Orfãos
— Eu sempre fui a outra garota.
Era uma tarde chuvosa de segunda-feira, a meteorologia marcava tempestades até o fim da semana e todos já se preparavam para tirar do armário os moletons, algo estranho para o início do verão. Kaelis olhava a cada segundo no relógio, estava sendo obrigada pelo orfanato a ter sessões com uma psicóloga. Ela havia adiado enquanto pôde e, depois de vários encontros sem nada dizer, recebeu um ultimato: ou falava ou seria expulsa.
A garota não sabia se eles podiam mesmo expulsá-la, mas ela já aprendera a não duvidar da própria sorte.
— A outra garota, aquela que ninguém sabe o nome. A que nunca recebe um segundo olhar, que nunca é convidada para se sentar com os demais nas rodas de conversa... a que ninguém sequer lembra que ainda está lá. A que sobrou depois que todas as outras se foram.
— Te incomoda que as pessoas não te vêm, que não saibam seu nome, Kaelis? — A psicóloga não era feia. Tinha lá seus quarenta anos, mas ainda apresentava um ar jovial. Usava roupas da moda e maquiagem. Por vezes demais Kaelis se pegava pensando por que ela perdia seu tempo com dramas de adolescentes órfãos.
— Por um tempo sim... agora não sei mais.
— Onde estão suas amigas?
— Não te contaram, doutora? — A garota usava seu tom áspero, baixo e frio, como o que usava com todos os que a irritavam. — Devem estar aproveitando os quartos cor de rosa e as casas bonitas. Nova família... novos amigos — a última parte saiu como um sussurro.
— Foram adotadas.
Kaelis não respondeu.
— Você tem inveja das crianças que são adotadas?
Kaelis sentiu a familiar dor no peito, a pontada que vem sempre que ela pensa sobre o assunto. Aquele calor esquisito, as mãos frias.
— Quantas pessoas maiores de dezesseis que você conheça foram adotadas, doutora? — Kaelis deu um sorriso triste. — Não tenho inveja delas, tenho raiva de não ser uma delas. Eu acreditava que todos tinham direito à um lar, hoje eu sei que não é verdade. Eu nunca tive.
— Sabe por que ainda está no Floripa?
— Ninguém adota a outra garota — O tom caiu uma oitava, ficando mais grave e ainda mais frio do que o anterior. Chegou a assustar a Dra. Vânia. Ela lidava com personalidades e traumas de abandono distintos o tempo todo, mas nunca lidou com tamanha distância.
— Está depressiva, Kaelis.
Kaelis soltou um sorriso de desdém.
— O que eles querem, Vânia? — O jeito que ela falou seu nome fez a doutora trocar de pernas, desconfortável. — Eles querem saber o que se passa na minha mente? — Kaelis pressionou o dedo indicador na própria cabeça, com força demais para ser um gesto simples. — POR QUE NAO ME PERGUNTAM? — gritou.
Vânia deu um pulo na cadeira com o susto, não esperava esse comportamento nem de seus mais rebeldes pacientes.
Kaelis, por sua vez, levantou-se do sofá de couro almofadado e parou à janela. Seus olhos azuis cobalto acompanhavam as gotas apostando corrida no vidro.
— Eles nunca me perguntam nada. Não me perguntam se quero comer, não me perguntam se estou com frio. Faz frio no meu quarto Vânia, mas eles não sabem... porque nunca me perguntaram isso — A voz agora soava rouca, baixa e triste... como se ela tivesse gastado tudo de si na explosão de segundos atrás.
A psicóloga acompanhava o relato da menina totalmente em transe.
— Eles te falaram porque me mandaram aqui? Por que insistiram tanto para eu te encontrar? Ando tendo pesadelos, doutora. Estou em uma floresta, neblina densa a minha volta, vento e muito, muito frio. Olho para o céu e vejo várias estrelas, entre elas vejo Saturno. Eu sinto como se pudesse tocá-lo. Já sentiu a liberdade que é poder tocar num planeta? Eu também não sei, sempre acordo gritando e chorando quando o vejo. Eles me mandaram aqui porque acham que sou doida. Sou doida só por ter um sonho, doutora? Só porque ele se repete, e repete, e repete…?
Vânia não sabia o que dizer. Sua mente se concentrava na voz de Kaelis, mas era como se não conseguisse formar suas próprias palavras.
— Tudo bem se não responder — Kaelis voltou os olhos para a doutora, que respirava pesadamente — eles também não me respondem.
Dito isso a garota se afundou no sofá de couro e só se ouvia o tique taque do relógio durante todo o restante da sessão.
***
Enquanto voltava para o quarto, Kaelis refletia sobre a sua conversa com Vânia. Ela não entendia porque as pessoas não falavam o que queriam, tudo seria muito mais simples. Estava a um dia de fazer dezoito anos, por isso finalmente se entregou às sessões. No dia seguinte, poderiam tirá-la dali se quisessem. Já havia perdido as esperanças de ser adotada.
O pátio estava cheio de gente, mesmo com o tempo chuvoso. Ela estava a poucos passos da entrada dos dormitórios, com a intenção de passar o dia pensando se realmente valia a pena as consultas, se já não estava na hora de se aventurar fora do Floripa, quando ouviu:
— Esqueceu as garras no quarto, louca? — Kaelis conhecia bem aquela voz e o que ela a fazia sentir: Ódio.
— Não enche, Mabel — disse e continuou seu caminho sem olhar para trás.
Mas, antes que se desse conta, sentiu um puxão no seu cabelo e foi ao chão.
— Olhe para mim quando eu falar com você, órfã.
— Você também é órfã, esqueceu? — Kaelis perguntou enquanto se levantava e encarava a outra.
Mabel era uma garota grande e forte. Todas as pessoas que a olhavam uma só vez a confundiam com um garoto, e ela fazia questão de que fosse assim. "As pessoas não têm medo de menininhas magrelas" era o que ela dizia. Mas, francamente, só por ser Mabel ela poderia ser uma nerd miúda que todos tremeriam ao vê-la.
— Não sou mais — ela disse com um sorriso viperino.
— Você foi adotada? — Kaelis odiou ter deixado transparecer seu susto e sua esperança no segundo seguinte em que fechou a boca.
Mas se ela, também aos 17, foi adotada…, ainda haveria esperanças para Kaelis.
— Um casal de idosos, loucos por uma filha em idade universitária para cursar fisioterapia e ajudá-los na velhice — ela narrou. — Perfeito pra mim!
Kaelis tentou com muito afinco não deixar transparecer a inveja que sentiu, mas conseguia muito facilmente se imaginar com um diploma, cuidando de dois velhos e da própria vida, sem sessões psicológicas. Falhou em esconder.
O sorriso de contentamento de Mabel foi asqueroso, o que fez Kaelis acordar de seu transe.
— Aproveita e some! — Foi a resposta da menina, que saiu empurrando a maior.
Kaelis e Mabel eram as garotas mais velhas do orfanato Floripa, com Mabel fora, só sobrara ela em idade avançada... ficava muito difícil imaginar que poderia ser escolhida frente a tantas outras crianças.
Ela se sentiu mal por pensar assim, se sentiu mal por desejar ser escolhida no lugar de crianças de três ou quatro anos. Mas ela fora deixada ali com apenas dias de idade... ela passou todos os dezessete aniversários ali, e ninguém se sentiu mal por ela.
Ainda pisava firme quando sentiu o puxão no cabelo novamente, quando caiu de novo.
Dessa vez não estava esperando e a cabeça bateu com tudo no chão.
Com a audição abafada pela queda, conseguiu discernir apenas as gargalhadas altas de todos, com a de Mabel em destaque. Ela não aguentava mais aquilo, não aguentava mais nenhum deles.
Antes que desse conta, se levantou numa velocidade desumana. Empurrou Mabel com uma força desumana. A garota bateu com tudo na parede que delimitada o prédio dos quartos, um baque alto demais se seguiu de um crack muito estranho.
Mabel não se moveu.
Todos encaravam Kaelis, que olhava confusa para as mãos. Não tinha como ela ter feito aquilo, mesmo com todo o ódio que banhava o seu corpo. Era impossível.
De todos os momentos imagináveis, a diretora escolheu aquele para surgir à porta, com Vânia em seu encalço.
— Ela matou a Mabel! — Kaelis escutou alguém dizer, mas não identificou o dono da voz.
— Mabel não está mesmo morta, está? — Outra pessoa perguntou.
Kaelis ergueu os olhos, encarando Vânia imediatamente, que já a olhava. Vânia correu com os saltos altos, o tack tack dos sapatos aumentando cada vez mais a ansiedade da menina.
Se permitiu olhar para Mabel, que encarava o nada com olhos arregalados, uma poça vermelha saindo de trás da cabeça. Kaelis fechou os olhos, não precisava de Vânia para saber o que fizera.
— Ela… está…
— Morta — ouviu a voz dura da diretora.
Abriu os olhos e a encarou. Os cabelos grisalhos presos em um coque perfeito, o vestido tubinho preto perfeitamente alinhado. Roberta não daria mais chances a ela, ela pôde sentir isso antes mesmo da mulher dizer, olhando nos olhos dela:
— Faça as malas, Kaelis. A partir de amanhã, você não será mais bem-vinda aqui.
— Não… Roberta, eu não… — Ela ia negar, mas sabia muito bem o que tinha feito. Só não sabia como. — Olhe para isso, como eu fiz isso?
Ela não apontou para o corpo sem vida de Mabel, mas para o buraco gigante na parede.
Um fiozinho bem lá no fundo dela ardeu com a esperança de ser adotada pelos velhinhos no lugar da Mabel, mas essa esperança foi esmagada quando Roberta completou:
— Você conseguiu o que queria, finalmente. Está expulsa do Floripa. Boa sorte.
Aos poucos o pátio foi se esvaziando e sobrou apenas a garota ali, acompanhada pela chuva que voltara com força total. Ainda alheia ao fato de que não teria para onde ir, somente um a coisa tomava os seus pensamentos:
Como eu fiz aquilo?