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O abraço da noite · Capítulo 1 — Anderson Amorim

Por Anderson Amorim

Pequeno conto sobre uma noite longa demais.

Capítulo 1

Como o mundo é lindo às 3 da manhã. O silêncio, a brisa fria do outono, as estrelas num céu limpo. Os gatos de rua caminhando de um lado para o outro, procurando o que comer. Os cães olham para eles como quem pondera se vale a pena o esforço de caçá-los. Todos magros, fortes demais para morrer, mas fracos demais para viver. Só sobrevivem. As luzes dos postes, as que funcionam, piscam intermitentemente, contrastando com as sinaleiras amarelas que piscam por causa do horário, pedindo para os motoristas terem cuidado.

Tudo isso fica mais impressionante visto do parapeito do oitavo andar do meu prédio. Não da janela, mas do parapeito. O corpo para fora, sentado na borda, com os pés no concreto, pensando que uma queda dali seria fatal. E o pior seria isso ser uma má ideia?

O pensamento me ocorreu depois de pedir uma comida para a janta e, ao colocar o cartão no aplicativo de entrega, ver a mensagem de recusado. Sem dinheiro, sozinho e sem perspectiva de futuro, o que mais eu teria a perder? A única coisa que sinto é dor. A tristeza não é mais uma variável. Já me acostumei com ela, ou foi ela que virou a dor. Não consigo dormir. O único momento em que poderia descansar, não descanso. Os pensamentos invadem a minha mente, meu corpo quer desligar e a mente quer ficar ligada. Nada mais me traz prazer. Nem mesmo os prazeres baratos. Jogos, apostas, bebidas, pornografia, nada. Tenho preguiça de fazer tudo e nenhuma vontade de fazer nada.

E se eu cair, a dor para? Então, com isso, eu pulo. E ao começar a cair o tempo congela. Parece que vejo todos os flashes da minha vida passando diante dos meus olhos, como um óculos de realidade virtual. Desde o nascimento, da infância difícil, da adolescência conturbada, brigando para extravasar a raiva, da fuga de casa pensando que seria melhor. O início de um relacionamento, momentos bons, a casa, o carro, todas as conquistas e, do nada, a queda. O rompimento, a mudança para o apartamento pequeno e, junto, a demissão. Seis meses de seguro-desemprego, sem dinheiro, sem futuro. E quando achei que terminaria, voltei à realidade. Estava na metade do caminho da queda.

A sensação era como voar. Sensação de liberdade. E por esse tempo senti leveza e, por incrível que pareça, felicidade. Percebi que não queria parar de viver. Queria parar de sentir dor. Queria que o mundo não batesse dia após dia, que desse um intervalo entre as surras, como um gongo de um ringue tocando para a pausa entre os socos. Queria que a insônia viesse em períodos intercalados, dia sim, dia não, talvez para conseguir aguentar durante o dia. Queria que o emprego aparecesse e queria voltar a viver. Mas agora, eu só posso cair. A única lei que funciona de verdade, e não tem falha, cumpre o que propõe, impetuosa e sem discriminação, é a da gravidade. Maldita maçã que caiu daquela árvore.

Foi aí que o vento parou.

Abri os olhos.

3:02 da manhã.

Eu estava sentado no parapeito. De novo. O corpo para fora, os pés no concreto. O mesmo gato de rua passando lá embaixo. A mesma sinaleira amarela piscando. O celular ainda aceso na minha mão, com a mensagem de "cartão recusado" ainda acesa.

Tudo igual.

Só que agora eu sabia. Não era a primeira vez que eu pulava.