Capítulo 3
O trajeto de carruagem pareceu durar uma eternidade, mas, quando os enormes portões de ferro forjado de Iléa se abriram com um rangido solene, o coração de Sofia deu um salto violento contra as costelas. O imponente palácio erguia-se à sua frente como uma montanha de mármore e vidro, cercado por jardins perfeitamente podados e por dezenas de outras garotas — as concorrentes —, cujos vestidos pareciam competir com o próprio brilho do sol.
Assim que a carruagem parou e o lacaio abriu a porta, Sofia desceu com todo o cuidado, sentindo o peso da saia volumosa e o olhar de dezenas de estranhas recaírem pesadamente sobre si. Parada no topo da escadaria de entrada, sentindo o rosto esquentar de uma forma alarmante, ela lembrou-se das antigas lições de etiqueta, uniu os pés e fez uma reverência profunda, desajeitada e trêmula. Ao erguer o corpo, a barra do vestido rodopiou em um movimento amplo e meio descontrolado.
Tentando disfarçar o pânico que ameaçava travar sua garganta, ela forçou um sorriso tímido, acenou levemente com a ponta dos dedos e soltou um sopro de voz:
— O-oi, meninas...
Duas garotas que estavam mais próximas — uma com um sorriso caloroso e olhos curiosos, e outra de postura altiva mas simpática — aproximaram-se com passos firmes.
— Poxa, você tem estilo, garota! — exclamou a primeira, ajeitando a própria saia. — Sou a Mary. E esse colar de ametista... nossa, isso é novidade total por aqui. De qual província você veio? No meu distrito a gente nunca vê peças assim.
A segunda garota, Marlee, cruzou os braços com um sorriso divertido nos lábios, observando os detalhes da gola alta e o brilho roxo da pedra preciosa.
Sofia sentiu os dedos automaticamente buscarem refúgio em suas longas e compridas mechas de cabelo castanho ondulado, torcendo distraidamente uma ponta enquanto desviava o olhar por um segundo para acalmar as boca secas. Logo em seguida, percebendo que precisava parecer ao menos um pouco firme, levou a mão direita à cintura, ajeitando a postura com um misto de marra adolescente e vergonha genuína.
— É... é sim, meninas — respondeu Sofia, a voz saindo um pouco mais baixa do que pretendia, enquanto brincava nervosa com uma fita do vestido antes de segurar firme na própria cintura. — Em Navarra, meu reino... bem, lá nós temos uma tradição muito forte com o trabalho de metalurgia e lapidação. Meus pais insistiram que eu usasse isso, mas... para falar a verdade, sinto que estou fantasiada para uma peça de teatro onde todo mundo sabe as falas menos eu. Vocês também estão achando tudo isso assustadoramente gigante?
Mary soltou uma risada leve, e Marlee abriu um sorriso acolhedor, desfazendo parte da muralha de gelo que Sofia temia encontrar.
O murmúrio nervoso que ecoava pelo imponente Salão das Estrelas cessou de uma só vez, cortado por um som agudo, metálico e retumbante que fez o peito de Sofia vibrar.
Pam-pam-pam-PAAAM!
O eco das trombetas reais ricocheteou pelas paredes de mármore branco e tetos afrescados, impondo um silêncio absoluto entre as dezenas de garotas ali reunidas. Sofia sentiu a respiração travar na garganta. Os dedos, por puro instinto nervoso, enrolaram-se rapidamente nas longas e compridas ondas de seu cabelo castanho, torcendo uma mecha com força enquanto ela tentava conter o tremor nas mãos. Ao perceber o gesto, ela rapidamente puxou o braço e apoiou a mão firme na cintura, erguindo o queixo em uma tentativa desesperada de parecer mais velha e corajosa do que seus dezessets anos reais permitiam.
— Altezas Reais, o Rei Clarkson, a Rainha Amberly e o Príncipe herdeiro Henry de Iléa! — anunciou o arauto com voz solene, cujas palavras reverberaram por todo o recinto.
As portas duplas de carvalho maciço e detalhes em ouro abriram-se lentamente.
Primeiro, o Rei Clarkson entrou com passos firmes e um ar de autoridade serena, vestindo trajes impecáveis que refletiam o peso da coroa. Logo ao lado dele caminhava a Rainha Amberly, cuja graça e sorriso acolhedor pareciam suavizar a imensidão daquele palácio assustador, irradiando uma gentileza magnética que lembrava vagamente o calor do próprio lar de Sofia.
Mas foi quando o Príncipe Henry cruzou o batente que o salão pareceu prender o fôlego coletivo.
Alto, com uma postura altiva, mas carregando um olhar curioso e cansado das obrigações da corte, Henry vestia um casaco real perfeitamente alinhado. Seus olhos varreram a multidão de garotas vestidas com tecidos caros e joias cintilantes, passando por várias delas com um desinteresse polido.
Ao lado de Sofia, Mary conteve um suspiro mudo, enquanto Marlee ajeitava discretamente a saia. Sofia, sentindo o colar de ametista pesar friamente contra o peito, recuou meio passo, rezando em silêncio para que a imensidão daquele salão a engolisse e que os olhos azuis do príncipe passassem direto por ela.
No entanto, conforme Henry avançava pelo tapete vermelho, seu olhar de repente parou. Os passos do herdeiro do trono desaceleraram por uma fração de segundo ao cruzar com a figura de Sofia — com seu vestido típico da alta casa real de Navarra, a gola alta, a tiara delicada e a mão apoiada na cintura em uma postura defensiva, mas genuína. Por um instante, os olhos dele encontraram os dela.