Pular para o conteúdo

Sofia a escolhida · Capítulo 2 — joaovictorgazola114@gmail.com

Por joaovictorgazola114@gmail.com

Em um reino onde os sussurros da corte pesam mais do que coroas, trinta garotas disputam o trono, o glamour e a atenção do herdeiro do trono no maior espetáculo de Illéa. Mas para Sofia, a ideia de competir sob os holofotes é o seu pior pesadelo. Enquanto o mundo desfila falsas perfeições, ela esconde a sua timidez atrás de longos cabelos e das cordas de seu alaúde, aterrorizada com a possibilidade de ser devorada pela ambição alheia. No entanto, em meio a vestidos de baile e rivalidades implacáveis, a verdadeira coragem não está em quem grita mais alto, mas na sincridade de um coração que se recusa a ser moldado. Entre segredos de palácio e olhares cruzados nos salões reais, Sofia descobrirá que até mesmo o mais intocável dos príncipes pode se render à garota que o enxerga além do ouro. Até onde a timidez de uma princesa poderá resistir quando o destino decidir colocá-la sob a luz dos holofotes?

Capítulo 2

O alvorecer de uma terça-feira cinzenta trouxe consigo um silêncio pesado e solene para as ruas de paralelepípedos em frente ao modesto chalé. Não era o som habitual dos pássaros ou o murmúrio distante do mercado que rompia a quietude da manhã, mas sim o ritmo pesado e cadenciado de cascos de cavalos batendo contra o chão de pedra, seguido pelo rangido abafado de rodas revestidas a ferro.

Através da vidraça embaçada pela geada, Sofia observava a cena com o coração preso na garganta. Parada bem no centro da rua, imponente e reluzente sob a luz fraca do amanhecer, estava a carruagem real de Iléa. Pintada em um tom profundo de azul-marinho e adornada com entalhes dourados que ostentavam o brasão da coroa, ela parecia uma criatura mágica recém-saída de um conto de fadas — e terrivelmente fora de lugar naquele bairro humilde.

Dentro do quarto, o cheiro de lavanda misturava-se à tensão palpável. Sofia ajustava os últimos detalhes de sua capa de viagem de veludo escuro sobre os ombros, sentindo o peso do colar de ametista gelando contra a sua pele. Suas mãos tremiam levemente, e ela precisou fechar os olhos por um segundo, respirando fundo para conter a onda de pânico que ameaçava paralisá-la.

— Tenha coragem e seja gentil, querida — a voz da mãe ecoou suavemente atrás dela, carregando aquele mesmo conforto maternal que parecia ancorar o mundo de Sofia quando ele ameaçava desabar.

A porta do chalé abriu-se com um rangido leve, e o rei Ricardo entrou, trazendo nos olhos o orgulho de sempre, mas também uma ponta inevitável de melancolia pela despedida. Ele abriu os braços, puxando a filha para um abraço apertado e seguro, sussurrando em seu ouvido com aquele sorriso na voz que ela conhecia tão bem:

— Lembre-se de quem você é, minha princesa de Navarra. Nenhuma carruagem deste mundo ou título de palácio pode mudar a garota maravilhosa que você é por dentro. O príncipe Henry é que terá a sorte de cruzar o seu caminho.

Com um nó na garganta, Sofia assentiu, despedindo-se da mãe com um beijo rápido e dos braços do pai com um aperto de mãos cheio de promessas mudas.

Ela deu o passo decisivo para fora da porta. O ar frio da manhã atingiu seu rosto como uma lâmina, mas ela manteve a coluna erguida. Na entrada da carruagem, um lacaio real em libré impecável curvou-se profundamente, estendendo a mão enluvada de branco para ajudá-la a subir os degraus de metal dourado.

Ao tocar o estofado de veludo macio no interior do veículo, Sofia sentiu a porta fechar-se com um baque abafado, isolando-a do mundo que conhecia. Através da janelinha de vidro bisotado, ela viu seus pais acenando pela última vez sob a luz fraca do amanhecer, antes que a carruagem desse um solavanco suave e começasse a avançar.

O caminho para o palácio de Iléa havia começado, e com ele, o destino que mudaria sua vida para sempre.