Reflexos
Yasmin cobriu os braços pela nona vez seguida desde que chegaram à frente da casa da tia de Lucas. Pensou que talvez o namorado não tivesse percebido aquele movimento que se tornara repetitivo, quase compulsivo, para tentar esconder as tatuagens que ela tanto se orgulhava em ter. Queria que a noite de Ano Novo fosse perfeita e temia que a família dele a achasse muito… Muito o quê?
— Vai acabar rasgando as mangas desse jeito, anjo — disse ele, sorrindo para ela enquanto apertava delicadamente a sua mão.
— Desculpa. Tem certeza de que vão gostar de mim?
Lucas revirou os olhos, ainda sorrindo, numa expressão teatral de quem já estava cansado de falar o óbvio para ela. Então, a beijou nos lábios vermelhos de batom e fez um carinho em seu rosto. Logo em seguida, enforcou-a levemente. Yasmin sorriu, mordendo os lábios e sentindo um calor muito diferente do nervosismo de antes. Todas as preocupações foram varridas para baixo do tapete do tesão. O desgraçado sabia exatamente onde tocar.
— Eles vão te amar — ele respondeu, beijando mais uma vez a ponta do seu nariz.
— Você se comporte, hein? Senão, vai me comer na mesa de jantar.
— Junto com o peru?
— Do lado do pavê.
— Mas é pavê ou…
Yasmin beliscou o braço de Lucas e ele gritou, rindo.
— Você conseguiu quebrar o clima com uma piada de tiozão. Pelo amor de Deus…
— É que você não viu o meu tio Hugo. É uma máquina de piada horrível. Vai gostar dele.
— É conservador? — ela perguntou, o sorriso sumindo do rosto. Novamente, tentou esconder as tatuagens do braço puxando a manga. Outro esforço inútil, claro. O braço se parecia muito com uma história em quadrinhos e a camisa branca, apesar da manga ser longa, sequer chegava aos seus pulsos.
— É. Isso ele é. Mas é gente boa. Só não sabe porcaria nenhuma de política.
Yasmin sorriu para Lucas e o abraçou. Amava olhar para ele e perceber como o namorado era confiante e que não parecia se importar nem um pouco com os defeitos que ele dizia ter, mas que ela nunca reconhecera. Assim como ela, Lucas também estava levemente acima do peso, mas ambos prometeram em janeiro começarem uma dieta e procurarem uma academia. Não por estética, disse ele durante a promessa, mas por saúde. Yasmin concordou, mas sabia que a pressão estética estava envolvida também.
Santa Fé estava em polvorosa naquela noite. A casa de Alice, tia de Lucas, ficava próxima da praça central da cidade, onde um carro de som passava naquele momento tocando Roberto Carlos num volume altíssimo. E era possível escutar o vozerio nas casas ao redor, as pessoas rindo e conversando e alguém queimando a largada e soltando um fogo de artifício que coroou o ar com luzes verdes e vermelhas. Sem som, o que impressionou Yasmin pela consciência com os animais.
Lucas tocou a campainha e imediatamente a porta da casa se abriu. Uma mulher de no máximo quarenta anos, cabelo loiro pintado e vestes brancas, apareceu por uma pequena fresta. Espiou curiosamente para fora por um instante, então abriu um sorriso e correu para abrir o portão.
— Oi, tia! — disse Lucas, enquanto Alice procurava a chave naquele molho enorme.
Yasmin até achou um pouco estranha aquela atitude suspeita de Alice conferir quem era por uma pequena fresta na porta, mas não falou nada. Não tinha tempo para comentar isso com Lucas sem que a mulher com o rosto coberto por rugas de preocupação os ouvissem. No entanto, assim que o sobrinho a cumprimentou, o sorriso dela se alargou e qualquer sinal de velhice precoce desapareceu.
— Sou sua madrinha! Me respeita, faz favor? — disse ela, segurando o rosto do afilhado entre as mãos. Então, rindo, abraçou-o com força.
— Desculpa, madrinha. Deixa eu te apresentar a Yasmin, minha namorada de quem eu tanto falei!
Yasmin estendeu a mão e abriu um sorriso, mas Alice ignorou o cumprimento para lhe abraçar com ainda mais força.
— Ah, meu Deus! Ela é tão linda! Oi, Yasmin!
A menina se sentiu acolhida como nunca antes. De repente, naquele abraço tão afetuoso, Yasmin parou de se preocupar imediatamente com o que as outras pessoas iriam pensar dela. As tatuagens deixaram de incomodar e ela assumiu que aquela noite seria incrivelmente mágica. Incrivelmente feliz e que seu ano começaria da melhor forma possível.
Estava errada, mas ainda não sabia. Ainda tinha felicidade no olhar. Ainda tinha esperança.
— O Lucas falou muito bem de você, como deve imaginar — disse Alice, passando as mãos sobre os ombros de Yasmin e olhando para ela como quem olha para uma filha recém-descoberta. A menina corou e sorriu.
— Espero que sim, viu?
— É o mínimo, né? Vamos entrando, gente. Tá fazendo frio aqui fora.
E estava mesmo. Agora que a tensão deixara o corpo de Yasmin, ela sentia o frio enregelado tocando sua pele, arrepiando as partes expostas. Lucas tocou as costas da namorada e a conduziu para dentro, logo atrás de Alice.
Dentro da casa, o ambiente era muito aconchegante e simples. Logo na sala, a mesa longa havia sido disposta de modo que os visitantes já podiam contemplar a ceia que os esperava. Lucas, que trouxera os refrigerantes e as cervejas, colocara tudo dentro da geladeira sem pedir permissão para Alice para abri-la. Imediatamente, a menina foi engolfada por outro abraço. Era Telma, irmã de Alice e mãe de Lucas.
— Chegou minha filhota! Ah, Yasmin, que saudade! — disse a mulher, os braços como tenazes envolvendo o pescoço de Yasmin, que retribuiu o carinho.
— Oi, mãe! — disse ela, rindo.
— Nem o próprio filho ela trata desse jeito — falou Lucas, de braços cruzados. Telma soltou Yasmin e se virou para ele, parecendo ofendida.
— Se você fosse legal igual ela, eu te tratava assim também.
— Boa noite, mamãezinha.
Telma abriu um sorriso e abraçou o filho com carinho. Yasmin observava aquela relação entre os dois com um leve peso no coração. Do seu lado, as coisas não eram tão bacanas como ali. Sua mãe não lidava tão bem com os sentimentos e o pai simplesmente tinha desaparecido por aí, enfiado em algum bar ou em uma cova rasa logo depois dela nascer. Para evitar que sua bateria social se esgotasse rápido, Yasmin decidiu anular aquele pensamento.
Ali também estava Antero, seu sogro, que viera cumprimentá-la primeiro com um abraço e depois o filho com um beijo na cabeça. Os dois eram muito parecidos. Antero era engenheiro mecânico e tinha uma barba grossa, mas curta, com muitos fios brancos. O cabelo penteado para o lado também começava a rarear e esbranquiçar. Ele e Telma formavam um casal incrivelmente bonito.
— Então essa é a namorada do Lucas?! — perguntou um homem chegando na sala. Tinha um copo térmico na mão e a cerveja quase se derramando para o chão. Tinha o nariz grosso e a pele avermelhada de quem passava muito tempo bebendo. — Caramba! E eu achando que cê ia ser viado!
Esse é o Hugo, Yasmin pensou.
— E qual o problema se meu filho fosse? — perguntou Antero, cruzando os braços.
— Então ia ser dois, eu e ele!
Antero e Hugo começaram a rir e logo Lucas e Yasmin entraram na mesma onda. Hugo a cumprimentou com um aperto de mão firme, onde ela pôde sentir a aspereza dos calos de alguém que trabalhava muito com as mãos. Mesmo assim, parecia um sujeito honesto. E o mesmo podia ser dito de Denise, sua esposa. Cumprimentara Yasmin com todo o respeito e pedira perdão pela piada horrível do marido.
— Ele bebeu um cadinho já, sabe como é…
— Sei bem — Yasmin respondeu, mas não achava que tinha muito a ver com bebida. E não estava ali para militar com ninguém. Queria que fosse um dia marcante pelos motivos certos, e não por ela se indispor com algum parente de Lucas.
Por fim, a última pessoa que viera realmente cumprimentar Yasmin foi dona Izolde. Era uma senhorinha mirrada, encurvada pelo peso da idade e com cabelos branquíssimos e finos. Parecia o ser humano mais bondoso que havia pisado na Terra. Abraçou-a com o máximo de força que aqueles bracinhos podiam e deixou um beijo molhado no rosto da menina.
— Você agora é minha neta.
— Agora eu sou! — disse Yasmin, os olhos se enchendo de lágrimas.
Havia ainda outras seis pessoas, incluindo três crianças que ela não se prestou a decorar o nome, mas sabia que eram primos de Lucas. Um menino era filho de Alice e aparentava ter oito anos de idade. A menina parecia ser mais nova e tinha um cabelo cacheado que Yasmin reconheceu numa outra tia do namorado, Regiane. O outro menino era mais velho do que os dois, certamente, mas tinha tanta disposição para correr pela casa quanto os dois menores.
Sentaram-se todos à mesa. Yasmin fez questão de ficar ao lado da senhora Izolde. A idosa não tirava a mão de sua mão e olhava para ela com um brilho no olhar e um sorriso como quem não quisesse desviar a atenção nem por um segundo sequer.
— Sabia que eu rezei muito pra Deus dar uma mulher digna pro meu neto?
— Ah, é? Espero que ele tenha atendido, né?
Dona Izolde assentiu, sorrindo. A mão apertou levemente os dedos de Yasmin.
— Deus fala comigo. Ele me escuta. Se você falar com Ele, Ele vai te escutar também. Sabia disso?
Yasmin, sorrindo, assentiu também. Não era religiosa. Muito pelo contrário. Sua vida basicamente a fizera se afastar da religião. Mesmo assim, era gostoso ouvir dona Izolde falar. Ela trazia algum tipo de sabedoria em cada palavra.
— Quantos anos a senhora tem?
— Parei de contar no oitenta — respondeu a avó de Lucas.
— E quanto tempo faz isso?
— Pelo menos oitenta anos — falou Lucas, rindo. Avó Izolde levantou uma mão em punho pra ele, mas estava rindo.
— Óia que moleque fio da puta.
Yasmin, que não estava esperando aquele palavrão, riu de se contorcer. Estava construindo quase uma imagem santificada de Dona Izolde e nem percebera aquilo. Lucas a acompanhou.
— Eu disse que minha família era doida — disse ele, enquanto se encaravam. Sua mão pousou levemente sobre a coxa de Yasmin. De repente, ela lançou um olhar de esguelha para a mesa e depois de volta para ele.
— Amei sua família. E eu te amo, Lucas Moreira — disse ela, num sussurro. Inesperadamente. A primeira vez em que dizia amar alguém, sem impulsividade, apenas sentimentos. Lucas arregalou os olhos e abriu a boca. Por favor, fala que me ama também. Não me deixa sozinha aqui…
Ele tocou levemente o rosto dela, como se fosse a primeira vez que a via. Então, deu um beijo rápido na ponta do seu nariz.
— Eu sei — disse Lucas, tentando o máximo possível soar como Han Solo em Star Wars: O Império Contra-Ataca. Yasmin riu e deu um soco no ombro do namorado. — Ai! Tô brincando! Eu te amo desde o dia em que pousei meus olhos em você, dona Yasmin. Eu só estava fingindo não amar para não parecer muito emocionado. Quase falei que te amava no nosso primeiro beijo. Depois quase falei que te amava na… Enfim, naquela parte. Às vezes quase escapava, mas resolvi esperar. E agora tô me sentindo um idiota por ter esperado tanto.
— Eu posso retirar o que eu disse pra você dizer primeiro.
— Por favor, retire.
— Ok. Então eu desteamo.
— Obrigado. — Lucas fez uma reverência ainda sentado. Então tomou novamente o rosto de Yasmin com as mãos firmes, fazendo um carinho em seu queixo. Sorrindo, disse: — Yasmin, eu te amo.
— Não seja emocionado, Lucas.
Os dois riram e se abraçaram. Só então perceberam que a mesa inteira estava em silêncio olhando para eles.
— Puta que pariu, acho que essa foi a coisa mais melada que eu já vi na minha vida — disse Hugo, tomando um gole de cerveja.
— Ah, é, Hugo? — perguntou Denise, cruzando os braços.
A mesa explodiu em uma gargalhada. As crianças até pararam de correr para ver o que estava acontecendo. Yasmin sentiu o rosto corar, mas não conseguia parar de rir. Escutou um “Misericórdia” vindo do seu lado, de Dona Izolde que também ria.
— Bom, pelo visto temos muito o que comemorar nesse Ano Novo, hein? — disse Alice, batendo palmas.
— Isso aí! — disse Telma, concordando com a irmã. — Finalmente você tá livre daquele desgraçado. Só isso já seria motivo suficiente pra comemorar em dobro! Vamos fazer um brinde, gente?
Alice foi a primeira a levantar a taça de vinho. Yasmin, sem entender muito o que estavam comemorando, também ergueu seu copo de refrigerante. Olhou para Lucas e ele avisou que depois explicaria tudo para ela.
Quando todos estavam com seus copos e taças erguidos, Telma falou:
— Aos novos começos e recomeços. E que o mal nunca nos encontre, amém?
— Amém! — disse Alice, rindo.
— Tintim! — gritou Antero.
Yasmin puxou o celular e mandou uma mensagem para Lucas.
“E o elefante branco na sala?”
O namorado sentiu o celular vibrar e o puxou. Deu uma rápida olhada de esguelha para ela e digitou, os dedos correndo rápido pela tela.
“Meu ex-tio era um fdp”. Depois acrescentou: “Batia nela”.
Yasmin olhou novamente para Alice. Agora entendia as rugas de preocupação e percebia o sofrimento logo abaixo de toda aquela pele e sorriso. Quis se levantar, correr até ela e abraçá-la como se a conhecesse há milhares de anos. Porra, não era sobre isso que ela lutava? Pela libertação de mulheres das mãos de filhos das putas que costumavam achar que podiam fazer o que bem entendessem.
Quando se deu conta, estava olhando por tempo demais para Alice, a ponto de que a mulher percebeu e sorria para ela sem mostrar os dentes. Um sorriso tímido, de alguém que ainda estava experimentando os ares de liberdade.
— Yasmin, o que você faz? — Alice perguntou.
— Sou professora de Inglês e estou terminando a faculdade de História — respondeu. Lucas serviu a ela um pedaço de cuscuz paulista. O gosto não condizia com a aparência, certamente.
— Isso aí é faculdade de esquerdista, não é? — perguntou Hugo.
— Por isso ela faz, tio — respondeu Lucas, tomando um gole de cerveja direto da lata.
— Mas me explica…
— Hugo, você não entende comunismo o ano todo e quer aprender agora no final? Outro dia a Yasmin te explica, dá uma aula pra todo mundo. Quem foi que fez o arroz de forno? — Telma perguntou, desviando completamente o assunto. Hugo pareceu levemente contrariado, mas voltou a conversar com Anselmo sobre alguma coisa e pareceu esquecer imediatamente a pergunta que havia feito.
A noite estava sendo incrível. Yasmin comeu e bebeu e conversou com todos. Passou um pouco mais de tempo falando com Dona Izolde, que a puxava pelo braço sempre que queria cochichar alguma coisa em seu ouvido. Em um desses momentos, a boa senhorinha perguntou se eles pretendiam ter filhos. Segurando o riso, a menina deu de ombros. O que o destino podia reservar, não é mesmo?
Ela nunca pensara em ter filhos. Gostava da liberdade e nunca tinha abordado aquele assunto com Lucas. Poxa, apenas hoje eles haviam dito que se amavam, então conversar sobre filhos seria dar um passo muito gigantesco. Porém, olhando para ele, para aquele cabelo curto e castanho, com entradas de uma calvície que viria a atingi-lo lá pelos quarenta anos, a barba cheia e os ombros largos… Ah, era de se repensar no lance de terem uma criança.
Yasmin não tivera muitos namorados. Lucas era o seu terceiro, na verdade, mas o primeiro em que ela realmente era capaz de enxergar um futuro. O primeiro que insistira demais para que ela fosse conhecer sua família. O primeiro que gostava das mesmas coisas nerds que ela. O primeiro que a beijava e a encarava nos olhos depois do beijo, bem naquele momento antes do selinho que encerrava parcialmente a conexão. O primeiro que a fazia gozar como se essa fosse a coisa mais importante da noite. O primeiro em muitos aspectos.
Com o canto dos olhos, ela viu uma movimentação do lado de fora da casa. Olhou para lá, mas era apenas o seu reflexo, encarando-a de volta. Sorriu para si mesma.
Merecia ser feliz, afinal.
Pegou o celular e olhou para o horário.
Faltavam cinco minutos, mas faltavam seis minutos.
— Quase lá! — disse. As pessoas na mesa olharam para ela. — Faltam cinco minutos.
— Nossa, passou rápido! — disse Denise. — É, minha gente. Mais um ano que vai ficando pra trás.
— Mais um… Ano que vem, concluo a faculdade de engenharia e aí vou procurar um emprego melhor — disse Lucas.
— E vamos viajar pra Europa — acrescentou Yasmin. Lucas ergueu outra lata de cerveja para ela.
— Para onde vão? — perguntou Anselmo.
— A gente quer conhecer Roma. Depois, Paris. Fazer uma Eurotrip — falou o filho.
— Que isso? — perguntou Dona Izolde, que já estava um pouco quieta à medida que se aproximavam da meia-noite.
Faltavam três minutos, mas faltavam quatro.
— É quando viajamos pelos países da Europa, vó.
Dona Izolde abriu a boca em um “ó” silencioso. Yasmin a abraçou. A cada momento, se afeiçoava mais àquelas pessoas. Não queria nunca mais sair dali. Com seu jeito delicado, a idosa chamou mais uma vez a menina para perto para lhe sussurrar no ouvido:
— Morro de medo de avião, sabia?
— Sério? Dá um medo mesmo, né? Eu morro de medo de altura.
— Mas você é forte. Você enfrenta seus medos. Você tem cabeça boa. Eu quero ficar aqui embaixo mesmo. Deus é mais. Sabe, Yasmin… O tempo vai passando mais rápido quando a gente fica velhinho, entende? Só que quanto mais tempo eu passo aqui, mais tempo eu quero passar. Meu marido foi embora tem cinco anos, mas eu ainda não quero encontrar ele. Eu gosto daqui.
— Ixi, mas a senhora ainda vai viver muito ainda! — Yasmin mentiu.
Faltavam dois minutos, mas faltavam três.
Lucas se levantou e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e pegou mais uma cerveja. Yasmin já tinha perdido as contas de quantas o namorado havia bebido, enquanto ela mesma ficava apenas no refrigerante. Tudo bem, não faria caso com ele caso ficasse bêbado. Ela também sabia dirigir. Claro, sua ideia de passar a virada de ano transando loucamente parecia estar indo por água abaixo, mas o dia primeiro podia reservar muitas coisas boas.
Mais uma vez, ela olhou pela janela. Pensou ter visto um lampejo rápido e metálico do lado de fora. Levantou só para conferir. O escuro era massivo. Nada podia ser visto por ali.
— Que foi? — Lucas perguntou, tomando um gole da cerveja e abraçando a namorada pela cintura. Yasmin pousou a cabeça em seu ombro.
— Nada, achei que tinha visto alguma coisa.
Faltava um minuto, mas faltavam dois.
— Sabe o que você viu? — O aperto na cintura se intensificou levemente.
— O quê? — Yasmin perguntou, sem tirar os olhos da janela, mas sentindo os dedos de Lucas marcarem território em seu corpo.
— Viu seu futuro.
— Ah, é? E o que eu vi no futuro?
— Você se viu rebolando em cima de mim a noite inteirinha.
— Mas você não tá bêbado demais?
— Tô calibrado só.
— Sei…
O arrepio no corpo de Yasmin se espalhou. Era como se os dedos do namorado tivessem sua própria eletricidade. Ela se virou e beijou rapidamente sua boca.
— Contagem regressiva, pessoal! — gritou Hugo.
— Dez! — gritaram em uníssono. — Nove! Oito!
Lucas abraçou Yasmin forte.
— Sete! Seis! Cinco!
Dona Izolde batia palma, animada, no ritmo da contagem. Yasmin ficou de costas para o namorado, sentindo levemente sua ereção colada à sua nádega. Lucas a abraçou com intensidade.
— Quatro! Três! Dois! Um! FELIZ ANO NOVO!
Os fogos de artifício explodiram do lado de fora. As pessoas pularam da mesa e começaram a se abraçar. Lucas virou Yasmin de frente e a beijou com vontade, abraçando-a quase como se quisesse unir o seu corpo ao dela. Yasmin respondeu aquilo. Quando terminaram de se beijar, ela sussurrou:
— Eu tinha que ter falado que te amava agora, poxa.
— Teria sido mais impactante, realmente — Lucas concordou. — Mas eu te amo mais do que achei que seria capaz de amar alguém.
Uma nova contagem regressiva se iniciou. Uma silenciosa.
Dez.
Yasmin se afastou do namorado para abraçar Dona Izolde. Beijou a idosa no rosto e fez um carinho em seu cabelo.
Nove.
— Obrigada por me receber com tanto carinho!
— Bem-vinda à família, minha neta! E Feliz Ano Novo!
Oito.
Yasmin abraçou Alice com força.
— Parabéns pela mulher que você é!
Sete.
— Obrigada, minha querida! Deus te abençoe. Feliz Ano Novo.
Seis.
Yasmin estava se deslocando para abraçar Telma.
Cinco.
Yasmin aguardava para ser abraçada pela sogra, que ainda abraçava o marido. Lucas estava abraçando a avó.
Quatro.
Fogos de artifício explodem ainda mais próximos. Cachorros latem no meio da confusão.
Três.
A porta se escancara com violência. Ninguém percebeu ainda.
Dois.
O menino de oito anos, suado e cansado, para de frente para a porta.
— Papai!
Um.
Yasmin finalmente encara o homem parado à porta. Vê o brilho metálico que ela pensara ter sido apenas a sua imaginação na mão do rapaz. Os olhos injetados de ódio. A violência oculta pela barulheira dos gritos e fogos.
Zero.
O primeiro disparo acertou Anselmo na cabeça. Pedaços de cérebro voaram para todas as direções e sangue pintou a parede outrora branca. O estampido fez com que todos se curvassem e um zunido diferente invadiu a mente de Yasmin. Ela abriu a boca para gritar, mas o choque a impedia. Logo em seguida, Denise caiu. Um buraco se formou em seu pescoço e ela imediatamente caiu sobre a mesa posta.
— Valmir! — gritou Alice. O homem a encarou como se a visse pela primeira vez. A arma disparou antes mesmo que Yasmin pudesse concluir seu raciocínio. Tudo parecia estar ocorrendo em câmera lenta. O rosto de Alice explodiu. Sua boca se desfez e a parte de trás do crânio se abriu como uma melancia.
Alguém gritava, mas Yasmin não tinha certeza se era ela ou outra pessoa. Suas pernas se recusavam a se mover. Sentiu uma mão forte pegá-la pelo ombro para tirá-la dali. Olhou para trás a tempo de ver Lucas, o homem da sua vida, implorando para que ela o seguisse.
Em seguida, seu olho esquerdo desapareceu em uma nuvem vermelha. Lucas sorriu, murmurou um “brrr” e caiu aos pés de Yasmin. Morto.
Desta vez, ela gritou. Olhou para trás, para o homem que estava atirando em todos e viu a arma reluzente apontar diretamente para ela. Escutou o estampido e sentiu uma forte pressão em seu pescoço, quase como se alguém tivesse enfiado um dedo em sua traqueia. Depois, descobriu que não conseguia respirar. O refluxo era demais… Tinha comido e bebido demais, era isso! Não estava morrendo, não estava… Sentia um líquido quente escorrer pelo seu corpo enquanto suas pernas perdiam a força. Ela tombou no chão, olhando para o desgraçado.
— Valmir, meu filho, não faz isso! — disse Dona Izolde, se aproximando com as duas mãos para cima, tentando abraçar o homem.
Ele apontou a arma para a cabeça dela. Apertou o gatilho, mas nada aconteceu.
Ela merece viver mais, Yasmin pensou, enquanto sua consciência ia embora.
Valmir olhou para a arma. Mexeu em alguma coisa nela à medida que Dona Izolde continuava a se aproximar. Então, tornou a apontar a arma para a cabeça da pobre senhora. A face de Dona Izolde desapareceu. O único olho que ainda sobrara no meio de toda aquela desgraça que era seu rosto olhava para Yasmin. E se tornava cada vez mais difícil de respirar. Cada vez mais…
Yasmin tossiu. Sangue verteu de sua boca. Mais sangue escapou da sua garganta. A visão se embaçava, escurecia.
Ela e Lucas não podiam morrer. Ela iria se casar com ele. Iam fazer uma Eurotrip. Iam…
FIM.
No dia 1º de janeiro de 2017, Campinas foi marcada por uma chacina sem precedentes. Um homem, Sidnei Ramis de Araújo, entrou por volta da meia-noite na casa da ex-sogra, para assassinar covardemente sua ex-esposa, Isamara Filier, e seu filho de oito anos, João Victor Filier de Araújo. Ele não aceitava o fim do relacionamento entre os dois. Além dos dois, mais dez pessoas morreram naquela noite trágica. Três sobreviveram, uma delas com ferimentos graves.
Este conto é inspirado neste caso. É inspirado nas inúmeras notícias de casos brutais de Feminicídio que acontecem no Brasil e no mundo. Culturas de internet, como a Red Pill e os Incels, fortalecem situações como essa, colocando mulheres como meros objetos. Vidas são interrompidas por homens cruéis, fortalecidos por discursos de ódio que são facilmente acessados em canais no YouTube, Instagram, TikTok ou Facebook. Tudo assim, abertamente.
No ano de 2025, ocorreram cerca de 4 feminicídios por dia. Até o mês de setembro, mais de mil mulheres sofreram com isso. Os casos explodiram em comparação aos anos anteriores. Curiosamente, o número de canais de “homens de valor”, “café com teu pai”, “red pills” e “incels” cresceu absurdamente. Todos propagando discursos machistas, que apenas fortalecem a crença de que mulheres podem sim morrer ou serem espancadas só por serem mulheres.
A crença de que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher” ficou para trás. Caso tenha presenciado uma situação assustadora, denuncie. Disque 180 para a Delegacia da Mulher. Não se cale. Busque ajuda. Perceba os sinais. Ele não vai mudar. Ele não mudou da noite para o dia. Não foi só um empurrão. Não foi só um tapa. Não foi só uma constância abusiva de xingamentos. Não foi só uma penetração não-consentida enquanto você dormia. Preste atenção nos vídeos, nos filmes, nos textos que este homem consome. Cuide de sua vida, em primeiro lugar.
Tentei retratar no conto como essas coisas acontecem. Assim, do nada. Uma hora se está planejando o mundo inteiro. Um segundo depois, todos os sonhos se findam pela insanidade de uma pessoa que nem se conhece. Yasmin e Lucas são um casal fictício, mas que existem aos milhares por aí. Assim como Donas Izoldes, Hugos, Telmas e Alices.
Principalmente Alices.