A feiticeira
O amanhecer verediano surgia mais uma vez sob o céu das terras de Veradan. Verediano em sua essência, pois o verdadeiro amanhecer era eterno e constante. Mesmo quando a noite cobria o mundo com seu manto escuro, Aurora os guardava a cada instante.
O farfalhar das folhas das árvores e dos arbustos de Daren anunciava a chegada de um vento suave e aconchegante. A brisa percorria a vegetação, acariciava os galhos e seguia seu caminho, como um lembrete silencioso do cuidado e da proteção daqueles que zelavam por aquele mundo. Um lembrete constante, como uma carta enviada aos habitantes de Veradan, cujas palavras, embora invisíveis, pareciam ecoar por toda parte:
Há Guardiões.
No interior de uma modesta residência, o som das páginas sendo manuseadas misturava-se ao chiado agudo e abafado da chaleira. O chá estava quase pronto.
Aira, porém, mal parecia perceber.
Seus olhos castanho-claros percorriam cada linha dos escritos diante dela. Havia algo naquela obra que a mantinha presa a suas páginas, algo que nem mesmo as longas horas de estudo haviam sido capazes de desvendar. Desde que encontrara aquele livro durante uma de suas viagens, dedicara boa parte de seu tempo à tarefa de traduzi-lo.
Sem sucesso.
O idioma não se assemelhava a nenhuma língua que conhecesse. Seus símbolos pareciam seguir uma lógica própria, alheia a tudo aquilo que aprendera ao longo de sua vida. Por vezes, tinha a impressão de que compreendera uma palavra apenas para, na linha seguinte, perceber que todo o seu raciocínio havia desmoronado.
Nem mesmo seus feitiços de tradução, geralmente confiáveis, produziam resultados satisfatórios. A magia alcançava as páginas, percorria os escritos e, ainda assim, retornava quase sem respostas.
Aira começava a suspeitar de que aquela escrita pertencia a uma raça não física, originária de um plano distinto daquele em que vivia.
Mas o que um registro de tal natureza fazia em Veradan?
Como chegara àquele mundo?
E há quanto tempo permanecia ali, oculto, à espera de alguém que pudesse encontrá-lo?
As perguntas se acumulavam em sua mente, cada uma abrindo espaço para outras tantas. Ainda assim, algo a impedia de abandonar a investigação. Não era apenas a curiosidade de uma estudiosa diante de um mistério. Havia uma sensação difícil de explicar, como se aquelas palavras, mesmo incompreensíveis, encontrassem algum caminho até o âmago de seu ser.
Um leve movimento de sua mão fez a página seguinte se revelar.
Ali, entre os escritos desconhecidos, havia um desenho.
Cinco caminhos partiam de direções distintas, aproximavam-se e se uniam, formando um só.
Aira inclinou ligeiramente a cabeça. Seus olhos acompanharam cada traço, seguindo as linhas desde suas origens até o ponto em que todas se encontravam.
— Caminhos — murmurou.
A palavra escapou de seus lábios quase sem que percebesse.
Passou os dedos suavemente sobre o desenho, primeiro por um dos traços, depois pelos demais. Por um instante, permaneceu imóvel, tentando compreender o que aquela representação pretendia transmitir. Não parecia uma simples ilustração, tampouco um ornamento colocado ao acaso entre os escritos.
Havia intenção naqueles traços.
Mas qual?
Antes que pudesse se aprofundar na questão, três batidas leves ecoaram à porta.
Toc. Toc. Toc.
O som atravessou o silêncio da residência e alcançou Aira com uma intensidade inesperada. Seus dedos pararam sobre a página, e sua atenção, até então inteiramente voltada ao livro, rompeu-se de súbito. Foi como emergir à superfície depois de permanecer tempo demais submersa, recuperando pouco a pouco a consciência do mundo ao redor.
A chaleira ainda chiava.
O chá estava pronto.
— Senhorita Aira? — chamou uma voz do outro lado da porta. — Mais uma carta chegou!
Ela piscou algumas vezes, como se precisasse se recordar de onde estava. Olhou para a chaleira, para as paredes de pedra, para o chão e para o teto sustentado por vigas de madeira. Sobre a mesa, o livro permanecia aberto ao lado de um bolo que preparara havia pouco tempo.
O contraste entre a simplicidade daquele ambiente e a complexidade dos pensamentos que ocupavam sua mente arrancou-lhe um suspiro discreto.
Aira se levantou, ajeitou os cabelos castanhos e caminhou até a porta. Ao abri-la, deixou que a luz da manhã invadisse a residência.
Do lado de fora estava Valmir.
De pele clara, cabelos ruivos e vestes de linho fino, o rapaz exibia um sorriso descontraído que combinava com sua postura confiante. Havia nele uma leveza que parecia acompanhá-lo por onde quer que fosse.
— Olá, Valmir. Bom dia!
— Bom dia, senhorita Aira! — respondeu ele, inclinando ligeiramente a cabeça. — Dia bonito hoje, não acha? Embora eu precise admitir que há algo ainda mais bonito bem diante de mim.
Aira soltou uma risada curta, desviando o olhar por um instante.
— Não precisa exagerar, bobo.
— Eu? Exagerar? Jamais! — Ele levou uma das mãos ao peito, fingindo indignação. — Não tenho culpa se a verdade é tão agradável.
— Sei bem disso — respondeu ela, ainda sorrindo.
Valmir estendeu a carta, e Aira a recebeu. Seus dedos se tocaram por um breve instante. Foi um contato simples, quase acidental, mas nenhum dos dois pareceu apressar o movimento seguinte.
Seus olhares se encontraram.
Por alguns segundos, o sorriso dele pareceu menos brincalhão, e Aira sentiu-se estranhamente consciente daquela proximidade. Foi ela quem rompeu o momento, afastando-se um par de passos e segurando a carta junto ao corpo.
— Aceita um chá? — perguntou, procurando retomar a naturalidade.
— Eu adoraria. Mas preciso entregar mais algumas coisas que chegaram nas carroças de hoje. Podemos nos ver mais tarde?
— Podemos, sim.
Ela confirmou lentamente com a cabeça.
— Até logo, senhorita Aira.
— Até logo, Valmir.
O rapaz se despediu com um aceno e seguiu em direção à próxima casa. Seus passos eram saltitantes, sua feição, alegre, e sua postura, confiante. Caminhava como alguém que acabara de vencer um duelo valendo uma boa quantia de Viridians.
Aira acompanhou-o por alguns instantes antes de soltar uma gargalhada. Balançou a cabeça, divertindo-se com o comportamento dele, e deixou escapar um suspiro tranquilo.
Então fechou a porta.
O silêncio voltou a preencher a residência, embora agora parecesse menos profundo. Aira retornou à mesa, pegou a chaleira e uma xícara e serviu-se de um pouco de chá. Sentou-se e levou a bebida aos lábios.
— Huuum... É bom mesmo! — comentou após o primeiro gole.
Tomou mais alguns goles antes de pousar a xícara sobre a mesa.
Foi então que voltou sua atenção à carta.
O envelope trazia um selo de envio de Lumera, esverdeado, com a borda mais clara e o centro mais escuro, onde se destacava um símbolo semelhante a um pinheiro. Aira reconheceu a marca e, com cuidado, removeu o selo.
Desdobrou o papel. Seus olhos percorreram as primeiras linhas.
"Querida Aira, ó grande feiticeira.
Eu me chamo Cecília e envio esta carta do vilarejo de Muram, terra vizinha à sua terra natal, Damen. Clamo a ti por socorro! Enfrentamos, há duas semanas, criaturas das trevas. Desconheço a origem desses seres. Meu povo está assustado, e eu também estou. Só temos dois usuários de magia habilidosos em todo o vilarejo: eu e um amigo chamado Eric.
Temos lidado bem com as criaturas, mas elas continuam aparecendo, aparecendo e aparecendo. Estamos nos cansando e, para ser sincera, não sei quanto tempo mais iremos aguentar. Se falharmos, essas criaturas destruirão nosso povo.
Escrevo a você e me certificarei de que esta carta chegue até suas mãos antes que o céu que nos guarda volte a escurecer. Pois, quando a noite alcançar novamente o nosso olhar, temo que não tenhamos mais forças para lutar.
Que o amanhecer nos proteja."
Aira terminou a leitura, mas seus olhos permaneceram fixos nas últimas palavras.
Por alguns instantes, não se moveu. Então, um arrepio percorreu-lhe a espinha. Seus dedos apertaram delicadamente o papel, e suas mãos começaram a tremer. O rosto perdeu a cor, enquanto seus olhos se arregalavam diante de uma inquietação que não conseguia explicar.
A carta ainda estava entre suas mãos quando um ruído suave chamou sua atenção.
As páginas do livro começaram a se mover.
Primeiro, uma folha se ergueu lentamente, como se uma corrente de ar tivesse passado por baixo dela. Depois, outra. E mais outra.
Mas as janelas estavam fechadas.
Aira pousou a carta sobre a mesa e voltou-se para o livro.
As páginas se folheavam sozinhas, avançando e recuando sem obedecer a qualquer movimento do ar. Para olhos comuns, aquilo talvez parecesse apenas um fenômeno inexplicável. Para Aira, porém, havia algo mais.
Ela conhecia aquela sensação. Era sua essência. Sua magia estava reagindo a alguma coisa.
Aira se aproximou da mesa. Havia um propósito, uma insistência silenciosa em conduzir sua atenção para algo que ainda lhe escapava.
As páginas continuaram a virar. Então, de repente, pararam.
Aira conteve a respiração.
À sua frente, havia uma ilustração que não se parecia com nenhuma das outras que encontrara durante suas investigações. Uma figura inteiramente escura ocupava a página, sua forma destacando-se contra o fundo como se a própria luz tivesse sido incapaz de alcançá-la.
Ao lado da imagem, estavam os mesmos símbolos que, durante tantas horas, haviam resistido a todos os seus esforços de tradução.
Aira se inclinou sobre o livro.
Dessa vez, porém, não precisou recorrer a nenhum feitiço. Não precisou examinar os traços, comparar símbolos ou reconstruir o sentido das palavras.
Os caracteres, antes estranhos e indecifráveis, adquiriram significado em sua mente. Como se algo dentro dela finalmente reconhecesse aquilo que estivera procurando desde o primeiro contato com o livro.
Seus lábios se entreabriram. Na página, onde antes havia um título desconhecido, agora existiam palavras perfeitamente compreensíveis.
Aira leu em silêncio.
E, à medida que o sentido da frase se revelava, sentiu o frio percorrer-lhe o corpo mais uma vez.
"A grande escuridão retornará."