Capítulo 1
O Reino de Navarra erguia-se altaneiro sobre as colinas verdejantes do norte, uma joia de arquitetura gótica e jardins imaculados que desafiava a passagem do tempo. No coração de sua capital, o Castelo Real dominava a paisagem com suas torres de pedra calcária branca e cúpulas de cobre envelhecido. Pelos corredores amplos, iluminados por imensos lustres de cristal e tapeçarias tecidas à mão com fios de ouro, a corte do Rei Ricardo pulsava em um ritmo próprio de sussurros elegantes, sedas farfalhantes e rivalidades silenciosas dignas de um tabuleiro de xadrez.
O Rei Ricardo, soberano de olhar severo e passos firmes, presidia a corte com uma mistura de pompa do século XIX e rigor autocrático. Ao seu lado, a Rainha Clarissa desfilava sua graça glacial, uma mulher cujos vestidos de crinolina pareciam armadilhas de perfeição, sempre ditando o tom do que era aceitável e do que era escandaloso nos salões de baile. Para o mundo exterior, Navarra era a imagem viva da prosperidade e do refinamento supremo.
Mas, enquanto o piso inferior do castelo ecoava com o burburinho dos nobres que disputavam o favor real, o segundo andar guardava refúgios bem mais silenciosos.
Longe dos olhares julgadores da corte e do peso sufocante dos protocolos, Sofia encontrava-se sozinha em seus aposentos particulares. A luz dourada do crepúsculo coava-se pelas altas janelas de vidro lapidado, projetando sombras longas sobre o piso de carvalho encerado.
Vestida com um negligé de algodão cru e espartilho frouxo — um alívio bem-vindo após horas de espartilhos rígidos e vestidos de baile —, ela estava sentado à beira da cama de dossel, com as pernas cruzadas sobre o tecido pesado de veludo bordado. Em seu colo repousava um alaúde de madeira escura, entalhado com delicados arabescos de madrepérola.
Os dedos de Sofia, ainda macios mas calejados nas pontas pelo treino diário, roçaram com carinho as cordas de tripa. Ela dedilhou uma melodia melancólica e suave, uma valsa proibida que aprendera às ocultas com uma antiga aia, bem longe dos ouvidos atentos da Rainha Clarissa. Cada nota que vibrava no ar parecia romper, nem que fosse por um breve instante, as paredes invisíveis que a cercavam naquele castelo magnífico.
Para a corte, ela era apenas mais uma silhueta graciosa no cenário de Navarra. Mas, enquanto a música preenchia o silêncio do quarto, Sofia sabia que sua verdadeira história ainda estava por ser escrita.
O som suave das cordas do alaúde ainda pairava no ar quando a pesada porta de madeira de mogno se abriu sem aviso prévio.
A Rainha Clarissa entrou nos aposentos com a postura impecável de quem jamais havia cometido um deslize na vida. Seus trajes de veludo azul-escuro farfalhavam a cada passo, e seu olhar, frio e analítico, varreu o quarto até pousar sobre Sofia, que sobressaltou-se, recolhendo o instrumento contra o peito como se ele fosse um escudo.
— Sofia, por favor, endireite essa postura imediatamente. Pareces uma camponesa curvada sobre um fardo de trigo, e não uma princesa de Navarra — repreendeu Clarissa, a voz cortante como vidro lapidado, enquanto cruzava os braços com elegância austera. — E afaste esse cabelo do rosto. É inadmissível que uma jovem da realeza esconda seus traços atrás de uma cortina de fios desalinhados. O mundo não vai esperar por ti se tiveres medo de encará-lo.
Sofia engoliu em seco, sentindo o calor ruborizar suas bochechas. Rapidamente, com dedos trêmulos, enfiou uma mecha rebelde de seus longos cabelos castanhos atrás da orelha, abaixando o olhar para os próprios sapatos.
— Desculpe, mamãe... É que eu estava apenas... — murmurou Sofia, a voz tão baixa que mal se distinguiu do eco do vento lá fora. Seus ombros encolheram-se ainda mais sob o tecido leve do vestido; a simples ideia de estar no centro das atenções fazia seu estômago dar voltas dolorosas. Ela detestava os grandes salões, detestava os sussurros da nobreza e, acima de tudo, detestava a perspectiva de ser olhada e julgada.
Clarissa suspirou longamente, exibindo um descontentamento quase teatral, e ergueu um envelope pesado, selado com a cera de ouro e o brasão imponente de um reino distante.
— Deixe de murmúrios. Trago algo que mudará o rumo de nossa casa — disse a rainha, estendendo o convite com uma ponta de orgulho mal disfarçado. — Chegou esta tarde, trazido por um mensageiro real de Illéa. O Príncipe herdeiro abriu as portas do Palácio de Angeles para a Seleção. Moças de todas as províncias e reinos aliados foram convidadas a competir pelo coração do futuro rei. E o teu nome, Sofia, está oficialmente inscrito.
Sofia arregalou os olhos, sentindo o ar faltar-lhe nos pulmões. Illéa. A Seleção. O peso daquelas palavras despencou sobre ela como uma avalanche.
— Não... Não, mamãe, por favor! — Sofia balançou a cabeça freneticamente, as lágrimas ameaçando brilhar em seus olhos enquanto apertava o alaúde com força. — A senhora sabe como eu sou. Eu não consigo falar em público, quanto mais competir pela atenção de um príncipe que eu nem conheço! Viver cercada de câmeras, repórteres e... espionagem da corte... Eu vou falhar miseravelmente. Vão rir de mim no primeiro dia!
— Ora, Clarissa, deixe a menina respirar — uma voz grave e calorosa ecoou na entrada do quarto.
O Rei Ricardo aproximou-se, apoiando a mão pesada, porém afetuosa, no batente da porta. Ele olhou para a esposa com uma serenidade firme e, em seguida, dirigiu um sorriso compreensivo à filha.
— Meu amor — disse Ricardo, dando alguns passos lentos em direção a Sofia e agachando-se levemente para ficar na altura dela —, eu sei que o teu coração não pertence a bailes estridentes nem a coroas pesadas. Vejo o quanto sofres com a pressão de ser quem a corte espera que sejas. Mas lembre-se de que a timidez não é uma fraqueza; é apenas a tua alma escolhendo proteger-se em um mundo barulhento.
Ele tocou gentilmente o dorso da mão trêmula de Sofia.
— Illéa é longe, e a Seleção exigirá coragem que talvez aches não possuir. Mas não estás sozinha, e teu pai jamais te obrigaria a vestir uma pele que não é tua. Pensa nisso não como um castigo, Sofia, mas como a oportunidade de descobrir a força que tens escondida atrás dessas cordas e desse cabelo.
Clarissa ergueu o queixo, irredutível, embora tolerasse a condescendência do marido.
— Ela tem sangue de reis nas veias, Ricardo. Chegará o momento em que a timidez terá de dar lugar ao dever. O convite está feito, Sofia. E o reino de Navarra não recua diante de um destino.