Além das montanhas
As montanhas não conseguem esconder seus segredos quando se aprende a olhar através do escuro.
Vellier parece sempre adormecida. Nas ruas pavimentadas que envolvem a encosta, as pessoas caminham com passos vagarosos, os olhos fixos no vazio, sorrisos sutis colados em seus rostos como se vivessem em um sonho perpétuo, alimentados por promessas de preencher suas almas com algo desconhecido. Eles não percebem que a cidade inteira é uma casca vazia por dentro, com uma beleza brilhante por fora. A grandeza das casas de madeira encaixadas nas rochas e jardins elegantes, é apenas a cortina de fumaça que meu pai usa para esconder o que realmente importa.
Nas profundezas intransitáveis de um bioma desconhecido, onde a fronteira deste bioma se funde com a pedra e as montanhas de vellier, florestas densas desconhecidas com rochas gélidas e bosques que eu busco a temer, nossa verdadeira casa se oculta. É lá que os túneis de sacrilégio ecoam o som das águas geladas e profundas — as mesmas onde meu pai me obriga a submergir até que o ar escape dos meus pulmões e que o frio queime a minha pele, ensinando-me a resistir a tudo. A memória do meu pai exige precisão absoluta, e a minha nunca falha. Cada símbolo que ele extrai das tribos ancestrais que invade na calada da noite, de cada ritual encantador que ele excetua com as velas azuis, e a cada runa roubada das fontes sagradas que ninguém nunca ousou tocar, eu gravo todas no meu caderno.
Hoje, as catacumbas brilham sob a luz trêmula das velas azuis. No altar de pedra, os sacrifícios de pelagem e plumagem rigorosamente brancas — cavalos e aves sem uma única mancha — silenciam o ar. Observo os rituais enquanto respiro o cheiro da cera e daquela fumaça fria.
Mas o que meu pai não vê da sua torre silenciosa é o que acontece nas brechas da sonolenta Vellier. Eu observei que nas esquinas mais escuras, quando as luzes de muitas casas não alcançam, há figuras encapuzadas de mantos simples, carregando livros humildes, que se encontram em segredo. Não sei oque eles são, mas eles usam o vazio desta cidade para planejar algo. Para planejar o que virá. E enquanto o mundo lá fora dança sob o domínio de poucos, aqui de cima, entre todo resquício de uma montanha gélida, florestas, e do fogo azul das chamas das velas, há uma força silenciosa se preparando para uma guerra.
E eu continuo escrevendo. Porque, de todos os segredos de Vellier, sou a única que os guarda tão bem.