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Os Mensageiros · 1 - O terremoto — Rodrigo M Rodovalho

Por Rodrigo M Rodovalho

Por onde a tribo dos Homens sem Lei passava, deixava rastros de destruição, nada nem ninguém sobrevivia a eles. Apenas uma pobre alma era poupada, justamente para entregar a mensagem.

1 - O terremoto

Olá, sou eu, A Morte.

Calma, não vim atrás de você.

Não agora, calma! Estou aqui porque estava entediada, então resolvi que quero contar uma história engraçada. Por que? Dois motivos. Um, eu quero. Dois, eu posso. Essa história aconteceu agora a pouco, pelo menos para mim. Esse negócio de tempo e espaço é para vocês, pobres mortais, para mim, é diferente. Mas não é sobre isso que eu quero conversar, é sobre os mensageiros, uma tribo formada por pessoas que olharam nos meus olhos, chamaram por ajuda, e foram atendidas. Eu deveria ficar possessa com isso? Não, porque a hora de todo mundo chega, e eu sou bem paciente. Mas outros ficariam bravos. "Tiraram meu jantar, estou com foooome!!" Mas o que de fato aconteceu? Eles se distanciaram por alguns instantes, mas me trouxeram presentes!

Então, ria! Eu disse que era uma história engraçada! Ok, vou contar para você, e aí sim você entenderá. Então, senta que lá vem a história!

Mordak é o nome da criança. Uma menina de cabelos ruivos, sujos de terra e lama. Ela brincava com seu irmão igualmente sujo de terra e lama. Existem duas árvores na entrada do vilarejo, e elas serviam como um portal. Seus troncos era altos, e as copas se misturavam umas com as outras. Uma tinha um verde claro, quase amarelo. A outra, um verde vivo, mais escuro. A temporada de chuvas havia acabado a pouco tempo, e ainda existia lama no chão. E as crianças brincavam ali, um pouco longe das primeiras casas do vilarejo.

Ele se localizava aos pés de sete colinas. Lá embaixo. Dessas, apenas duas facilitaram o acesso ao lugar. Por uma você entrava, por outra você saía.

Bom, é isso, o vilarejo não tem muito o que apresentar. São muitas casas de palha, madeira e pedras. Um lugar simples de pessoas simples, de bom coração, e que não passava de duzentas pessoas. Viveram de agricultura e criação de animais de pequeno porte. Eles levavam uma vida pacífica, sem muito movimento ou até conhecimento sobre o que acontece com o resto do mundo. Sabem o que acontece no que está na vista lá do alto das colinas, e para eles, está ótimo assim.

Então, nesse dia, os pássaros viram para longe, fugindo de algo. Quase ninguém percebeu a movimentação, até a chegada dos tremores. Eles não chegaram devagar, foi de repente, tão de repente que a menina caiu de bunda no chão. Estavam agachados brincando, quando tudo tremeu. As folhas caíram em cima deles, a menina olhou para trás e viu, vindo da estrada logo atrás dela, uma avalanche de cavalos, grandes e pesados, galopando em direção a eles. Ela teve tempo de agarrar o braço do irmão, e pular de costas com ele para trás de uma das árvores, que pareciam jogar confete nos cavaleiros, que passavam a toda velocidade, em direção às casas.

Os tremores aumentavam e assustavam as crianças, escondidas, esperando aquela horda interminável terminar. Parecia um pesadelo para a menina. Tão rápido quanto apareceram, eles sumiram. O tremor não acabou, as folhas pararam, e algo mais estranho ainda surgiu nos ouvidos da menina atordoada: gritos de desespero, súplica e pavor. Ela não entendia aquilo, visto que seu pacífico vilarejo nunca passará por aquele tipo de coisa. Ela não se atrevia a se mover em direção à sua casa, tinha medo. Abraçada ao irmão, apenas absorvia tudo aquilo.

Depois de algum tempo, o barulho parou, e gritos de comemoração começaram. Ela não reconhecia aquelas vozes. O silêncio não veio, mas sim um dos cavaleiros, com uma lança na mão.

"Chefe, olha o que eu achei!", e levantou a menina pela gola da roupa suja, e o cabelo pingando. "O que vamos fazer com ela? Posso terminar o serviço?" Ela permanecia quieta, sem dar um pio. O cavaleiro havia passado com a menina por um caminho mais longo, mostrando a ela o cenário desolado e funesto. "Não, deixe ela viver. Leve-a até o final da estrada e jogue ela lá." O chefe da tribo terminava de limpar a espada suja de sangue e a embainhava de novo, enquanto andava em direção a ela. Segurou seu rosto com força, e disse para ela correr o mais rápido que pudesse, até a próxima vila, e que avisasse as pessoas que eles estavam chegando. "Você viverá apenas para isso, menina. Estou de olho em você. Nem pense em me fazer do bobo. Não costumo deixar crianças sem castigo!" E olhou para ela, que estremeceu e engoliu em seco.

O cavaleiro a levou e a atirou ao chão, assim que chegou nos pilares de pedra, que são os marcos do outro lado da cidade. "Suma daqui, ou vamos te alcançar, criança. Corra como o vento! Avise os outros que estamos chegando!"

E Mordak correu,o mais rápido que pode, sempre olhando em volta e procurando. Uma procura preocupada, desesperada enquanto a tarde caia e a noite subia seu véu atrás dela. A próxima vila não estava perto, com certeza ela chegaria a noite. Seu coração se apertou de tanta preocupação. Nunca havia andado a noite sem uma tocha, e desacompanhada de sua família. Ela precisaria confiar em sua memória, porque nos olhos marejados, era difícil.

Sempre olhando para trás, ela agora procurava vultos gigantes e barulhentos, de cavalos enormes e galopes que tremiam o chão. Ela percebeu que estava se lembrando daquele momento, e jogou para longe essas memórias assustadoras e tristes. Não era hora de pensar naquilo, a qualquer momento aqueles homens maus chegariam pelo mesmo caminho e ficariam furiosos com ela. Esse pensamento a fez estremecer. Quando chegar na cidade, vai avisar as pessoas, e se esconder, ela precisava se esconder!

Foi então que ela viu a cidade, ao longe, bem pequena. As luzes que afugentam a noite começavam a brilhar nas casas. Um pensamento horrível arrepiou os cabelos de sua nuca! Aquelas pessoas morreriam se ela não chegasse a tempo. Mas por que soltarem ela e ainda assim avisá-los de que a morte estava a caminho? Bem, eu sempre estou a caminho, é verdade, mas ela não tinha maturidade ainda para saber disso. A real intenção, eu vou lhes dizer. Além de mensageira, ela iria indicar a eles o caminho, e eles a matariam antes de chegar até a cidade. Esperto, se você está ludibriando uma criança que não conhece a malícia. Por isso eles a fizeram livre.

A menina agora corria, como nunca correu antes, até a vila que se preparava para a noite. Deu uma última olhada para trás, e correu para uma pequena casinha caindo aos pedaços, longe da estrada, quase invisível atrás de uma árvore baixinha. Não havia ninguém ali, estava abandonada. Não tinha portas nem janelas, e o telhado havia desabado. Procurou por água ou comida, mas não encontrou nada.

Então correu para a cidade, em disparada.