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O Cavaleiro do Crepúsculo · A Criança da Meia-Noite — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Em Nyxara, Izaiah é o único humano conhecido. Órfão nas ruas de Ironfell, sobrevive de pequenos trabalhos, furtos e caminhos de fuga que conhece melhor do que qualquer abrigo. Entre tantos povos e criaturas, cresce sem saber de onde veio ou se existe um lugar para ele. Depois de pedir um amigo à deusa que mal conhece, Izaiah encontra uma dragão branca à beira da morte. Ela lhe confia um ovo. Dele nasce Midnight, um filhote negro, de olhos amarelos e uma asa deformada. O vínculo entre os dois os conduz a um refúgio de cavaleiros e dragões, onde descobrem uma família e começam a construir uma vida. Enquanto crescem, Izaiah transforma a astúcia das ruas em estratégia, e Midnight desenvolve no solo a força para enfrentar seus próprios limites. Quando o Abismo leva a guerra a Nyxara, a segurança da ilha entra em conflito com o dever de proteger quem vive além de suas névoas. A ameaça os leva a questionar seus mentores, atravessar terras devastadas e pôr à prova a confiança que os uniu. Izaiah finalmente encontrou um lar. Agora precisa decidir até onde irá para defendê-lo e se conseguirá permanecer a salvo enquanto o restante do mundo arde.

A Criança da Meia-Noite

Antes de se tornar cavaleiro, general ou escolhido de um deus, Izaiah era apenas uma criança tentando sobreviver nas ruas de Ironfell.

Também era o único humano conhecido em toda Nyxara.

Na cidade construída entre torres de pedra cinzenta, pontes suspensas e antigas árvores cujas raízes atravessavam as muralhas, havia elfos de muitas linhagens, anões vindos das montanhas, faunos dos bosques, draconatos, fadas e criaturas que pareciam ter escapado dos sonhos mais inquietos de Luryen. Havia olhos dourados, peles de todas as cores, chifres, escamas e asas.

Mas não havia ninguém como Izaiah.

Nenhum estudioso sabia explicar sua origem. Nenhum viajante afirmava ter visto outro de sua espécie. Para alguns, ele era apenas uma curiosidade. Para outros, um erro na criação da própria deusa.

Os adultos olhavam para o menino como quem encontrava uma palavra escrita no idioma errado.

As crianças eram menos cuidadosas.

Chamavam-no de Sem-Raça.

Izaiah aprendera cedo que discutir não enchia o estômago e que socos nunca mudavam a opinião de quem já havia decidido odiá-lo. Aprendera também que os guardas de Ironfell corriam mais devagar depois do pôr do sol, que os telhados das casas élficas tinham telhas fáceis de remover e que o vapor das cozinhas indicava quais janelas haviam sido deixadas abertas.

Naquela manhã, porém, ele estava com fome demais para esperar o anoitecer.

A fruta repousava no alto de uma banca, lustrosa e avermelhada, cercada por cachos de pequenas bagas azuis. Izaiah observou o vendedor atender uma senhora fauno, esperou que ele virasse o rosto e estendeu a mão.

Seus dedos mal haviam tocado a casca quando uma mão grossa agarrou seu pulso.

— Outra vez, rato?

Izaiah ergueu os olhos.

O vendedor era um anão de barba acobreada, tão larga que escondia metade do avental. Ele apertou o braço do menino até os dedos perderem a cor.

— Eu ia pagar.

— Com o quê?

Izaiah olhou para os próprios bolsos vazios.

— Depois.

O anão soltou uma gargalhada curta.

— Vou chamar a guarda.

Izaiah mordeu a mão dele.

O grito atravessou o mercado.

A fruta caiu, rolou pelo balcão e Izaiah a apanhou antes que tocasse o chão. Em seguida, correu.

Derrubou um cesto, passou entre dois draconatos carregando tábuas e saltou sobre uma pilha de caixas. Atrás dele, o vendedor berrava ameaças que ficavam mais criativas a cada esquina.

— Volte aqui, pequeno verme!

Izaiah não voltou.

Conhecia cada beco da região baixa de Ironfell. Sabia quais muros possuíam pedras soltas, quais portões permaneciam destrancados e quais comerciantes não se importavam quando ele se escondia sob suas carroças.

Naquele dia, contudo, dois guardas entraram na perseguição.

Izaiah desviou da rota habitual.

Atravessou uma viela, escalou um muro coberto por musgo e saiu por uma abertura próxima às antigas muralhas. Continuou correndo mesmo depois de deixar as últimas casas para trás. A vegetação ficou mais fechada, o terreno mais inclinado e as vozes desapareceram sob o ruído das folhas.

Somente quando o ar começou a queimar em seus pulmões ele parou.

Encostou-se ao tronco de uma árvore e tentou respirar.

Ainda segurava a fruta.

Uma parte havia sido esmagada durante a fuga, mas Izaiah limpou a polpa na manga e deu uma mordida. O suco doce desceu por seu queixo.

Foi quando percebeu que não sabia onde estava.

Ironfell havia desaparecido atrás das árvores. Não enxergava torres, muralhas ou fumaça. Havia apenas uma floresta antiga, silenciosa demais para estar tão próxima da cidade.

Izaiah girou devagar.

— Ótimo.

A floresta não respondeu.

Ele escolheu uma direção e começou a caminhar.

Horas depois, a fruta havia acabado, seus pés doíam e o sol desaparecia atrás das copas. Izaiah tentou seguir o musgo das árvores, depois o curso de um riacho, depois uma trilha estreita que terminou em um barranco.

Nada o levou de volta.

Quando ouviu o estalo, pensou que fosse um galho partindo.

Então o chão tremeu.

Izaiah se abaixou e procurou algo que pudesse usar como arma. Encontrou apenas uma pedra do tamanho de sua mão. Segurou-a com força e avançou entre os arbustos.

O cheiro veio primeiro.

Sangue, terra molhada e algo quente, semelhante ao ar depois de uma tempestade.

Do outro lado da vegetação havia uma clareira destruída. Árvores antigas haviam sido arrancadas e galhos grossos cobriam o terreno. No centro dos destroços, presa entre dois troncos partidos, estava uma criatura branca.

Izaiah parou.

Era um dragão. Ele não sabia como conhecia aquela informação.

Mesmo caída, parecia maior que qualquer construção da região baixa de Ironfell. As escamas claras estavam manchadas de sangue. Uma das asas pendia em um ângulo impossível, perfurada em vários pontos. Havia cortes profundos em seu pescoço e no flanco, alguns ainda soltando fumaça escura.

A criatura respirava com dificuldade.

Cada movimento de seu peito fazia folhas e poeira se espalharem.

Izaiah deveria ter fugido.

Histórias sobre dragões eram contadas em todas as esquinas de Ironfell. Algumas falavam de guardiões sábios; outras, de monstros capazes de transformar vilarejos em cinzas. Crianças sensatas não se aproximavam de criaturas feridas que podiam engoli-las sem mastigar.

Izaiah nunca tivera a oportunidade de aprender a ser sensato.

Percebeu que uma das patas do animal permanecia fechada contra o peito. Mesmo morrendo, ela protegia alguma coisa.

Ele abandonou a pedra.

— Você está presa?

A dragão abriu os olhos.

Izaiah congelou.

Os olhos eram claros, profundos, atravessados por uma luz azul quase apagada. A pupila estreita se fixou nele.

Não houve rugido.

Não houve ameaça.

Ela apenas o observou.

Izaiah teve a impressão desconfortável de que a criatura enxergava tudo. As noites dormindo sob escadas. As portas fechadas diante dele. Os insultos. A fome. A raiva que escondia para não permitir que Ironfell o transformasse na aberração que todos diziam que ele era.

A dragão baixou lentamente a cabeça.

Izaiah quis recuar, mas suas pernas não obedeceram.

O focinho enorme se aproximou até ocupar todo o seu campo de visão. A criatura inspirou e soprou sobre ele.

Uma baforada quente agitou seus cabelos e fez sua roupa estremecer. Não havia fogo. Apenas calor e um cheiro distante de chuva.

Izaiah fechou os olhos.

Por um instante, sentiu algo que jamais experimentara nas ruas de Ironfell.

Reconhecimento.

Quando tornou a abri-los, a dragão afastava a pata.

Sob ela havia uma pedra escura, irregular, coberta por cristais negros. Parecia um geode, embora fosse maior que o torso do menino.

A criatura empurrou o objeto em sua direção.

Izaiah apontou para si mesmo.

— É para mim?

Os olhos da dragão se fecharam por um instante.

Talvez fosse apenas fraqueza.

Talvez fosse uma resposta.

Izaiah se aproximou e colocou os braços ao redor da pedra. Era pesada e surpreendentemente morna.

— Eu vou guardar.

A dragão soltou o ar lentamente.

Sua cabeça repousou sobre a terra.

O brilho em seus olhos desapareceu.

Izaiah ficou parado, abraçado ao geode, esperando que ela respirasse novamente.

Ela não respirou.

A noite caiu sobre a floresta, e o único humano de Nyxara permaneceu sentado ao lado de uma criatura morta, protegendo algo cujo significado desconhecia.

Quando finalmente conseguiu encontrar Ironfell, dois dias depois, carregava o geode nos braços.

A partir daquela noite, passou a dormir abraçado a ele.

Não sabia por quê.

Sabia apenas que havia feito uma promessa.

E promessas eram uma das poucas coisas que ninguém podia roubar.

Durante algumas semanas, Izaiah conseguiu evitar problemas.

Escondeu o geode em um antigo depósito abandonado próximo às muralhas, sob tábuas e tecidos que recolhera pelas ruas. Dormia com o objeto junto ao corpo, suportando sua superfície dura porque o calor que emanava dele afastava o frio.

Às vezes, durante a noite, acreditava sentir uma vibração.

Como um coração muito distante.

Pensava na dragão branca e apoiava a mão sobre os cristais negros.

— Estou cuidando dele, sussurrava, sem saber exatamente com quem falava.

A fome, porém, sempre voltava.

Naquela tarde, Izaiah tentou roubar um pedaço de pão. O dono da barraca não o viu, mas outra pessoa viu.

Um homem alto, de pele acinzentada, seguiu o menino pelos becos. Izaiah percebeu tarde demais.

Quando chegou ao depósito, três figuras já o esperavam.

— Então é aqui que o ratinho vive, disse uma delas.

Izaiah recuou.

Os homens não eram guardas. Usavam roupas de viagem, armas curtas e braceletes marcados com símbolos que ele não conhecia. Um deles fechou a porta atrás do menino.

O homem de pele cinzenta pegou o pão das mãos de Izaiah.

— Você rouba bem.

— Pode ficar.

— Não estamos interessados no pão.

Eles começaram a revistar o esconderijo.

Izaiah sentiu o estômago afundar.

— Não tem nada aqui.

Um dos homens chutou as tábuas no canto.

O geode apareceu.

O sorriso dele mudou.

— Olhem só.

Izaiah se lançou sobre o objeto antes que pudessem tocá-lo. Recebeu um golpe no rosto e caiu de lado. O gosto de sangue invadiu sua boca.

— Não encostem nele.

— É uma pedra, garoto.

— É meu.

O homem riu.

— Você não tem nada.

Izaiah tentou se levantar. Um chute atingiu seu abdômen e o devolveu ao chão.

Dois deles ergueram o geode.

— Isso deve valer alguma coisa.

— Larguem!

Izaiah agarrou a perna de um deles. O homem o golpeou com o joelho, mas o menino não soltou. Outro puxou o geode com força.

O objeto escapou de suas mãos.

Caiu.

O som da rachadura foi baixo.

Para Izaiah, pareceu mais alto que um trovão.

Uma fissura atravessou a superfície escura.

— Não...

Ele rastejou até a pedra.

Uma bota pressionou suas costas contra o chão.

— Além disso, temos o garoto, disse um dos homens. — Nunca vi um igual. Talvez algum comerciante pague bem.

— Não vão me levar.

— Quem vai impedir?

Izaiah olhou para o geode rachado.

A promessa.

Ele tentou se erguer novamente.

O primeiro golpe atingiu sua têmpora. O segundo abriu sua sobrancelha. Depois vieram chutes, vozes distantes e o som de madeira quebrando.

Mesmo sem conseguir enxergar direito, Izaiah continuou arrastando os dedos na direção do geode.

Algo escureceu a abertura no teto.

Uma sombra cruzou Ironfell.

Izaiah ergueu o rosto ensanguentado.

Um dragão circulava sobre os telhados.

Havia alguém montado sobre ele.

Um cavaleiro de armadura escura, imóvel contra o céu, observava o depósito através de um elmo fechado.

Por um instante, Izaiah pensou que fosse um sonho.

Então o mundo desapareceu.

Ele despertou sentindo cheiro de ervas.

O teto acima de sua cabeça era feito de madeira clara. A luz entrava por uma pequena janela, e cortinas brancas se moviam com o vento.

Izaiah tentou se levantar.

Uma dor atravessou seu abdômen.

Baixou os olhos e viu faixas envolvendo sua barriga. Havia outra atadura ao redor da cabeça. Seu corpo inteiro parecia ter sido desmontado e reconstruído por alguém que não conhecia muito bem a posição das peças.

Lembrou-se do depósito.

Dos homens.

Da rachadura.

— O geode.

Virou o rosto.

O objeto estava sobre um móvel ao lado da cama.

Izaiah o agarrou, ignorando a dor. Passou os dedos sobre a fissura, sentindo as bordas quebradas.

— Desculpa.

As lágrimas vieram antes que pudesse impedi-las.

— Eu tentei. Eu juro que tentei.

Algo se moveu sob sua camisa.

Izaiah parou de respirar.

O movimento veio outra vez, acompanhado por um som baixo, entre um ronronar e um resmungo.

Ele abriu cuidadosamente o tecido.

Uma pequena cabeça negra surgiu junto ao seu peito.

O filhote se espremeu para fora da camisa, escalou as faixas de seu abdômen e se acomodou sobre ele. Tinha escamas negras, focinho curto e olhos amarelos com pupilas estreitas. As asas eram pequenas e dobradas contra o corpo.

A criatura abriu a boca.

Izaiah esperou um rugido.

O pequeno dragão bocejou.

— Você estava aí?

O filhote inclinou a cabeça.

Izaiah olhou para o geode rachado.

Não era uma pedra.

Era um ovo.

A dragão branca não lhe entregara um tesouro.

Entregara seu filho.

Izaiah estendeu lentamente a mão. O filhote cheirou seus dedos e encostou o focinho em sua palma.

Algo atravessou o menino.

Fome.

Medo.

Frio.

Não eram lembranças dele, embora parecessem nascer dentro de seu peito. Em seguida, sentiu curiosidade, alívio e uma confiança frágil demais para pertencer a uma criatura que acabara de nascer.

O pequeno dragão também ficou imóvel.

Seus olhos amarelos encontraram os de Izaiah.

O menino soube, sem compreender como, que a criatura sentia sua dor. Não apenas os ferimentos. A outra dor. Aquela acumulada durante anos, alimentada por portas fechadas e olhares que o faziam se sentir como um intruso no próprio mundo.

Ambos haviam nascido sozinhos.

Ambos haviam perdido suas mães antes de conhecê-las.

Izaiah sorriu.

— Você é negro como a meia-noite.

O filhote piscou.

— Midnight.

A cauda pequena se enrolou em seu pulso.

Foi assim que Izaiah o chamou.

E, no momento em que pronunciou o nome, teve a sensação de que alguma coisa se fechava entre eles. Não uma corrente ou uma prisão, mas uma costura invisível unindo duas partes que haviam passado tempo demais separadas.

A porta da cabana se abriu.

Uma figura entrou usando roupas simples e uma máscara clara. Izaiah puxou Midnight contra o peito e procurou qualquer coisa que pudesse usar como arma.

Não encontrou nada.

Mesmo assim, colocou-se entre a desconhecida e o filhote.

— Não chegue perto.

A figura parou imediatamente.

Não tentou avançar, não ergueu a voz nem fez qualquer movimento brusco. Apenas inclinou um pouco a cabeça, observando o menino enfaixado que tentava parecer perigoso enquanto abraçava um dragão recém-nascido.

— Está tudo bem — disse ela, com uma voz doce. — Eu não vou tirar ninguém de você.

Izaiah permaneceu tenso.

A mulher levou lentamente as mãos até a máscara e a retirou, revelando o rosto de uma jovem elfa de cabelos loiros. Seus olhos estavam avermelhados, como se tivesse chorado muito, mas havia neles uma ternura imediata, quase familiar.

— Meu nome é Freya.

Izaiah não respondeu.

Freya pousou a máscara sobre uma mesa e se agachou a alguns passos da cama, ficando na altura dele.

— Posso me aproximar?

O menino apertou Midnight com mais força.

O filhote soltou um ruído baixo, mas não pareceu ameaçado. Apenas observou a elfa com seus grandes olhos amarelos.

Izaiah hesitou antes de assentir.

Freya se aproximou devagar e sentou-se na borda da cama. Antes de olhar para o dragão, verificou as faixas ao redor da cabeça do menino, tocando-as com cuidado.

— Você deve estar sentindo muita dor.

— Já senti pior.

A resposta saiu automática.

Freya não sorriu nem fingiu acreditar.

— Crianças não deveriam precisar aprender a dizer isso.

Izaiah desviou os olhos.

Ela percebeu que ele ainda tremia e puxou a manta, cobrindo melhor suas pernas. Depois pegou uma pequena tigela sobre o móvel, onde havia pedaços de frutas cortadas.

— Consegue comer?

Izaiah olhou para a comida.

Seu estômago respondeu antes dele.

Freya escolheu um dos pedaços e estendeu a mão, mas não tentou colocá-lo diretamente em sua boca. Esperou que ele decidisse.

Izaiah pegou a fruta.

Comeu depressa.

Freya ofereceu outra.

Midnight ergueu a cabeça e tentou alcançá-la também.

— Essa é para ele? — perguntou Izaiah.

— Acho que ele vai preferir carne, mas podemos descobrir juntos.

Izaiah parou por um instante.

— Juntos?

Freya olhou para o pequeno dragão, e a tristeza retornou suavemente à sua expressão.

— Ele possui um nome antigo. Sethyr.

O filhote virou a cabeça ao ouvir a palavra, mas continuou acomodado nos braços do menino.

— Ele se chama Midnight — respondeu Izaiah. — Porque é negro como a meia-noite.

Freya soltou uma risada baixa e carinhosa.

— Midnight é um nome bonito.

— Então não vai me mandar mudar?

— Não. Sethyr é o nome que sua mãe lhe deu. Midnight é o nome que recebeu de você. Ele pode carregar os dois.

Izaiah acariciou as pequenas escamas negras.

— Quem era ela?

Freya demorou alguns segundos para responder.

— Laryel.

— A dragão branca?

Ela assentiu.

— Era a mãe dele. E minha companheira.

Izaiah observou os olhos avermelhados da elfa e finalmente compreendeu por que ela parecia tão triste.

— Ela morreu.

— Sim.

A voz de Freya quase se desfez, mas ela manteve o sorriso para não assustá-lo.

— Ela me entregou o ovo.

— Eu sei.

Izaiah franziu o cenho.

— Como?

— Estávamos procurando por ela. Laryel desapareceu depois de uma batalha próxima à nossa ilha. Estava muito ferida e carregava Sethyr. Acreditamos que tenha fugido para impedir que o ovo fosse encontrado pelos inimigos.

— Vocês encontraram ela?

— Encontramos seu corpo. Mas o ovo não estava mais lá.

Freya passou a mão com delicadeza sobre a cabeça de Midnight. O filhote cheirou seus dedos e permitiu o toque.

— Observamos os povoados próximos durante alguns dias. Foi assim que meu marido encontrou você.

Izaiah lembrou-se da sombra sobre Ironfell.

— O cavaleiro.

— Kayos.

— Foi ele que machucou aqueles homens?

Freya desviou os olhos por um instante.

— Kayos não costuma ter muita paciência com pessoas que vendem crianças.

Izaiah decidiu que gostava de Kayos.

— Vocês vão levar Midnight?

A pergunta saiu baixa.

Freya tornou a olhar para ele.

— Não.

— Quando ele crescer, vão querer que ele fique com vocês.

— Ele já escolheu onde quer ficar.

Midnight se aninhou contra o peito de Izaiah, como se compreendesse cada palavra.

— Laryel confiou o ovo a você — continuou Freya. — E, quando ele nasceu, Sethyr também escolheu você. Ninguém tem o direito de separar vocês.

Izaiah ficou em silêncio por alguns instantes.

— E eu?

Freya franziu levemente a testa.

— O que tem você?

— O que vai acontecer comigo?

Ela compreendeu então que a maior preocupação do menino não era apenas perder Midnight. Era voltar para Ironfell. Para os becos, para a fome e para as portas que sempre se fechavam diante dele.

Freya abriu um sorriso pequeno.

Não havia pena naquele sorriso.

Havia carinho.

— Você não precisa voltar para as ruas.

Izaiah a encarou, desconfiado.

— Todo mundo manda embora depois.

Freya estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo que havia caído sobre os olhos dele.

O gesto foi tão delicado que Izaiah não soube como reagir.

— Eu não sou todo mundo.

— Você nem me conhece.

— Sei que protegeu o filho de Laryel mesmo quando estavam batendo em você. Sei que continuou tentando alcançá-lo quando deveria ter pensado apenas em sobreviver. E sei que, quando acordou, sua primeira preocupação não foi consigo mesmo.

Izaiah baixou os olhos para Midnight.

— Eu prometi cuidar dele.

— E cuidou.

Freya respirou fundo, como se reunisse coragem para dizer algo importante.

— Nossa ilha é um refúgio para dragões. Há florestas, montanhas, rios e mais criaturas aladas do que você conseguiria contar. Existem outros cavaleiros também. Pessoas que dedicam a vida a proteger os dragões e a aprender com eles.

Izaiah ouviu em silêncio.

— Kayos e eu vivemos lá — continuou ela. — E há espaço em nossa casa.

Ele ergueu os olhos.

Freya sorriu.

— Gostaria de ficar conosco?

Izaiah pareceu não compreender.

— Por quanto tempo?

A pergunta apertou o coração dela.

Freya segurou cuidadosamente sua mão.

— Pelo tempo que quiser.

— Até eu melhorar?

— Depois também.

— Até Midnight crescer?

— Mesmo depois disso.

Izaiah procurou alguma armadilha no rosto dela.

Não encontrou.

— Você está dizendo que eu posso morar com vocês?

— Estou perguntando se você gostaria de ser parte da nossa família.

O menino ficou imóvel.

Durante toda a vida, adultos haviam perguntado de onde ele vinha, o que ele era ou por que não se parecia com ninguém. Outros apenas o enxotavam antes que tivesse a chance de responder.

Freya não queria saber de onde ele vinha.

Queria saber se ele desejava ficar.

— Você não se importa que eu seja humano?

— Eu me importo que esteja ferido, com fome e assustado — respondeu ela. — O resto não muda quem você é.

Os olhos de Izaiah arderam.

Ele tentou conter as lágrimas, mas não conseguiu.

Freya não o obrigou a responder. Apenas abriu os braços, oferecendo o abraço sem invadir seu espaço.

Izaiah hesitou.

Depois se inclinou contra ela.

Freya o acolheu com cuidado para não pressionar seus ferimentos, envolvendo tanto o menino quanto o pequeno dragão. Midnight ficou espremido entre os dois, soltou um resmungo sonolento e acomodou a cabeça no ombro de Izaiah.

— Eu quero ficar — murmurou o menino.

Freya fechou os olhos e o abraçou um pouco mais forte.

— Então você fica.

— E Midnight também.

— É claro.

— E ninguém vai mandar a gente embora?

— Ninguém.

Izaiah respirou fundo.

Pela primeira vez, acreditou que talvez pudesse ser verdade.

Naquela noite, Freya permaneceu ao lado dele até que adormecesse. Midnight dormiu enroscado contra seu peito, e a mão do menino continuou fechada ao redor de um dos dedos da elfa, como se temesse que tudo desaparecesse quando fechasse os olhos.

Freya não soltou.

O único humano de Nyxara ainda não sabia que Kayos se tornaria seu mestre, que os Cavaleiros de Dragão um dia seguiriam suas ordens ou que o próprio Kryon pronunciaria seu nome no alto de uma montanha.

Naquele momento, nada disso importava.

Izaiah havia passado a vida inteira sendo tratado como uma criatura que não pertencia a lugar algum.

Mas naquela pequena cabana, abraçado à metade de sua alma e protegido pela mulher que um dia chamaria de mãe, ele finalmente encontrou algo que jamais tivera.

Um lar.