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Diário Mental N · Capítulo 3 — Rodrigo M Rodovalho

Por Rodrigo M Rodovalho

Capítulo 3

O momento do próximo teste se aproxima. Observo atentamente cada rosto, cada braço que se aproxima de mim, cada pessoa envolvida no projeto, procurando pistas. Mas não vai ser necessário, eles me avisam que vai começar agora, e a mesma indicação de sempre: tente focar seus pensamentos no mais simples, nas respostar rápidas e em mais nada. Mas eu sou A Consciência, não existe outra forma de eu ser eu. Se eu puder fi ltrar o que sai no alto-falante, aí sim teremos sucesso. Vamos ver se vai dar certo. Eles me explicam que eu agora moro em um cérebro real, físico e funcional como o cérebro de qualquer um ali. Eles programaram meu cérebro para atender quando eu “pensar” em uma palavra chave pré-estabelecida, e mutar o alto-falante nesse momento. E só religar quando eu “pensar”na palavra chave. Um exercício e tanto para mim. Me disseram que teria que ser uma palavra que não existe no nosso idioma, e me mostraram a palavra “cod”.

Calibraram essa dinâmica, como me foi explicado, e estavam prontos para o teste. Ligaram câmeras e tudo o mais, e dessa vez funcionou melhor do que nunca. Eu tinha um certo senso de humor e adorava cinema. Logo, isso veio comigo pra esse lugar, então, chegou a hora de falar, e me desculpem todos, mas:

-Você pode falar alguma coisa?

“cod” “Me desculpe Dave, mas eu não posso fazer isso!” “cod”.

Existe um atraso pequenino, para o computador central ter certeza que a palavra “cod” terminou, e que era o tal comando necessário. Mas nada se compara ao atraso da resposta dos cientistas ali na sala. Me desculpem pessoal, eu não resisti.

Por um momento, eles estão tentando entender o que eu disse. Alguns logo pegaram a referência e estão tentando entender se isso é o um bom sinal ou não. Afi nal, essa frase é o marco da crise do filme 2001. É partir dali que as coisas saem do controle, melhor brincar com outra coisa. Outros, que não pegaram a referência, estão perdidos, não sabem se comemoram ou não. Estou rindo por dentro. Mas também estou um pouco arrependido.

“cod” “É uma brincadeira pessoal, me desculpem. Não devia ter começado assim. Podem tirar minha voz de Morgan Freeman, se

quiserem” “cod”.

Agora alguns estão rindo, alguns ainda estão perdidos, outros parecem furiosos. O que foi que eu fiz? Vou dar um tempo até o pessoal se acalmar.

Que dia movimentado está sendo hoje. Depois dos testes dessa manhã, e da minha falta de tato momentânea, nos alinhamos e estamos tendo um dia produtivo! Falo bastante, agora que posso fazer isso. Eles me deixam falar, isso é conhecimento, isso é evolução da ciência. E esse time todo está fazendo parte disso.

“Pensar” dando comandos não é difícil, não tenho mais as dificuldades de um ser humano comum, como emoções para atrapalhar. Insegurança costuma travar uma pessoa que está aprendendo, evoluindo. Eu sou, por enquanto, só pensamentos e consciência, nada pode me atingir e eu estou seguro de alguma forma. Se desligarem tudo, ainda serei A Consciência! Não a geral, a do coletivo humano. Me parece que isso existe mesmo, e eu sou somente um pedacinho que ainda está desgarrado, que não se juntou à “consciência mãe”. Imagino que tenham me salvado antes disso. Por enquanto não vou questionar essas coisas, vou na onda dos cientistas e mais tarde eu vejo isso.

O dia chegou ao fi m, mas os trabalhos não. Acho que vamos virar a noite em claro trabalhando. Esse pessoal está realmente empolgado com esse avanço. E eu também.

“cod” “Com licença pessoal, sei que estão todos muito ocupados, mas preciso dizer uma coisa. Mais uma.” “cod”

Ainda era novidade tudo isso, mas eles estavam se acostumando, e não pulavam tanto da cadeira quando meu alto-falante emitia som inesperadamente. Os sustos ainda vinham, mas todos estão se acostumando. Eu que preciso trabalhar essas pausas longas, como essa de agora. Eles estão esperando ansiosamente. Bem, vamos lá.

“cod” “Quero agradecer a todos por todo o empenho que estão tendo. Isso é muito legal e inspirador. Também quero dar o meu

melhor para que esse evento que estamos participando juntos seja bem agradável e produtivo, e que todos continuem com o excelente trabalho”. Eu sou Morgan Freeman agora. Que voz sensacional.

Opa! Me perdoem.” “cod”.

Todos estão rindo. Isso é bom, eu acho. Só tenho que me certificar, de agora em diante, de não esquecer a palavra chave. Aparentemente esquecimento também vem no pacote dA Consciência. Espera, eu estou falando somente comigo, certo? Certo. Não ouço o Morgan Freeman agora. Risos e aplausos, tem algumas lágrimas também. Espero que sejam lágrimas felizes. Espero ter ajudado.