o vento que não veio
Naquele ano o vento não veio, e sem vento a fumaça não tinha para onde ir. A fumaça, os ribeirinhos conheciam bem, toda vazante tinha. A água baixava nos rios, as praias apareciam, o homem limpava a terra com fogo, o fogo liberava a fumaça; a fumaça subia, seguindo para o oeste, na direção das montanhas do Peru. O céu escurecia uns dias, a chuva chegava e lavava tudo. Era assim desde antes das memórias mais velhas das comunidades, ninguém se preocupava; naquele ano não foi diferente.
Iniciaram as queimadas, a fumaça subiu, mas o vento não veio. A fumaça de uma queimada se misturou com a fumaça de outras; e tudo aquilo que devia ter se espalhado pelo continente permaneceu sobre a mesma região, dia após dia, semana após semana; subia de manhã com o calor, e descia à noite, sem ir embora.
Em Manaus, o manto ficou mais espesso; o meio-dia passou a ter luz de fim de tarde. Quem olhava para cima via o sol pequeno, um disco vermelho; e podia olhar direto, sem apertar os olhos. As cinzas pousavam na água do rio, cobriam os barcos, entravam nas casas pela fresta da janela; o cheiro de queimado ficava na roupa, na comida, no travesseiro. Do outro lado do rio, a margem que sempre esteve ali desapareceu; e havia mais: a água tinha baixado muito. Barco precisa de água funda para seguir, e a vazante daquele ano afastou as águas de perto das casas. Para chegar em qualquer lugar era preciso fazer viagem longa, gastando diesel caro demais para quem vive do rio, e ainda com risco no caminho; porque na região, no vazio que a fumaça deixava, circulavam bandidos e piratas.
E o sol virou o assunto da cidade. Nas conversas do mercado, no porto, na porta da escola, o assunto era sempre o mesmo; e quem tinha telefone filmava o céu para mandar para o parente longe, e o parente respondia perguntando se era verdade. Nas casas, o povo fechava porta e janela, e mesmo assim a fumaça entrava; uma moradora contou que parecia neblina dentro da casa, que quase não dava para enxergar o próprio quarto. Quem mede o ar no mundo inteiro pôs Manaus, naqueles dias, entre os três piores ares do planeta; e o povo da cidade não precisava de máquina nenhuma para saber; bastava respirar. No mês inteiro, o ar bom tinha dado um dia só; e o povo guardou lembrança do dia. Com o medo, quem pôde, foi embora: avião para o sul, casa de parente em outro estado, mudança às pressas. A maioria não pôde; o trabalho estava ali, a casa estava ali, e mudar custava dinheiro que a maioria não tinha; e a cidade ficou, olhando para cima.
O rio era a estrada de todo mundo ali, e a estrada tinha fechado; e daí veio a doença. Começou pelos idosos tossindo, depois as crianças, depois todos juntos. Os hospitais encheram nas cidades da margem, e não foi só em um lugar, nem só em um estado; a floresta é grande, e é de vários países; o manto escuro se estendia a essas localidades. Abaixo da fumaça, a floresta continuava de pé, extensa, viva; tinha igarapé, várzea, árvore centenária; tinha comunidade ribeirinha vivendo do jeito que sempre viveu, da água e da mata. E foi justamente esse o detalhe que ninguém conseguiu explicar: a fumaça era grande demais para a quantidade de fogo que começou no chão.
E os sintomas, o povo conhecia de cor: ardência nos olhos, rouquidão, tosse insistente, dor de cabeça que vinha com a fumaça; falta de ar para subir escada, para andar dois quarteirões. A fumaça carregava um pó fino demais para o olho ver; pó que passa a garganta, desce o fundo do pulmão e cai na corrente do sangue; e no corpo não tem porteiro para esse pó. A tosse não escolhia; mas quem mais sofria era o pequeno e o velho; os que estudam a saúde do povo contaram depois: nos dias de mais fogo, a internação por doença de peito e de coração subiu mais de um quinto em todo o país; perto dos locais de queimada, o hospital de crianças enchia o dobro; e o mal desse pó não acaba quando o fogo apaga, o dano fica no corpo por anos.
As pessoas, com medo, reduziram os incêndios; o número de queimadas caiu, o fogo diminuiu, mas o manto continuou crescendo. A fumaça não se comportava como o esperado, não estava sendo empurrada pelos ventos que ainda sopravam em outras regiões. Ela avançava contra o vento, em vez de se deixar guiar por ele; e assim ia ficando concentrada onde não devia ficar.
Os jornais e as televisões mostravam o mapa da fumaça: uma mancha vermelha em cima do estado, crescendo dia após dia; e noticiavam o fogo e o rio baixo. De cada dez cidades do Amazonas, nove tinham pedido socorro; quase o estado inteiro em emergência. E o mundo inteiro olhava para a Amazônia naquele mês; jornalistas de outros países desembarcaram em Manaus com câmeras para filmar o sol vermelho e o povo tossindo; e a notícia andava o mundo em outras línguas, sempre com a mesma imagem: a floresta debaixo da fumaça.
Os que estudam o céu mediram, compararam com todos os anos anteriores, e não encontraram um ano parecido. Mas o povo da região sabia de onde vinha a fumaça; vinha das queimadas, como todo ano, isso ninguém ignorava. O que ninguém sabia era o porquê de ela não ir embora; o porquê de não se dissipar; o porquê de não se espalhar, se mantendo no mesmo lugar há tanto tempo. Sem resposta, cada comunidade passou a criar a própria; uns diziam que era castigo, outros que era o fim do mundo começando devagar; nenhuma era a certa. Todos que perguntavam embaixo, sem saber, faziam a mesma pergunta que os deuses faziam de cima; mas primeiro é preciso entender o que a fumaça interrompeu.
Naquela terra, em anos anteriores, já havia ocorrido uma quantidade de fogo maior que o normal; onde a fumaça também havia coberto a região por dias; a diferença foi que o vento veio; a fumaça se dissipou, e o céu se abriu de novo. O que nunca tinha acontecido era o ciclo do mundo ser interrompido daquela forma.
Tudo funciona assim: o Sol esquenta a água; a água evapora; o vapor sobe, chega ao frio lá em cima e vira nuvem. A nuvem carregada de água se expande, escurece e vira chuva. A chuva desce, lava o céu, devolve a água para o rio, e o ciclo começa outra vez. Já o sol levanta a água de tudo o que é molhado neste mundo: do rio, do mar, do oceano; do chão, da folha. É trabalho contínuo, sem dia de folga, desde que a água existe.
Quem governa o Sol é Guaraci. Ele anda o mundo inteiro desde antes de o mundo dar nome às coisas; é divindade universal, atua no planeta todo. Nesse período da humanidade, no Brasil, o conhecem por esse nome, Guaraci; nome que ele assumiu diante dos povos que precisavam nomear a luz. E de nome, ele assumiu também forma; o corpo que os povos daqui conhecem é corpo que ele vestiu diante deles, para ser visto: homem novo, de pele bronzeada, de corpo forte; o cabelo preto, liso, comprido, caindo no ombro; o rosto sério, os olhos escuros, amendoados, atentos; e no rosto, linhas vermelhas de pintura, pintadas do jeito que os povos da floresta pintam os seus; a pintura veio junto com o corpo que ele vestiu. Na cabeça, penas; no peito, pendurado num cordão de contas, um disco de sol; nos braços, faixas trançadas; da cintura para baixo, um pano com franjas de pena; e os pés, descalços. Os locais gostam de afirmar que a morada dele fica na Amazônia, e não por acaso, é de lá que sai a água que sobe e viaja para molhar o resto do mundo. Guaraci esteve no começo de tudo, com seu pai, Tupã, que criou a terra, as águas e o próprio filho, o regente do sol. Os dois criaram juntos os primeiros seres vivos, deram o pontapé inicial trazendo do nada a existência da vida. E assim, a vida se multiplicou por si mesma a partir dali.
Guaraci é senhor do fogo celeste; um fogo permanente, distante, luminoso, fonte de energia. Não tem nada a ver com o fogo da terra, que aquece, cozinha, transforma, limpa uma área, e também destrói. O fogo da terra o homem acende; o fogo do céu é o de Guaraci, e a função dele é guardar e proteger os vivos durante o dia.
Pela primeira vez desde o começo de tudo, ele não conseguia cumprir a própria função; a fumaça ficou entre ele e o trabalho. A luz continuava surgindo, com a mesma força; atravessava a camada de fumaça, mas chegava espalhada, enfraquecida; diferente daquela que durante eras alcançou a floresta.
A fumaça não apagou o Sol, mudou o caminho da energia, e parte dela que desceria para o chão, ficou presa naquele manto escuro, que esquentou. O chão embaixo recebeu menos calor, o ar de cima ficou mais quente do que sempre esteve, e o ar quente parado em cima não deixava o ar de baixo subir. O ar que não sobe não faz nuvem, a nuvem que não surge não faz chuva, e sem chuva ninguém lava o céu. E assim o manto ficava mais tempo nas alturas impedindo a chuva seguinte; o ciclo começou a se alimentar do próprio defeito.
Guaraci tentou o único gesto que sabia: fez o Sol arder mais forte. A camada de fumaça reteve o calor extra, esquentou mais, ficou mais firme em cima; e assim, a nuvem que podia surgir não surgiu, e embaixo, a luz continuava não chegando. O calor a mais não resolveu; piorou. Guaraci entendeu a armadilha; e era a primeira vez que não sabia onde consertar: não por falta de força, algo tomava o controle, e ele não conseguia identificar.
Guaraci recordou o que os humanos fizeram quando tudo começou. Eles seguiram queimando vendo o céu fechar, e o rio se cobrir de cinza; seguiram acendendo o fogo com as próprias mãos. Ele os havia acompanhado por dias, de cima, e viu o que sempre via, sem conseguir desviar o olhar: os humanos caminhando para o próprio fim, plantando o próprio fim, e com uma sede, uma vontade destrutiva que eles mesmos não conseguiam enxergar. Passaram tanto tempo cercados pelos benefícios da tecnologia, que se acostumaram a eles; deixando de perceber os malefícios que causavam no planeta a cada dia. E a lista de malefícios havia crescido, e ninguém embaixo parecia disposto a ler.
Guaraci pensou no pai; o pensamento não foi a lugar nenhum, porque o pai não estava na Terra; ninguém sabia dizer por onde andava Tupã, e Guaraci não ia perguntar. Ele desceu para a beira do rio, ficou de pé próximo às águas, e disse em voz alta, para a fumaça que não negociava:
— O que fazer? O que ainda posso fazer?
Ninguém respondeu; as cinzas continuaram pousando na água na frente dele, lentamente, e a margem do outro lado continuava afastada; foi quando ele adentrou na floresta.