Capítulo 1: O Peso da Coroa e o Despertar de Ileia
Capítulo 1: O Peso da Coroa e o Despertar de Íleia
O mármore do Grande Salão de Íleia não refletia apenas a luz fria dos candelabros de ferro fundido; ele espelhava o sangue e a audácia de um império recém-nascido das cinzas. O ar fedia a cera derretida, vinho tinto e a eletricidade tensa de uma corte que ainda aprendia a respirar sob uma nova bandeira.
Do alto de seu trono entalhado em carvalho negro — o mesmo trono que antes pertencia aos reis caídos de uma Europa fragmentada —, o Rei Clarkson observava o horizonte através dos arcos ogivais. O ano era 125. Íleia era jovem, frágil e faminta por estabilidade. E a estabilidade, pensava Clarkson, não se conquistava com tratados de paz assinados em pergaminhos frágeis, mas com alianças forjadas no fogo da carne e da coroa.
— Trinta e cinco, Majestade? — a voz do Conselheiro Vane cortou o silêncio, arrastada e carregada de uma hesitação calculada. Ele ajustava os pergaminhos nas mãos trêmulas, os olhos fixos no chão polido. — Trinta e cinco donzelas de todas as províncias para provar o valor de conquistar a confiança do Príncipe Henry... É um espetáculo grandioso, decerto. Mas os murmúrios já começam nos corredores. A nobreza questiona se o herdeiro do trono precisa de um torneio de corte para aprender a governar o próprio coração.
Clarkson virou-se lentamente. Seus olhos tinham a dureza do aço temperado nas guerras de unificação.
— Que murmurem, Vane — respondeu a voz grave, ecoando pelas paredes de pedra. — O povo e os lordes precisam ver que Íleia não é apenas um nome em um mapa, mas uma dinastia imorredoura. Henry carrega o sangue do norte em suas veias, mas é frio como o inverno que nos quase destruiu. Ele precisa de fogo. Precisa aprender que um rei não governa apenas com decretos, mas escolhendo a faca certa para cortar suas próprias amarras. Apenas uma será escolhida. E essa escolha moldará o destino do império para os próximos séculos.
Vane engoliu em seco, desenrolando o pergaminho principal com um leve tremor nos dedos.
— Compreendo, Majestade. Mas... há um detalhe que o senhor omitiu nos relatórios oficiais. A Senhorita Sofia, da Casta 6... filha do seu falecido companheiro de armas, o Rei Ricardo da província de Navarra, no sul do século XV... Ela foi formalmente convocada. Contudo, os mensageiros relatam que a princesa Sofia é de uma timidez quase dolorosa. Isolada em suas terras natais, ela mal conhece os sussurros da corte, quem dirá as maquinações deste castelo. Seria ela capaz de suportar a ferocidade de Íleia?
Um sorriso gélido, quase imperceptível, cruzou os lábios de Clarkson.
— A timidez, Vane, muitas vezes é apenas a armadura daqueles que sabem demais e falam de menos. Ricardo morreu ao meu lado empunhando a espada para que este império pudesse nascer. Devo isso à memória dele. Além disso... — Clarkson inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos — ...as flores mais venenosas costumam crescer nos jardins mais silenciosos. Ela virá.
Antes que o conselheiro pudesse replicar, o som de passos apressados e pesados ecoou pelo corredor lateral. As pesadas portas de carvalho se abriram com um estrondo.
A Rainha Amberly entrou no salão. Seus olhos faiscavam com a fúria contida de quem conhecia a alma do marido melhor do que ninguém. Ela não usava a coroa naquele momento, mas sua postura irradiava uma autoridade que fazia até os guardas reais prenderem a respiração.
— Clarkson! — a voz dela cortou o ar como uma lâmina. — Você vai parar de açoitar Henry com essas trinta e cinco meninas circulando pelos corredores do nosso castelo?
Vane deu dois passos para trás, encolhendo-se contra a pilastra de pedra, desejando ser invisível.
Clarkson não recuou. Ele ergueu o queixo, encarando a esposa com a mesma firmeza com que liderava seus exércitos.
— Não é um açoite, Amberly. É um rito de passagem.
— Foi exatamente assim no ano 124, quando você açoitou psicologicamente o nosso filho com aquela insuportável disputa de sucessão! — retrucou Amberly, aproximando-se o suficiente para que o perfume de jasmim e lavanda se misturasse ao cheiro de poder do salão. — Você está transformando o coração do nosso filho em um campo de batalha político, digno dos piores jogos de tronos que destruíram os antigos reinos. Henry não é um peão no seu tabuleiro de expansão territorial. Ele está ferido, confuso e ressentido!
— Henry é o Príncipe Herdeiro de Íleia! — rugiu Clarkson, erguendo-se do trono com imponência. A sala inteira pareceu encolher-se ao redor de sua figura dominante. — O mundo fora destes muros nos observa, Amberly. Os lordes do norte querem nos ver fracos; os rebeldes do sul esperam o momento de nos apunhalar pelas costas. Se o meu filho não souber distinguir entre uma cortesã interesseira e uma rainha de pulso firme, Íleia cairá antes mesmo de completar uma década de vida! Não posso mimá-lo com a paz que comprei com o meu próprio sangue.
O silêncio que se seguiu foi denso, cortante, quase palpável. Amberly o encarou, o peito subindo e descendo em respirações profundas, a fúria lentamente dando lugar a uma profunda e melancólica preocupação maternal. Ela sabia que ele estava errado, mas sabia também que, naquele mundo brutal, a lógica cruel do marido mantinha o castelo de pé.
Clarkson desviou o olhar para o conselheiro, que aguardava trêmulo, curvado.
— Vane — ordenou o rei, com a voz fria e implacável novamente. — Entregue estes convites para as trinta e cinco donzelas em todos os cantos do reino. E faça questão de que o convite especial para a Senhorita Sofia seja entregue em suas mãos no mês de março. Que o destino de Íleia comece a ser tecido.