Chamas festivas
Meu vestido de seda volumoso e pesado arrastava-se pela grama úmida do jardim, mas isso não era o que mais me incomodava, e sim o vento frio que descia das montanhas e a fita vermelha de cetim amarrada firme no meu pulso. Carlos havia feito questão de dar o nó pessoalmente na entrada, garantindo que os seguranças vissem que éramos convidados legítimos da alta cúpula de Bellamy. Todos no baile estavam usando aquela marca escarlate. Eu repeti a ele três vezes que vir a esta festa era uma insensatez. O nosso pequeno filho já estava esmorecido com o nariz entupido desde o entardecer, e agora o sereno da noite caía pesado sobre nós, enquanto a elite ria e brindava com suas taças de cristal naquele terraço iluminado.
Lá embaixo, no vale, o horizonte brilhava com uma luz laranja avermelhada e bastante violenta. O exército de Bellamy estava cumprindo a sua tarefa — limpando o mapa mais uma vez. De onde estávamos, a distância abafava os gritos, transformando o desespero de uma aldeia inteira em um espetáculo maravilhoso e distante, de chamas que pareciam dançar festivamente. Algumas pessoas na borda do jardim observavam o fogo com tanta curiosidade, erguendo os braços com suas fitas vermelhas à mostra, apontando as taças para o clarão como se assistissem a um teatro. Carlos achava aquilo o ápice da elegância. Mas eu só conseguia pensar no peito do meu filho chiando de febre.
— Thomas, venha aqui agora! — chamei, suspirando de cansaço quando esse menino travesso de apenas dois anos disparou rindo entre as roseiras ornamentais, correndo atrás de um vaga-lume.
Ele era rápido demais para a minha barriga de grávida e para os meus sapatos apertados. Corri atrás dele, tropeçando na bainha, e aquela maldita fita vermelha roçando na minha pele enquanto o som da música clássica do baile ficava para trás, sendo engolida pela imensidão escura dos jardins que contornavam a propriedade.
Thomas avançou para além dos lampiões, sumindo entre as moitas densas na divisa onde o jardim elegante se encontrava com a mata fechada e elevações sutis.
— Eu te peguei, seu teimoso... — sussurrei, abrindo os galhos com força.
Mas as palavras morreram na minha garganta.
Thomas não estava sozinho. Sentados ali na lama, encolhidos sob as raízes de uma árvore velha, estavam dois irmãos. A menina, um pouco mais velha que o meu filho, abraçava o irmão menor com uma força desesperadora. Eles vinham fugindo daquela aldeia dançante de chamas.
O horror me congelou por inteira, como se meu coração tivesse parado por um momento e meu sangue não circulado mais. Eles estavam terrivelmente queimados; a pele do rosto e dos braços da menina exibia marcas vivas e vermelhas de cinzas e de carne viva, e o irmão chorava em silêncio, com farpas de madeira cravadas nas roupas carbonizadas. Aquele cheiro familiar de carne queimada cortou todo o aroma caro que aquele jardim possuía.
A música do baile continuava a ecoar lá de cima, alegre e distante, enquanto eu olhava para o meu filho rindo, totalmente alheio ao inferno que acabara de aparecer na minha frente.