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O Primeiro Amor · Primeiro Amor — Edson Shad

Por Edson Shad

Acompanhe esta linda história entre Ayumi e Mitsuo, dois jovens japoneses que finalmente estão descobrindo o amor em meio ao caos do dia.

Primeiro Amor

Amar era doloroso. Ayumi achava engraçado que só parara para perceber aquele fato constante quando estava finalmente deixando seu colégio para trás, pronta para os novos desafios que começavam a raiar no horizonte do seu futuro. E temia ir para frente com aqueles sentimentos, sem saber como seus pais iriam reagir quanto àquilo.

Seu foco deveria ser completamente voltado para os estudos, mas era cada vez mais difícil. Mitsuo perturbava a sua paz de uma maneira que ela não conseguia nunca se desvencilhar. E Ayumi achava que ele sabia, de alguma forma, pois também a olhava e sempre ficava sem palavras quando iam conversar.

Até a distância entre os dois poderia ser considerada diferente. Estavam mais próximos e tinham aquela tênue linha da amizade que ambos não queriam cruzar. Na verdade, corrigindo, queriam sim cruzar. Mas o medo era maior.

Não foram poucas as vezes em que a mãe de Ayumi, Kodama, contou-lhe sobre seus tempos de jovem e como conhecera o seu pai, enquanto ambas arrumavam sua casa e faziam a faxina diária, do tipo que Ayumi mais odiava, a bem da verdade. No entanto, sempre que estas histórias românticas eram contadas, os olhos da menina brilhavam em sigilo e ela segurava, envergonhada, a barra de sua longa saia.

Era uma menina linda, Ayumi. Tinha cabelos curtos que ultrapassavam um pouco a linha dos ombros, finos e delicados. Trazia consigo um olhar penetrante, com olhos pretos profundos que pareciam enxergar a alma de qualquer pessoa. Ela se vangloriava disso. Achava que não podia ser enganada de forma alguma. Ler as pessoas era bom, te prevenia do pior.

E agora, ali, parada antes que o sinal tocasse para que todos fossem embora para suas casas, a menina sentia um aperto profundo em seu coração, do tipo apaixonado, mas que doía como nunca. E “nunca” seria uma excelente palavra para definir aquilo. Era a primeira vez que Ayumi se sentia daquela maneira, completamente entregue, com a certeza de que estava amando o homem destinado a ser o amor da sua vida. Estava amando, mas não podia tomar a decisão por ele. Não podia dar o primeiro passo. As regras de etiqueta não permitiam.

Passaria o fim de semana inteiro pensando nele e em seu cabelo. Seu cheiro, quando ele estava perto. E nos braços fortes e levemente queimados, já que trabalhava em um restaurante com o pai. Na verdade, ela sempre pensava nele e era um pouco difícil se desvencilhar dessa sina. Ficar trancada dentro do quarto, na escuridão, estudando o que tinha para ser estudado, não era o remédio que ela precisava.

Mitsuo trabalhava do outro lado da rua de seu apartamento. Uma vez, quando estava limpando os vidros de sua janela, a menina acabou cruzando os olhos com o rapaz, que estava, sem motivo aparente, olhando para cima. E, como narrador, posso dizer que foi realmente um ato de coincidência nunca antes visto. As peças na época ainda estavam se movendo, rumo ao grande Xeque-Mate. O destino é imprevisível para quem não o conhece, mas toda história tem suas linhas escritas pelas atitudes dos personagens.

Ayumi achava que foi naquele dia, quando os olhos se cruzaram, que ela definitivamente se apaixonou por Mitsuo. Antes gostava dele. Vinham juntos da escola e conversavam bastante sobre as coisas do mundo e como o Japão se sairia soberano, acima de qualquer problema que estivesse acontecendo. A menina gostava daquela esperança impressa na voz do rapaz, e tratou de colar aquela memória de suas palavras no coração, amontoado com vários outros detalhes perfeitos daquele rapaz. Ela apenas o ouvia e sorria, até mesmo fazia alguns comentários esporádicos e minuciosamente encaixados, apenas para que ele continuasse sentindo vontade de falar. Infelizmente, a conversa ocasionalmente morria.

E posso dizer, já que estou na função de narrador, que todos os sentimentos que Ayumi nutria por Mitsuo não só era real, talvez um dos únicos amores reais que o mundo foi capaz de presenciar, como também era recíproco. O rapaz, do outro lado da história, sentia-se confiante e falava bastante quando estava próximo de Ayumi. Gostava de parecer interessante, mesmo que não precisasse fazer muito esforço. Era uma situação engraçada, ver os dois conversando, pois a tensão amorosa entre eles se espalhava como ondas de radiação que tomavam proporções inconcebíveis. Pombos voavam em formatos de coração e o mundo experimentava respingos de uma paz momentânea.

O sinal tocou e a menina se preparou para ir embora, em silêncio. No entanto, sua mente era uma confusão de barulhos. Estava eufórica sem saber o motivo. O final de semana revelava apenas que ela ficaria mais alguns dias sem vê-lo. Mesmo que pudesse olhá-lo pela janela, duvidava que o fizesse muitas vezes. O medo de ser descoberta ainda era maior.

Quando o viu na porta da escola, conversando com seus amigos, Ayumi estremeceu. Abaixou a cabeça e aumentou seus passos. Apesar de amá-lo, ela ainda sentia uma vergonha extrema de conversar com ele.

Sabia que era algo prejudicial, mas não podia mudar. Era o seu jeito, desde pequena. Ainda assim, acreditava que um dia poderia se soltar mais. Era uma esperança.

— Ayumi-sama! — chamou Mitsuo, vendo-a mesmo em meio à multidão que se precipitava pela porta de forma ordenada. A barriga de Ayumi congelou.

“Ele se referiu à mim como sama”, pensou.

— Mitsuo-san, que bom te ver — disse ela, controlando-se para não surtar. Ele estava diante dela, com um sorriso belo no rosto e vermelho como um pimentão.

— Está indo para sua casa?

— Sim. E você? — “Não surte”, pensou ela.

— Também. Posso fazer companhia? — “Não surte”, pensou ele.

Novamente o coração de Ayumi explodiu em seu peito. Suas pernas tremeram levemente e ela mais uma vez agarrou o pano de sua saia longa. Esforçou-se para dar um sorriso e concordou.

Mitsuo se despediu de seus amigos e correu para Ayumi. Começaram a caminhar em direção às suas casas. O menino claramente não sabia o que fazer com suas mãos, ora colocando elas no bolso, ora as tirando, ora cruzando os braços, ora largando-os do lado do corpo. A menina não sabia o que dizer. Ficava olhando para o chão e para a paisagem de jardins exuberantes e verdes que ficavam exatamente do lado oposto ao que Mitsuo estava. Tudo perfeitamente calculado.

— Como vão suas notas, Ayumi-sama?

— Vão bem. E as suas?

— As melhores entre meus amigos, posso dizer. Logo, acho que poderei abandonar a ideia de meu pai de continuar fritando bolinhos de arroz. Quero algo maior, entende?

— Sim, entendo! Quero apenas me livrar das lições de casa. — Mas sem as lições de casa, Ayumi não teria com o que ocupar a cabeça quando estivesse pensando em Mitsuo.

— Diga, Ayumi-sama, você... Pensa em construir uma família?

Ayumi quase tropeçou. Seu coração quase deu um salto. Mitsuo quase a segurou, e teria segurado, se ela realmente caísse. A menina simplesmente perdeu o controle de suas pernas com aquela pergunta.

Sua garganta se fechou e ela teve de pigarrear. Claro que pensava em construir uma família, principalmente com ele.

— Ora, Mitsuo-san, claro que penso. Que tipo de pergunta é essa?

— Desculpe. Eu também não sei.

Aquelas foram as únicas palavras que trocaram enquanto voltavam para casa. Não muito tempo depois, despediram-se com acenos de mão e uma evidente pressa na maneira que caminhavam. E, mais uma vez, a simetria beirava a perfeição: Ayumi se trancou em seu quarto por alguns instantes, somente para sorrir e respirar pesadamente. Mitsuo trancou-se na despensa, onde pôde respirar e sorrir, apesar de se achar um idiota por conta daquela pergunta.

Não sabiam eles que naquele dia, tudo estava caminhando para o final. Era só uma questão de tempo e paciência.

E conforme previu, Ayumi não conseguiu parar de pensar em Mitsuo um segundo sequer. O final de semana pareceu durar séculos. Da janela, ela não conseguia mais ver o rapaz que dominava o seu coração de tal maneira que ela não conseguia se livrar. Eram amarras fortes e tensas. Estava perdidamente apaixonada.

Segunda-feira chegou, silenciosa e trazendo consigo as incertezas. Para Ayumi, nada mais no mundo importava. O Japão já não era mais interessante se Mitsuo não estivesse lá. E uma voz soprava em seu ouvido que naquele dia, tudo mudaria de vez. As expectativas eram altas, mesmo com ela lutando contra isso. Não queria se decepcionar. Mas sentia que não ia.

Viu Mitsuo uma vez antes de entrar em sua sala de aula. Cumprimentou-o com um aceno de cabeça e ele retribuiu, com um sorriso lindo e outro aceno. Ayumi entrou em sua sala e lutou para ter o mínimo de atenção na matéria que era passada. Mas o mundo estava voando. A vida do lado de fora estava passando depressa como um avião.

Quando o sinal para ir embora tocou, Ayumi se levantou e se apressou. O que quer que tivesse para acontecer, aconteceria naquele momento. Ela sentia. Mas nas redondezas da escola, nada aconteceu.

Ela se descobriu sozinha. Olhou ao redor como quem não queria nada, procurando Mitsuo em qualquer lugar. A esperança que ela sentia agora não passava de uma sombra em seu olhar.

Cabisbaixa, ela foi embora.

Sozinha, como grande parte do tempo, Ayumi caminhou para a sua casa. Grossas gotas de lágrimas esforçavam-se para cair de seus olhos, mas a menina não sentia motivo algum para chorar. Estava apenas

triste, talvez inconformada em como o mundo não a estava ajudando e de como sua predição não valera de nada. Estava perdendo a esperança em ser feliz. Talvez estivesse fadada a ficar sozinha para

sempre e amargar, tendo de morrer como uma mulher solteira e sem filhos.

Mas uma voz gritando o seu nome a fez parar e olhar para trás com rapidez. Viu, com assombro, Mitsuo correndo e levemente cansado.

— Me espere, Ayumi-sama!

Ayumi sorriu, mas nada disse.

— Preciso falar com você, Ayumi-sama. Por favor, me escute antes de partir.

O sorriso desapareceu. Ayumi sentiu todos os seus órgãos falharem. O coração batia tão forte que o seu retumbar chegava até os ouvidos da menina.

— Pois diga, Mitsuo-san — disse a menina, tentando não transparecer qualquer emoção.

Mitsuo se recompôs e se aproximou levemente de Ayumi. A menina não recuou. A esperança voltava a brilhar.

— Ayumi-sama, você é a menina mais incrível que já conheci. O seu jeito de pensar é muito parecido comigo e você sempre esteve disposta a me ouvir tagarelar por muito tempo. A verdade, e acho que

você já sabe, é que sempre te notei e meus sentimentos me deixam acordado por noites a fio, pensando em você e nos seus pensamentos quanto a mim. Tenho medo de não ser rápido o suficiente e o destino tratar de nos separar, então prefiro falar neste momento do que fingir que nada aconteceu. Você exerce influência em meu coração, Ayumi-sama. Você me controla e me domina e acho que posso chamar isso de amor. É, tenho certeza que te amo. E, se me der uma chance, Ayumi-sama, prometo te fazer a mulher mais feliz deste mundo. E é isto tudo o que eu tinha para dizer.

Ayumi não respondeu de início. Ficou encarando-o, tentando encontrar palavras que pudessem expressar tudo o que estava sentindo naquele momento. As palavras de Mitsuo atingiram-na como um aríete, e ela cedeu. Cedeu pois já estava cansada de fingir que nada sentia. O amava também. E por isso sorriu. E por isso seus olhos brilharam com uma paixão que queimava a fogo alto. Havia um barulho distante, um som contínuo e alto, que a menina julgou serem as trombetas de duas almas-gêmeas que finalmente se uniram.

Esticou sua mão e Mitsuo engoliu em seco antes de pegá-la. O toque de suas peles pareceu lançar faíscas. A mão do menino era quente e grossa. A mão de Ayumi era lisa e macia. O sentimento se espalhava naquele sentimento. Os olhos haviam se encontrado. O destino tomou conta. O som da trombeta se perpetuou, ficando mais alto.

— Eu também o amo, Mitsuo-san.

O som era muito alto agora. Alto o suficiente para romper o momento e o clima que surgia entre aqueles jovens apaixonados. Um dos poucos amores reais que o mundo presenciou. Peças que se encaixavam perfeitamente, numa harmonia incrível.

Um vento quente começou a atravessar a rua onde estavam. O som ficou ensurdecedor. Mitsuo e Ayumi levantaram a cabeça no mesmo instante.

No céu, um avião verde passava por eles e abria a sua comporta, ainda que Mitsuo não pudesse ver. Nem Ayumi conseguiria, e olha que sua visão era boa.

O avião sobrevoou-os e desapareceu por trás de um prédio alto. O prédio onde Ayumi morava.

Ayumi encarou Mitsuo, sentindo um pouco de medo. Não sabia o motivo, mas estava de fato com medo. Mesmo assim, sentia-se invencível. O mundo finalmente fazia algum sentido e estava em paz.

Hiroshima, 6 de agosto de 1945.

Infelizmente, FIM.