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A Candidata: Entre o Amor e o Trono · Capítulo 2: O Lobo sob a Seda e a Fúria de Navarra — joaovictorgazola114@gmail.com

Por joaovictorgazola114@gmail.com

Trinta e cinco garotas. Um castelo de pedra gélida no coração de Illéa. E uma coroa que vale mais do que qualquer vida. No século XV, as paredes do imponente palácio real escondem segredos sangrentos, alianças políticas brutais e os corações mais ambiciosos do reino. Para Sofia, a Competição de Illéa nunca foi um sonho de princesa — era um pesadelo silencioso. Acostumada a abaixar a cabeça, esconder-se atrás de seus próprios medos e viver na sombra da timidez que a sufoca, Sofia só aceitou entrar na disputa para salvar sua família da fome. Ela queria passar despercebida. O problema é que o futuro rei não consegue tirar os olhos da garota que foge dos holofotes. Entre vestidos de brocado pesado, banquetes à luz de tochas e sussurros nos corredores labirínticos do castelo, Sofia logo percebe que a timidez não é fraqueza — é o disfarce perfeito para observar as armadilhas ao seu redor. À medida que a pressão aumenta e as rivais começam a ser eliminadas uma a uma, a garota acuada dá lugar a uma força implacável. Sofia descobre que, para sobreviver à crueldade da corte medieval, ela não precisa fingir ser quem não é. Ela vai reescrever as regras do jogo. Não é sobre quem usa o vestido mais bonito. É sobre quem tem fogo o bastante para incendiar o trono.

Capítulo 2: O Lobo sob a Seda e a Fúria de Navarra

Sobre a mesa de carvalho escuro, banhada pela luz dourada e oblíqua do entardecer, repousava o pergaminho lacrado com o brasão de ferro e ouro de Illéa. A cera vermelha ostentava a coroa imperial do Rei Clarkson. Para a corte de Navarra, aquele pedaço de papel não era um convite; era uma intimação. Uma coleira dourada enviada do norte para medir a obediência das províncias subjugadas.

Sentada na cadeira de espaldar alto, Sofia de Navarra parecia uma figura saída de um conto de fadas esquecido pelos deuses. Cabelos negros como a noite caíam em ondas perfeitas sobre ombros delicados, e seus grandes olhos amendoados guardavam a profundidade de um lago intocado. À primeira vista, a postura contida e o silêncio quase sepulcral com que encarava a carta faziam jus à fama de princesa tímida e frágil que os cronistas da nobreza espalhavam pelos salões da Europa.

Mas quem se deixasse enganar pelas aparências estava a um segundo de perder a cabeça. Ou a dignidade.

Aquela mesma "donzela etérea" já havia expulsado dos domínios de Navarra três pretendentes de alta estirpe — lordes pomposos e cavaleiros soberbos que tentaram tratá-la como um bibelô político. O primeiro saíra choramingando após Sofia ironizar a inteligência dele comparando-a à de um nabo murcho; o segundo, após ouvir um tratado filosófico detalhado sobre por que sua armadura brilhante compensava a absoluta falta de caráter; e o terceiro... bem, o terceiro correra quando percebeu que a princesa tinha o hábito peculiar de alimentar um lobo selvagem nos fundos do fosso e parecia considerá-lo uma companhia muito mais civilizada do que a nobreza europeia.

A porta da biblioteca abriu-se com um rangido suave. A Rainha Clarissa entrou carregando o peso do mundo nos ombros, mas com a serenidade altiva de quem sempre serviu como a bússola emocional daquela família. Em um mundo esmagado pelo machismo brutal da época e pelas sombras sufocantes do fanatismo moral imposto pela Igreja Católica — que queimava fogueiras sob qualquer pretexto de herege ou bruxaria —, Clarissa era o único porto seguro. Ela protegia a filha com unhas e dentes da sanha inquisitória que rondava as fronteiras do reino.

— O cororreio de Illéa acabou de partir, Sofia — disse Clarissa, parando diante da mesa, os olhos fixos no pergaminho. Um suspiro pesado escapou de seus lábios. — Trinta e cinco garotas. O Rei Clarkson enlouqueceu de vez. Ele quer transformar o próprio filho em um gladiador emocional e todas vocês em peças de um tabuleiro de xadrez imperial.

Sofia levantou o olhar lentamente. Um sorriso irônico, perigoso e cortante como uma adaga, desenhou-se em seus lábios vermelhos. Ela empurrou o pergaminho para longe com a ponta do dedo.

— Deixe-o tentar, mamãe — a voz de Sofia saiu baixa, melodiosa, mas carregada de uma ironia mordaz que cortava o ar. — Dizem que o Príncipe Henry é tão fechado e gélido que até as paredes do castelo dele congelam. Vão colocar trinta e cinco garotas desesperadas para disputar migalhas de atenção de um herdeiro traumatizado pelas tâmpicas manias de grandeza do pai. É quase comovente. Uma verdadeira tragédia pastoral.

Clarissa cruzou os braços, fitando a filha com uma mistura de orgulho feroz e preocupação maternais.

— Não brinque com isso, Sofia. A Inquisição e os bispos do norte estão de olho em cada passo dado pelas casas reais. Qualquer deslize seu, qualquer resposta atravessada para um enviado da Igreja ou para o próprio imperador de Illéa, e eles usarão o pretexto do nosso "comportamento não convencional" para rotular Navarra como um antro de rebeldia pagã. Você sabe como o fanatismo católico atual funciona: eles chamam de pecado qualquer mulher que ouse pensar por conta própria.

— Que venham — retrucou Sofia, levantando-se com uma elegância felina que fazia o

tecido de seu vestido sussurrar contra o chão. Ela caminhou até a janela alta, observando a imensidão da floresta lá fora, onde seu lobo cinzento aguardava nas sombras. — Se eles esperam uma ovelha dócil para adornar o salão de Illéa e abaixar a cabeça para o primeiro lorde arrogante que tentar dar ordens, vão ter uma surpresa desagradável. Eu já mandei três tolos de volta para casa com o rabo entre as pernas. Mais um príncipe metido a imperador não fará diferença. Pelo menos lá fora o tédio será menor.

Antes que Clarissa pudesse responder à audácia da filha, passos pesados e apressados ecoaram pelo corredor de pedra. A porta foi empurrada com violência.

O Rei Ricardo III de Navarra entrou marchando como quem vai para o cadafalso, com a cota de malha tilintando e a mão crispada no punho da espada. O rosto do rei estava rubro de fúria contida, os olhos faiscando de indignação diante de mais um decreto absurdo vindo de Illéa.

— Ora, mas que diabos esses tiranos do norte pensam que são?! — trovejou Ricardo, gesticulando descontroladamente com os braços. — Mandar buscar a minha filha como se fosse um troféu de feira de gado para saciar a megalomania de Clarkson?! Por todos os santos e cruzes, nós já estamos saindo para... botar as nossas espadas para fora e marchar direto para o norte para ensinar aquele imperador de meia-pataca a respeitar a coroa de Navarra!

O silêncio na biblioteca durou exatos dois segundos antes que a Rainha Clarissa fechasse os olhos, respirasse fundo para conter a enxaqueca iminente e desse o seu clássico grito de bronca.

— Ricardo III de Navarra! — berrou Clarissa, a voz ecoando pelas paredes de pedra com tanta autoridade que fez o próprio rei estacas no lugar, engolindo em seco. — Quer parar de agir como um garoto de doze anos que teve o brinquedo roubado?! "Botar as espadas para fora"? Você acha que a política de um continente se resolve em uma briga de taverna, seu velho teimoso?! A Inquisição está vigiando cada movimento nosso, os cofres estão apertados, e você quer iniciar uma guerra santa porque feriram o seu orgulho patriarcal? Pense com a cabeça de cima, por favor!

Ricardo piscou, tossiu sem graça, endireitou a capa e olhou de soslaio para a esposa e

depois para a filha, que assistia à cena com um sorriso divertido nos lábios.

— Bem... — murmurou o rei, pigarreando e tentando recuperar a postura régia. — Eu só achei a abordagem um tanto... deselegante.

Sofia aproximou-se do pai, deu um leve tapinha irônico em seu peito coberto de ferro e olhou-o nos olhos com a mesma acidez afiada que a caracterizava.

— Fique tranquilo, meu pai. Guarde a espada para inimigos que valham a pena — murmurou a princesa, os olhos brilhando com uma expectativa perigosa. — Afinal, se o Rei Clarkson quer um exército no castelo dele... ele não faz ideia do tipo de lesta que está convidando para entrar pelo portão da frente.