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Os Pais e Seus Três Filhos · Os Pais e Seus Três Filhos — Lorena Miranda

Por Lorena Miranda

Algumas feridas não deixam marcas visíveis. Alguns silêncios escondem pedidos de socorro, e certas ausências só são compreendidas quando já é tarde demais. Três filhos, os mesmos pais e três infâncias completamente diferentes. Afinal, até onde o amor pode errar quando acredita estar fazendo o melhor?

Os Pais e Seus Três Filhos

Bem em meio à cidade, havia uma família antiga, muito rica…

Era dona de uma enorme mansão, rodeada por pinheiros e muitas plantas, que ocupava todo um quarteirão.

Naquela casa de arquitetura luxuosa, havia obras de arte, estátuas pelos corredores e paredes que estavam sempre sendo pintadas. Nunca ficavam feias ou desgastadas; assim que surgia algum mofo, logo davam um jeito de renová-las.

Morava nela um casal que estava junto havia alguns anos, além da mãe da mulher, que era fraca devido a uma doença e precisava de cuidados constantes. Claro que também havia vários funcionários, o suficiente para manter o local em ordem.

Os três viviam felizes, mas as duas mulheres sentiam falta de uma presença mais nova. A esposa queria um filho e a sogra, um neto.

Então, depois de muito conversarem, resolveram começar a tentar ter uma criança.

Após muitos meses de tentativas, a mulher começou a apresentar alguns sintomas de gravidez. Sentia enjoo pela manhã e, vez ou outra, alguma tontura. Até que fez o teste de sangue e recebeu a confirmação: estava grávida.

A família acolheu a notícia com grande alegria. Até o avô, que era divorciado e visitava a filha de vez em quando, ficou feliz em saber que finalmente teria seu primeiro neto.

Passaram-se alguns meses, e enfim puderam descobrir o sexo do bebê.

Um menino saudável e forte.

A avó, assim que soube, revelou à mãe em segredo:

— Minha filha… Preciso te contar uma coisa. — começou ela — Quando eu estava passando pelo período mais complicado da minha doença e à beira da morte, prometi a São Pantaleão que, se os médicos conseguissem me fazer sobreviver, eu colocaria o nome do meu primeiro neto homem em homenagem a ele.

A filha ficou um pouco chocada, mas, como era cristã devota e amava a mãe, aceitou o pedido.

Então a criança nasceu.

Foi registrada com Pantaleão, um nome raro que poderia lhe trazer algumas situações desagradáveis no futuro.

O bebê era muito fofo e cresceu sendo amado por todos, até que, quando completou cinco anos, pediu um irmãozinho ou uma irmãzinha como presente de aniversário.

Os pais ficaram um pouco atônitos e deixaram o assunto de lado, pois achavam que aquilo não

passava de um pedido bobo de criança, que logo seria esquecido.

De aniversário, deram a ele um enorme leão de pelúcia, tentando compensar a frustração do menino por não ter ganhado o irmãozinho que tanto queria.

Passaram-se dois anos, e descobriram que a mãe estava novamente grávida, dessa vez sem que tivesse planejado. O início da gravidez não havia apresentado os sintomas anteriores, então só perceberam quando ela já estava com cinco meses de gestação.

Logo começaram os exames e descobriram que seria uma menina.

Pantaleão ficou radiante ao pensar que seria irmão mais velho de uma garotinha. Já os pais ficaram desesperados para comprar todo o enxoval de menina e redecorar um dos quartos. Havia poucos meses para cuidar de muita coisa.

Então nasceu Maria.

Uma bebê fofa e bem-comportada, que veio ao mundo saudável e foi amada, principalmente pelo irmão.

Mas, infelizmente, aquele oásis logo se tornaria uma miragem. Pantaleão começou a sofrer chacota quando trocou de turma na escola. Seus novos colegas faziam piadas com seu nome, e o garoto começou a nutrir ressentimento tanto pelos alunos quanto pelos adultos que o rodeavam.

Seu rendimento escolar começou a despencar, e seus pais ficaram muito preocupados. Tentavam conversar com o filho, mas o menino já havia se fechado. Não queria se mostrar patético a ninguém.

Fechou-se tanto que acabou por se afastar até da tão amada irmãzinha, que já estava com seus três aninhos.

Maria ainda era muito nova para compreender o que estava acontecendo, mas tinha idade suficiente para sentir o baque de ser deixada de lado pelo irmãozão.

Então começou a dar os primeiros sinais de tristeza e melancolia.

Seus pais perceberam e, depois de muito tentarem preencher o espaço vazio que havia nela, optaram por ter mais uma criança.

Depois de algumas tentativas, a mãe engravidou novamente, dessa vez de outro garoto. E, a fim de evitar que o novo filho passasse pelas mesmas chacotas que atormentavam o mais velho, decidiram dar-lhe um nome belo e elegante.

A filha ficou bastante animada com a ideia de ter outro irmão. Pensou: quem sabe agora teria alguém com quem pudesse brincar quando seu mano mais velho não quisesse mais lhe fazer companhia?

Mas a chegada de Augusto trouxe consigo algo que ninguém havia previsto.

Seu irmãozinho nasceu prematuro e com a mesma doença da avó, o que exigiu atenção plena dos pais.

Então, a menina de apenas cinco anos começou a perder muito espaço no dia a dia da família. Até mesmo seus avós passaram a se importar menos com ela. A única pessoa que continuava a lhe dar atenção era a babá.

O filho mais velho, já rebelde, ficou ainda mais revoltado quando soube o nome do irmão.

A ele haviam dado aquele nome “ridículo”. Já ao novo integrante, haviam escolhido o melhor nome.

Augusto cresceu com todo o cuidado e amor que poderiam lhe oferecer, enquanto Maria foi se sentindo cada vez mais afastada dos pais.

O mais velho ainda tinha um pouco da atenção dos adultos, mas mais por dar trabalho do que por receber carinho e compreensão.

A mansão, que tinha cinco andares, começou a parecer gigantesca para Maria e sufocante para Pantaleão.

A filha sentia falta da atenção dos pais e do amor deles, mas supunha que incomodaria se pedisse essas coisas. Via o quanto estavam ocupados e nervosos tomando conta dos irmãos.

E assim foram se passando os anos.

O mais velho, cada dia mais revoltado.

O mais novo, cada vez mais mimado e dependente.

E Maria, cada dia mais invisível.

Um dia, a mãe estava extremamente estressada e a ponto de perder a paciência, pois estavam preparando o jantar de família para o aniversário de seis anos de Augusto, e Pantaleão ainda não havia chegado em casa.

Mesmo sem a presença do irmão mais velho, começaram a comer e, após o jantar, como sobremesa, trouxeram um bolo simples com seis velinhas para cantar os parabéns.

Logo após a comemoração, o outro irmão chegou em casa, um pouco cambaleante.

Quando seus pais viram seu estado, pediram à babá de Augusto que o levasse para passear um pouco e mandaram Maria para o seu quarto.

— Gostaria de saber onde você estava e quem deu bebida a um menor de idade! — começou o pai.

— O que foi? Precisam tanto de mim assim para comemorar mais um aniversário? E eu vou fazer dezoito daqui alguns meses…

— Não interessa! E sim… eu quero a família toda reunida nessas ocasiões importantes! — desabafou a mãe.

— Ocasião importante para vocês. Para mim é só mais uma data qualquer. Já posso subir? Quero dormir.

— Não. Você só vai sair daqui quando pedir desculpas e dizer onde o senhor estava! — insistiu a mãe.

— Pedir desculpas? Vocês que me devem desculpas! Vocês fizeram da minha vida um inferno!

— Nós te demos tudo o que você queria, seu ingrato! — o pai elevou o tom de voz — Até a irmã mais nova que você pediu nós te demos!! E hoje você mal convive com ela! Ela sente sua falta, sabia?!

— Vocês todos vão para o raio que os parta… Não aguento mais nenhum de vocês!

E assim saiu da sala de jantar. Maria havia ouvido tudo do alto da escada. Então ela só havia nascido porque seu irmão mais velho pedira uma irmã? Muitos pensamentos negativos deram voltas na sua mente, e quando ela viu Pantaleão subindo as escadas, correu para se esconder.

Os pais permaneceram discutindo por muitos minutos sobre quais seriam os passos que tomariam para dar um jeito no mais velho e acusando-o de ter estragado a noite.

Maria estava em seu quarto, chorando, sentindo-se vazia e solitária.

Sentia que ninguém a amava e que era apenas mais uma ali, como se fosse apenas mais uma gota no lago. Como se sua presença não fizesse a mínima diferença.

O mais velho estava deitado e já havia apagado.

Tudo aconteceu muito de repente.

Augusto estava correndo à frente, com sua babá o acompanhando poucos metros atrás. Ela o estava conduzindo para dentro quando ele parou no meio do caminho.

A babá soltou um grito de puro pavor assim que chegou perto o bastante para descobrir o que havia deixado o garoto paralisado.

No mármore frio estava o corpo inerte de Maria, já sem vida.

O grito da mulher chamou a atenção de todos, que correram para ver o que havia acontecido.

A mãe também entrou em estado de choque, e o pai foi quem deu suporte a tudo. O irmão mais velho continuou dormindo, sem ter a mínima noção do que estava acontecendo.

A babá levou o caçula para dentro e ficou tomando conta dele enquanto os pais resolviam todo o resto.

A perícia constatou que ela havia se jogado da janela do quinto andar, mas ainda não haviam conseguido compreender os motivos que a levaram a fazer aquilo.

Dias depois, aconteceu o enterro.

Pantaleão ficou muito triste com a notícia e chorou bastante no funeral.

Todos choraram.

Maria era querida. Só não haviam demonstrado o bastante. Ela sentia que era apenas uma gota do grande lago, mas, na verdade, foi ela a gota que fez o copo todo transbordar.

Durante os meses seguintes, alguns dos funcionários que souberam do ocorrido, ficaram conversando escondido sobre o caso. Diziam que Maria era uma ingrata, pois tinha tudo e havia agido daquela maneira.

Mas a verdade era que ela havia partido do último andar daquela imensa mansão onde tinha de tudo: artes, cofres cheios de joias e ouro, mas que, ao mesmo tempo, nada daquilo que mais precisava.

Nada de demonstrações de amor. Nem a atenção dos pais.

Depois da partida da filha, o pai ficou extremamente triste. A mãe buscou amar mais os filhos, pois tomou consciência de que não havia garantia alguma de que haveria um amanhã para cada um deles. O filho mais novo passou a ter pesadelos recorrentes e começou a pedir com frequência para dormir com a presença dos pais.

Os pais haviam feito muitos malabarismos e subornos para impedir que o verdadeiro motivo da morte da filha chegasse à imprensa.

Isso acabou corroendo cada vez mais a sanidade e o pouco que restava do vínculo que tinham com o filho mais velho.

Para ele, os culpados foram os pais e os avós, e eles precisavam pagar pelo que haviam feito.

Em uma noite de vento relativamente forte, Augusto não estava conseguindo dormir sozinho.

O vento fazia as janelas tremerem um pouco e aquilo o estava deixando ansioso.

— Pode dormir agora, meu filho. — a mãe tentava tranquilizá-lo — Esse barulho é só o vento. Não há nada a temer.

Mas ele não conseguia pregar o olho.

Acabaram levando-o para dormir na cama junto aos dois.

Enquanto o faziam adormecer, contando histórias, Pantaleão pegou seu casaco e disse à empregada:

— Não me esperem acordados. Estou indo a uma festa. Volto depois das três. — E então passou pela porta principal.

Augusto finalmente havia pegado no sono, e seus pais começaram a conversar baixinho para não acordá-lo. — Lembro-me muito bem de quando Pantaleão tinha a idade desse aqui… — a voz da mãe carregava certa nostalgia — Ele era tão fofo e inocente. Augusto, daqui a pouco, também vai começar a fazer aquelas perguntas típicas da idade, como o irmão fazia. “Mãe… porque o céu é azul?” E outras coisas assim.

— Boas lembranças essas… — continuou o pai — Uma pena o mais velho ter crescido tão rápido. E tão rebelde! Antes inocente, agora está perguntando coisas tão sem nexo! Outro dia, indagou por que o mundo anda tão violento e por que as pessoas sentem tanto ódio umas pelas outras. Eu não soube responder ao certo, mas parecia que ele só queria minha opinião. Senti que ele já tinha a própria resposta.

Na manhã seguinte, perceberam que o filho mais velho ainda não havia voltado para casa.

E nem no dia seguinte.

Ou no outro.

Pantaleão havia desaparecido.

Os pais tentaram não fazer alarde, pois tinham receio de que o sumiço do herdeiro fizesse as ações da empresa despencarem. Ao invés disso, contrataram investigadores particulares para tentar encontrá-lo.

Telefonaram para os amigos, procuraram saber das últimas pessoas que haviam estado com ele. Além de fazerem buscas por hospitais e delegacias.

Depois de meses tentando achá-lo e nada de notícias, decidiram divulgar seu desaparecimento.

Com mais pessoas à sua procura, descobriram que ele havia mudado de estado.

Estava muito mais distante do que imaginavam.

Foi de carona em carona que ele conseguiu se afastar tanto, e por fim, constataram que não havia desaparecido, mas fugido de casa.

Estava vivendo como um andarilho, dormindo onde conseguia e comendo quando dava. Não queria depender de nada da família. Chegou, inclusive, a adotar um novo nome e documentos falsos para se desvincular dos parentes.

Havia se tornado um grão de areia no meio da multidão.

Acabaram por encontrá-lo detido, pois havia se envolvido com um grupo punk e anarquistas.

Na fatídica noite da prisão, o grupo havia invadido o prédio da prefeitura e pichado um grande “A” em vermelho.

Fugiram dos policiais e, quando foram pegos, agrediram os guardas. Como ele já havia perdido o réu primário em outro incidente, acabou condenado a alguns anos de prisão.

Os pais estavam envelhecendo de tanta preocupação, inconsoláveis por mais uma vez terem falhado em criar um filho.

A família enviou seu advogado para tentar resolver a situação e compreender o que havia levado o filho a fazer aquilo.

Na conversa com o advogado, Pantaleão desabafou sobre os pais.

— Meus pais nunca me entenderam e nunca irão me entender. Na verdade, nunca nem procuraram me entender! E fizeram isso também com minha irmã. Foi por culpa deles que ela morreu. Eles precisam pagar pelo que fizeram a ela!

Sua voz estava cheia de raiva.

— Olha só… serei franco com você. — começou o advogado — Você me diz que seus pais não o entendem. Mas você já tentou entendê-los alguma vez?

O filho ficou atônito e disse que não.

— Pois então… tente entendê-los. Não culpá-los. É meio absurdo passar a vida inteira fazendo isso. Pense neles como crianças que estão aprendendo a viver a cada dia. Claro, eles talvez tenham falhado com você. Falhado miseravelmente, diga-se de passagem. Mas compreender não significa concordar.

Então seu tom ficou levemente mais suave.

— Significa tentar enxergar por que eles fizeram aquilo daquela maneira. Ninguém nasce sabendo ser pai ou mãe. Os dois também estão em processo de aprendizagem. Assim como você. Que, convenhamos… também não está sendo exatamente um bom filho.

Pantaleão engoliu seco.

O advogado não deu brecha.

— Ou você acha que ser preso com menos de vinte anos é ser um filho exemplar? Seus pais estão muito preocupados com você, garoto! Não querem ter uma segunda perda. Por favor, vamos fazer as pazes. Todos vocês. Aproveite enquanto existe essa coisa que vocês ainda têm…

O advogado fez uma breve pausa.

— O tempo.

— Tempo?

— Sim. Vocês ainda estão vivos. Ainda podem conversar. Ainda podem pedir perdão. Ainda podem aprender. — o advogado fez outra pausa e mudou o tom da voz. — Não desperdice isso… Pare de tentar tornar o passado uma dívida que ninguém conseguirá pagar.

O filho mais velho suspirou profundamente, pensativo.

Aquelas palavras tocaram fundo nele, chegando a um local onde ninguém conseguira chegar antes.

O advogado ainda completou:

— Quando você for mais velho, crescer, amadurecer, arrumar uma companheira e finalmente ter seus próprios filhos, talvez consiga entender melhor do que estou falando. Mas, por enquanto, vamos tentar tirar você daqui o mais rápido possível. Seu pai precisa de um herdeiro, e você precisa estar à altura para tomar conta das empresas da família futuramente.

Então fizeram exatamente isso.

Com um ano, conseguiram soltar Pantaleão.

Então ele entrou para a faculdade de administração, onde conheceu sua futura esposa e mãe de seus futuros filhos.

Ele, seus pais e seus avós se entenderam e voltaram a viver juntos. A avó pediu perdão por ter feito a promessa para o santo e, assim que ouviu toda a história por trás de seu nome peculiar, ele chorou e passou a gostar dele.

No fim de tudo, o único filho que continuou morando com os pais foi o mais novo.

Recebeu tanto cuidado e amor dos familiares, a ponto de torná-lo dependente da presença deles para tudo.

Augusto não conseguiu sair de casa nem depois de adulto.

O coitado acabou sendo sufocado por tanta proteção.

Esta fábula foi inspirada na música “Pais e Filhos”,

da banda Legião Urbana.