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O conto do herói destemido - União dos Guerreiros Imortais · Acordar — Raul Zappe

Por Raul Zappe

Em um mundo marcado por guerras, deuses e forças além da compreensão, um grupo improvável de guerreiros se une em uma jornada que pode decidir o destino de todos. Entre eles está G.E.B, um golem imortal que não compreende o mundo ao seu redor, mas carrega dentro de si algo maior que imagina. Ao lado de figuras marcantes como o destemido Gaiseric, o orgulhoso Django, a poderosa Erin e o enigmático Lucky, ele embarca em uma missão rumo a Gondor, o coração da resistência. Enquanto enfrentam criaturas perigosas, conflitos internos e segredos ocultos, o grupo descobre que a verdadeira batalha não é apenas contra inimigos externos, mas contra seus próprios medos, passados e destinos. Em meio a uma guerra que atravessa gerações e forças misteriosas que ameaçam o equilíbrio do mundo, apenas a união desses guerreiros poderá impedir que tudo seja consumido pelo caos. Mas... Até onde vai a força de um herói que ainda nem entende o que significa ser um?

Acordar

Mais uma vez, acho a mesma árvore com cinco galhos. Desde que saí dos muros de pedra, tudo o que faço é andar por aí. Eu não lembro como vim parar aqui e nem como vou sair dessa floresta. De vez em quando vejo alguns bichos pequenos e peludos. Outros têm chifres e são grandes, alguns andam em duas patas e ficam me olhando. Todos esses bichos são diferentes de mim.

Como sempre estou andando por aí, sem nada para fazer e nem para onde ir, mas isso não me incomoda. Pelo menos não tenho que me preocupar com nada, seja lá o que tem lá fora.

Paro próximo do mesmo lugar. O buraco cheio de água. Vejo alguns bichos lá embaixo, mas todos são diferentes de mim.

Quando olho para eles, me vejo na água. Na primeira vez que me vi ali, fiquei assustado. Pensei ter visto outro como eu lá embaixo, então coloquei minha mão na água muito rápido. Mas ao colocar a mão, desfiz meu eu, que ficou distorcido e estranho. Eu não sei como funciona ou porque aparece outro eu dentro da água, só sei que é assim e pronto. Eu não sei como as coisas são, é tudo muito estranho, eu só me acostumei como as coisas funcionam.

Quando olho meu outro eu, vejo o manto que eu uso no rosto. Não sei o porquê de estar ali, ou quando foi que eu achei e coloquei, mas sinto que o manto esconde algo que eu não sei se quero saber.

Sou de metal e não preciso de roupas, então o manto deve esconder muito mais do que um rosto. Mas, será que vale a pena esconder o que está embaixo do manto? É como se eu não quisesse ver o que tem ali, mas tivesse curiosidade ao mesmo tempo em que me escondo.

Sei lá! Coloco as mãos no meu rosto e aperto, mas antes que eu pense, os arbustos atrás de mim se movem, e eu tiro as mãos do rosto, saio de perto da água e me levanto.

— O que está aí?! — Grito enquanto apenas o silêncio responde.

Abro a escotilha que fica localizada no meu peito. Quietinho, saco a minha espada, apontando para o arbusto. A cada passo, meu medo aumenta, como se algo ruim estivesse me esperando atrás daqueles galhos marrons. Quando volto de meus pensamentos temerosos, já estou na frente do arbusto, ainda empunhando a espada. Penso então: Devo atacar!

Igual o salto dos bichos orelhudos que vejo por aí, vou pra cima do arbusto, balançando a minha espada com tudo.

Entretanto, paro antes de atacar, pois vejo um daqueles… Espere aí, esse animal eu conheço, é um filhote de homem.

Me lembro de ver alguns iguais a ele. Lembro deles indo para cima de mim, como se eu fosse um “monstro”, seja lá o que isso for, me incomodavam antes. Lembro de sentir um calor, muito bom enquanto acontecia, porém, não me lembro o que aconteceu depois, nem sei se quero saber. Guardo a minha espada.

Enquanto me lembrava de tudo, o filhote correu muito rápido, sumindo na mata. Seu olhar era de medo. Ele não deve saber o que eu sou, e eu também não sei.

O filhote some no vazio da floresta enquanto fico parado. Nunca conversei com alguém além de mim. Me sentia sozinho nessa floresta, mas era como se ela fosse tudo que existe, e, com aquela pequena interação, com outro ser, sinto que tem muito mais para descobrir. Talvez viver não seja tão chato.

Rapidamente sigo o caminho que o filhote fez. Se eu caminhar a tempo, talvez veja-o e ele possa falar comigo! Eu não sei como é ouvir outra voz falando comigo, deve ser estranho, ter outros bichos por perto, seres que falem, e que conversem, e que gritem, e que riam, seja lá o que seja rir, eu nunca ri antes, mas talvez, apenas talvez, eu tenha essa chance, de conhecer outros seres, embora, nenhum deles seja como eu.

Perdi o filhote de vista, e não me recordo mais o caminho que ele fez. O tempo vai passando e o sol vai embora. Tudo fica escuro de novo, menos eu que brilho no escuro. Depois que o Deus-Sol me deu um sinal, sinto como se tivesse que fazer alguma coisa, mas eu… eu não me lembro.

Enquanto vou andando, observo o caminho. Há menos animais na floresta, menos árvores. Sinto como se estivesse deixado algo para trás, mas, de um jeito bom. Depois de tanto tempo, sair da floresta me parece bom. O que será que tem aqui fora?

Conforme vou andando, vejo outras luzinhas lá longe. São luzes fracas, mas vejo elas cada vez mais nítidas enquanto me aproximo. E agora, acho que encontrei outros como eu! E o melhor, não é uma, nem duas, são muitas luzinhas!

Muitas brilhando como a minha, algumas se movem, mas muitas luzinhas estão paradas. Quando chego mais perto, as luzes ficam mais fortes, será que elas são como eu? Espero que sim! Não consigo esperar para encontrar outros parecidos comigo, é como se eu só tivesse perdido meu tempo na floresta, mas agora eu tenho uma chance de conhecer aqueles como eu!

Depois de um tempo, as árvores e o chão de grama sumiram completamente, e eu nem havia percebido. Esse chão é duro e segue uma linha reta. Um chão muito estranho e diferente. Eu gosto disso.

Agora me sinto mais perto das luzinhas, e pelo visto, elas não saem dali, então eu não preciso correr. Mas, lá longe, eu vejo uma luz, vindo até mim, e eu que estou ansioso, começo a caminhar um pouco mais rápido, para então, finalmente ver o meu igual.

Como eu falo com alguém? eu nunca fiz isso antes. Na floresta, era apenas eu e nada além de mim. Nunca vi outros como eu. Como prossigo? Aperto a mão? Faço algo legal com os pés? só levanto o braço e balanço? O que faço?

Sério, é tudo tão confuso! Quando volto dos meus pensamentos, consigo ver a luz mais de perto e, não é como eu, na verdade, é algo bem diferente de mim, apenas brilha como eu.

É um bicho todo quadrado, todo feito de uma coisa parecida com as árvores. Não sei muito bem o que é isso, mas não é de metal como eu, e nem peludo igual os animais da floresta. Nunca vi algo assim antes. Quando me aproximo mais, noto alguns animais levando o bicho maior. Todos são parecidos com os bichos da floresta, porém são mais bonitinhos, e, ainda assim, não são parecidos comigo.

Enquanto o bicho se aproxima, vejo um humano em cima do ser feito de árvore, guiando os bichos parecidos com os animais da floresta. Aquela cena toda é muito estranha.

Ainda mais perto, vejo um humano me encarando, como se tivesse perdido algo em mim. Não me lembrava de seres humanos serem calmos assim. Ele é um humano mais velhinho, com cabelos brancos. Usa roupas, como se fosse um manto pro corpo todo, só que são mais cuidadas. Quando chego mais próximo, ele começa a falar.

— É loucura que ainda existam seres como você.

E então vai embora dando altas risadas, enquanto o bicho de árvore emite barulhos. Um pouco antes dele se afastar completamente, faço uma pergunta.

— O que é esse animal que você tá montado? Eu nunca vi isso!

Ele parece ter ficado assustado com o som da minha voz, seu sorriso até some.

— É mais loucura ainda que um golem como você saiba falar.

Completou, enquanto ia embora. Então sou um golem. Golem golem, que engraçado. Eu gosto de ser um golem. Mas, o humano disse que é “impressionante” que seres como eu ainda existam.

Será que aquelas luzinhas realmente são iguais a mim? Com a notícia de que talvez aquelas luzes não sejam como eu, o desânimo vem.