Pular para o conteúdo

Sofia a escolhida · Capítulo 4 — joaovictorgazola114@gmail.com

Por joaovictorgazola114@gmail.com

Em um reino onde os sussurros da corte pesam mais do que coroas, trinta garotas disputam o trono, o glamour e a atenção do herdeiro do trono no maior espetáculo de Illéa. Mas para Sofia, a ideia de competir sob os holofotes é o seu pior pesadelo. Enquanto o mundo desfila falsas perfeições, ela esconde a sua timidez atrás de longos cabelos e das cordas de seu alaúde, aterrorizada com a possibilidade de ser devorada pela ambição alheia. No entanto, em meio a vestidos de baile e rivalidades implacáveis, a verdadeira coragem não está em quem grita mais alto, mas na sincridade de um coração que se recusa a ser moldado. Entre segredos de palácio e olhares cruzados nos salões reais, Sofia descobrirá que até mesmo o mais intocável dos príncipes pode se render à garota que o enxerga além do ouro. Até onde a timidez de uma princesa poderá resistir quando o destino decidir colocá-la sob a luz dos holofotes?

Capítulo 4

O som do próprio coração batendo nos ouvidos parecia abafar qualquer outro barulho no Salão das Estrelas. Quando os olhos azuis de Henry se cravaram nos seus, Sofia sentiu o estômago dar uma volta completa. Suas mãos, traidoras, voaram instantaneamente para as longas e compridas ondas de seu cabelo castanho, enrolando uma mecha com força enquanto ela tentava desviar o olhar. Percebendo a vulnerabilidade, Sofia rapidamente puxou a mão, apoiando-a firme na cintura, erguendo o queixo com aquela mistura toda adolescente de marra e pânico puro.

Henry, no entanto, não desviou o olhar. Pelo contrário, os passos firmes do príncipe mudaram de direção, cortando o tapete vermelho em passos decididos até pararem bem diante dela. O burburinho das outras dezenas de garotas ao redor pareceu silenciar, transformando-se em um zumbido distante.

Por um instante, o herdeiro de Iléa apenas a observou de cima a baixo — o vestido estruturado da alta casa real de Navarra, o colar de ametista brilhando contra o peito e, acima de tudo, a expressão transparente de quem estaria mil vezes mais feliz cuidando de um jardim empoeirado do que naquele altar de ouro.

Um sorriso lento, suave e genuinamente curioso despontou nos lábios de Henry, desfazendo a pose régia e rígida que ele trazia desde a entrada.

— Que senhorita linda... — a voz dele saiu baixa, quase um segredo compartilhado apenas entre os dois, carregada de uma doçura inesperada que fez o ar faltar nos pulmões de Sofia. — Posso jurar que você não faz parte do meu reino. Qual é o seu nome, e de onde veio essa coragem toda para parecer tão deslocada e, ao mesmo tempo, incrivelmente fascinante?

Sofia sentiu o rosto queimar de um vermelho escarlate. Ela tentou engolir em seco, mas a garganta parecia de areia. Desviou os olhos por um segundo, brincando nervosamente com a barra da manga do vestido, antes de forçar os olhos a encararem os dele com um misto de timidez e insolência defensiva.

— S-sou Sofia, alteza... de Navarra — respondeu ela, a voz saindo um pouco trêmula no início, mas ganhando firmeza enquanto ela mantinha a mão firmemente fincada na cintura. — E eu não estou tentando parecer fascinante. Na verdade, estou apenas rezando para que este piso de mármore se abra e me engole, porque todas essas regras, tiaras e olhares estão me sufocando. Se isso é ser uma princesa, acho que prefiro voltar para casa a cavalo.

Henry soltou uma risada baixa, um som melodioso e caloroso que ecoou suavemente no salão, surpreendendo a todos — e principalmente a Sofia. Longe de parecer ofendido, o brilho em seus olhos azuis intensificou-se, misturando divertimento e uma profunda ternura.

Ele deu mais um passo à frente, diminuindo a distância de forma respeitosa, mas protetora, e inclinou levemente a cabeça para fitá-la de perto.

— Sabe, Sofia de Navarra... desde o momento em que passei porquelas portas, tudo o que vi foram cortesias ensaiadas, sorrisos falsos e garotas tentando me agradar a qualquer custo — disse Henry, com um tom de voz incrivelmente doce e delicado, como se estivesse conversando com ela na varanda de uma casa vazia. — Mas você... você está aqui parada, parecendo um furacão de verdade em meio a tantas bonecas de porcelana. E quer saber de uma coisa? Eu não me importo com quantas regras o protocolo exija.

Ele estendeu levemente a mão, sem tocá-la, mas mantendo-a próxima o suficiente para lhe oferecer um porto seguro no meio daquela tempestade de atenções.

— Não precisa ter medo de todo esse peso, Sofia. Eu estou aqui para cuidar de você — continuou ele, com um sorriso acolhedor que desarmou qualquer armadura que ela tentasse vestir. — A partir de agora, você é a minha dama nesta corte. Prometo que não deixarei que nada de mal lhe aconteça... nem mesmo o tédio deste lugar.

Sofia ficou completamente sem palavras. O peito subia e descia em um ritmo acelerado, dividido entre o pânico de ser o centro das atenções do futuro rei e o calor inexplicável que aquelas palavras trouxeram para o seu coração.

O sussurro coletivo que varreu o Salão das Estrelas foi quase audível, como o som de dezenas de folhas secas sendo pisoteadas pelo vento. Nos cantos do salão, agrupadas perto das colunas de mármore e das mesas de doces, as trinta e cinco garotas que competiam pelo colar e pelo coração de Iléa paralisaram. Os leques de renda fecharam-se bruscamente, e os sorrisos polidos e ensaiados diante dos espelhos deram lugar a expressões de choque, incredulidade e uma irritação profunda.

Mary, que estava a poucos passos de Sofia, arregalou os olhos em um misto de surpresa e diversão, enquanto Marlee cobria a boca com a mão para abafar um muxoxo. Mas, ao redor delas, o clima era de pura tempestade.

— Quem ela pensa que é? — sibilou Celeste, ajustando as alças de seu vestido de organza rosa-choque com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Seus olhos faiscavam de pura inveja enquanto fuzilavam a nuca de Sofia. — Ela chega atrasada, com aquela postura torta, usando um colar esquisito de Navarra que parece ter saído de um museu antigo, e o príncipe Henry simplesmente cruza o salão inteiro direto para ela? Ele nem olhou para o meu vestido importado de Nova Asir!

— Você viu a pose dela? Com a mão na cintura, parecendo uma camponesa rebelde? — murmurou outra concorrente, revirando os olhos com tanto desdém que quase perdeu o equilíbrio sobre os saltos finos. — O príncipe deve estar enfeitiçado ou perdeu completamente o juízo. Nenhuma garota de verdade age assim na frente da realeza. Ela está só fingindo essa timidez toda para chamar a atenção com um teatro barato!

— Pois é ridículo — acrescentou uma terceira, cruzando os braços com força e batendo o pé no chão de mármore, fazendo o som ecoar discretamente. — A gente passou semanas ensaiando a reverência perfeita, estudando a história de cada província, sorrindo até a boca doer para qualquer lacaio que passasse, e vem essa... essa garota do norte e conquista a atenção dele em dois segundos com uma carinha de quem está perdida? Se ela acha que vai roubar a cena tão fácil assim, está muito enganada. O jogo mal começou.

Enquanto o coro de murmúrios venenosos e indignados crescia entre as concorrentes, que trocavam olhares cúmplices de reprovação e ódio velado, Sofia continuava ali, completamente alheia ao ninho de vespas que acabara de agitar, absorvendo apenas o calor daquelas palavras inesperadas que o príncipe concluíra de lhe sussurrar.

Enquanto o príncipe Henry ainda trocava aquelas palavras doces com Sofia — deixando uma trilha de inveja ardente entre as trinta e cinco concorrentes —, Marlee reapareceu ao lado da amiga quase correndo, ajeitando as dobras do vestido de baile com uma expressão misturada de alívio e exasperação. Ela olhou para os lados, notando o cerco de olhares fuzilantes que as cercava.

— Pelos céus, Sofia! — sussurrou Marlee, abanando o rosto com a mão enluvada enquanto tentava recuperar o fôlego. — Eu te deixo sozinha por exatos quinze segundos para pegar uma taça de suco de frutas, e você consegue virar o alvo principal de todas as víboras deste salão? Onde diabos estava aquela sonsa da minha colega Mary para te fazer companhia e te tirar dessa mira?

Sofia, ainda com o coração aos saltos e os dedos presos em uma mecha de seu longo cabelo castanho ondulado, deu de ombros timidamente, levando logo em seguida a mão livre à cintura em sua pose defensiva habitual.

— E-eu não fiz nada, Marlee... — balbuciou Sofia em um tom baixinho, sentindo o rosto esquentar ainda mais ao ver as garotas ao redor cochichando de ódio. — A culpa não foi minha se o príncipe simplesmente resolveu atravessar o salão inteiro. Quanto à Mary... bem, ela disse que ia ver os doces, mas acho que encontrou uma confusão bem antes disso.

E bota confusão nisso.

A poucos metros dali, o motivo do sumiço de Mary tornava-se cristalino. O burburinho polido do Salão das Estrelas foi subitamente cortado por um tom de voz agudo, estridente e carregado de uma indignação cortante que fez o sangue de metade dos convidados gelar.

— Escuta aqui, sua boneca de porcelana falsificada de New Hanover! — berrou Mary, com os olhos faiscando de pura fúria e o rosto tingido de um vermelho escarlate, gesticulando descontroladamente a poucos centímetros do nariz de outra concorrente. — Você pode ter o vestido mais caro importado da capital e uma coroa de cristal tcheco brilhando nessa sua cabeça oca, mas se voltar a insinuar que eu pisei de propósito na barra da sua saia ridícula de plumas, eu juro pelas chagas de Iléa que não vou me importar com as regras do palácio e vou usar esse seu colar de pérolas falsas para te enforcar bem aqui, no

A outra garota, uma loira de postura impecável cujo penteado custara certamente horas de trabalho, recuou um passo, horrorizada e tremendo de raiva, com as mãos crispadas na saia bufante.

— Como você ousa falar comigo nesse tom de plebeia desequilibrada?! — retrucou a rival, com a voz estrangulada pelo choque, enquanto tentava manter a pose diante do escândalo que acabavam de armar. — Você é só uma provinciana mal-educada que não sabe se portar em uma corte! Os guardas deveriam te arrastar para fora agora mesmo!

— Ah, tente chamar os guardas! — retrucou Mary, dando um passo à frente com tanta intensidade que parecia prestes a saltar no pescoço da oponente, os punhos fechados ao lado do corpo. — Vamos ver se o rei prefere expulsar a garota que disse a verdade na sua cara ou a fútil que passa o dia inteiro armando rasteira nas outras pelas costas! Eu não tenho medo de você, o garoto de New Hanover já te rejeitou e você está descontando a sua amargura em todo mundo! Quer repetir o que disse sobre a minha amiga Sofia? Vamos, repita na minha cara!

O silêncio no salão tornou-se mortal. Nem mesmo os músicos ousavam tocar uma nota, enquanto todas as atenções migravam do príncipe Henry — que agora olhava a cena com um misto de diversão contida — para o duelo verbal explosivo que Mary protagonizava no centro do tapete vermelho.

Sofia arregalou os olhos, puxando o cabelo com força redobrada e levando a mão de volta à cintura, murmurando em desespero para Marlee:

— Por todos os deuses... a Mary vai conseguir fazer com que nos mandem de volta para casa na primeira hora de amanhã.