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Inventário de Coisas Humanas · Café da Tarde — Wilker Sousa

Por Wilker Sousa

Um conjunto de contos criados em oficinas, desafios literários ou mesmo devaneios em um dia céu nublado.

Café da Tarde

O cheiro do café recém-passado destacava-se na cozinha fechada. Duas xícaras estavam na mesa, cheias com o líquido escuro e quente. Fabrício havia acabado de prepará-las e servia o café a Helena, assim como sempre fizera, desde o dia em que se casaram. Não perceberam quando esse momento virou rotina, quando ambos se sentavam à mesa da cozinha para comentar os acontecimentos do dia enquanto tomavam o café. Houve apenas três dias em que eles não desfrutaram da companhia um do outro nesse momento da tarde. Os dias após o silêncio da voz de Helena.

Mesmo sem a presença de sua esposa, Fabrício se viu incapaz de não seguir aquele ritual tão importante. Seguiu preparando duas xícaras de café e sentando-se à mesa enquanto esperava sua amada. Por três dias ela não apareceu. No quarto dia, entretanto, quando Fabrício já pensava em retirar a xícara intocada, Helena se materializou na cadeira em que sempre se sentava. Um corpo translúcido, com o mesmo vestido que usava quando partira, e um semblante triste, mas resignado.

Fabrício não conteve as lágrimas, com o coração gemendo e gritando em euforia e saudade. Porém, ao tentar tocá-la, percebeu que não havia matéria. Helena havia voltado, mas ele não mais poderia sentir sua pele. Com um aperto no pescoço que lhe tirava o ar, ele nada mais fez do que chorar.

Por mais de dois anos, Helena seguiu aparecendo no momento do café. Fabrício servia a bebida em sua xícara favorita, aquela com desenhos de Paris, e seguia comentando sobre seu dia. Falava sobre trivialidades e sobre o cotidiano e esperava um retorno embalado na voz melodiosa de sua companheira, mas esse nunca veio. Helena aparecia, sentava-se na cadeira costumeira, não tocava no café e apenas ouvia. Até que, quando ele acabava de contar, passavam-se alguns minutos e ela ia embora novamente.

Naquele dia não era diferente. Ele seguia comentando sobre os tormentos do trabalho e sobre como estava perdendo a paciência com a equipe. Por um breve instante, ele notou um olhar triste de Helena. Seria… pena? Ele parou, encarando sua xícara de café por alguns instantes. Havia notado um certo cansaço no semblante dela, além daquela leve demonstração de piedade. Bebericou o café. Estava amargo, mais do que de costume, embora soubesse que havia colocado açúcar.

Em seu íntimo, um pensamento que já havia tomado forma havia algum tempo, mas que ele se recusava a aceitar, escapou por entre seus lábios.

– Sou eu, não sou? – disse, enquanto levantava os olhos para olhá-la diretamente. – Eu tenho te impedido de descansar, não é?

Como esperado, ela não respondeu. Alguns instantes se passaram, e ele se retirou da mesa. Helena se desmaterializou.

No dia seguinte, ele novamente preparou o café. Quando foi até o armário, ia retirar a xícara com os desenhos de Paris, mas lembrou-se do semblante triste de sua amada. Tocou-a novamente e chorou. Sentou-se à mesa, como de costume, mas dessa vez, apenas com a própria xícara.

Então, Helena se materializou, como de costume. Um silêncio ensurdecedor se instaurou na cozinha. O coração de Fabrício estava acelerado, mas uma pontada aguda, como se um punhal estivesse cravado ali, pontuava cada batida. O silêncio se estendeu por alguns minutos, até que Fabrício disse apenas uma palavra.

– Desculpa.

No dia seguinte, ele novamente fez o café. Olhou para a xícara de Helena, mas sentou-se apenas com a sua. Ela não apareceu. Fabrício chorou em silêncio, mas não preparou outra xícara.