O cadeado de madeira
A rua estava calma, havia uma penumbra densa, como se uma fumaça escura pairasse sobre a cidade. Somente a luz da lua cheia e de algumas estrelas iluminava a noite. Não havia ninguém fora de suas casas. Em cidades do interior não era comum sair depois das onze horas da noite.
Resolvi sair para fazer uma caminhada, o meu quarto parecia me sufocar, então decidi caminhar para espairecer a cabeça. Esse silêncio me fazia bem, sempre gostei de ficar sozinho com meus pensamentos, e essa combinação com o ar frio da noite me acalmava. Seguia sem direção, não tinha um destino certo, fui observando os detalhes dos telhados, os paralelepípedos das ruas, as portas de madeiras com trancas e fechaduras improvisadas, os portões de ferro, alguns já corroídos pela ferrugem.
A maioria das casas era muito simples, feitas de tijolos à mostra, grande parte sem pintura, os telhados com telhas de barro davam um contraste de cor com as casas pálidas. O silêncio reinava naquela noite, às vezes era quebrado com o piado de uma coruja, pássaro comum por essas bandas e que chamávamos de rasga-mortalha pois seu som parecia como se um pano tivesse sendo rasgado. Os cães e gatos pareciam estar dormindo, não ouvi nenhum latido e miado, o que achei estranho porque a vizinhança era cheia deles.
Caminhei por algum tempo, talvez uns 10 minutos, talvez mais, e percebi que estava em frente ao cemitério municipal. "Mas por quê?". Senti uma estranha sensação, meu corpo estava tenso, sentia que o pescoço pudesse partir a qualquer momento pela força dos músculos tensionados.
Decidi entrar. O portão principal estava trancado com um cadeado. Não era um cadeado comum, parecia de madeira, bem adornado e envernizado, nele estavam entalhados símbolos curvos que eu não conhecia o significado nem a origem. “Cadeado de madeira?” - pensei comigo - “Quem colocaria… ou melhor, quem fabricaria um cadeado de madeira para colocar em um portão? Mesmo que seja no cemitério”. Mesmo assim senti uma força me impulsionando a tocá-lo. Um arrepio percorreu todo meu corpo, um frio na espinha me paralisou, e ele se abriu com um clique.
Peguei o cadeado em minhas mãos, que estavam tão trêmulas que quase o deixei cair. Decidi guardá-lo no bolso antes de abrir o portão e entrar no cemitério. Lembrei de uma conversa que tive com meu irmão há alguns anos, ao falarmos sobre cemitérios, eu o perguntei:
— Por que o cemitério daqui tem cadeado? Todo mundo se conhece, ninguém iria vandalizar nem sequer entrar no cemitério à noite. Ouvimos tantas histórias de assombração que os mais velhos contavam, que todo mundo morre de medo. E ele me respondeu num tom sóbrio:
— E se o cadeado for para proteger a gente do que tem lá dentro?
“Por que estou me lembrando dessa conversa logo agora? O cérebro às vezes nos prega peças…”
Já que estava ali, decidi visitar o túmulo de minha avó. O cemitério nunca foi um lugar que me deu medo, mas também nunca havia visitado ele à noite. O silêncio aqui não me confortou, era quase enlouquecedor. Fui caminhando entre os túmulos, me lembrava vagamente onde o túmulo dela ficava. Senti uma estranha presença quando fui me aproximando dele. De repente, um som bem alto me assustou, me fazendo tropeçar em uma pedra solta e cair sentado no chão. Era a rasga-mortalha novamente, mas agora ela estava em cima da lápide bem do meu lado, olhando bem nos meus olhos. Me recuperei do susto e consegui me levantar, me apoiando em uma lápide. Quando li o nome, vi que era a da minha vó. Decidi fazer uma oração para sua alma e lembrei dos momentos felizes da infância, que passava as férias em sua casa. Dei um sorriso ao me lembrar daquela doce senhora que tinha o coração enorme. Queria ficar nessas memórias por mais um tempo, mas uma voz atrás de mim interrompeu minhas lembranças:
— Você não sabe que precisa pedir licença para entrar? Entrou como se a "casa" fosse sua…
Era uma voz feminina, mais velha, falou de um modo ríspido e altivo como se fosse dona do lugar.
Me virei para encará-la e vi uma figura mais ou menos da minha altura, estava usando uma capa preta com um capuz. Estava de costas para mim, encarava um túmulo.
— Quem é você? Você trabalha aqui? É coveira?
— Pode-se dizer que trabalho aqui sim, mas você não devia estar aqui. Ainda mais sem pedir licença… Sua avó não te ensinou boas maneiras? — respondeu ela, ainda sem se virar, colocando uma rosa vermelha sobre o túmulo à sua frente.
— Você conheceu minha avó? Eu já estou de saída, me desculpe — disse, me afastando um pouco pra trás.
Ela, então, se virou devagar. Parecia que o tempo andou lentamente naquele momento, ficando de frente para mim, com o capuz cobrindo seu rosto.
— Conheci ela sim. E também te conheço, você mora perto da praça.
— É mesmo. Já estou indo embora, a senhora não me disse seu nome.
— O nome não é o mais importante, só quero que devolva o que não é seu!
Nesse momento, ela retirou o capuz e seu rosto era pálido igual marfim, as órbitas estavam vazias, o rosto sem pele, sem lábios, sem carne, somente ossos e dentes. Era uma caveira.
Não consegui formular nenhuma frase, as palavras foram morrendo na minha garganta antes de saírem. “Como aquilo era possível?”. Meu coração batia tão forte que eu podia ouvi-lo claramente, cada batida. Me virei e corri para a entrada do cemitério, sem acreditar no que tinha acabado de ver. Todo o resto não me importava, só queria ir pra casa.
“Por que fui sair essa hora da noite? Bem que minha vó me avisava!”. Saí rápido do cemitério, e ao chegar no quarteirão da frente, tomei coragem de olhar pra trás e vi o mesmo vulto daquela senhora com rosto de caveira na entrada do cemitério, os braços estendidos como se esperasse eu entregar algo a ela.
Continuei correndo, ignorando o cansaço, até chegar em casa. Abri a porta da sala num pulo e a tranquei por dentro. Assim que fechei o trinco, ouvi batidas secas na porta, tão fortes que pareciam fazer a casa tremer.
Corri pro quarto e deitei, tampei a cabeça com o cobertor, parecendo uma criança assustada. De repente, mais uma pancada e o silêncio sepulcral. Senti a porta do quarto abrir vagarosamente, a madeira rangendo, e uma mão ossuda me segurou pelo ombro. Dei um pulo da cama na mesma hora, assustado, e aí vi minha mãe, com cara de quem não tava entendendo nada. O sol na janela denunciava que já era dia. “Isso foi um sonho?”
Fui olhar na janela e vi a rasga-mortalha no telhado da casa da frente, como se me vigiasse. E a mesma voz macabra na minha mente: “Devolva o que não lhe pertence!”. Foi então que me lembrei de uma coisa. Coloquei a mão no bolso e ali estava ele: o cadeado de madeira…