capitulo 3 as 35
"O peso de uma coroa invisível é sempre sentido muito antes de que ela toque os seus cabelos."
As portas maciças e douradas do palácio real de Illéa abriram-se com um rangido solene, revelando um mundo que Sofia só conhecia através das páginas empoeiradas de diários antigos e dos sussurros protetores de sua mãe. O ar dentro da Grande Sala de Entrada era denso, carregado com o perfume exótico de lírios brancos e a eletricidade palpável de dezenas de destinos prestes a colidir. Sofia respirou fundo, forçando seus ombros a se manterem erguidos. Ela trazia consigo a herança silenciosa de sua família, um segredo diatópico guardado a sete chaves, mas naquele momento, o que todos viam era a realeza personificada.
Sua postura era impecável, adornada por um vestido de tirar o fôlego. O tecido luxuoso em um tom profundo de azul-noite moldava-se perfeitamente à sua silhueta antes de se abrir em uma impressionante bainha em V, adornada com delicados bordados em fios prateados que cintilavam a cada passo. As mangas fofas, presas com elegância nos pulsos, davam ao traje um ar de conto de fadas clássico, contrastando com a firmeza moderna em seu olhar. Ela não era apenas uma competidora na Seleção; sob os olhos de todos, ela desfilava com a graça inegável de uma verdadeira princesa.
Enquanto caminhava pelo tapete escarlate, o burburinho do salão começou a se transformar em um mosaico de sussurros e olhares curiosos. Foi então que o seu caminho cruzou com o das outras garotas. O grupo heterogêneo de trinta e cinco competidoras parecia dividido por abismos invisíveis de castas e rivalidades.
Quase instantaneamente, um rosto doce e acolhedor emergiu da multidão. Era Marlee Tames, da Casta 4, cujos olhos azuis brilhavam com uma bondade genuína que parecia totalmente deslocada naquele ambiente competitivo. Ao lado dela, Mary e a doce Elize trocavam olhares nervosos, enquanto Lucy, com sua postura sempre trêmula e os olhos grandes cheios de inocência, tentava se esconder atrás de um pilar de mármore. O calor daquele breve reconhecimento fez o peito de Sofia se aquecer; havia ali almas genuínas, refúgios em meio à tempestade.
Mas o encanto durou pouco.
A poucos passos dali, o verdadeiro contraste daquela competição se manifestava na ala das riquinhas da Casta 2. O grupo de trinta e cinco garotas fúteis e mimadas exalava um perfume enjoativo de superioridade. E liderando aquele bando de esnobes estava Celeste Newcome. O "demônio" em pessoa, como Sofia pensou ao cruzar com o olhar afiado e calculista da garota. Celeste ostentava um sorriso venenoso, avaliando Sofia de cima a baixo com um desdém tão palpável que parecia quase físico, como se estivesse medindo o valor de uma rival que pretendia destruir antes mesmo que o jogo começasse de verdade.
Sofia não recuou. Ela ergueu ainda mais o queixo, devolvendo a Celeste um olhar de gelo e serenidade. As portas da Seleção estavam abertas, o jogo de aparências e segredos havia começado, e ela não pretendia ser apenas mais uma a se curvar.
— Olá, queridas meninas. Sejam bem-vindas ao reino de Iléia! — a rainha Amberly disse, com aquele sorriso caloroso e sereno que parecia abraçar o salão inteiro. — Quero saber seus nomes. Façam uma fila, por favor.
O burburinho começou imediatamente. Guardas e criados organizavam as selecionadas.
— Senhoritas da casta das artes, por aqui — chamou um dos oficiais. — Senhoritas Marlee, May e Elize, deem um passo à frente.
Marlee, com seu jeito expansivo e alegre, ajeitou o vestido e olhou para o lado, procurando a amiga. Ela viu a garota encolhida, tentando se misturar com as cortinas de seda do grande salão de Angeles.
— Sofia, é a sua vez! Vai lá! — Marlee disse, dando um tapinha suave nas costas dela, com os olhos brilhando de empolgação.
Sofia deu um passo para trás, o rosto ganhando um tom violento de vermelho que contrastava com a sua maquiagem leve. Ela agarrou o tecido do próprio vestido, os nós dos dedos brancos de tanta força. Com apenas 15 anos, estar naquele palácio imenso, sob o olhar da realeza e de dezenas de câmeras, parecia um pesadelo sufocante. Sua timidez, que em sua província natal todos chamavam de "um charme encantador de menina", ali semelhava apenas um peso.
— Eu não vou... — Sofia sussurrou, a voz quase sumindo, os olhos arregalados de pânico. — Vai você lá, Marlee. Por favor, vai você na frente.
— De jeito nenhum, boba! A rainha chamou por ordem. Anda, esbanja esse seu sorrisinho que vai dar tudo certo — insistiu Marlee, tentando puxá-la delicadamente pelo pulso.
— Eu não quero ir! — Sofia fincou os pés no chão de mármore polido, a respiração acelerada. Ela inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, indicando a ponta da fila com um olhar aterrorizado. — Olha lá... Tem aquela demônia da Celeste bem ali na frente. Ela tá me olhando como se quisesse me triturar e jogar os restos no jardim do palácio. Eu não vou lá nem amarrada, Marlee! Aquela mulher é o próprio cão de salto alto. Se eu der um passo em falso, ela me engole viva na frente da rainha. Vai você, eu fico aqui atrás de você, bem escondida!
Marlee soltou uma risadinha abafada, tentando disfarçar o riso enquanto olhava de relance para a imponente Celeste, que realmente desfilava pelo salão como se já fosse a dona da coroa.
— Ah, Sofia, deixa de bobagem! — Marlee revirou os olhos, mas manteve o tom de voz baixo para ninguém por perto escutar. — A Celeste é só gogó. Se você se esconder agora, ela ganha sem nem precisar se esforçar!
Sofia continuava estática, quase fundida à parede de mármore. Marlee, percebendo que a tática da insistência não ia funcionar com o pânico da amiga, mudou de estratégia na hora. Ela se aproximou mais, bloqueando a visão de Sofia para o resto do salão, e segurou as duas mãos da garota, que estavam geladas.
— Olha para mim, não olha para ela — Marlee pediu, com um sorriso doce e acolhedor que desarmou um pouco a tensão de Sofia. — Você tem quinze anos, Sofia. É a mais nova aqui, é linda, e tem um talento que aquela ali não compra nem com todo o dinheiro da casta dela. A rainha Amberly não quer ver uma estátua perfeita e arrogante como a Celeste. Ela quer ver a gente. De verdade.
Sofia engoliu em seco, olhando para as mãos de Marlee.
— Mas e se eu gaguejar? E se eu tropeçar no vestido? — a voz de Sofia falhou, os olhos lacrimejando de puro nervosismo. — A Celeste vai rir da minha cara na frente de todo mundo, Marlee. Eu não tenho o salto dela, não tenho a postura dela...
— E graças a Deus você não tem! — Marlee brincou, dando uma piscadela. — Sabe o que você tem? A mim. Eu vou logo atrás de você. Se você tropeçar, eu te seguro. Se você gaguejar, eu tusso bem alto para disfarçar. E se a demônia de salto alto olhar torto, eu mesma piso no pé dela "sem querer" na hora de andar. O que acha?
Um risinho tímido finalmente escapou dos lábios de Sofia, quebrando o gelo no peito da menina.
— Você faria mesmo isso? — perguntou Sofia, limpando o cantinho do olho com cuidado para não borrar a maquiagem.
— Com certeza! Mas só se você der o primeiro passo agora — Marlee deu um tapinha encorajador no ombro dela e a empurrou de leve para a fila. — Vai lá, Sofia. De queixo erguido. Mostra para essa rainha quem é você.
Inspirada pelas palavras de Marlee, Sofia respirou fundo, ajeitou a saia do vestido com as mãos trêmulas e deu o primeiro passo. Ela ignorou o olhar afiado de Celeste e focou apenas na figura elegante e acolhedora da soberana à sua frente.
A fila andou rápido, até que o oficial do palácio anunciou:
— Senhorita Sofia, da província de Angeles, casta cinco.
O coração de Sofia deu um salto. Ela avançou até a marcação no chão, sentindo o peso de todos os olhares do salão, e fez uma reverência um pouco desajeitada por conta do nervosismo. Quando ergueu a cabeça, as bochechas estavam completamente coradas, revelando toda a timidez de seus 15 anos.
A Rainha Amberly deu um sorriso genuíno e caloroso, inclinando-se ligeiramente para frente no trono para passar mais confiança à garota.
— Seja muito bem-vinda, querida Sofia — disse a rainha, com uma voz que parecia uma melodia suave. — Não precisa ter medo. O palácio pode parecer assustador no começo, mas logo você vai se sentir em casa. Me conte, qual é o seu talento na casta das artes?
Sofia engoliu em seco, sentindo as mãos suarem. Ela olhou de relance para trás e viu Marlee fazendo um sinal de positivo com os dedos. Tomando coragem, ela respondeu com a voz um pouco miúda, mas firme:
— M-majestade... Eu toco violino e gosto de pintar paisagens — Sofia sorriu amarelo, encolhendo os ombros com aquela timidez que, em vez de parecer fraqueza, transmitia uma pureza encantadora. — Minha mãe sempre diz que eu converso melhor com as cordas do instrumento do que com as pessoas.
A rainha Amberly soltou uma risada leve e terna, claramente cativada pela inocência da menina.
— A música e a pintura são formas lindas de comunicação, Sofia. Mal posso esperar para ouvir você tocar e ver suas telas. Você trouxe uma sensibilidade adorável para a Seleção.
Ao fundo, Celeste cruzou os braços e soltou um suspiro audível de tédio, mas Sofia estava tão aliviada que nem se importou. Ela fez outra reverência, desta vez bem mais firme, e deu um passo para o lado com um sorriso radiante no rosto, abrindo caminho para Marlee.
Antes que Marlee pudesse dar o seu passo à frente, as grandes portas duplas do salão se abriram com um estrondo elegante. O som de botas firmes ecoou pelo mármore, interrompendo o burburinho das garotas.
O Príncipe Henry entrou no recinto, acompanhado por um pequeno grupo de seus cavalheiros da guarda real. Ele vestia seu uniforme oficial com a postura impecável de um herdeiro do trono, mas trazia no rosto aquele meio sorriso jovem e curioso que fez o coração de metade das selecionadas disparar na mesma hora.
Ao ver o filho, o rosto da Rainha Amberly se iluminou ainda mais. Henry caminhou até a mãe, fazendo uma breve e respeitosa reverência antes de se virar para o grupo de garotas da casta cinco que aguardava na fila.
— Minha mãe — disse Henry, com a voz ecoando aveludada pelo salão. — Espero não estar interrompendo as apresentações. Fiquei curioso para conhecer as senhoritas que acabaram de chegar.
— De forma alguma, querido — Amberly respondeu, indicando Sofia, que ainda estava ali perto, com as bochechas vermelhas de vergonha pela presença repentina do príncipe. — Estávamos conhecendo a senhorita Sofia. Ela é uma musicista e pintora de Angeles.
Henry deu um passo na direção de Sofia. Os cavalheiros dele pararam logo atrás, mantendo uma distância formal. O olhar do príncipe pousou na menina de 15 anos, e ele percebeu imediatamente o pânico tímido que a dominava ao ter a atenção dele totalmente voltada para ela.
— Uma artista? — Henry sorriu de forma gentil, tentando diminuir a tensão dela. — O palácio tem excelentes galerias, senhorita Sofia. Espero que encontre inspiração nelas para as suas telas. E quem sabe, em um momento oportuno, possa nos honrar com uma melodia.
Sofia sentiu o estômago dar voltas. Ela olhou para Henry, depois para Marlee, que cobria a boca com as mãos para não soltar um gritinho de empolgação ao fundo.
— S-sim, Alteza... Seria uma honra — Sofia gaguejou, abaixando a cabeça rapidamente para esconder o rosto que queimava de timidez, o que só a deixou ainda mais adorável aos olhos de quem assistia.
De relance, deu para ver Celeste dar um passo à frente na fila, ajeitando a postura de forma milimétricamente calculada, pronta para atrair os olhos do príncipe Henry para si e ofuscar a garota mais nova.
Antes que Sofia pudesse se afastar totalmente para o lado, Celeste viu a oportunidade perfeita para brilhar e tirar aquela garota boba do caminho. Com passos firmes e o queixo erguido, ela avançou com uma autoconfiança cortante, desfilando em direção ao Príncipe Henry.
Ao passar por Sofia, Celeste não apenas cortou a frente da menina, mas usou o próprio quadril e o ombro para dar um empurrão seco e intencional na garota de 15 anos.
— Com licença, querida — Celeste fingiu um tom casual, mas a força do golpe desestabilizou Sofia, que já usava saltos com os quais não tinha costume.
O pé de Sofia virou no mármore polido. Ela soltou um gritinho de surpresa e perdeu totalmente o equilíbrio, caindo sentada no chão com um baque surdo. A saia do seu vestido rodado se espalhou de forma desajeitada ao seu redor.
O salão prendeu a respiração. Um silêncio gelado tomou conta do ambiente.
— Oh, me perdoe! — Celeste levou a mão à boca, simulando uma surpresa completamente falsa, enquanto olhava para Sofia de cima para baixo com um sorriso maldoso e vitorioso nos olhos. — Eu não vi que você estava no meio do caminho, tão encolhidinha... Essa sua mania de se esconder quase te deixa invisível. Você devia tomar mais cuidado onde pisa, menininha. O palácio não é lugar para quem não se aguenta em pé.
Sofia sentiu as lágrimas arderem em seus olhos instantaneamente, não pela queda física, mas pela humilhação pública. O rosto dela queimou tanto que ela desejava que o chão de mármore se abrisse sob ela.
A Rainha Amberly franziu o cenho com uma expressão de profunda desaprovação pelo comportamento de Celeste. Marlee, na fila, cerrou os punhos, pronta para avançar em Celeste, mas foi o Príncipe Henry quem reagiu primeiro.
O príncipe deu um passo largo à frente, ignorando completamente o charme calculado de Celeste, e passou direto por ela. Ele se agachou na frente de Sofia, estendendo a mão enluvada com uma expressão de genuína preocupação.
— A senhorita está bem?