53 Minutos
Os ombros de Cláudio estavam curvados, como se algo estivesse puxando-o para baixo, e a gravata amarrada em seu pescoço parecia possuir o peso de uma bigorna. A pasta de couro, já surrada, era segurada debilmente por seus dedos cansados. O dia não havia sido fácil, com tantos problemas para resolver no escritório, gritos histéricos do chefe cobrando por mais resultados e as ironias dos colegas. Mais um dia como os outros na sua vida.
Seguiu caminhando em direção ao ponto de ônibus, afrouxando a gravata para tentar aliviar o peso em seu pescoço. Chegando lá, olhou para a placa onde que indicava os horários.
LARANJEIRAS / CORURIPE → 53 min.
– Excelente…, – resmungou ele, dando um chute em uma pedrinha que estava no calçamento. Jogou-se no banco de metal, sentindo suas forças esvaírem-se lentamente, enquanto o cansaço o dominava.
Ainda sentado no banco, perdido em pensamentos irritadiços, desviou seu olhar para o outro lado da avenida. Uma pequena portinha de um boteco estava aberta. Na calçada, algumas cadeiras de plástico vermelhas jaziam espalhadas, vazias, fazendo um convite silencioso a Cláudio. Ele olhou novamente para o painel eletrônico. Seu ônibus ainda demoraria 52 minutos. Então, levantou-se, aproveitou a pausa no trânsito e atravessou a avenida fora da faixa de pedestres, em direção ao boteco.
– Uma Skol, por favor, – pediu ele ao dono do boteco. A careca do homem reluzia com a luz amarelada do ambiente. Ele abriu um sorriso por trás do gigantesco bigode.
– Skol, hein? É raro pedirem uma dessas hoje em dia. – Ele abriu o freezer atrás do balcão, pegou uma latinha e a entregou a Cláudio. – Dia difícil hoje?
– Mais um dia como qualquer outro.
Ele pegou a latinha, pagou-a com o cartão e foi em direção à calçada. Sentou-se em uma das cadeiras e abriu a latinha. Ouviu aquele “tlec” característico e deu o primeiro gole. O amargor preencheu sua boca, e o líquido gelado desceu por sua garganta. Estava desacostumado com o sabor da cerveja. Quanto tempo fazia desde que havia tomado a última?
Sentado, olhando o vai e vem dos carros, pegou-se pensando nos últimos anos. Primeiro vieram as horas extras obrigatórias, todos os dias. Depois, o pedido do chefe para ir aos fins de semana e ajudar a tirar o atraso. O domingo passou a ser um dia morto, em que ele mal saía da cama para se alimentar. Hobbies, passatempos, amigos… tudo isso foi deixado de lado. Viu um casal de jovens caminhando na calçada oposta, conversando sobre um livro que um dos dois segurava. Ambos tinham sorrisos estampados no rosto. Quanto tempo fazia desde que ele leu o último livro? Deu mais um gole na cerveja.
Enquanto bebia, observava a infinidade de automóveis, pedestres e ciclistas, todos em suas rotinas próprias. Cada um com seus sonhos, suas conquistas, suas batalhas… sua própria individualidade. Sentiu o vento em seu rosto. Os dedos já estavam frios de segurar a lata. Deu um último gole, longo e demorado. Olhou para o seu relógio de pulso. Já eram 21:54. Seu ônibus estava para chegar. Levantou-se, jogou a lata vazia de cerveja no lixo que estava na entrada do boteco e fez um aceno de despedida para o dono. Em seguida, atravessou a rua.
Poucos minutos depois, enquanto estava de pé no ponto de ônibus, avistou aquele letreiro com luzes alaranjadas: LARANJEIRAS / CORURIPE. Fez o sinal para o ônibus parar. Subiu os degraus e cumprimentou o motorista com um aceno de cabeça. Sentou-se em um banco vazio, mais ao fundo, abraçou sua pasta e recostou a cabeça no vidro da janela. Sua cabeça estava um pouco mais vazia, mas seu coração seguia pesado.