, avisando que o bairro era monitorado pelos moradores. Vinícius olhou ao redor, principalmente pelas janelas, esperando ver idosas fofoqueiras ricas e com tempo para gastar cuidando da vida dos outros, encarando-o como se fosse um bandido esperando para roubar a casa de Gabriela.
Não precisou pensar por muito tempo. A porta da casa se abriu e Gabriela apareceu. Cabelo ruivo quase loiro, olhos castanhos e bochechas rosadas. As coxas grossas estavam encobertas por um camisão preto duas vezes maior do que ela. A roupa também escondia o detalhe que tornava a atração de Vinícius por Gabriela Rosa ainda mais impossível de resistir. Ela parecia levemente abatida, ainda mais pálida do que sua pele naturalmente branca. Os lábios avermelhados estavam quebradiços e opacos também. Mesmo assim, ela sorriu para ele.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou. Gabriela não respondeu, mas o abraçou com força. Imediatamente, Vinícius sentiu uma espécie de chiado tomar conta dos seus pensamentos. Um chiado diferenciado, que ele nunca tinha ouvido antes. Quando se afastou dela, a sensação desapareceu imediatamente.
— Entra. A gente conversa lá dentro.
O tom enigmático de Gabriela fez com que a mente de Vinícius viajasse de novo. Meu Deus, será que vai acontecer? Vai mesmo acontecer? Com as pernas virando gelatinas, ele acompanhou a melhor amiga e paixão secreta para o lado de dentro da casa. Não estrague as coisas. Sua amizade é mais importante do que qualquer desejo que tenha. Lembra disso. Deixa ela dar o primeiro passo.
Gabriela era gótica e wicca e isso refletia no seu quarto, que era muito diferente do restante da casa. Posters de bandas de rock antigas se misturavam com outras mais novas. Na cama, uma confusão de camisas de banda aglomeradas num canto e uma bagunça ligeiramente particular dela. Gabi gostava de dizer que era uma bagunça ambulante e Vinícius concordava. Porém era a bagunça mais bem organizada que ele conhecera, assim como naquele quarto.
Sem se preocupar, ele se sentou na cama dela. Esparramou-se, na verdade. Era o que faria naturalmente, apesar de estar sentindo algo diferente no ar. Gabriela parecia levemente agitada, andando de um lado para o outro e coçando a cabeça. Vinícius reparou que ela não havia escovado o cabelo naquele dia. Não a julgou. Era sábado de manhã ainda.
— Você tá me preocupando, cara… — Ela parou para encará-lo. Então, abriu um sorriso que deveria acalmar o coração de Vinícius, mas apenas fez com que ele batesse mais rápido. — Você matou sua família e quer ajuda para enterrar os corpos? Olha, eu não sou um irmão Cravinhos, ok? Não faço ideia de como…
— Cala a boca, por favor. Eu só tô tentando encontrar um jeito de começar. — Ela percebeu que Vinícius arregalara os olhos e colocou as mãos na cintura. — A gente não vai transar, idiota.
— Eu… Eu não… Beleza, achei que a gente fosse.
— A gente é amigo, Vini!
— Eu sei! Foi mal! É que o jeito que cê tá falando e agindo, parece que tá tentando achar a melhor forma de… Cê sabe.
— Você veio aqui só porquê achou que a gente ia transar?
— Não, besta. Mas… Olha, eu tenho que estar pronto pra tudo, ok? Agora vai ficar me julgando ou vai me falar que merda eu tô fazendo aqui?
Gabriela parou de andar e deu de ombros. Encostou-se na mesa onde ficava o seu computador, um Macbook Air que certamente custava a vida inteirinha de Vinícius. Ele, no entanto, não se mexeu. Ficou quieto, embora menos apreensivo do que antes. Certo, não seria hoje que eles iriam transar. Tudo bem. Pelo menos já tirara aquela pedra do caminho.
— Beleza. Olha, o que eu vou falar aqui é uma loucura do caralho, tá bom? Eu sei que vou parecer louca, mas você vai acabar acreditando em mim, mais cedo ou mais tarde. Eu não enlouqueci e se você fizer cara de quem acha que eu simplesmente fiquei lelé da cuca, vou socar sua boca até você cagar seus dentes.
Vinícius ergueu as mãos em sinal de defesa.
— Dito isso… — ele falou. Gabriela sorriu e adquiriu um tom mais amável.
— Dito isso, você sabe que eu gosto de ocultismo, não sabe? — Vinícius assentiu. Gabriela continuou: — Então, eu estava muito interessada nessas coisas. Só a wicca não estava saciando minha curiosidade, entende? Eu queria saber mais. Tinha que saber mais.
— Você fez um pacto com o capeta? — o menino perguntou. Era cético, mas não a ponto de fingir que aquele tipo de assunto não o assustava. Há mais coisa entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Não lembrava onde tinha lido essa frase, mas concordava com ela letra por letra.
— Não… Acho que não. Mas fiz um ritual. E eu preciso te mostrar uma coisa.
Vinícius respirou fundo. Não fazia ideia de para onde aquela conversa estava indo. Ele e Gabi já tinham falado muita asneira sobre muita coisa, mas era a primeira vez que a menina parecia realmente preocupada e assustada. De repente, ele não queria mais estar ali. Queria ir embora, deixar ela com os problemas dela. Ninguém mandou ela fazer rituais. Ninguém mandou ela procurar sarna para se coçar. Se agora tinha um demônio atrás dela, então agora ele também podia ser um alvo para aquela porra.
Mesmo assim, ele ficou. Estava curioso demais. E a curiosidade era muito maior do que o medo.
— Cadê seus pais?
— Viajaram. Preciso resolver isso antes deles voltarem.
— Gabi, isso não faz sentido nenhum. Pra que você faria um ritual? O que esperava ganhar com isso?
Gabi se sentou na cadeira e abaixou a cabeça. Aquilo parecia um pouco encenado, até mesmo para ela. Vinícius não estava gostando nada daquele assunto. Se em algum momento ele pensara que iria transar, aquele pensamento parecia muito distante e difuso. Até mesmo sua paixão pela menina agora parecia estar sendo colocado à prova. Que merda ela tinha feito?
— Eu estava ficando com um cara que conheci no MandallahFest. — Esta era a festa rave anual de Santa Fé. O “Fest” funcionava como um trocadilho amaldiçoado para o nome da cidade. Neste ponto, Vinícius cruzou os braços.
— Desde quando você gosta de ir em raves?
— Nunca gostei. Mas me chamaram e eu fui. Você sabe como eu sou, Vini. Sou a mais aleatória possível. Vai me deixar terminar? — Vinícius deu de ombros e ela respirou fundo. — Muito bem. Esse cara também era metido com ocultismo. Perguntei se ele gostava de wicca também, mas ele disse que seu lance era mais profundo. Envolvia magia de verdade. Eu devia ter ficado puta com ele. Wicca é magia de verdade. Mas não fiquei, por algum motivo. Ele era gato, mas foda-se.
— Que superficial.
— Cala a boca. Não tava querendo achar o amor da minha vida naquela festa. Na verdade, eu tava realmente achando uma merda e queria ir embora. Mas esse cara me fez ficar.
— E qual o nome dele?
Os olhos de Gabi ficaram baços de repente, como se ela estivesse acessando uma parte muito profunda da sua memória. Não conseguia se lembrar do nome do sujeito, aparentemente. Por fim, depois de ficar parada como um robô estranho encarando o vazio do quarto, ela deu de ombros. Vinícius sentiu um arrepio na espinha. Naquele instante, se tivessem a chance de lhe perguntar depois, era o momento em que ele quis pegar todas as suas coisas e sair daquela casa. Gabriela não estava nada legal.
— Era alguma coisa com “Ni.” Mas não consigo me lembrar. Qual a importância disso? Fato é que ele me mostrou algumas coisas. E era impressionante, Vinícius. Nunca vi nada como aquilo antes. Eu o vi gerar fogo com as mãos. Eu… — Novamente os olhos baços. A mão erguida de Gabriela desceu lentamente, tocando seu lábio inferior enquanto ela sorria como uma pessoa recentemente lobotomizada que se lembrou de fragmentos de uma piada. O estômago de Vinícius deu uma volta completa. — Então ele me levou pra tenda dele. Ficava afastada do pessoal.
— Quantos anos esse cara tem, Gabriela?
Ela o encarou, como se o estivesse enxergando pela primeira vez. O sorriso torto continuava no lugar de sempre. Gabriela sempre foi maravilhosa. Para Vinícius, a representação física de um anjo, pelo menos nas versões menos lovecraftianas. Era exuberante. Mas agora, parecia enfraquecida, reclusa dentro de si mesma, perdida em algum lugar que ele próprio não era capaz de alcançar.
Por algum motivo, ele começou a procurar uma saída. Olhou para a porta do quarto. A chave estava virada na horizontal. Duas voltas foram dadas, numa casa que estava vazia e que os pais estavam viajando.
— Ah, ele é bem mais velho do que a gente, Vini.
— O maluco é um pedófilo, então?
— Ah, pelo amor de Deus! Final do ano vou fazer 18 anos. Qual a diferença entre 17 e 18? Sem falar que a lei…
Vinícius balançou a cabeça. Gabriela finalmente voltou a soar como ela mesma. Aquele mesmo tom de voz quando ela não queria assumir que estava errada e tentava se convencer do contrário. Se era bem mais velho do que ela e ele, então o sujeito era um filho da puta de marca maior. Ele se levantou e foi para mais perto da porta. Se pudesse destrancá-la rapidamente… Não queria mais ficar ali dentro com Gabi, seu eterno amor.
— A lei não antevê ética e moral — disse ele, irritado. Escondeu, obviamente, o fato de algumas vezes o pensamento de que ser mais velho facilitaria sua vida com as meninas.
— Beleza! Você falou que não ia me julgar. E pra onde você tá indo?
Vinícius estacou. Gabriela franziu o cenho. Seu lábio inferior parecia estar se acumulando de saliva e os olhos… Porra, os olhos não eram os dela. Eram olhos de uma estranha que o indagava naquele momento. Um predador tentando entender se ele era uma presa fácil ou difícil.
— Eu não sei se quero ficar aqui. Não tô gostando da história, Gabi.
Gabriela pareceu voltar a si. Era ela novamente. Caiu na cadeira e cobriu o rosto. Então começou a chorar copiosamente. Vinícius não soube o que fazer naquele momento. Tinha percebido que era ela. Mas por que a menina estava vacilando tanto? Em um momento era a Gabi de sempre. Em outro, parecia uma criatura pronta para matá-lo.
— Eu preciso de ajuda, Vini. Eu não sei mais com quem contar… Meus pais não me ouvem…
Vinícius recuou alguns passos. Voltou a se sentar na cama novamente. Estava com raiva e com medo, só. Enxergando coisas que não existiam. Suas emoções estavam flutuando, imaginando o que eles tinham feito dentro daquela tenda. Só isso, nada mais.
— Ele te estuprou? — perguntou.
Gabi ergueu os olhos chorosos.
— Não sei. Ele me mostrou um livro estranho. Tinha uma textura estranha na capa e o rosto de alguém gritando. Achei que era só um livro de colecionador ou algo assim. Quando o abri… Vini, eu não me lembro de mais nada depois disso. Mas…
Ela se levantou. Agarrou a barra da camisa e a levantou. Ao mesmo tempo em que fazia isso, gritava:
— OLHA O QUE ELE FEZ COMIGO!
Vinícius sentiu a consciência escorregar das suas mãos como se fosse uma gelatina impossível de segurar. Sentiu uma vontade enorme de vomitar e não se segurou. Virou para o lado e derramou tudo o que havia comido antes em cima de uma camiseta de Gabriela.
Por baixo dos seios de Gabi, bem centralizado em seu estômago, havia um buraco negro. Não do tipo que mostrava os órgãos dela, mas uma espécie de espaço vazio como o vácuo espacial. E havia… Deus, haviam estrelas ali dentro. Olhar para aquilo era como contemplar o espaço sideral através do olho de um telescópio avançado. E o chiado que escutara quando tocou Gabriela vinha dali. A coisa parecia falar com ele em sussurros inaudíveis. Não era um chiado, mas uma voz. Uma voz irreconhecível que brotava daquilo, fosse o que fosse.
— Olha! — ela gritou. E seus olhos derramavam lágrimas em abundância, como se uma torneira tivesse se aberto atrás de cada órbita. Gabi emitia um grito gutural e Vini a acompanhava. Não queria olhar, mas a coisa atraía sua atenção.
Precisava fugir dali de alguma maneira. Correu para a porta, mas algo o fez tropeçar. Olhou para trás, para o abismo, e viu que um tentáculo enorme o segurava pelo tornozelo. Vinícius gritou em desespero, as cordas vocais quase se rompendo enquanto ele tentava alcançar sua escapatória. Sentiu os ossos do pé serem triturados com o aperto e a pele se rasgar com a sucção das ventosas do tentáculo. E Gabi gritava algo que só depois ele entenderia.
— ME AJUDA! ME AJUDA, VINI! ME AJUDA A ALIMENTÁ-LO! ME AJUDA!
E ela começou a rir. Seus olhos sangravam e ela ria. O sangue encharcava sua camisa e Vinícius gritava. Tentou novamente se arrastar, sem acreditar no que estava acontecendo. Sem acreditar que morreria daquela forma. Sua mente vacilava, tentando encontrar algum tipo de conexão com a realidade. O cheiro no quarto estava insuportável. O abismo no estômago de Gabriela trazia um odor pungente junto com o tentáculo, que sequer parecia de um polvo. Não, a textura dele era diferente. Lembrava pele humana, distorcida e queimada em alguns pontos. As ventosas eram rostos humanos que gritavam e mordiam o ar. E alguns rostos ele reconhecia.
Os pais de Gabriela e Pedro eram três deles. E a coisa o puxava. As ventosas mordiam. Gabriela ria e abria os braços, falando mais alguma coisa.
Vinícius pegou um tênis que estava embaixo da cama. Reconheceu-o imediatamente. Antes de chamá-lo, Gabriela havia convidado Pedro para também estar ali. E o amigo acabara tendo o mesmo fim que ele em breve teria.
— Gabriela, por favor! Não!
— SIM, VINI! SIM! SAÚDE O MENSAGEIRO! SAÚDE NYARLATOTHEP! SAÚDE HITLER! SAÚDE ÁTILA! SAÚDE A GUERRA! SAÚDE JESUS E DIGA AMÉM! POIS ELE TRAZ BOAS NOVAS, VINI, E VOCÊ SERÁ O PRIMEIRO A OUVI-LO. OUÇA O QUE ELE TEM A DIZER! OUÇA!
O tentáculo subiu para a coxa de Vinícius até tocar seu saco escrotal. Ali, a boca do pai de Gabriela, um bom homem e que sempre tratara o menino bem, mordeu-o até que o líquido e os testículos vazassem para sua boca-ventosa.
— PEDRO FOI MENOS RETICENTE! PEDRO ENTROU PORQUE QUIS! PEDRO FAZ PARTE DO MENSAGEIRO! VENHA SE JUNTAR AO MENSAGEIRO!
Vinícius tentou mais um pouco, mas a dor e o sangramento já o faziam vacilar. Novas mordidas e aquele som de sucção desgraçado. Será que ninguém estava ouvindo o que estava acontecendo? Será possível? Achava que não. Se aquela coisa era capaz de tal feito extraordinário, então conseguiria moldar o próprio som ao redor da casa.
Não tenho com o que me preocupar, Gabi. Não estamos atrapalhando os vizinhos.
Ele soltou a perna da cama que segurava com tanto afinco. Foi puxado, sentindo o coração já parar de bater. Foi erguido como se fosse feito de trapos. Seu corpo triturado passou pelo buraco negro e penetrou o abismo no estômago de Gabriela como se tivesse o tamanho perfeito para caber ali.
Então não sentiu mais nada. Não viu mais nada, exceto uma pequena janela redonda que dava para o quarto de Gabriela. Logo aquilo também desapareceu, quando ela cobriu o buraco com seu camisão.
A coisa o devorava com avidez. Logo estaria faminta de novo. Logo outro seria convidado…
Esteja pronto para tudo, Pedrão. Até mesmo para ser engolido vivo por alguma coisa.
Este foi seu último pensamento. A coisa o devorava com avidez. Logo estaria faminta de novo. Logo outro seria convidado…
— Ugluk!
Foi a última coisa que ouviu.