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O véu · Arcano Maior 1 — Beatriz Costa

Por Beatriz Costa

Arcano Maior 1

Para que serve o véu?

Costumamos pensar que devemos nos mostrar mais do que deveríamos. Mas, curiosamente, aquilo que realmente deveríamos revelar sobre nós mesmos, escondemos. E aquilo que talvez não devesse ser exposto de maneira tão explícita, não hesitamos em fazer brilhar diante do mundo.

Por que somos assim? Por que escondemos o que há de mais verdadeiro em nós, enquanto nos esforçamos tanto para exibir aquilo que nem sempre representa quem realmente somos?

Será que, quando nos escondemos diante do mundo, perdemos o nosso valor? Quando tudo o que nos resta são os olhos para observar, em vez de um rosto para ser visto, uma voz para ser ouvida ou uma presença para ser admirada, ainda somos capazes de reconhecer a nossa própria importância?

Ou será que o nosso valor passou a depender daquilo que dizem sobre nós? Daquilo que enxergam em nós? Daquilo que somos capazes de oferecer, demonstrar ou conquistar diante dos olhos alheios?

Porque, se deixássemos de nos mostrar, se nos escondêssemos de todos os olhares, o nosso valor não continuaria existindo simplesmente porque existimos?

Ou precisaríamos ser vistos por cada pessoa, reconhecidos por cada olhar e admirados por cada voz para finalmente acreditarmos que temos algum valor?

Eles escondem aqueles que têm valor. Escondem aqueles que possuem uma voz própria, aqueles que poderiam questionar, recusar e dizer não. Mas por quê? Por que precisam diminuir os outros para se sentirem importantes? Por que precisam silenciar justamente aqueles que talvez não tenham forças para lutar contra eles?

O que é tudo isso que fazem conosco? Para onde nos levam? O que tentam arrancar de nós?

São correntes? São memórias? É o peso de um passado sombrio que jamais conseguiremos esquecer, por mais que tentemos apagá-lo todos os dias de nossas mentes?

Houve um tempo em que tudo parecia muito mais feliz. Um tempo em que eu tinha a liberdade de ser quem realmente era, sem precisar temer os olhares, sem precisar esconder a minha voz, sem precisar questionar se a minha existência ainda tinha algum significado.

Mas agora essa dor me fez questionar a minha importância no mundo.

Se não posso aparecer, se não posso me mostrar, se tentam me silenciar e me esconder como se a minha presença fosse algo que devesse desaparecer, será que ainda sou importante?

Sim. Eu ainda sou.

Mesmo quando não posso ser visto. Mesmo quando não posso falar. Mesmo quando tentam fazer com que eu acredite que já não sou capaz de oferecer nada ao mundo.

Porque o meu valor não está apenas naquilo que sou capaz de fazer, nem naquilo que posso oferecer aos outros. Não depende da minha aparência, do reconhecimento que recebo ou da importância que me atribuem.

O meu valor existe em mim. No simples fato de eu ser humano. E isso ninguém pode apagar.

Talvez seja justamente por isso que o véu tenha tanto significado. Ele esconde o rosto, mas não necessariamente aquilo que existe por trás dele. Pode ocultar uma identidade, uma história, uma dor ou uma voz que o mundo não deseja ouvir. Mas esconder alguém não significa destruir aquilo que essa pessoa é.

E, no fim, talvez aqueles que mais se esforçam para esconder os outros sejam justamente os que mais precisam se esconder.

Escondem-se atrás de máscaras de prazeres e vaidades, de coroas charmosas e aparências grandiosas. Tentam brilhar diante do mundo enquanto escondem aquilo que realmente são. Mas, por mais que tentem disfarçar suas intenções, acabam revelando o suficiente de seus corações maldosos, dolorosos, partidos e tenebrosos para aqueles que mantêm presos em suas garras malignas.

Eu desejaria que tudo pudesse ser diferente. Desejaria que ninguém precisasse perder a própria liberdade para descobrir o próprio valor, que ninguém precisasse ser silenciado para compreender a importância da própria voz.

Mas, ao menos, tudo isso me trouxe uma lição.

O verdadeiro poder não está necessariamente naqueles que se mostram, que conquistam olhares ou que brilham diante do mundo com suas coroas charmosas.

Às vezes, o verdadeiro poder pertence justamente àqueles que se escondem.

Não àqueles que se ocultam nas sombras por covardia, nem àqueles que usam o véu para esconder suas maldades, mas àqueles que, mesmo tendo sido feridos, escolhem não permitir que a ira os transforme naquilo que tanto os machucou.

Àqueles que poderiam entregar-se à vingança, mas preferem lutar contra ela dentro de si mesmos.

Porque existe uma diferença entre esconder-se para dominar os outros e esconder-se para não permitir que a própria dor domine o coração.

E talvez o véu sirva para nos lembrar disso... que nem tudo aquilo que está escondido perdeu o seu valor, assim como nem tudo aquilo que brilha merece ser admirado.

Às vezes, é preciso olhar além do que nos mostram para compreender quem realmente somos.

E, mesmo quando o mundo inteiro se recusa a nos enxergar, continuamos existindo.

Continuamos tendo valor.

Mesmo por trás do véu.