a primeira testemunha
A moça corria dentro da mata, com o filho no colo, e o filho não chorava mais; choro gasta força, e a força daquele menino tinha chegado ao fim. Os pés dela conheciam o chão da floresta desde menina; a planta era calejada, e pé calejado anda por onde quer na mata. Naquele passo, o pé dela não andava por onde queria; andava por onde dava. Era o passo de quem carrega recado que não espera; nesse passo o pé pisa torto, em raiz, em pedra, em buraco, e os galhos raspavam a perna dela, o braço, o rosto, abrindo risco; e ela não desviava dos galhos, porque desviar gastava tempo, e tempo era o que faltava.
Quem mora na beira da mata sabe: na mata, os bichos se avisam; o aviso começa em um, passa para o outro, e anda adiante de quem anda. Quando a moça passou correndo, a mata toda soube antes dela chegar. O pé dela batia o chão com todo o peso do corpo; a folha seca da vazante estalava sob cada pisada; o barulho ia adiante dela, de árvore em árvore, e chegava antes dela. Os passarinhos pequenos cortaram o canto, um a um, na frente dela e atrás; na mata, silêncio também é recado. O uirapuru, que é o vigia do bando, deu o grito de alarme; o bando de macaco parou o que fazia e passou o aviso adiante; a queixada bateu os dentes e mudou de rumo, para o lado de onde o barulho não vinha. Nenhum ser da mata viu ela passar; todos souberam.
O corpo dela reagia do jeito que todo corpo reage quando corre no fim das forças. O coração batia no peito, num passo mais apertado do que o passo dela, e sem parar de bater. O ar entrava e não dava conta; o ar daquele ano vinha carregado de fumaça, e respirar fundo ardia por dentro; a respiração vinha curta, uma atrás da outra, sem tempo de encher o pulmão. A boca secou; a língua pesava; na garganta tinha um gosto de sangue que não saía de ferida nenhuma.
Uma dor fincou embaixo das costelas, do lado esquerdo; dor de corrida comprida, que só alivia quando a corrida para; e parar não entrava no plano dela. As pernas pesavam; as coxas ardiam de dentro; o músculo do braço tremia sozinho com o peso do menino; o joelho dobrou uma vez, e ela apertou o filho contra o peito e não caiu. O suor descia pelo rosto e entrava nos riscos dos galhos, e os riscos ardiam; a vista escurecia nas beiradas, clareava, escurecia outra vez; a cabeça doía atrás dos olhos; a tontura vinha em onda, ela corria mais abaixada, e a onda passava.
O corpo pedia parada; pedia com dor em cada junta, com o peito rasgando, com as forças indo embora aos poucos, indo de um jeito que dava para sentir. E ela não parava. O recado que ela carregava era maior do que o corpo; e um corpo aguenta muito tempo além do ponto em que diz que não aguenta.
Em cima da mata o ar estava parado e escuro; fazia dias que o céu não abria; e a moça não olhava para cima. Ela tinha visto algo no meio da mata, e o que ela viu, esta história conta no tempo certo de contar; não agora. Agora importa o que ela sabia: que tinha visto o que ninguém mais tinha visto, e que o pajé precisava saber.
A aldeia era comprida, esticada ao longo da margem. Quando a moça saiu da mata, o rosto dela estava sujo de terra e de sangue, e ela vinha gritando um nome: Kumuri; Kumuri; Kumuri. E a aldeia parou; as mães que cuidavam do fogo pararam; as que peneiravam farinha pararam; as crianças pararam no meio do jogo; o velho da rede parou com a corda na mão. Ninguém tinha visto aquela moça correr daquele jeito, e ninguém precisou perguntar de onde vinha o apressamento; moça sã não atravessa a mata daquele jeito, com menino no colo.
No fim da aldeia ficava a oca onde o pajé meditava, e ali mulher não entrava. Na porta ficavam homens de vigia, chefes de família, homens de saber; e quando viram a moça chegar com aquele jeito, todos entenderam na mesma hora que ela vinha querendo entrar, e que entrar não podia.
Ela não parou. Um esticou o braço; ela dobrou para o lado do braço. Dois fecharam a passagem com o corpo; ela se abaixou e passou por baixo. Pegaram ela pelo braço, pela saia, puxaram ela para trás; ela se soltou e se jogou de novo na porta; e nenhum daqueles homens teve coragem de segurar de verdade aquela moça com o menino doente no colo; e ela passou.
O pajé estava sentado no fundo da oca. A moça parou na frente dele, o peito subindo e descendo, o rosto sujo, o filho no colo; e abriu a boca para chamar o nome dele:
— Kumu...
E o corpo dela dobrou, e ela caiu no chão, desfalecida, com o menino no colo. Quando ela caiu, o pajé sentiu no próprio peito. O coração dele apertou, forte, de uma vez; uma dor que amassava por dentro. O pajé ficou onde estava, atônito; não se levantou, não chamou ninguém; ficou olhando para a moça no chão e para o menino no colo dela. Ele não sabia o que ela tinha visto; não sabia o que ela veio dizer; mas sabia, com a certeza dos velhos, que a entrada daquela moça, daquele jeito, não era entrada à toa. O corpo dela tinha chegado até ele carregando o que carregava; e o corpo dele sentiu. A oca ficou quieta.
O que ela tinha visto no meio da mata, e o que ela veio dizer, ninguém escutou naquele dia; esta história conta quando for a hora de contar.