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A Sombra dos Pássaros · Prólogo — Rodrigo Fernandes

Por Rodrigo Fernandes

Alguns nunca acreditaram nas histórias sobre a Matinta Pereira. Até testemunharem uma revoada de pássaros levar Paulo Bernardi, filho do homem mais poderoso de Poço da Rainha, à morte. Enquanto Antônio Bernardi transforma Nia, uma das principais suspeitas, em alvo de sua vingança e avança sobre a floresta em busca de poder e destruição. Anna, irmã de Paulo, começa a investigar a morte do rapaz e descobre que sua família guarda uma ligação antiga com a floresta, que testemunhou inúmeros segredos que deveriam permanecer no passado. Entre lendas amazônicas, violência, mistérios familiares e um mundo invisível conhecido como O Outro Lado, duas jovens precisarão descobrir por que a floresta decidiu despertar. Em Poço da Rainha, a mata não esquece. E os mortos nem sempre descansam.

Prólogo

Havia um medo antigo naquele olhar, Paulo corria sem saber para onde. Galhos riscavam seu rosto enquanto avançava entre os troncos, tentando encontrar uma passagem. Acima dele, as copas das árvores fechavam o céu. O calor da tarde entrava pelas frestas, pesado e sufocante. A boca estava seca. Um gosto amargo permanecia na língua. Cada respiração arranhava sua garganta.

Ele tropeçou numa raiz escondida e caiu com força sobre a areia. Tentou proteger o corpo com o braço, mas um estalo seco rompeu a mata. A dor veio imediatamente. O antebraço havia se dobrado num ângulo impossível. Paulo gritou. Esperou algum movimento entre as árvores. Qualquer voz, qualquer pessoa, mas havia apenas o silêncio e a mata. Tentou se levantar, porém o braço latejava. Arrastou-se alguns centímetros e parou. As raízes sob suas mãos pareciam prender seus dedos à terra. Quando tentou avançar outra vez, ouviu um assobio longo e agudo.

Paulo ficou imóvel. Não era vento. Não era o chamado de uma ave. O som veio novamente, agora mais perto. Então começaram os sussurros, vinham de todos os lados. Vozes que ele não conseguia compreender, embora alguma coisa dentro dele parecesse reconhecer aquelas palavras.

Paulo ergueu os olhos e a luz havia diminuído. Uma sombra passava sobre as copas, não era uma nuvem. As folhas pararam de se mover. Os insetos desapareceram no silêncio. Até o calor pareceu recuar. Penas escuras começaram a cair entre os galhos.

Paulo a encarou.

— Me desculpa...

A voz saiu baixa, quase sem ar. Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu não quis que fosse assim...

A frase morreu.

Quando tornou a olhar para a mata, havia alguma coisa entre as árvores. Uma massa escura avançava lentamente. Paulo tentou recuar.

— Ela...

Não conseguiu terminar e a sombra continuou vindo.

Pássaros surgiram dos galhos, espalhando-se pelo espaço à sua frente. As asas batiam tão próximas que Paulo levantou o braço bom para proteger o rosto. Não pareciam aves assustadas. Moviam-se juntas, como se obedecessem a uma vontade que ele não podia enxergar.

Paulo correu. Rompeu os últimos arbustos e saiu diante de uma abertura repentina e parou. À sua frente, o chão terminava num precipício. A areia cedeu sob seus tênis. Pequenas pedras rolaram pelo barranco e desapareceram muito abaixo. Paulo olhou para o abismo. Ele girou lentamente sobre os calcanhares. As lágrimas embaralhavam sua visão. Quis implorar. Quis dizer qualquer coisa que pudesse salvá-lo, porém o medo fechara sua garganta por dentro. As palavras permaneciam presas atrás dos dentes, enquanto a floresta parecia esperar, paciente, que ele finalmente entendesse por que fora levado até ali.

A sombra desprendeu-se das árvores e deslizou pela vegetação sem produzir um único ruído. Galhos curvaram-se à sua passagem. As folhas deixaram de estremecer. Até o vento pareceu prender a respiração. Ela parou diante de Paulo. Não tinha um rosto. Ainda assim, ele soube que estava sendo encarado. Seus olhos se arregalaram. O verde de seus olhos desapareceu pouco a pouco, engolido por uma escuridão espessa que se espalhava como tinta sobre água. O horror petrificou cada traço de seu rosto. Nem mesmo o grito encontrou forças para nascer.

Ao redor, a floresta permaneceu imóvel. Esperava. Como quem assiste ao cumprimento de uma sentença escrita muito antes daquele jovem imaginar que um dia pisaria ali.

Então a sombra avançou e a mata engoliu o último vestígio de luz. As asas se transformaram em uma revoada de pássaros que gritou sob a floresta anunciando um presságio sombrio que estava a caminho.