As cartas nos dizem algo sombrio
Nas crescentes ruas de uma cidade infinita, havia uma pequena tenda impregnada pelo aroma de incensos e velas aromáticas. Quando anoitecia, a escuridão cobria as ruas com um manto recheado de mistérios e silêncio, enquanto as últimas luzes da cidade desapareciam por trás das construções antigas.
Sentada diante de uma mesa de madeira escura, a taróloga estendeu lentamente os dedos sob a mesa, adornados por anéis pesados e pedras preciosas. À sua frente, um desconhecido tremia discretamente na cadeira, incapaz de desviar os olhos do baralho.
Ela não lhe perguntou o nome.
Afinal, as cartas já sabiam quem ele era.
Com um movimento cuidadoso, espalhou o baralho sobre a mesa. As cartas se abriram como uma antiga tapeçaria de sangue... e também de sombras... revelando fragmentos de um destino que talvez jamais devesse ser conhecido.
Seu olhar tornou-se profundo. As primeiras cartas deslizaram sob seus dedos, e a profecia começou.
— O Véu. Os segredos que sua alma tenta esconder de si mesmo. Aquilo que foi sepultado em sua infância ainda respira sob uma névoa de delicadeza.
— A Máscara. Os sorrisos festivos e as encenações nas praças. O rosto que o mundo conhece não passa de uma casca cuidadosamente pintada para esconder o medo de ser descoberto.
— A Chama Falsa. A luz que você segue nos altares não o aquece. É apenas um fogo ilusório, criado para desviar seus passos do verdadeiro caminho.
As mãos da taróloga continuaram a deslizar pela mesa, revelando o peso das escolhas daquele homem e as forças que governavam o mundo ao seu redor.
— A Balança. Na balança do destino, seu coração é pesado contra as coroas e os túmulos do reino, cobrando-lhe um preço que você reluta em pagar.
— A Névoa. Você caminha por estradas onde cidades inteiras desaparecem sem deixar rastros ou vestígios, engolidas por um silêncio que ninguém ousa questionar.
— A Coroa. O poder supremo de Arkmenys brilha sobre sua cabeça. Mas lembre-se: toda soberania neste império é comprada por correntes.
O desconhecido mal conseguia respirar.
A cada carta revelada, a chama das velas parecia vacilar, projetando sombras cada vez mais longas sobre as paredes da tenda. O baralho desdobrava lentamente as camadas de ilusão e de perigo que cercavam sua existência.
A taróloga prosseguiu:
— O Espelho. O reflexo que você contempla na superfície polida não é o seu próprio rosto, mas a face oculta daqueles que, antes de você, tentaram fingir e fracassaram.
— A Fenda. A terra se abre sob seus pés, revelando rios de brasas e fraturas profundas que dividem o mundo entre aqueles que governam e aqueles que caem.
— O Poço. Nas profundezas escuras, constelações inteiras se refletem nas águas imóveis, chamando por você. São ecos de verdades que foram afogadas para jamais retornarem à superfície.
A tiragem avançava, revelando não apenas as dores daquele homem, mas também as estruturas de poder às quais sua existência estava ligada.
— A Estrela Partida. Os guias celestes perderam seu rumo. Fragmentos de um futuro estilhaçado caem sobre sua cabeça e sobre as províncias, como cacos de vidro lançados do firmamento.
— O Jugo. As correntes do julgamento mantêm os réus aprisionados em silêncio, enquanto os inquisidores observam do alto, protegidos por suas próprias sombras.
— A Torre de Vidro. Sua fortaleza reluz imponente sob o luar, mas é frágil o suficiente para se despedaçar diante do primeiro sopro de uma revolta.
O silêncio tornou-se pesado.
O desconhecido apertou os dedos contra os braços da cadeira. O aroma do incenso parecia mais intenso, quase sufocante, enquanto a taróloga revelava cartas cujos símbolos pareciam despertar algumas antigas lembranças.
E ela continuou:
— A Semente. Sob raízes aprisionadas em uma terra escura, algo permanece rebelde e resiste, mesmo quando o solo é alimentado pelo sangue dos caídos.
— O Labirinto. Você caminha em círculos pelas mesmas ruas cinzentas, aprisionado em um labirinto de sua própria mente, do qual parece não existir saída.
— O Eclipse. A lua negra encobre o sol, e uma escuridão brutal consome os céus, anunciando o fim de uma era.
— A Queda. Tudo aquilo que foi erguido com soberba desabará sem piedade. Coroas serão partidas, e aquilo que parecia eterno será reduzido a ruínas.
— O Olho Fechado. Uma lágrima solitária escorre de um olho cercado por espinhos. É a cegueira voluntária daqueles que preferem sofrer nas trevas a reconhecer a verdade.
— A Serpente Dourada. A traição veste escamas de ouro e sussurra promessas venenosas ao seu povo. Esconde-se entre lírios brancos, aguardando, por trás de suas pétalas, o instante perfeito para desferir seu bote.
A taróloga permaneceu imóvel por alguns instantes.
Diante dela, restavam apenas as últimas cartas.
O homem acompanhava cada movimento de suas mãos, como se desejasse interrompê-la, mas já não encontrava coragem para pronunciar uma única palavra.
Então, as revelações finais começaram.
— O Trono Vazio. O assento do poder permanece desocupado, aguardando alguém suficientemente corajoso, ou talvez louco, para reivindicá-lo. Mas será que aquele que se sentar nele será realmente o escolhido?
— A Boca Selada. Lábios costurados guardam segredos capazes de derrubar governos inteiros. Contudo, o preço para revelá-los será pago com o próprio sangue.
— As Correntes. Pesados elos de ferro apertam os pulsos daqueles que ousam sonhar com a liberdade nas oficinas de Arkmenys. E pulseiras de espinhos ferem aqueles que são conhecidos como os filhos da Justiça.
A taróloga virou outra carta.
— O Cálice Negro. Um brinde sombrio, oferecido com o elixir da obediência cega. Aquele que dele beber esquecerá quem um dia foi.
— A Mão Oculta. Não acredite que seu destino seja guiado apenas por suas próprias escolhas. Existem cordas invisíveis, manipuladas por mãos desconhecidas, ditando cada um de seus passos.
— O Relógio Partido. Seus ponteiros se quebraram no exato instante em que você atravessou esta porta. E o tempo que lhe resta para salvar sua alma está se esgotando.
O homem ergueu lentamente os olhos.
A taróloga não interrompeu a leitura.
— A Marionete. Seu corpo se move conforme os cordões puxados do alto. Você é como um brinquedo quebrado, obedecendo a movimentos que não lhe pertencem, enquanto carrega no peito um coração de ferro estilhaçado.
— O Ídolo. Uma estátua de pedra derrama lágrimas vermelhas enquanto uma multidão cega adora falsos deuses sob a luz de tochas acesas.
Restava apenas uma carta.
A taróloga pousou os dedos sobre ela, mas não a virou imediatamente. Pela primeira vez naquela noite, seu olhar abandonou o baralho e encontrou diretamente os olhos do desconhecido.
A última chama da vela estremeceu.
Então, lentamente, ela revelou o arcano final.
— O Abismo.
Sua voz tornou-se quase um sussurro.
— E quando a terra finalmente se abrir sob seus pés, não chore pela descida. Pois você passou a vida inteira caminhando à beira dele.
A taróloga inclinou ligeiramente a cabeça.
— E agora... resta apenas saltar.
(...)
(...) Derde raeda riran aesie daensau didiel thivalvau datha thidan daensau didiel wathavau lal thaul dienlathe linthin raentha. Lidasi 8:17.
(...) Cifra de César - Srunhv q¥o iÈ frlzD rzfXzh tXh qXh jm8 kD pdqlihvwdu-vh, qhp hvfrglgd txh qxh jm8 kD vdehu-vh h ylu j doxc.
(...)
O homem permaneceu imóvel, encarando a última carta. Havia algo de terrivelmente familiar naquela ilustração. A figura solitária à beira do precipício, as mãos trêmulas, a coroa caída aos pés...
Era como contemplar uma lembrança que ainda não havia acontecido.
— E se eu me recusar? — perguntou ele, com a voz quase inaudível.
A taróloga não respondeu imediatamente.
Recolheu as cartas uma a uma, com a mesma serenidade com que as havia revelado. Quando terminou, apagou a vela diante de si, deixando apenas a luz pálida da lua atravessar o tecido da tenda.
— Meu caro... — murmurou, com um sorriso quase imperceptível. — Quem lhe disse que ainda está escolhendo?
Um arrepio percorreu a espinha do desconhecido.
Ele se levantou bruscamente, mas, antes que pudesse alcançar a saída, ouviu a voz da mulher uma última vez.
— Há algo que você precisa compreender sobre os arcanos.
Ele parou.
— Eles não mostram apenas aquilo que está por vir. Às vezes, revelam aquilo que já aconteceu... e que alguém fez questão de apagar da sua memória.
O homem virou-se lentamente.
A cadeira estava vazia.
Sobre a mesa, onde antes repousava o baralho, restava apenas uma carta, virada para baixo.
Ele se aproximou e, com os dedos trêmulos, revelou sua face.
Não era o Abismo.
Era O Véu.
E, pela primeira vez naquela noite, ele percebeu que a figura desenhada naquela carta era diferente, e não era o mesmo desenho original que escondia o próprio rosto. Na verdade escondia apenas os olhos de quem observava.
Do lado de fora, os sinos da cidade começaram a tocar.
Treze badaladas.
Mas ainda não era meia-noite.