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A Sombra dos Pássaros · CAPÍTULO 4 – O CHAMADO DAS PENAS. — Rodrigo Fernandes

Por Rodrigo Fernandes

Alguns nunca acreditaram nas histórias sobre a Matinta Pereira. Até testemunharem uma revoada de pássaros levar Paulo Bernardi, filho do homem mais poderoso de Poço da Rainha, à morte. Enquanto Antônio Bernardi transforma Nia, uma das principais suspeitas, em alvo de sua vingança e avança sobre a floresta em busca de poder e destruição. Anna, irmã de Paulo, começa a investigar a morte do rapaz e descobre que sua família guarda uma ligação antiga com a floresta, que testemunhou inúmeros segredos que deveriam permanecer no passado. Entre lendas amazônicas, violência, mistérios familiares e um mundo invisível conhecido como O Outro Lado, duas jovens precisarão descobrir por que a floresta decidiu despertar. Em Poço da Rainha, a mata não esquece. E os mortos nem sempre descansam.

CAPÍTULO 4 – O CHAMADO DAS PENAS.

“Ele precisava partir para você florescer.”

A frase chegou antes da imagem, não havia boca e nem rosto, apenas uma voz feminina, distante e profunda, como se atravessasse uma floresta que existia muito além do mundo conhecido. Então a escuridão se abriu E Paulo permanecia petrificado diante de alguma coisa que Anna, sua irmã, não conseguia enxergar. O irmão estava de pé no meio do bosque, rígido, os braços ligeiramente afastados do corpo. Os olhos arregalados denunciavam um terror que Anna jamais havia visto nele. Não era o Paulo arrogante, provocador e seguro de si que conhecia. Não era o rapaz que entrava em qualquer ambiente acreditando ser superior às pessoas ao redor. Era apenas um jovem assustado. Alguém que sabia que iria morrer... À sua volta, o bosque parecia ter vida própria. As árvores eram altas demais, os troncos, retorcidos demais. As raízes emergiam da terra úmida como veias expostas, formando desenhos que pareciam se mover quando observados por tempo demais.

O ar tinha cheiro de sangue.

Paulo olhou para cima e logo vieram os pássaros, centenas deles. Até que o céu desapareceu. Uma massa escura despencou das copas das árvores e envolveu Paulo num turbilhão de asas, bicos e gritos. O ataque foi brutal, as aves avançaram contra ele com uma ferocidade quase humana, rasgando sua pele de cima a baixo, como uma criança despedaçava uma folha de papel.

Paulo gritava, erguia os braços numa tentativa inútil de proteger o rosto, porém as mãos eram afastadas pelas asas que o golpeavam, tentava correr e não conseguia. Seus pés pareciam presos ao chão. Havia alguma coisa naquele lugar que não permitia fuga. Paulo tropeçou e caiu de joelhos. As aves continuaram atacando, o sangue escorria pelo rosto, misturando-se ao suor e à terra úmida. E, por trás da revoada, havia um som. Um murmúrio baixo. Uma voz que parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum.

As árvores permaneciam imóveis, embora os pássaros se agitassem como se obedecessem a uma ordem invisível. Paulo levantou o rosto e por entre as asas, alguma coisa surgiu. Um vulto alto, escuro e imóvel. Ele tentou recuar, não havia para onde ir. Então um bico atravessou sua carne. Paulo levou as mãos à garganta, seus olhos encontraram o vulto e tudo silenciou. Apenas aqueles olhos estranhos o fitavam. E o último grito morreu antes de alcançar as árvores.

Os olhos de Paulo refletiram a escuridão da morte. E, quando seu corpo finalmente tombou, alguma coisa pareceu arrancar-lhe o espírito para fora da carne.

Paulo Bernardi caiu, mas não morreu, foi condenado a vagar por entre as árvores do bosque. Permaneceu preso a um entretempo em que as horas não avançavam. O passado não terminava, o presente não começava e o futuro não existia.

Ali, o espaço não obedecia às leis do mundo. Os caminhos dobravam sobre si mesmos. As árvores mudavam de lugar, a mesma pedra surgia repetidamente diante de seus pés. Cada tentativa de fuga o conduzia novamente ao mesmo ponto. O lugar onde todo o sofrimento começara. Paulo correu até perder o fôlego e gritou muito alto, em vão. Ninguém respondeu. Até que, muito distante, entre as árvores, uma voz feminina atravessou a escuridão.

— Paulo...

Ele parou e ergueu a cabeça e a olhou profundamente, então o mundo despareceu.

***

Um sussurro baixo precedeu o despertar de Anna Bernardi. Ela abriu os olhos de repente e permaneceu imóvel, tentando compreender onde estava. O teto branco do quarto surgiu lentamente diante de sua visão, ainda deformado pelos contornos do pesadelo. A respiração vinha curta. Seus lábios estavam secos, e pequenas gotas de suor desciam pela testa.

Anna levou uma das mãos ao peito, o coração parecia querer romper a caixa torácica. Inspirou uma vez, duas, três, profundamente. Não adiantou, pois, a sensação continuava. Era como se ainda estivesse naquele bosque desconhecido. Como se alguma coisa tivesse atravessado o pesadelo junto com ela. Seria o calor? Ou apenas medo?

Ela passou a mão pelo rosto e tentou recuperar o fôlego. Acabara de ter um pesadelo absurdamente real e tenebroso com o irmão, Paulo. A simples lembrança fez seu estômago se contrair. O que aquilo significaria? Anna nunca acreditou em presságios e misticismos. Pelo menos era isso que dizia a si mesma.

Havia sido criada para acreditar naquilo que pudesse ser explicado. A família Bernardi não tinha espaço para superstições, pressentimentos ou histórias de espíritos. Antônio jamais permitiria. Mesmo assim, uma sensação ruim permanecia agarrada ao seu corpo, como uma mão invisível apertando-lhe o peito. Teve a impressão de sentir novamente o cheiro de sangue. Anna fechou os olhos e o odor desapareceu. Quando os abriu, o quarto parecia exatamente igual. E, ainda assim, alguma coisa havia mudado. Ela, talvez.

Anna chegara havia poucas semanas a Santarém, no Pará, para se juntar à família, que estava na cidade havia três meses, desde a morte do avô. A mudança deveria simular apenas mais uma etapa da vida, porém não representou.

A casa dos Bernardi era grande demais, silenciosa demais, elegante demais. E, sobretudo, impessoal demais para parecer um lar. Localizada em uma das áreas mais valorizadas da cidade, possuía jardins cuidadosamente tratados, grandes janelas e uma arquitetura que contrastava com o calor amazônico. Além de muitas árvores e funcionários.

Antônio fizera questão de trazer para Santarém parte do luxo e da mobília aos quais estava acostumado. Tudo naquela residência parecia dizer a mesma coisa: dinheiro, poder e controle.

Anna, porém, nunca se sentira à vontade ali. Talvez porque também nunca tivesse se sentido inteiramente pertencente à própria família. Desde criança, percebera que existia uma espécie de lugar invisível na antiga casa, no Mato Grosso do Sul. E este novo lugar lhe trouxera para mais perto do que seus pais queriam afastá-la.

Já Paulo sempre estivera no centro, pois, era o filho que Antônio enxergava como sucessor. O filho que Carolina, sua mãe, defendia antes mesmo que alguém o acusasse. O filho que parecia carregar o sobrenome Bernardi como uma coroa.

Anna era diferente. Um ano mais nova, crescera observando o irmão ocupar espaços que ninguém parecia disposto a lhe negar. Ela possuía uma boa relação com Paulo. Ou acreditava possuir. Porque, às vezes, uma pessoa pode amar alguém e, ainda assim, reconhecer que existe alguma coisa profundamente errada nela.

Paulo era o tipo de jovem adulto de vinte e um anos que entrava em uma sala como se ela já lhe pertencesse. Gostava de falar alto, de ser ouvido e principalmente, de lembrar aos outros que o futuro estava garantido. Vivia se vangloriando da herança do avô e dos empreendimentos megalomaníacos do pai, que, segundo ele, os deixaria ainda mais ricos.

Paulo gostava do poder antes mesmo de possuí-lo. Era esse o detalhe que Anna jamais conseguira compreender. Ele não queria apenas dinheiro, almejava a sensação que o dinheiro provocava nas pessoas. Ambicionava ser temido, admirado, obedecido.

Antônio era diferente, não precisava falar alto. Sua autoridade estava no modo como olhava, na maneira como ocupava uma cadeira, no silêncio que surgia quando entrava em determinado ambiente e no olhar julgador e discreto que disparava a todos. Era um homem que aprendera a transformar silêncio em ameaça. Entre pai e filho havia uma cumplicidade construída sobre ambição. Antônio enxergava em Paulo aquilo que esperava deixar como herança além do dinheiro: a continuidade do nome Bernardi. Paulo, por sua vez, admirava no pai tudo aquilo que Anna questionava. A frieza, a autoridade... A capacidade de entrar em uma sala e fazer com que todos percebessem sua presença sem precisar levantar a voz. Desde cedo, Paulo aprendera que o sobrenome abria portas. Mais tarde, descobriu que também podia fechá-las.

Aos vinte e um anos, carregava a segurança de quem jamais precisara ouvir um verdadeiro não. Era impulsivo, vaidoso e acostumado a ser admirado. Gostava de ser o centro das conversas e tinha dificuldade em aceitar quando alguém discordava dele. Havia nele uma arrogância ainda juvenil, mas perigosa justamente porque fora alimentada durante toda a vida. Paulo não acreditava que fosse errado desejar tudo. Acreditava que errado era alguém tentar impedi-lo de conseguir. E havia aprendido isso dentro de casa.

Carolina era a mãe protetora. Para ela, Paulo continuava sendo o menino que precisava ser defendido, mesmo depois de crescer. Tratava-o como um príncipe, antecipava suas vontades, justificava seus erros e encontrava explicações para comportamentos que, em qualquer outra pessoa, talvez condenasse. Quando Paulo ultrapassava algum limite, Carolina encontrava uma maneira de diminuí-lo: “Ele é jovem. Ele vai aprender. É só uma fase. Você sabe como ele é.” talvez ali estivesse o grande erro. Não no amor que sentia pelo filho, porém na ausência de limites.

O avô dos dois, o senhor Bernardi, havia feito algo semelhante durante a criação de Paulo. Para ele, dinheiro era sinônimo de liberdade e poder era uma espécie de direito natural dos vencedores. O neto crescera dentro de uma realidade superficial, onde quase tudo podia ser comprado, negociado ou substituído. Quem se colocasse no caminho dos Bernardi precisava ser convencido, afastado ou descartado. Paulo absorveu aquela lógica sem perceber que ela estava sendo construída dentro dele.

Antônio e Carolina, cada um à sua maneira, apenas deram continuidade ao que haviam recebido. Criaram uma redoma em torno do filho. Uma proteção tão espessa que Paulo quase nunca precisou descobrir onde terminavam seus direitos e começavam os limites dos outros.

Anna cresceu de maneira diferente, não porque fosse menos amada. Quem sabe justamente porque seus pais acreditassem que ela não precisava ser protegida da mesma maneira. Ela era mais silenciosa, mais observadora. Desde pequena, costumava prestar atenção às conversas dos adultos antes de participar delas. Tinha o hábito de perceber mudanças no tom de voz, expressões que surgiam e desapareciam rapidamente e pequenos gestos que as pessoas faziam quando tentavam esconder alguma coisa. Era uma característica que, com o tempo, se transformaria quase em uma segunda natureza.

Anna observava antes de julgar, escutava antes de responder e, quando finalmente falava, geralmente já havia pensado muito mais sobre o assunto do que os outros imaginavam. Provavelmente, por isso não fosse fácil enganá-la. Ela possuía uma inteligência mais intuitiva do que ostensiva. Não precisava ser a pessoa mais barulhenta da sala para perceber o que acontecia nela. Havia em Anna uma espécie de sensibilidade para aquilo que não era dito. Era justamente essa característica que a fazia se sentir tão diferente dentro daquela casa. Enquanto Paulo aprendera a ocupar os espaços, Anna aprendera a observá-los. Enquanto o irmão queria pertencer ao mundo dos Bernardi, Anna queria compreender aquele mundo antes de decidir se realmente queria fazer parte dele. Seus pais a amavam e ela sabia disso.

Carolina se preocupava com ela, perguntava onde estava, se havia comido, se estava bem. Antônio pagava seus estudos, respeitava suas escolhas e, à sua maneira, demonstrava orgulho da filha. Não havia abandono, não havia rejeição. Havia apenas uma diferença difícil de explicar.

Paulo recebia proteção, enquanto Anna recebia liberdade. E, durante muito tempo, ela confundiu aquela liberdade com distância. Enquanto o irmão podia errar e encontrar alguém disposto a justificar seus erros, Anna aprendia a responder pelas próprias escolhas. Era como se existissem duas formas de criação dentro da mesma casa. Paulo fora preparado para herdar e Anna, para seguir o próprio caminho. E, embora isso pudesse parecer uma vantagem, havia noites em que Anna se perguntava por que precisava encontrar sozinha as respostas que nunca eram exigidas do irmão. Ainda assim, ela jamais desejara ser como Paulo. Essa era uma das poucas certezas que possuía. Amava o irmão, ou, pelo menos, amava aquilo que ainda conseguia reconhecer nele. Entretanto, não admirava o homem que ele estava se tornando.

Anna discordava veementemente de muitas decisões do pai e das ideias do irmão. Não gostava da maneira como falavam dos negócios, da terra ou das pessoas que atravessavam seus planos. Incomodava-se principalmente com a facilidade com que Antônio e Paulo transformavam vidas humanas em números, obstáculos ou oportunidades. Para Anna, uma pessoa não deixava de ter valor porque estava no caminho de um empreendimento. Uma comunidade não era apenas um pedaço de terra, uma floresta não era apenas uma propriedade esperando para ser explorada. E uma pessoa pobre não era automaticamente alguém inferior. Por isso que as conversas no escritório do pai a incomodassem tanto. Havia sempre alguma coisa nelas que parecia ultrapassar os limites do que ela considerava aceitável.

Anna ainda não sabia até onde Antônio estava disposto a ir. E talvez fosse justamente isso que a atormentasse. Seu pai não era um homem impulsivo como Paulo, era muito pior. Antônio pensava antes de agir, calculava, esperava, observava. E, quando tomava uma decisão, dificilmente voltava atrás. E Anna conhecia aquele olhar, entendia o silêncio que surgia quando alguém contrariava Antônio. Sabia a maneira como ele apertava discretamente a mandíbula quando estava irritado. Conhecia, sobretudo, a diferença entre o pai que aparecia diante da família e o homem que existia quando ninguém estava olhando. Era essa diferença que a inquietava, porque, por trás do empresário respeitado, do marido e do pai, havia alguma coisa que Anna ainda não conseguira alcançar. Alguma coisa escondida. Alguma coisa que ela sentia antes mesmo de compreender. Quem sabe fosse por isso que nunca tivesse se sentido inteiramente pertencente àquela família.

Todos a tratavam bem, todos diziam amá-la e Anna acreditava neles. Mas, em seu íntimo, havia um espaço que permanecia vazio. Uma sensação difícil de explicar, como se uma parte dela estivesse sempre esperando por alguma coisa que aquela família não poderia oferecer. Às vezes, essa sensação surgia durante a noite, nos sonhos. Em lugares que nunca visitara. Em vozes que não reconhecia. Em imagens que desapareciam assim que despertava.

Desde criança, Anna tinha a impressão de que havia alguma coisa do lado de fora esperando por ela. Não sabia o quê, não sabia onde. E jamais contara isso a ninguém. Porque sabia que sua família chamaria aquilo de imaginação. E Anna aprendera cedo que, naquela casa, aquilo que não podia ser explicado era melhor permanecer em silêncio. Por isso, durante anos, preferiu observar, guardar perguntas, ocultar desconfianças, resguardar sonhos. Até que chegou a Santarém e, pela primeira vez, aquela sensação começou a mudar. O rio Tapajós, a floresta, os sons da cidade, as histórias que ouvia pelas ruas e até mesmo os silêncios daquela casa pareciam tocar alguma coisa dentro dela.

Como se existisse uma parte de Anna que reconhecesse aquele lugar antes mesmo de sua consciência compreender o motivo.

Agora, a pergunta que Anna carregara durante tantos anos nunca tivesse sido: “Por que eu não pertenço à minha família?” Talvez fosse outra, muito mais assustadora. “Se eu não pertenço a eles, então a quem pertenço?” E, pela primeira vez, Anna começava a suspeitar que a resposta poderia estar muito mais próxima do que imaginava.

Como ainda tentava se adaptar ao novo ambiente, Anna decidiu não provocar conflitos. Preferiu observar, foi assim que começou a conhecer aquela casa, pelos silêncios que surgiam sem aviso, elas portas fechadas, pelas conversas que diminuíam de volume quando ela se aproximava e pelos olhares que a mãe desviava. E pelas vezes em que Paulo e Antônio permaneciam por longos minutos no escritório, falando baixo, como se as paredes também pudessem escutar.

Anna nunca soube exatamente o que escondiam, mas sabia que escondiam alguma coisa. Talvez soubesse desde muito antes de chegar a Santarém. Havia aprendido a reconhecer certos sinais. Um silêncio prolongado durante o jantar, uma mudança repentina de assunto. O modo como Paulo se levantava quando ela entrava em algum cômodo. A maneira como Antônio conseguia encerrar uma conversa apenas com um olhar. Nada era suficientemente claro para ser chamado de segredo, porém também nada parecia inocente. Às vezes, Anna tinha a impressão de assistir à própria família através de uma fechadura. Via um pedaço aqui, outro ali, mas nunca conseguia enxergar a porta inteira.

Provavelmente fosse justamente isso que mais a incomodasse. Não estar completamente por fora. Estar perto o bastante para perceber que havia algo acontecendo, mas longe demais para fazer parte. Naquela casa, Anna aprendera a ocupar pouco espaço. Não porque alguém tivesse lhe ordenado, contudo porque, com o tempo, percebeu que era mais fácil permanecer quieta. As coisas continuavam funcionando quando ela não perguntava. As refeições terminavam, as portas se fechavam, as conversas prosseguiam em outros cômodos. Era uma convivência estranha, estavam juntos quase todos os dias, mas isso não significava que se conhecessem.

Quem sabe fosse por isso que Santarém começara a lhe parecer tão diferente. Ali fora, Anna não precisava representar. Ninguém esperava que fosse a filha perfeita, ninguém lhe cobrava admiração pelo pai, ninguém a colocava à sombra de Paulo. Na rua, ela podia simplesmente ser Anna.

Santarém tinha uma energia que ainda não sabia explicar. Ao entardecer, gostava de caminhar pela orla e observar o Tapajós mudar de cor à medida que o sol desaparecia. Gostava do movimento das pessoas, das embarcações cortando a água, do cheiro úmido que vinha do rio e das vozes que se cruzavam pelas ruas. Havia alguma coisa viva naquele lugar.

Anna prestava atenção, principalmente, às variações do sotaque paraense. Algumas palavras tinham sons diferentes daqueles que ouvira em Belém; outras pareciam carregar significados que pertenciam somente àquela região. Gostava de ouvir as pessoas conversando, mesmo quando não fazia parte da conversa. Era curioso, naquela cidade, até o que não conhecia parecia lhe dar espaço e Anna gostava disso. Porque estava cansada de tudo aquilo que, dentro de casa, já viesse acompanhado de uma expectativa. A família parecia saber quem ela deveria ser antes mesmo que ela tivesse tempo de descobrir. Na rua, não... Ali ninguém conhecia sua história. Ninguém sabia quem era seu pai, quem era seu irmão ou o que acontecia dentro da casa dos Bernardi. E, pela primeira vez em muito tempo, isso lhe pareceu uma espécie de liberdade. Por isso, decidiu matricular-se em uma universidade para continuar o curso de Psicologia, iniciado em Brasília. Estava no quarto período, nas primeiras semanas, aproximou-se de alguns jovens da mesma idade. Surpreendeu-se com a facilidade com que fora recebida. Havia uma espontaneidade nas pessoas que ainda lhe causava estranhamento, mas que ela começava a apreciar. Pouco a pouco, Santarém deixou de parecer uma cidade onde havia chegado por acaso. Começou a parecer um lugar onde poderia ficar. O problema nunca estivera na cidade, nem nas pessoas. Estava dentro de casa. Às vezes, imaginava como seria se pudesse voltar alguns anos no tempo e escolher a própria família. Logo se arrependia do pensamento, pois também havia carinho ali, apesar de tudo. Ou pelo menos havia o que restava dele. E talvez fosse justamente isso que tornasse tudo mais difícil. Anna não odiava a família. Só não sabia mais como pertencer a ela. Provavelmente essa fosse uma das razões pelas quais escolhera estudar longe de casa, primeiro em Brasília. Ou talvez, sem perceber, tivesse passado anos procurando um lugar onde pudesse descobrir quem era antes que sua família decidisse isso por ela. Agora, em Santarém, começava a entender que liberdade não significava estar sozinha. Às vezes, significava apenas estar em um lugar onde ninguém conhecia a versão de você que havia sido criada pelos outros. E, pela primeira vez, Anna queria descobrir a sua.

***

Horas antes de mergulhar naquele sono incomum, uma ligeira vertigem quase a fizera cair da escada. Precisara segurar-se no corrimão, naquele instante, sentira um cheiro estranho espalhado pela casa. Ervas. Não soubera identificar quais, o aroma vinha de algum lugar do andar de baixo, forte, úmido, terroso, quase antigo. E desaparecera tão rapidamente quanto surgira.

Anna fora para o quarto sem entender por quê. Havia sentido também um desconforto naquela manhã, quando se despedira de Paulo. Não fora exatamente uma discussão, nem sequer uma conversa diferente das outras. Ainda assim, alguma coisa em seu irmão parecera fora do lugar. Agora, depois daquele pesadelo, Anna começava a perceber que talvez não tivesse sido apenas impressão. Desde então, tivera a sensação incômoda de estar sendo observada. Pelas janelas, pelos jardins, pela própria casa.

Agora, acordada, a lembrança da voz de despedida de Paulo voltou inteira à sua cabeça. Somada à visão da morte do irmão, um arrepio percorreu sua espinha.

Anna levantou-se e permaneceu alguns segundos parada ao lado da cama. O quarto estava mergulhado na penumbra.

O céu, do outro lado da janela, havia adquirido uma tonalidade cinzenta e violácea. Nuvens pesadas se acumulavam sobre Santarém, escondendo os últimos vestígios de luz.

Então Anna ouviu um toque leve no vidro. Ela virou lentamente a cabeça e nada. E ouviu outro toque no vidro, porém dessa vez mais forte. Anna movida pela curiosidade, caminhou até a janela. Foi então que viu uma sombra passar próxima ao vidro. Ela congelou e elevou o rosto lentamente. A sombra voltou, mais próxima. Um pássaro escuro bicava o vidro da janela e Anna sentiu o coração acelerar. Não sabia por que aquela a ave lhe causava uma sensação tão estranha. Não era medo, era uma espécie de reconhecimento. Como se, de alguma maneira absurda, já tivesse visto aquele pássaro antes. Em um impulso, abriu a janela e a ave disparou para o jardim e desapareceu entre os galhos de uma árvore frondosa no fundo do quintal.

Anna permaneceu observando e esperou por alguns segundos e nada. Ela permaneceu lá, emitindo um som. Em seguida, sentiu um calor intenso que parecia romper sua pele. Dessa vez, começou no centro do peito e espalhou-se pelos braços. Ela não teve medo, e sim curiosidade. Uma curiosidade tão intensa que venceu qualquer cautela. Decidiu sair apressadamente do quarto, atravessou o corredor e desceu as escadas quase tropeçando novamente e atravessou a porta lateral de vidro que dava para o jardim.

O ar do lado de fora estava mais úmido. O cheiro da terra subia depois do calor do dia. As folhas das árvores se moviam suavemente, enquanto os últimos clarões do entardecer desapareciam por trás das nuvens.

Anna caminhou pelo quintal, seus olhos permaneceram fixos na árvore. Havia um movimento incomum entre os galhos, não era apenas o vento. Parecia que alguém transitava entre eles, até que um galho se moveu com mais força. Ela aproximou-se sem medo e firmou os olhos e logo um assobio atravessou o jardim, agudo, comprido e agourento.

A jovem recuou alguns passos e tampou os ouvidos. O som parecia atravessar o tímpano e entrar diretamente em sua cabeça. Logo, tudo ao redor pareceu distante, a casa, o jardim, o céu e até o próprio corpo e surpreendentemente, penas escuras começaram a cair do alto da árvore. Elas giravam lentamente no ar como uma chuva silenciosa e nefasta.

Anna ergueu os olhos e a escuridão parecia ter tomado conta do quintal. E, no meio dela, alguém surpreendentemente surgiu. Paulo, seu irmão. Ele estava parado diante dela, mas não era o Paulo que conhecia. O rosto estava pálido, a roupa suja, os olhos carregavam uma expressão que Anna jamais vira nele. Um medo sufocante.

A jovem sentiu as pernas fraquejarem, o peito pareceu queimar, aquele mesmo ardor que sentira no quarto regressou, porém, agora mais forte. Anna teve a sensação de que não estava apenas vendo Paulo, ela conseguia sentir sua dor, sua aflição, sua solidão, sua prisão. Aproximou-se devagar e receosa e levantou a mão hesitante, tocando-o no rosto e percebeu que estava demasiadamente frio.

— Paulo? — Indagou. Será que ainda estava sonhando?

Paulo ergueu os olhos temerosos. E, pela primeira vez, Anna percebeu que o irmão não estava olhando para ela como fazia antes. Não havia arrogância, nem superioridade e muito menos desprezo. Havia súplica.

— Me salva, Anna. — A voz emanava desolação. — Por favor. Me liberta daqui.

Anna não conseguiu responder, seu corpo inteiro começou a tremer. A voz dele não parecia vir apenas de sua boca, parecia surgir de dentro dela, como se alguma parte de sua própria consciência tivesse se aberto para recebê-la. Então a árvore explodiu em movimento sinistro. Uma revoada de pássaros deixou os galhos e centenas de asas cortaram o crepúsculo, voando em círculos sobre os dois.

Anna levantou os olhos e viu que o céu parecia menor, mais escuro, mais próximo. As aves giravam cada vez mais rápido e, por um instante, Anna teve a impressão de enxergar formas humanas entre elas. Rostos, mãos, olhos e memórias que não eram suas... Vidas que não conhecia. Então surgiu uma floresta, uma mulher jovem, água corrente e sangue. Era algo absolutamente real e praticamente palpável. Uma jovem de cabelos escuros corria, e conseguiu ouvir a voz do irmão chamando por “Nia”.

O nome surgiu em sua mente sem que ninguém o pronunciasse, seus lábios repetiram o nome. Anna piscou e a visão desapareceu, quando voltou os olhos para o irmão, Paulo havia desaparecido, simplesmente sumido. No lugar onde estivera, alguma coisa caiu ao chão. Era um pequeno colar de sementes vermelhas e Anna permaneceu imóvel, não sabia ao certo o que fazer.

Uma voz feminina ressoou em seus ouvidos, Anna virou-se e não havia ninguém. Tentou compreender as palavras, mas a voz parecia falar de dentro da própria árvore. Não entendia o que ela falava, ou talvez ainda não estivesse pronta para compreender. No mesmo instante, o portão da garagem se abriu. O ruído metálico rompeu o silêncio. O carro de Antônio Bernardi entrou e estacionou diante da casa.

Anna virou o rosto e as aves começaram a voar mais depressa. Então a revoada abandonou o jardim e desapareceu ao longe, deixando para trás apenas algumas penas que ainda flutuavam no ar. A jovem continuou estática, seu pai estava saindo do carro. Entretanto, pela primeira vez, a presença dele não lhe trouxe segurança, trouxe uma pergunta. Ela olhou novamente para o lugar onde Paulo estivera e depois, para o carro. Então se agachou e apanhou o colar devagar. As sementes vermelhas estavam presas umas às outras por um fio envelhecido, no centro havia uma pena escura, pequena, usada como pingente. Anna a segurou entre os dedos, sentiu novamente aquele ardor percorrer o corpo. Dessa vez, porém, não recuou. Fechou os dedos em torno da pena e alguma coisa dentro dela respondeu. Um calor percorreu suas veias, não era dor, era uma espécie de energia. Uma presença, um chamado. Anna ergueu-se lentamente os olhos para a árvore e pela primeira vez, não sentiu que estava diante de algo incógnito. Sentiu que estava diante de alguma coisa que a conhecia. E compreendeu que Paulo não pertencia mais ao mundo dos vivos e que seu irmão estava preso na floresta em que sonhara. Ela havia aberto uma porta, uma porta que, de algum modo, sempre estivera esperando por ela.

Paulo fora o primeiro a atravessá-la, Nia seria a próxima. E Antônio Bernardi já estava do outro lado, guardando um segredo que Anna ainda não sabia nomear. Ela olhou para a pena, depois para a casa. Os olhos estavam marejados enquanto uma certeza sombria pulsava em seu ser.

— Eu não tô sonhando... O que vocês querem me dizer? Digam! Eu faço.

— Fazes mesmo, filha de Carolina? — Indagou uma voz aguda. — Sinto medo em ti.

Anna olhou profundamente para os galhos e disse confiante:

— Faça com que esse medo acabe.

— Hum... Se me deixares entrar? Posso, Anna... — Perguntou a voz pausadamente.

Anna continuou para diante da árvore segurando o objeto com força e respondeu devagar.

— Pode.

O vento soprou bruscamente, uma única pena desprendeu-se da árvore e desceu lentamente, pousando aos pés de Anna, como uma resposta, como um convite. O primeiro sinal de que, naquela noite, Anna Bernardi começara finalmente a despertar para aquilo que nascera para ser e seus olhos, se tornaram amendoados.