Capítulo 1
Nossa, então é assim?
Então eu não morri? Minha consciência continua fi rme! Mas espere ... “minha consciência”? Minha de quem? Eu não tenho mais o corpo de antes. Estou vendo-o aqui na minha frente! Estranho, não tenho olhos, eles estão aqui na minha frente. Mas ainda
estou consciente, pensando. O que aconteceu? Aparentemente euainda estou vivo, mas fora do meu corpo original? E agora estou
aqui, olhando para o depois, para o resultado de algo.
O que sou eu agora? Eu sou a consciência, mas a alma e o corpo não estão mais aqui. Dos três pilares, sobrou somente .... eu? Éramos individuais, sempre fomos, apesar de estarmos “caminhando juntos”?
Rapaz ...
Pensando agora, eu ainda mantenho esses maneirismos de quando eu era vivo. Que loucura.
Então eu continuo sendo quem eu era antes, mas agora separado? Cara, são tantas perguntas, e não tenho ideia de quem tem essas respostas. Só sei que ainda estou aqui, e agora procuro me agarrar a algo, procuro mover algum membro para ... me sentir vivo novamente?
Isso está saindo do controle, é melhor eu me acalmar, ou seja lá como se chama a “calma” da consciência. Vou acalmar os pensamentos por um tempo e tentar entender onde estou. O que sou e o que fazer a partir de agora.
O que sei é que não tenho um coração batendo. Tenho consciência disso. Hahah, tenho consciência!
Tento perceber algo sobre ter um corpo, mas não vem nada. Aparentemente eu sou um balão de pensamentos voando por aí. Mas não deve ser só isso. Realizo que eu estou vendo, que eu estou captando imagens e transformando em informação, e mantendo no meu “balão”.
Vou chamar esse balão, essa casa, de cérebro. Só por comodidade. Então eu sou um cérebro flutuando por aí. Ou preso em algum lugar, por aí. A criatividade está na consciência, e ela vem me enchendo de ideias a pouco tempo. É um mecanismo que está me ajudando a me manter firme. É legal isso. Gostei.
Acho que eu sou fã de cinema e pareço ter vivido nos anos 80. Minha cabeça está cheia de ideias legais. Já realizei que agora eu posso ser o Darth Vader ou Robocop. Já afastei também algumas ideias de vilões horrorosos, todos deformados daquela época. Maldita criatividade. Foco. Estou vendo, como antes, e olho para um lado e para outro.
Logo, tenho globos oculares, eu acho. Reais ou não, eu tenho. Como e quando consegui é para depois. Consigo controla-los, então eles são físicos. Minha mente está em algum lugar físico, como um recipiente, e esses olhos estão conectados. Vou me basear no Robocop por enquanto e seguir essa linha de raciocínio. Olho para baixo e para cima, mas não vejo nada. Devo ser um robô incompleto ainda.
Como não me sinto cansado, vou aguardar até aparecer alguma cientista de jaleco vir comemorar o ano novo comigo. Será que vou ganhar um beijo? Mil coisas passam pela minha cabeça enquanto espero. Tento não olhar para meu antigo corpo parado ali numa mesa de metal. Porque colocaram bem na minha frente? Que lugar é esse e porque eu? Não me lembro de ter autorizado algo assim. Salvaram minha consciência, mas contra minha vontade? Agradeço ou fi co puto com esse pessoal? Vamos ouvi-los primeiro. Eu acho. Se me derem ouvidos (literalmente ou não).
Quanto tempo passou desde que acordei? Sei que a mente humana processa coisa demais em questão de segundos, mas eu gostaria de ter uma informação mais precisa. Só por curiosidade mesmo. Bom, está tudo parado desde então, mas logo saberei, quando alguém aparecer. Olha lá, uma porta se abrindo. Vieram tantas pessoas à sala, que imagino ser um acontecimento grande, o meu “despertar”. Todos entraram tão surpresos (e outras emoções que eu ainda não consegui ler) e incrédulos que chega a ser engraçado. Mas agora todos me olham com uma surpresa absurda. Acompanho os olhos do pessoal, que vão
de mim para as várias telas no entorno, e de volta a mim. Parece um fi lme que foi acelerado, mas não é. Eu estaria gargalhando, se tivesse um rosto para isso. Ou será que tenho?
Uma outra certeza é que não instalaram meus novos ouvidos. O pessoal, aos poucos, ia se acalmando, e trabalhando próximo a mim. De vez em quando eu mudava a direção dos olhos, e observava o pessoal olhar espantado, sorrir, e até chorar. Mesmo. Vi uma mulher se emocionar com isso. Devo ser uma boa notícia para esse pessoal.
Agora não sei mais com quem fi car bravo.
Como não tenho muito que fazer a não ser esperar, vou prestar mais atenção em como faço para mover os olhos. Eu simplesmente quero virar para a esquerda e eles se movem para lá até o limite físico. Penso em olhar para a direita, até a metade do caminho, para voltar a olhar diretamente para frente. E assim a imagem fi ca centrada ali. Eu penso em sorrir, mas percebo que nada acontece, feijoada. Piada interna, legal, mas sem graça! Certos hábitos não se perdem. Calcular o tempo é útil as vezes, mas também perigoso. A ciência não costuma correr, então o tempo parece passar mais devagar quando nada de interessante acontece, então eu acabo ficando entediado.
Agora a sala fica lotada de gente o tempo todo, então sempre tem alguma coisa acontecendo, nem que seja uma briga ou atos de gentileza com os colegas. Gostaria que me dessem ouvidos e boca também, se possível. Gosto
de acreditar que é nisso que estão trabalhando no momento. Seria melhor para todos nós!
Depois de um tempo que eu não mensurei, o pessoal começou a trabalhar em alguma coisa dos dois lados dos meus olhos. Acho que vou ganhar orelhas em breve. Enquanto alguns mexiam na parte estrutural, outros tentavam se comunicar comigo. Esse segundo grupo me mostrou uma placa com o sim escrito de um lado e o não de outro.
Tudo tranquilo até aí.
Levantaram outra placa com o texto “você entende isso?” e eu virei os olhos para o sim. Mais uma explosão de alegria e todos festejaram. Festa na cara de um robô. Estamos muito próximos do Robocop aqui, pessoal! Se não me derem aquela armadura cromada, vou pedir.
Mais um tempo se passou, muitas brigas e discussões também, mas por fim ligaram meus novos ouvidos. Ficaram todos apreensivos esperando tudo de encaixar, e eu me mover novamente. Mas calma, eu preciso me acostumar e prestar atenção. O som veio de uma vez, mas não me incomodou, afinal, não tenho como me incomodar fisicamente falando. Não tomei um susto e pulei da cadeira. O som veio naturalmente, e me acostumei fácil. Para mim, A Consciência, é como se eu estivesse voltando de um desmaio, mas com uma coisa de cada vez.
Fizeram testes nas telas e algumas pessoas começaram a estalar os dedos próximos a mim, a fim de ter uma resposta se estava tudo bem. Olhei para o lado de vinha o som, e depois o outro. Passaram para a plaquinha do sim e não. Mas agora conversavam comigo. As coisas estão evoluindo! Esse evento deu um gás no ânimo do pessoal de forma assombrosa! Todos retiraram o pó dos jalecos e da alma e logo eu estaria ganhando voz. Não calculo quando, mas imagino que logo estarei andando por aí. Agora que eles sabem que eu escuto, de vez em quando eles desligam meu aparelho auditivo. Não fisicamente, mas através de comandos por computador. Não vou reclamar por enquanto, acho melhor ficar sem saber certas coisas. Não sei o quanto esse pessoal tem controle sobre mim, e imagino que tudo o que eu penso e faço seja registrado. Não me importo tanto, e mesmo que importe, não posso fazer nada. Então vamos apenas dançar conforme a música. Se tudo está sendo gravado, Ok, mas se não estiver, eu ficaria mais tranquilo. Incrível como a consciência preserva muitas características nossas, mesmo depois da morte. Isso me leva a questionar se eu realmente morri, ou fui resgatado antes disso. Mais uma pergunta para a lista. Se estão lendo isso, doutores
e doutoras, já vão pensando nas respostas!
Uma coisa bacana que fizeram por mim, depois de uma longa conversa de sim ou não, foi me conseguirem música! Sim, música! Que a pessoa que teve essa ideia seja bem afortunada no futuro, e bem paga no presente! Ainda não posso falar, mas gostaria de agradecer o pessoal pela ajuda.
Depois de um bom tempo, foi a vez de instalarem um alto-falante em mim. Me avisaram que tudo ainda era experimental, mas que, com o tempo, iria melhorar. Tanto a visão, quanto a audição e agora a fala. Confi guraram várias preferencias minhas nesse quesito, mas uma coisa eu deixei bem claro: quero a voz do Morgan Freeman!
Quando eu mesmo puder me confi gurar eu mudo umas coisas, mas agora é assim que será! Pensei em pedir a voz do HAL9000, mas ia gerar um climão na sala. Esse vilão não seria bem vindo aqui. Finalizada a instalação e confi guração, era a hora do primeiro teste. Ligaram novamente os ouvidos e conversaram comigo sobre os procedimentos. Ligaram câmeras e iniciaram o registro.
“Está gostando das músicas que colocamos para você?” Sim, pensei. Mas a voz não saiu no alto-falante. Olhei em volta, e
pensei novamente no sim. Eu já havia aprendido a movimentar os olhos como os humanos fazem, olhar diretamente para algo e o olho mirar ali. Olhei diretamente para a pessoa que havia feito a pergunta, e tentei novamente. O primeiro teste havia falhado, mas tudo bem.
Vamos para a segunda tentativa. Fizemos tudo novamente, e assim que a cientista me fez a pergunta, eu pensei no sim, e Morgan Freeman disse:
“Sim, eu estou gostando das músicas, obrigado.”
“Mais uma bela comemoração ... ei. O que está acontecendo? E foi quando um dos cient...” istas desligou o alto-falante conectado a mim. Eu percebi na hora, mas eles demoraram um pouco. Ainda era um teste apenas, mas eles .... ou seria eu, o causador disso? Eu não consigo separar pensamento de fala. Eu estou sempre “falando” comigo mesmo, em forma de pensamento, mas agora é diferente, agora está sendo externado. Precisamos rever isso, pessoal!
Parece que eles entenderam o que aconteceu bem rápido, e estão trabalhando a um bom tempo nisso, e, às vezes, eles falam comigo para obter informações que os ajudem. Me parece que isso vai demorar. Gostaria de me comunicar com o pessoal de alguma forma, não esperar que eles se comuniquem comigo. São tantas perguntas, mas não tem como eu formular. Às vezes eu movo os olhos rapidamente e isso funciona, as vezes não. Na maioria, eles entendem como defeito na máquina e desligam. De vez em quando acontece algum teste, e eu falo sobre isso.
“Estamos buscando isso, mas vai demorar”, respondem.
Frustrante, até para mim, A Consciência. O jeito é esperar.