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A Sombra dos Pássaros · CAPÍTULO 5 – LAÇOS ROMPIDOS. — Rodrigo Fernandes

Por Rodrigo Fernandes

Alguns nunca acreditaram nas histórias sobre a Matinta Pereira. Até testemunharem uma revoada de pássaros levar Paulo Bernardi, filho do homem mais poderoso de Poço da Rainha, à morte. Enquanto Antônio Bernardi transforma Nia, uma das principais suspeitas, em alvo de sua vingança e avança sobre a floresta em busca de poder e destruição. Anna, irmã de Paulo, começa a investigar a morte do rapaz e descobre que sua família guarda uma ligação antiga com a floresta, que testemunhou inúmeros segredos que deveriam permanecer no passado. Entre lendas amazônicas, violência, mistérios familiares e um mundo invisível conhecido como O Outro Lado, duas jovens precisarão descobrir por que a floresta decidiu despertar. Em Poço da Rainha, a mata não esquece. E os mortos nem sempre descansam.

CAPÍTULO 5 – LAÇOS ROMPIDOS.

Carolina, que terminava de se arrumar no quarto, aproximou-se da janela assim que ouviu o ruído de um carro chegando. Afastou delicadamente a cortina e tentou reconhecer, à distância, se era Antônio ou Paulo quem havia chegado. Estava pronta para o jantar que o marido havia pedido naquela noite, uma pequena comemoração pelo negócio que conseguira fechar durante o dia.

Aos poucos, afastou-se da janela e conferiu o próprio reflexo no espelho. Loira, de olhos verdes e traços cuidadosamente preservados, Carolina tinha um apreço quase natural pela elegância. Não precisava chamar atenção para saber que estava bem-vestida. Gostava de tecidos finos, joias discretas e perfumes que permaneciam no ambiente depois que ela passava. Havia aprendido desde cedo que uma casa bem cuidada também dizia muito sobre quem a comandava.

Desceu as escadas com passos tranquilos, embora a ansiedade começasse a lhe apertar o peito. A residência dos Bernardi parecia ainda mais imponente ao cair da noite. Construída em estilo clássico, tinha paredes altas, portas largas e uma escadaria que levava aos quartos no andar superior. Os móveis, antigos e robustos, haviam sido escolhidos ao longo dos anos com o mesmo cuidado com que Carolina selecionava as roupas que vestia. Poltronas de couro, mesas de madeira maciça, cristaleiras e estantes repletas de livros e objetos decorativos sofisticados ocupavam os espaços sem jamais parecerem deslocados.

Era uma casa grande, mas não fria. Carolina fizera questão de que houvesse vida em cada cômodo. As luzes amareladas dos lustres de cristal lançavam uma claridade suave sobre os móveis escuros, criando pequenas áreas de sombra nos cantos da sala. O brilho discreto das peças de porcelana, dos porta-retratos e dos objetos de prata se misturava ao perfume das flores recém-colhidas, espalhadas em vasos sobre as mesas e aparadores.

Carolina gostava daquela casa. Na verdade, gostava daquela vida. Havia crescido acreditando que aquele era o lugar que lhe cabia no mundo. Nunca considerara o casamento e a administração da casa uma prisão, ao contrário, gostava de escolher os móveis, organizar os jantares, receber visitas e saber que cada coisa estava exatamente onde deveria estar. Tinha se formado em Direito, conhecia bem as leis e possuía inteligência suficiente para compreender os negócios do marido, embora nunca tivesse desejado disputar com Antônio o espaço que ele ocupava. Costumava dizer, sem constrangimento, que havia nascido para cuidar de uma casa e ter um marido que cuidasse do resto. E acreditava nisso, não porque lhe faltassem ambição ou capacidade, mas porque nunca sentira necessidade de provar nada a ninguém. Aquele conforto fazia parte de sua história desde a infância, assim como fazia parte da história das famílias com as quais aprendera a conviver.

Para Carolina, luxo não era novidade, era hábito, era memória. Era a maneira como aprendera a enxergar o mundo. Naquela noite, porém, havia algo diferente. Algo dentro dela emanava isso. Ela foi até a janela da sala e observou o carro parado diante da casa. Antônio e Paulo ainda não haviam saído. Carolina estreitou os olhos, tentando enxergar através do vidro escuro do veículo. A inquietação começou a substituir a expectativa pelo jantar.

Durante boa parte do dia, cuidara pessoalmente de cada detalhe da casa, acompanhada pelas duas empregadas que contratara para ajudar Marta, a fixa. Para aquela ocasião, havia contratado pessoas para servir o jantar, como costumava fazer sempre que Antônio alcançava algum novo acordo.

A mesa estava pronta. As taças de cristal permaneciam perfeitamente alinhadas, refletindo a luz dos lustres. Os pratos haviam sido escolhidos com cuidado na cozinha, e os talheres repousavam ao lado deles com uma precisão quase exagerada. Guardanapos de tecido estavam dobrados sobre os pratos, e pequenas flores brancas ocupavam os centros da mesa, espalhando um perfume discreto pelo ambiente.

Nas estantes, fotografias da família ocupavam seus lugares habituais. Carolina, Antônio, Paulo e Anna sorriam em diferentes momentos dos últimos anos, preservados em molduras elegantes entre livros, esculturas e objetos que haviam atravessado gerações.

Tudo estava pronto, a casa estava impecável, Carolina também. Só faltava a família e os convidados chegarem. Aquela deveria ser uma noite de comemoração. O novo acordo de Antônio seria celebrado com alguns convidados, e Carolina já conseguia imaginar a sala cheia de vozes, risadas contidas e elogios ao marido. Gostava daqueles momentos, havia aprendido, desde menina, a enxergar cada conquista do homem com quem se casara como uma vitória da família inteira. Era assim que os Bernardi avançavam. Um negócio de cada vez. Uma propriedade depois da outra, um novo contrato, uma nova oportunidade. Sempre para frente e nunca para trás.

Carolina sorriu de leve ao pensar nisso. Ajeitou uma mecha do cabelo diante do reflexo escuro da janela e conferiu, mais uma vez, o vestido que escolhera para aquela noite. Não havia exagero na roupa, apenas o cuidado de quem conhecia bem o ambiente em que vivia e sabia exatamente como queria ser vista.

Carolina ergueu os olhos e foi novamente até a janela.

O carro mantinha-se parado. Esperou ver Paulo sair primeiro, talvez com aquele jeito apressado de sempre, reclamando de alguma coisa ou perguntando se os convidados já haviam chegado. No entanto, o primeiro homem a descer foi Júlio. Carolina franziu a testa estranhando, depois, Antônio surgiu do outro lado. Ela permaneceu imóvel. Alguma coisa estava errada, não foi uma conclusão racional, foi apenas uma sensação, daquelas que chegam antes das palavras e se instalam no corpo sem pedir licença.

Antônio fechou a porta do carro e continuou parado por alguns segundos. Não olhou para a casa e nem olhou para o jardim. Não fez nenhum movimento em direção à entrada. Apenas ficou ali imóvel e respirando profundamente.

Carolina conhecia o marido havia tempo suficiente para perceber pequenas mudanças nele. Antônio não era um homem que demonstrava facilmente o que sentia, mesmo quando estava irritado, costumava controlar a expressão, a voz e os gestos, contudo, naquele momento havia alguma coisa diferente, seus ombros pareciam mais pesados. A cabeça permanecia ligeiramente baixa e o rosto, normalmente firme e cuidadosamente controlado, carregava uma palidez que Carolina nunca tinha visto.

Júlio também estava diferente, ele permanecia ao lado do veículo, olhando para Antônio como se esperasse que ele tomasse alguma decisão. Não parecia um funcionário acompanhando o patrão depois de um dia de trabalho, mas sim alguém que não queria deixar outro homem sozinho.

Carolina sentiu o sorriso desaparecer, o coração começou a bater mais depressa. Olhou automaticamente para o caminho por onde o carro havia chegado. Procurou por outro veículo, outro movimento, outra pessoa. Procurou pelo filho e não havia mais ninguém. A ausência, até então banal, tornou-se repentinamente pesada.

A mulher sentiu um aperto no peito, Paulo sempre chegava antes ou pouco depois do pai. Quase nunca havia motivo para que ela sequer pensasse nisso. Principalmente por ter um jantar em casa, porém, naquela tarde, por alguma razão, a ausência dele pareceu ocupar mais espaço do que qualquer pessoa dentro daquela casa. Ela se afastou da janela e caminhou até a porta e parou por alguns segundos, ficou com a mão sobre a maçaneta. Uma parte dela queria esperar que Antônio entrasse e dissesse que tudo estava bem. Outra, mais silenciosa, já começava a temer que não estivesse.

Carolina abriu a porta antes mesmo que Antônio alcançasse a entrada.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, olhando de um para o outro. — Liguei para você e pro Paulo a tarde inteira e só dava desligado. Já está tudo pronto.

Antônio ergueu os olhos para ela e tentou responder, mas nenhuma palavra saiu. Carolina conhecia aquele homem de muitas maneiras. Conhecia o marido irritado, o marido cansado, o homem que chegava em casa depois de uma negociação difícil e carregava no rosto a impaciência de quem precisava de alguns minutos para esquecer o mundo. Entretanto, aquele silêncio era diferente. Havia alguma coisa nos olhos de Antônio que ela não conseguia alcançar, uma espécie de vazio. Carolina teve a impressão absurda de que o marido não havia voltado sozinho, como se alguma coisa invisível tivesse atravessado a porta com ele e agora permanecesse escondida em algum canto daquela casa.

Júlio ficou alguns passos atrás, pálido, os ombros tensos. Evitava olhar diretamente para ela.

Carolina percebeu e o coração apertou.

— O Paulo não veio com vocês, por quê? — Disparou ainda com um sorriso no rosto.

Antônio desviou o olhar, foi o bastante para Carolina sentir o sangue abandonar lentamente o rosto.

— Antônio?

Ele finalmente entrou e não respondeu. Foi direto ao bar no canto da sala e serviu-se um copo puro de Uísque.

Carolina deu espaço para Júlio entrar e ficou olhando de um para o outro.

— Vocês não vão me responder? Cadê o Paulo? Está quase na hora do jantar, Antônio.

Júlio fechou a porta atrás de si. O estalo da fechadura pareceu alto demais dentro daquela casa.

Carolina olhou fixamente para o marido.

— Carolina, senta um pouco, por favor — disse Antônio.

— Por quê? Não estou entendendo.

— Só senta, meu amor. — Pediu Antônio com cautela.

— Eu não quero sentar. Onde está o meu filho? Vocês sempre chegam juntos. Aconteceu alguma coisa? Me diz Antônio!

A voz saiu mais alta do que pretendia.

Antônio respirou fundo e a olhou com tristeza.

— Carolina...

— O que foi?

Ele se aproximou, mas ela recuou.

— Não chega perto de mim desse jeito. Eu conheço esse olhar. Anda, me diz o que aconteceu? Me diz onde ele está!

Antônio passou a mão pelo rosto. Carolina percebeu que aquilo não era cansaço, nem raiva, nem preocupação. Era dor. E foi justamente essa percepção que lhe roubou o ar.

— Não, Antônio... Cadê meu filho?

A palavra escapou antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa.

Antônio parou.

— O que aconteceu? Por favor, alguém me diz alguma coisa!

Ninguém respondeu imediatamente até que Antônio finalmente falou:

— Encontraram o Paulo, meu amor.

Ela esperou.

— Como assim encontraram? Ele não estava com você? Onde encontraram?

Um silêncio cruel os uniu.

— Antônio, onde? — Insistiu ela perdendo a paciência.

— No Bosque Araúna — respondeu Júlio.

Carolina levou uma das mãos ao peito. Aquele lugar, mesmo antes de qualquer explicação, o nome trouxe consigo uma sensação ruim, antiga, difícil de explicar.

— Encontraram ele como? Alguém machucou ele? Levaram meu filho pra algum hospital? Está em qual hospital? Responde alguma coisa Antônio!

O silêncio veio antes da resposta. E Carolina entendeu, não completamente. Não queria entender.

— O que aquela gente fez com meu filho?

Antônio fechou os olhos por um instante e Carolina recuou.

— Carolina... aconteceu uma coisa muito grave. Nós precisamos conversar calmamente.

Ele tentou se aproximar.

— Eu não quero conversar. Quero ver o meu filho.

— Carolina... — Continuou Antônio.

— Quero ver o Paulo agora, será que vocês estão surdos?

O grito atravessou a sala.

Sobre a mesa, as taças vibraram misteriosamente.

Antônio respirou fundo, enquanto Júlio observou com estranheza.

— Infelizmente, nosso filho... morreu, meu amor. — Antônio disse aquilo baixo, quase num sussurro.

Carolina ficou parada, não chorou, não gritou, não se mexeu. Ela pareceu simplesmente não compreender, como se as palavras tivessem chegado até ela, mas não encontrassem lugar onde permanecer. Então franziu a testa.

— O que você está falando? Que tipo de brincadeira é essa? — Soltou um riso preso.

Antônio foi até ela.

— Eu queria estar brincando.

— Não. — Ela começou a balançar a cabeça. — Você está enganado. Meu filho morto? Impossível.

— Carolina...

— Ele não morreu, Antônio. Não tem como! — Parecia fora de si.

Carolina levou as mãos ao rosto e respirou fundo, tentando reorganizar a realidade dentro da própria cabeça. Paulo tinha saído naquela manhã, ele voltaria. Era assim que funcionava. Filhos saíam, filhos voltavam. Era uma regra simples demais para ser quebrada daquela maneira.

— Ele estava com você. Ele saiu de casa de manhã com você! Era para vocês voltarem juntos. Como isso aconteceu?

Júlio fechou os olhos. Carolina percebeu e virou-se para ele.

— Como Júlio? Já que parece que o Antônio desaprendeu a falar.

Júlio engoliu em seco.

— Encontraram o corpo dele caído na encosta do bosque, senhora.

O mundo pareceu diminuir ao redor dela. Carolina olhou para a mesa, para a cadeira onde Paulo iria sentar-se, para o prato que havia preparado, para a garrafa de vinho que escolhera pessoalmente porque sabia que ele gostava. De repente, tudo perdeu o sentido. Aquelas palavras eram cruéis demais.

— É mentira. Como vocês mentir para mim empurraram o meu filho? — perguntou, quase num sussurro. — Não pode ser. Ninguém ousaria tocar no meu filho.

Antônio permaneceu próximo, mas não a tocou.

Lágrimas desceram pelo rosto de Carolina, inexpressivo. Ela apertou os dedos contra o vestido como se precisasse se agarrar a alguma coisa para não cair dentro daquela notícia.

— Meu filho... — A palavra saiu pequena. — Meu menino... — Então veio a pergunta.

Antônio permaneceu calado.

Carolina ergueu o rosto.

— Mataram o meu filho?

— A polícia está investigando, meu amor.

Ela ergueu os olhos altiva.

— Eu não perguntei o que a polícia está fazendo. — A voz endureceu. — Perguntei se mataram meu filho! Mataram não foi? Fala!

Antônio hesitou. E foi naquele instante que a dor encontrou um caminho para se transformar em raiva.

— Foi aquela menina? Não foi? Aquela caboquinha da comunidade que ele disse outro dia que tinha se interessado... Ele falou aqui nessa maldita mesa pra mim...

Carolina agarrou o pano da mesa e puxou com toda sua força quebrando tudo de uma só vez.

— Nia... Se chama Nia. Não é isso? — Olhou para Júlio.

Júlio ergueu os olhos sem saber o que dizer.

— Foi ela, não foi? Ela matou o meu filho!

— Carolina, ainda não sabemos... — avisou Antônio. — Mas as investigações estão avançando.

— Foi ela! Eu tenho certeza! Ele disse que ela não queria ele... Eu dei até um anel meu pra ele presenteá-la. Ela se fazia de desentendida, de que não o queria. Ele me disse isso aqui nessa sala, Antônio! — A voz dela ecoou pela sala. — Ela estava com ele, não estava?

Antônio respirou fundo.

— Nia estava no local antes de nós.

Carolina ficou alguns segundos olhando para ele.

— Ela o matou. Eu tenho certeza!

— Não sabemos exatamente como aconteceu — afirmou Júlio.

— Mas ela estava lá — completou Antônio.

Carolina voltou a chorar. Dessa vez, porém, havia alguma coisa diferente. O sofrimento ainda estava ali, mas agora havia ódio misturado a ele.

— Eu sabia.

Antônio a encarou.

— Sabia o quê?

— Que aquela maldita traria problemas para esta família desde que ouvi o nome dela pela primeira vez!

Júlio permaneceu em silêncio.

— Ela matou meu filho. — Acusou veementemente.

— Dona Carolina, não temos como afirmar isso. — Ponderou Júlio.

— Meu filho está morto por causa dela... Será que sou eu vejo isso? — Ela apontou para Antônio. — Morto! — Depois apontou para Júlio. — E vocês estão aqui me dizendo que não sabem quem fez isso? — A voz se partiu.

Antes que qualquer um pudesse responder, uma voz surgiu atrás deles.

— Nia não o matou.

Carolina virou-se rapidamente surpresa.

Anna estava diante da porta lateral de vidro que dava para o jardim. A porta permanecia entreaberta. Do lado de fora, a noite havia começado a se espalhar pelo quintal, deixando o jardim mergulhado numa penumbra azulada. Anna estava imóvel, uma das mãos ainda próxima à maçaneta. Havia algo estranho na maneira como ela olhava para a mãe. Não era desafio, não era medo. Era certeza.

Antônio e Júlio trocaram um olhar rápido.

Carolina respirou fundo.

— O que você disse?

Anna permaneceu onde estava.

— Eu disse que ela não matou o seu filho.

Carolina caminhou até a Anna bem devagar, cada passo parecia carregar uma parcela da dor que acabara de receber.

— Como você sabe? — Inquiriu raivosamente.

Anna não respondeu.

— Como você sabe disso, Anna? — Parecia rosnar entre os lábios.

— Porque...

Ela hesitou. Carolina percebeu.

— Porque o quê? — Perguntou a mãe.

Antônio observava a filha atentamente, Júlio também. Havia uma pergunta silenciosa entre os dois. Anna não estava no bosque, não tinha acompanhado Antônio e Júlio. Não vira o corpo, não ouvira a polícia. Então como sabia?

— Anna — disse Antônio, finalmente. — Quem contou isso para você?

— Ninguém, Antônio. — Respondeu ela devagar.

O pai estranhou a filha o chamar pelo nome.

Carolina soltou uma risada curta, incrédula.

— Ninguém?

— Eu apenas sei. — Mantinha o olhar fixo em Carolina.

— Ah, você apenas sabe? — Ironizou. A mãe aproximou-se mais. — Você sabe que o meu filho está morto e afirma que aquela garota desprezível não o matou? Como?

Anna permaneceu calada. Carolina olhou rapidamente para Antônio e Júlio e os dois estavam tão intrigados quanto ela.

— O que está acontecendo aqui? — Gesticulou Carolina abrindo os braços.

Ninguém respondeu.

— Antônio?

Ele permaneceu em silêncio.

— Júlio?

Nada. Carolina voltou-se novamente para a filha. A dor em seu rosto começava a desaparecer sob uma camada mais dura.

— Você sabia que alguma coisa tinha acontecido com seu irmão?

Anna respirou fundo e disse:

— Eu não sabia que ele estava morto. Descobri há pouco.

— Como? Quer dizer que você sabia que alguma coisa tinha acontecido ao seu irmão e não me disse nada! — Bradou Carolina.

Anna baixou os olhos.

— Eu não sabia exatamente. Eu senti, assim como eu sei que tu sentiste, Carolina.

Carolina ficou imóvel.

Anna ergueu o rosto.

— Eu não consigo explicar.

— Claro que não consegue, Anna. Você mal consegue completar uma frase coerente.

O tom da mãe mudou, já não era apenas desespero. Era acusação.

— Você sempre teve essas coisas estranhas.

— Não. Nós sempre tivemos.

— Cala a boca! Desde pequena és assim. — Falava entre os dentes. — Não fala coisa com coisa. Era pra eu ter te internado e jogado a chave fora.

— Carolina, não fala assim! — Ponderou Antônio.

A mulher continuou ainda mais áspera.

— Você nunca gostou do seu irmão.

Anna empalideceu.

— Isso não é verdade. — Rebateu mirando-a.

— Então por que está defendendo a mulher que estava com ele? A assassina! — Carolina estava saindo do controle.

— Porque eu sei que ela não matou o Paulo!

— Como podes ter certeza disso?

Anna não respondeu.

Carolina aproximou-se ainda mais.

— Como afirma com tanta precisão?

O silêncio se instalou entre as duas. Anna sentiu o peito apertar, não tinha como explicar, não ali, não para a mãe, não enquanto aquela sensação estranha ainda permanecia dentro dela, viva, impossível de nomear.

Carolina interpretou o silêncio da filha da pior maneira possível.

— Você sabia desde o princípio que aquela Nia o arrastaria para a morte. — Acusou Carolina com os pensamentos insanos. Necessitava achar um culpado.

Anna respirou fundo.

— Como eu saberia? Ele apenas falava dela... Dizia que ia conseguir, mas que ela não correspondia. Ele cansou de falar isso aqui. — Dizia devagar.

— Sabia, sim! Tenho certeza que você guardou informações. Vocês conversaram muito hoje pela manhã quando ele saiu pra aquela maldita comunidade!

— Eu apenas aconselhei que, se ela não quisesse nada, não era pra ele insistir. — Argumentou Anna. — Eu não tinha ideia do que poderia acontecer. Principalmente do que ele pretendia fazer. — Anna encarou a mãe com raiva. — Estuprar, mãe. É isso que ele tentou.

A palavra caiu sobre a sala como um objeto pesado. Carolina pareceu ser atingida por ela.

— É claro que seu irmão jamais faria isso com alguém, sua infeliz! Não repita isso de novo, ouviu bem? — Ameaçou apontando o dedo indicador.

— Como? Se a verdade é essa. — Prosseguiu Anna. — Como ele mesmo falava, rindo, quantas ele tinha pegado. Chegava a me dar nojo!

Anna falava sem aumentar a voz. Era justamente isso que tornava suas palavras mais difíceis de suportar. Ela não estava provocando a mãe, não estava tentando feri-la. Estava apenas dizendo aquilo que acreditava ser verdade.

— O Paulo sabia exatamente o que estava fazendo — continuou. — E colheu as consequências dos seus atos.

Carolina ficou imóvel e as duas apenas se encararam, mãe e filha. Ligadas pelo mesmo sangue e, naquele instante, separadas por tudo o que jamais haviam conseguido dizer uma à outra. Então Carolina perdeu o controle.

— Vocês dois nunca impuseram limite a ele. Então alguém tinha que fazer. E os pássaros, Carolina, junto com aqueles sussurros que tu se recusas a falar, fizeram.

— Cala a boca! — Ergueu a mão.

O movimento foi rápido, impulsivo, brutal. A bofetada atingiu o rosto de Anna com bastante violência. O estalo ecoou pela casa.

Júlio avançou imediatamente e se colocou entre as duas, enquanto Antônio seguiu e segurou Carolina pelos braços, afastando-a da filha.

Anna permaneceu parada, a cabeça havia virado ligeiramente com o impacto. Não conseguia raciocinar e não fez nada. Não chorou, não levou a mão ao rosto, não rebateu. Apenas voltou lentamente o olhar para a mãe. Havia dor em seus olhos, mas não havia surpresa. Como se aquela bofetada fosse apenas mais uma confirmação de tudo o que acabara de dizer. Um filete de sangue surgiu no canto de sua boca.

Júlio olhou para ela sem entender o que ocorria ali.

Carolina, ainda presa pelos braços de Antônio, parecia ter acabado de perceber o que fizera. Mas a raiva ainda era maior que o arrependimento. Queria avançar ainda mais contra a filha.

— Sai da minha frente, Anna, antes que eu te dê a surra que tu mereces!

— Faça isso! Mas faz agora, porque não vai ter outra oportunidade.

Carolina se soltou de Antônio e agarrou Anna pelos ombros, porém sentiu algo forte a repelir, e foi arremessada ao chão, aos pés de Antônio.

Júlio não acreditou no que viu, afinal, Anna não havia se mexido e estava com as mãos presas as dele.

Anna soltou-se e foi até a mãe e agachou-se olhando-a nos olhos.

— Teu inferno começou.

— Sai daqui! Trem essa infeliz de perto de mim!

Carolina tentou se levantar e caiu novamente, enquanto Anna subiu as escadas.

Júlio não sabia o que fazer e foi até a empregada, que havia enxergado a cena e pediu água para todos.

Antônio carregou Carolina até o sofá, o corpo parecia ter perdido a força. Ele permaneceu ao lado da esposa por alguns segundos antes de olhar para Júlio.

Júlio ajudou Marta a servir água a todos.

Carolina soluçava e atirou o copo contra a parede.

— Como a gente pode criar uma traidora dentro de casa? Meu Deus, do céu... Uma cobra! Um monstro! — Ela levou as mãos ao rosto. — Eu quero essa tal de Nia apodrecendo atrás das grades. Eu conheço esse tipinho vulgar, seduz os homens e depois querem levar vantagem.

Júlio permaneceu calado, aquelas palavras o incomodaram brutalmente. A bofetada em Anna ainda ecoava dentro dele. Ele não conseguia esquecer a maneira como a jovem recebera o golpe. Sem gritar e nem responder, como se tivesse entendido que, naquele momento, nenhuma palavra seria capaz de atravessar a mãe. Olhou para Antônio.

— Seu Antônio... eu preciso ir, agora.

Antônio assentiu.

— Claro, vai no carro da empresa.... E obrigado. Vou te recompensar com um depósito.

— Não precisa. Eu fiz de coração. — Foi honesto. — Depois vai ver sua filha. Ela também precisa do senhor.

— Filha? Que filha Júlio? — Questionou Carolina. — Eu quero ela fora da minha casa agora.

Antônio ergueu o tom de voz contra a esposa:

— Chega Carolina. Estamos todos a flor da pele. Chega de problemas, já basta o que precisamos resolver.

Carolina ficou parada, chorando, abraçando as pernas e olhando para o chão, inconsolável.

Antônio levou Júlio até a porta e atrás deles, ouviu-se o ruído seco do vidro da janela se espatifando, após um grito de dor de Carolina.

Antônio fechou os olhos abalado. Júlio olhou para trás, mas não disse nada. Já estava diante da porta do carro quando Antônio falou, baixo:

— Por favor, Júlio. Não comente nada do que você viu e ouviu aqui.

Júlio o encarou, havia respeito entre os dois, mas também uma frustração que ele já não conseguia esconder.

— Claro que não, seu Antônio. — Fez uma breve pausa. — Mas dê atenção à sua filha também.

Antônio não respondeu.

— E tente controlar sua esposa. Ela parece não enxergar quem realmente Paulo era.

Júlio nem se despediu, entrou no carro, o ligou e engatou a ré.

Dentro daquela casa, sua esposa chorava a morte do filho. No andar de cima, sua filha havia acabado de receber uma bofetada por dizer a verdade que ninguém queria ouvir. E, pela primeira vez naquela noite, Antônio percebeu que talvez a morte de Paulo fosse apenas o começo. Porque alguma coisa havia mudado dentro daquela família e intuía que não havia mais como voltar atrás.