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O Rei Demônio · O Faz Feitiços — Fernando Cerqueira

Por Fernando Cerqueira

Algema, um ex-líder de gangue, sobrevive nas perigosas ruas de Konoha enquanto tenta sustentar a mãe e o irmão. Quando um misterioso amuleto, supostamente ligado ao Rei Demônio, entra em sua vida, os fantasmas do passado deixam de ser sua única preocupação. Assassinatos inexplicáveis e conflitos entre clãs e magos o aproximam de uma disputa política muito maior do que imaginava. Enquanto isso, Hinata Hyuuga, herdeira de uma linhagem de rainhas guerreiras, recusa o casamento e o destino que a corte pretende lhe impor. Entre a sobrevivência das ruas e as obrigações do trono, ambos precisam encontrar seus próprios caminhos em um reino ameaçado por uma nova guerra civil.

O Faz Feitiços

Naruto se agachou junto à poça fumegante de lama rezando para que a crosta barrosa aguentasse seu peso, estendeu o graveto que usava para cavar um buraco até a raiz de uma planta de flores verdes à beira da nascente de lama quente. Ele cravou a ponta da vareta na base da planta e arrancou-a da lama e jogou dentro de sua bolsa de couro que jazia pendurada em seu ombro, e finalmente, pisando com cuidado levantou-se para voltar à terra firme. Estava quase lá quando um dos pés rompeu a frágil camada de barro, e ele afundou a panturrilha inteira na lama escura, pastosa e quente.

— Maldição! – gritou Naruto se atirando para trás, torcendo ainda para não cair de costas em outra poça de lama, que em questão de minutos ferveriam sua carne completamente.

Felizmente, ele caiu em terra sólida entre os pinheiros e respirou fundo. Ouviu seu amigo, Caçador de fogo descer correndo a encosta atrás de si abafando o riso. Caçador agarrou os pulsos de Naruto e o puxou de volta ao terreno seguro.

— Vamos mudar seu nome, Andarilho Solitário. – Comentou Caçador ao lado de Naruto. O Rosto bronzeado tinha uma expressão zombeteira - Que tal “Andarilho dos Lodaçais”? Ou só “Lamaceiro”?

Naruto não achou a menor graça. Maldizendo, catou um bocado de folhas para limpar a bota. Deveria ter vindo com os velhos e surrados sapatos, a bota de cano alto o salvou de uma queimadura feia, mas o pé direito da bota agora estava encrostado de lama pútrida, e ele sabia que levaria uma bela bronca quando chegasse em casa.

“Essas botas foram feitas nos Clãs!” Ralharia a mãe dele “Você sabe quanto custam?”. Nem havia sido ela que pagou pelos calçados para começar. A mãe de Caçador, Tsunade, tinha feito um escambo com Naruto em troca do raro cogumelo que o rapaz havia encontrado na primavera anterior. Kushina não gostou nada quando ele as levou para casa.

Flashback on

— Botas? – Ela o encarou sem acreditar – Botas chiques? Quanto tempo vai levar até elas ficarem pequenas em você? Não poderia ter pedido dinheiro? Comida pra encher nossas barrigas? Ou lenha pra lareira e cobertores para as nossas camas? – Ela avançou até ele com uma grande colher de pau na mão, o que o fez recuar, sabendo por experiencias anteriores que a vida de trabalho árduo daquela mulher tinha dado a ela um braço bem forte

Flashback off

A mãe o deixou vários machucados nas costas e nos ombros, mas ele ficou com as botas. Elas valiam muito mais que o cogumelo que dera em troca, e ele sabia disso. Tsunade sempre fora generosa com ele, com Kushina e seu irmão, Nagato, porque não havia um homem da casa além de Naruto, que apesar de ter 18 anos e já ser um adulto, ninguém o considerava o homem da casa.

— Por que será que só as plantas nojentas que crescem em lugares nojentos são valiosas? – Indagou Caçador.

— Se elas crescessem em jardins quem pagaria bem por elas? – Resmungou Naruto limpando as mãos nas calças. Os braceletes de prata nos pulsos dele também estavam enlameados com sujeira em todos os entalhes, seria melhor escová-los antes de voltar pra casa ou levaria bronca por isso também.

Era um fim apropriado pra um dia frustrante, eles estavam fora desde bem cedo e tudo o que conseguiram foram algumas plantas medicinais e aromatizantes e várias cascas de canela que ele poderia vender nas terras baixas. A falta de moedas na bolsa da mãe fizera Naruto ir às montanhas em busca de ervas cedo demais na estação.

— Que perda de tempo – Comentou, mesmo que tivesse sido ideia dele. Naruto jogou uma pedra ferozmente numa poça de lama. – Vamos fazer outra coisa.

— Tipo o quê? – Perguntou Caçador.

— Vamos caçar aqueles cervos que a Ino viu semana passada – Decidiu Naruto tocando o arco em suas costas. Era estação da fome, a comida que a mãe tinha reservado para o longo inverno tinha se evaporado. Uma peça de carne fresca na mesa mais do que compensaria a coleta fraca daquele dia.

Os dois partiram para o Leste deixando as fontes fumegantes para trás num passo incansável, descendo o rio Taka. O caminho até o prado entre as montanhas onde costumavam ficar os cervos foi silencioso da parte de Naruto, que foi perdendo o mau humor com o cansaço pelo esforço físico. Era difícil ficar irritado num dia como aquele onde sinais da primavera brotavam a toda sua volta. a beleza das montanhas espirituais acalmava a todos que a contemplavam.

O prado é um mar de capim alto, flores silvestres e pinheiros enormes, um lugar perfeito para caçar. E lá estavam uma dúzia de cervos de cabeça baixa pastando o capim daquele local. O coração de Naruto se acelerou com a possibilidade de abater 2 cervos, um para cada, e levar carne fresca para casa. O estômago sempre vazio grunhiu em resposta.

Naruto e o amigo se moveram silenciosamente buscando um ângulo melhor para efetuar um disparo certeiro, se posicionando atrás de uma grande pedra. Naruto sacou o arco novo que foi feito nos Clãs, como tudo mais na sua vida que era belo e útil. Se levantou lentamente e puxou a corda até a orelha, então parou e farejou o ar. A brisa trazia o odor distinto de madeira queimando, o olhar de Naruto subiu a montanha até encontrar uma linha de fumaça que cortava a encosta. Virou-se para Caçador e seus olhares confusos se cruzaram, o clima estava úmido, o chão estava molhado, nada deveria queimar naquela estação.

Os cervos no prado também perceberam o cheiro, ergueram as cabeças e fungaram inquietos. Naruto olhou para montanha novamente e agora conseguia avistar as chamas alaranjadas, purpúreas e esverdeadas na base da linha do fogo, e o vento que soprava o fogo encosta abaixo vinha quente e carregado de fumaça.

Púrpura e verde? Naruto pensou. Será que haviam plantas que queimavam desse jeito?

A manada aguardou por um momento, como se estivessem desorientadas sem saber pra onde ir, e então todos se viraram ao mesmo tempo e dispararam na direção dos garotos.

Naruto ergueu o arco, apressado, e disparou uma flecha enquanto os cervos passavam aos pulos. Nem passou perto de acertar. Caçador não se saiu melhor.

Naruto pôs-se a correr atrás da manada, desviando de arvores e galhos caídos no chão na esperança de tentar novamente um tiro de arco, mas foi em vão, logo os cervos desapareceram de sua vista em meio aos pinheiros. Resmungando consigo mesmo voltou até Caçador que olhava para o alto da montanha, a linha de chamas descia na direção deles rapidamente, e deixava uma paisagem incinerada e desolada em seu rastro.

— O que diabos está acontecendo? – Caçador balançou a cabeça. – Não acontecem queimadas nessa época do ano,

Enquanto os dois observavam, o fogo ganhou impulso, carregado pelos ventos. O calor fez arder os olhos de Naruto e a pele exposta das mãos. O rapaz espanou as cinzas de seus cabelos e afastou as fagulhas da jaqueta, começando a perceber o perigo que corriam.

— Vamos lá. Melhor sair do caminho!

Os dois correram pela crista, com cuidado para não escorregar montanha abaixo, cientes de que uma queda poderia ser desastrosa. Refugiaram-se detrás de um rochedo, pequenos animaizinhos passaram pelos dois a galope, pouco à frente das chamas. A linha de fogo ultrapassou os rapazes, estalando e consumindo tudo pelo caminho.

E atrás dela vieram três jovens a cavalo, como se estivessem conduzindo as chamas. Naruto os fitou, hipnotizado. Eram garotos da mesma idade dele e de Caçador, mas trajavam belas vestimentas de seda e lã, e longas estolas que cintilavam com emblemas exóticos. Os cavalos que cavalgavam não eram simples pôneis montanheses, mas grandes puros-sangues das terras baixas, com pernas longas e robustas, e pescoços imponentemente levantados; suas celas e arreios eram feitos com engastes de prata. Naruto entendia um pouco de cavalos, e aqueles animais custariam um ano de salário de uma pessoa comum, e para ele, o ganho de uma vida inteira.

Os garotos cavalgavam com uma arrogância natural e relaxada, como se não percebessem o que estava acontecendo ao seu redor. Caçador ficou paralisado, com o rosto bronzeado endurecendo e os olhos negros fuzilando os três estranhos.

— Feiticeiros – murmurou, repetindo o termo usado pelos clãs para se referir aos magos. – Eu já deveria saber.

Feiticeiros, Naruto pensou, arrepiado com empolgação e medo, pois jamais vira um deles de perto. Magos não se misturavam a pessoas como ele. Viviam em palácios sofisticados ao redor do castelo de Konohagakure e frequentavam a corte da rainha. Muitos serviam como embaixadores em terras estrangeiras, com um objetivo específico: os rumores de seus poderes mágicos mantinham invasores longe do reino.

O mais poderoso de todos era chamado de Grão Mago, conselheiro e protetor místico da rainha de Konoha.

“Fique longe dos magos”, era o que sua mãe sempre dizia. “Você não quer ser notado por gente desse tipo. Chegue perto demais, e você pode acabar queimado vivo ou transformado em algo imundo e profano. Gente comum é como poeira nas botas deles”.

Como tudo que era perigoso, os magos fascinavam Naruto, mas ele jamais tivera a chance de ver um. Feiticeiros não tinham permissão para entrar nas montanhas espirituais, exceto para visitar a casa do conselho de Magos que tinham na montanha Gedo Otsusuki, com vista para o Vale. Nem jamais se aventurariam na Feira dos desgarrados, o bairro pobre e periférico de Konoha que Naruto chamava de lar. Quando eles precisavam de alguma coisa das feiras, mandavam os servos para comprar.

Foi assim que os três povos do País do Fogo alcançaram a paz tênue: os magos das ilhas meridionais, os camponeses do vale e os clãs das montanhas espirituais.

Os cavaleiros se aproximavam do esconderijo e Naruto os analisava avidamente, o feiticeiro que seguia à frente tinha cabelos negros e lisos que caiam em seus ombros, exibia vários anéis nos dedos e um pingente pendurado no pescoço por uma pesada corrente, sem dúvida, era algum tipo de amuleto mágico.

As estolas do rapaz eram ornadas com corvos prateados. Devem ser o emblema da família de magos dele. Os outros dois eram ruivos, com rostos idênticos e estolas decoradas com silhuetas de gatos rosnando. Naruto presumiu que fossem irmãos. Cavalgavam um pouco atrás do mago de cabelos negros e pareciam ser submissos a ele, a dupla de ruivos não usava nenhum amuleto.

Naruto teria se contentado em permanecer escondido e apenas observando o trio passar, mas Caçador tinha outras ideias. Ele irrompeu nas sombras, praticamente embaixo dos cascos dos cavalos, e assustou os animais de modo que os três cavaleiros foram forçados a lutar para se manterem nas selas.

— Sou Caçador de fogo – proclamou em voz alta, no idioma comum. – do Campo dos Curandeiros. – Ele ignorou as tradicionais boas-vindas e foi direto ao ponto. – Esse clã exige saber quem são vocês, e o que magos estão fazendo em Kaguya, pois isso é proibido pela Roran. – Caçador estava empertigado, com as mãos cerradas ao lado do corpo, mas parecia pequeno perante os três invasores em seus cavalos.

O que tinha dado em Caçador? Indagou-se Naruto, emergindo com relutância do esconderijo para se colocar ao lado do amigo. Ele também não gostava do fato de os feiticeiros terem invadido a terra de caça deles, mas era esperto o bastante para não enfrentar feitiçarias.

O garoto de cabelos negros encarou Caçador de fogo, e então hesitou, com os olhos negros se arregalando de surpresa antes que ele pudesse recuperar a expressão fria de desdém. “Será que ele conhece Caçador? “O olhar de Naruto foi de um ao outro. Caçador não parecia conhecê-lo. Mesmo que Naruto fosse mais alto que o amigo, os olhares dos magos passaram por ele sem quase notá-lo, e então voltaram a Caçador de fogo. Naruto olhou para sua vestimenta, invejando o luxo e o refinamento dos forasteiros, ele se sentiu invisível. Insignificante.

Caçador não se intimidou com os feiticeiros.

— Eu perguntei seus nomes – intimou. Então indicou as chamas que se afastavam. – Aquilo parece fogo de mago pra mim.

Como é que Caçador sabia qual era a aparência de fogo de mago? Naruto se perguntou. Ou ele estava apenas blefando?

O rapaz com o emblema de Corvo olhou os outros dois de esguelha, como se ponderasse uma resposta. Ao perceber que não teria ajuda dos amigos, se voltou para Caçador.

— Me chamo Uchiha Toneri, da casa Corvo - anunciou, como se o mero nome fosse colocar os dois caçadores de joelhos. – Estamos aqui por ordens da rainha. Sua majestade rainha Kurenai, e as princesas Hinata e Hanabi estão caçando no vale abaixo. Estamos conduzindo os cervos até elas.

— A rainha mandou você aqui incendiar a montanha sagrada para que ela pudesse ter um bom dia de caça? – Caçador balançou a cabeça, descrente.

— Foi o que eu disse, não? – Algo na expressão do mago fez Naruto perceber que aquela não era bem a verdade.

— Os cervos não pertencem à rainha – afirmou Naruto. – Temos direito de caçá-los tanto quanto ela.

— De qualquer maneira, vocês são menores de idade – Continuou Caçador. – Vocês não têm permissão para usar magia, nem de carregar um amuleto. – Ele apontou a joia no pescoço do Uchiha.

Como que Caçador sabia disso? Pensou Naruto. Ele mesmo não sabia nada das regras dos magos. Mas Caçador de fogo parecia mesmo ter acertado na mosca, porque o Uchiha olhou feio para ele.

— Isso é assunto de mago – Disse o feiticeiro. – Não é problema seu!

— Bem, bruxo Toneri – retrucou Caçador agora usando o insulto dos clãs para os magos. – Se a rainha Kurenai quiser caçar os cervos no verão, ela pode vir às terras altas atrás deles como sempre fez.

O Uchiha ergueu as sobrancelhas.

— Vir às terras altas? Onde ela poderá dormir num chão de terra, ombro a ombro com uma dúzia de parentes imundos, ficar uma semana sem um banho quente e voltar para casa fedendo a fumaça e suor, com um caso sério de sarna noturna? – O Uchiha fungou de rir, e os amigos o imitaram. – Não a condeno por preferir as acomodações do vale.

Ele não sabe de nada, pensou Naruto, lembrando-se das cabanas aconchegantes com seus catres, as canções e histórias entoadas ao redor da fogueira, os banquetes compartilhados de um panelão comum. Tantas noites Naruto tinha adormecido sob pelegos e cobertores feitos pelos clãs, com o fio da meada das velhas canções se entremeando em seus sonhos. Naruto não era de um clã, mas sempre desejou ser. Era o único lugar onde ele se sentia em casa, o único lugar onde ele não se sentia como se estivesse pendurado por um fio.

— A princesa Hinata passou três anos sendo criada no Campo do Clã Hyuga – Afirmou Caçador, com o queixo projetado teimosamente.

— O pai da princesa é do Clã e tem ideias um tanto arcaicas – argumentou o Uchiha, e seus companheiros riram outra vez. – Eu, pessoalmente, não me casaria com uma garota que tivesse passado tanto tempo nos campos. Acharia que ela foi corrompida.

Num instante, Caçador estava com a faca na mão.

— O que foi que você disse, bruxo? – indagou ele, com a voz gélida como as águas do rio Taka.

Uchiha deu um puxão nas rédeas, fazendo o cavalo recuar e se distanciar de Caçador.

— Eu diria que as mulheres devem ter mais medo dos bruxos do que do povo dos Campos – continuou Caçador.

Com o coração acelerado, Naruto avançou até o lado do amigo e pôs a mão no cabo da própria faca, tomando cuidado para não entrar na frente do braço que seu amigo usaria para lançar a adaga. Caçador era ágil com os pés e bom com uma lâmina. Mas lâmina contra magia? Mesmo com duas facas....

— Relaxe, cabeça de fogo. – Disse Toneri com os olhos fixos na faca de Caçador. – É o seguinte: meu pai diz que as garotas que vão aos campos voltam orgulhosas, cheias de opiniões e difíceis de controlar, como a princesa Hinata, só isso. – Ele deu um sorrisinho, como se fosse uma piada que todos poderiam compartilhar.

Caçador não sorriu.

— Então você está dizendo que a herdeira legítima do trono de Konoha precisa ser... controlada?

— Caçador de fogo! – disse Naruto, mas o amigo dispensou o aviso com um gesto.

Naruto avaliou trio de magos a sua frente como faria com seus oponentes em qualquer briga de rua. Os três tinham espadas elaboradas, que não tinham sido muito utilizadas. Tirá-los dos cavalos, esse é o truque, pensou o rapaz. Um corte rápido na correia da cilha resolveria o problema. Chegar bem perto de modo que as espadas não fossem muito úteis. Nocauteie o Uchiha, e os outros sairão correndo.

Um dos magos ruivos pigarreou nervosamente, como se estivesse constrangido com o rumo da conversa. Era o mais velho dos dois, um tanto gorducho, que agarrava com força as rédeas.

— Toneri – chamou ele, no dialeto do vale, indicando o terreno abaixo. – Vamos lá, assim a gente perde a caçada.

— Espere um pouco, Juugo. – Uchiha fitou Caçador de fogo com seus olhos negros cintilando no rosto pálido. – Você não se chama Sasuke? – inquiriu ele em língua comum, citando o nome que Caçador usava no vale. – É só... Sasuke, não é? Um nome mestiço, já que você não tem pai.

Caçador enrijeceu.

— Esse é o meu nome no vale – retrucou, erguendo o queixo desafiadoramente. – Meu verdadeiro nome é Caçador de fogo.

— Sasuke é um nome para magos – continuou o Uchiha, mexendo no amuleto. – Como você ousa presumir...

— Eu não presumo nada – Caçador interrompeu. – Eu não escolhi esse nome, sou dos clãs. Por que eu escolheria um nome de bruxo?

Boa pergunta, pensou Naruto olhando de um ao outro. Os nomes nos clãs eram dados de acordo com a personalidade ou algum feito daquela pessoa, podendo mudar ao longo dos anos, alguns membros dos clãs usavam nome típicos de terras baixas quando iam ao vale. Mas como um bruxo como Toneri poderia saber o nome que Caçador usava no vale?

Toneri ficou vermelho e levou algum tempo para dar uma resposta.

— Isso é o que você alega, Sasuke emo – Disse o Uchiha, arrastando as palavras. – Talvez você tenha gerado a si próprio. O que significa que você e sua mãe....

O braço de Caçador se ergueu num relance, mas Naruto conseguiu desviá-lo com um empurrão exatamente quando a faca deixou a mão do amigo, acabando cravada, trêmula, no tronco de uma árvore.

Calma, Caçador, pensou Naruto, encolhendo os ombros perante o olhar furioso do companheiro. Matar um mago amigo da rainha criaria problemas gravíssimos para os dois.

O feiticeiro Uchiha ficou paralisado por um instante, como se não pudesse acreditar no que acabara de acontecer. Então, o rosto dele ficou vermelho de raiva, estendeu uma das mãos na direção de Caçador de fogo, segurou o amuleto com a outra e começou a murmurar um feitiço na linguagem da magia, tropeçando um pouco nas palavras.

— Toneri! – Exclamou o mais esguio dos magos, aproximando o cavalo. – Não, não vale a pena. O fogo foi uma coisa, mas, se descobrirem que nós...

— Cale a boca, Suigetsu – O Uchiha interrompeu, – Vou ensinar o que é respeito a esse bastardo cabeça de fogo – Parecendo estar irritado por ter de recomeçar, ele começou o feitiço outra vez.

Tente acalmar os ânimos e olha o que acontece, pensou Naruto. Ele pegou o arco e encaixou uma flecha, apontando para o peito de Toneri.

— Ei, Uchiha – chamou. – Tá vendo isso aqui? Cale a boca ou eu atiro.

O Uchiha estreitou os olhos para Naruto, como se estivesse novamente surpreso em vê-lo. Talvez percebendo que, de fato, estaria morto antes de completar o feitiço, o mago soltou o amuleto e ergueu as mãos.

Ao ver o arco de Naruto, Juugo e Suigetsu tocaram os cabos das espadas, mas Caçador encaixou uma flecha no próprio arco, e os dois magos ergueram as mãos também.

— Decisão inteligente – comentou Naruto, concordando com a cabeça – Acho que as bruxarias são mais lentas que as flechas.

— Você tentou me matar – disse Toneri a Caçador, como se estivesse espantado que tal coisa pudesse acontecer. – Você faz ideia de quem eu sou? Meu pai é o Grão Mago, conselheiro da rainha. Quando ele descobrir o que vocês fizeram...

— Por que você não corre de volta à Gedo e conta tudo a ele? – retrucou Caçador, indicando a trilha que descia. – Vá em frente. Vocês não podem ficar aqui. Saiam da montanha agora mesmo.

O Uchiha não queria ceder com os dois amigos presentes

— Não se esqueçam – comentou o mago em voz baixa mexendo no amuleto. – O caminho montanha abaixo é bem longo. Qualquer coisa pode acontecer nessa trilha.

Maldito bruxo, pensou Naruto. Ele já fora emboscado por vezes demais nas ruas e becos de Konoha, conhecia valentões bem o bastante para reconhecer Toneri como um deles. Esse garoto iria feri-los se pudesse, e não faria jogando limpo.

— Você, tire seu faz-feitiço! – ordenou. – Jogue no chão.

— Isso? – O Uchiha tocou o amuleto de aparência sombria que lhe adornava o pescoço. Quando Naruto indicou que sim, o rapaz balançou a cabeça. – Você não pode estar falando sério. – rosnou, cerrando a mão em torno do amuleto. – Você sabe o que é isto?

— Acho que sim – respondeu Naruto, gesticulando com o arco. – Tire e jogue no chão.

Toneri ficou paralisado, cada vez mais pálido

— Vocês não vão conseguir usá-lo, sabiam? – argumentou, olhando para Naruto e Caçador de fogo alternadamente. – Se vocês o tocarem, serão pulverizados, queimados até só restarem cinzas!

— Vamos nos arriscar – afirmou Caçador, lançando um olhar de relance para o companheiro.

O feiticeiro estreitou os olhos.

— Vocês não passam de ladrões, então. – Zombou. – Eu deveria saber.

— Use a cabeça – argumentou Naruto. – O que eu ia conseguir ganhar com isso aí? Eu só quero não ter que voltar para casa olhando para trás o tempo todo.

Suigetsu se inclinou para o Uchiha e murmurou na língua do vale:

— Melhor entregar, você sabe o que eles dizem dos cabeças de fogo. Que eles cortam nossas gargantas, bebem o sangue e nos dão de comer aos lobos, para que ninguém encontre os ossos.

Juugo concordou com um aceno vigoroso de cabeça.

— Ou então nos usam em rituais profanos, nos queimando vivos. Ou sacrificariam a gente para a deusa deles.

Naruto trincou os dentes, lutando para manter a raiva sob controle, parecia que os bruxos tinham seus próprios motivos para temer os clãs.

— Eu não posso entregar o amuleto a eles, seus idiotas – sibilou o Uchiha. – Vocês sabem o porquê. Se meu pai descobrir que o peguei, todos seremos punidos.

— Eu falei pra você não pegar – murmurou Suigetsu. – Eu falei que era má ideia. Só porque você queria impressionar a princesa Hinata...

— Você sabe muito bem que eu não teria pego o amuleto se nós tivéssemos permissão de ter os nossos próprios – afirmou Toneri. – Este foi o único que eu... O que vocês estão olhando – interpelou o mago, percebendo o interesse de Naruto e Caçador na conversa e talvez percebendo finalmente que eles entendiam a linguagem das terras baixas.

— Estou olhando alguém que já está encrencado que só piora tudo a cada minuto – zombou Naruto. – Agora jogue o amuleto.

O Uchiha fitou Naruto com raiva, como se estivesse vendo o rapaz pela primeira vez.

— Você nem é dos clãs! Quem é você?

Naruto era esperto o bastante para não dizer o nome a um inimigo.

— Me chamam de Menma Navalha – respondeu, inventando um nome na hora. – O dono da rua de Ponte Tazuna.

— Menma, você diz. – O mago tentou fuzilar Naruto com o olhar, mas não conseguia fixar os olhos nele. – É estranho, há algo de... Você parece... – Uchiha parou de falar como se tivesse perdido o fio da meada.

Naruto mirou ao longo da flecha, sentindo o suor escorrer por entre os dedos. Se aquele feiticeiro não cedesse, ele teria que decidir o que fazer em seguida, naquele momento não tinha a menor ideia.

— Vou contar até cinco – anunciou, mantendo a expressão de bandido de rua. – Então vou meter uma flecha no seu pescoço. Um.

Com um movimento rápido e agressivo, Toneri arrancou a corrente por sobre a cabeça e atirou o amuleto no chão. O objeto retiniu de leve ao atingir o solo.

— Quero ver você pegar – desafiou o feiticeiro, inclinando- se para frente na sela. – Eu te desafio.

Naruto transferiu a atenção do mago ao faz-feitiço, sem saber se deveria acreditar ou não.

— Fora! Fora daqui! – gritou Caçador. – E acho melhor darem um jeito nesse incêndio, caso contrário eu garanto que a rainha não vai ficar nada feliz, mesmo que ela tenha pedido para vocês colocarem fogo aqui.

O mago encarou Caçador por um momento, com os lábios tremendo para conter uma resposta. Então virou bruscamente a cabeça do cavalo e disparou encosta abaixo como se estivessem mesmo tentando alcançar o fogo. Suigetsu seguiu o líder com o olhar, mas então virou-se para Caçador balançando a cabeça.

— Seus tolos! Como esperam que ele apague o incêndio sem o amuleto? – o rapaz virou o cavalo e os dois magos seguiram o Uchiha num passo pouco menos apressado.

— Tomara que ele quebre o pescoço – murmurou Caçador, observando os três feiticeiros.

Naruto finalmente respirou e liberou a tensão da corda do arco, o colocando de volta nas costas.

— Que história foi aquela com o seu nome do vale? Você já conhecia esse sujeito?

Caçador colocou a flecha de volta na aljava.

— E de onde eu conheceria um bruxo?

— Por que ele disse aquelas coisas sobre o seu pai? – insistiu Naruto. – Como ele sabe que...

— Como é que eu vou saber? Baka! – retrucou Caçador, com uma expressão dura e impaciente no rosto. – Esquece isso. Vamos embora.

Obviamente Caçador de fogo não queria falar daquilo. Certo, ele não tinha direito de reclamar, já que guardava tantos segredos também.

— E esse negócio? – Naruto se agachou e analisou o faz-feitiço cuidadosamente, sem tocá-lo. – Será que ele estava blefando? Digo, você acha que ele precisava mesmo dessa coisa para apagar o fogo?

— Deixe esse treco aí – desconversou o outro. – Vamos sair daqui.

— Aquele bruxo não queria largar esse troço – refletiu Naruto. – Deve ser valioso. Naruto conhecia um negociante de artefatos mágicos em feira dos desgarrados, tinha feito negócios com ele uma ou duas vezes quando ainda vivia nas ruas. Um ganho como esse poderia pagar o aluguel por um ano.

Você não é um ladrão. Não mais. Se ele repetisse isso vezes suficientes, talvez acreditasse.

Mas ele não conseguiria deixar o objeto ali. Havia algo de malévolo, mas fascinante, naquele amuleto. Ele emanava poder como o calor de um fogão num dia frio. Aquecia o rosto do rapaz, fazendo parecer que o resto do corpo parecesse gelado.

Usando um graveto, Naruto levantou o amuleto pela corrente. O objeto ficou pendurado girando, e Naruto percebeu uma pedra laranja translúcida entalhada numa forma que o rapaz não identificou o que era.

— O que você vai fazer com isso? – Caçador perguntou, atrás do amigo, com a voz carregada de reprovação.

Naruto deu de ombros ainda observando a joia girar.

— Sei lá

Caçador balançou a cabeça.

— Seria melhor jogar isso fora, se aquele bruxo pegou esse troço sem permissão, deixe que ele se vire pra explicar o que aconteceu.

Naruto não concebeu a ideia de jogar o amuleto fora. Não parecia uma boa ideia deixa-lo onde poderia ser encontrado por outra pessoa. Ele pegou um pedaço de couro em sua bolsa e abriu no chão, largou o amuleto no meio, embrulhou-o cuidadosamente e o enfiou na bolsa. O tempo todo se perguntava como tinham se metido naquela situação. Como foi que ele e seu amigo acabaram num impasse violento com magos? Qual seria a conexão entre eles e Caçador? Talvez fosse só mais um evento numa longa sequência de má sorte. Naruto sempre parecia se meter em problemas, por mais que tentasse evitá-los a todo custo.