O primeiro contato
O primeiro contato
Chegar ali é uma tarefa notável. Quem se encontra com a torre merece os parabéns. Mas, ganhar parabéns por chegar ali não é necessariamente uma coisa boa. Depende do seu ponto de vista.
Lá ao longe (e isso pode ser em qualquer direção que você olhe), uma figura humana vem caminhando devagar, despretensiosamente, olhando ao redor, procurando alguma coisa. Sua cabeça vai de um lado para outro, para cima e para baixo, frente e atrás. A figura parece perdida, e realmente está. Chegara ali a pouco, e não reconhece nada. Sabe se orientar pelas estrelas, mas não encontra uma que sirva de ponto de referência. Então ela vê a torre, e as montanhas apagadas ao fundo. Ela segue a linha e percebe que cadeia de montanhas não tem fim. Ela circunda todo o horizonte.
Ela acha estranho, pois não se lembra de ter passado por nenhuma delas no caminho. Na verdade, não se lembra de nada sobre as características do lugar. É um ambiente novo e totalmente diferente de onde estava.
Então ela se aproxima da torre, e olha para cima, com curiosidade. De longe ela já havia visto seu tamanho. Não é alta, deve ter a altura de um prédio de 10 andares. Foi toda construída em pedra, e tem um relógio grande no topo. Ela dá a volta e percebe que tem um relógio em cada face. E, acima deles, não se vê um telhado o cobrindo. Somente o que parece ser uma platibanda também de pedra. A mulher dá uma volta completa na torre, tentando encontrar a porta. As pequenas janelas em linha subindo até o relógio são fechadas com madeira, com pequenos espaços para entrada de luz nem ar. Ela faz uma careta curiosa e dá mais algumas voltas, tentando entender a torre.
Ela chega a conclusão que dá para subir, escalando pelas janelas e por reentrâncias nas pedras. Ela quer subir para ver melhor o lugar, e se abrigar do frio. Ela começa a escalada, se apoia na primeira janela e tenta ver dentro, mas não há como. Continua sua subida, mas encontra dificuldades ao tentar alcançar a segunda janela. Ela procura lugares para apoiar aos mais e pés, mas não acha. Desce e analisa as outras faces. Uma delas tem alguns lugares onde pode ser apoiar e subir. Então ela começa, avança alguns metros e se frustra novamente. Ela tenta então chutar a madeira da janela logo abaixo, mas desiste. Ela vê um caminho a seguir, mas é perigoso: ela terá de mudar de face lateralmente. O vento gelado a impulsiona a agir mais rapidamente, o frio está cortante agora, e ela precisa se abrigar. Com muito esforço, ela sobe mais alguns metros, e agora está encarando o relógio cara a cara. Ele tem sessenta centímetros de diâmetro, todo de metal e vidro. O metal todo trabalhado com desenhos em linhas finas não tem um significado, e o material está todo surrado pelo tempo. O vidro resiste ao tempo, não tem nenhum defeito, a não ser a sua cor púrpura desbotada e suja de terra. Não é um vitral com uma imagem a ser entregue, mas é bonito. Os ponteiros negros parecem fortes como lanças, firmes e foscos. Se a mulher não estivesse se cansando, passaria mais tempo apenas admirando o relógio. Mas seus braços a lembram que ela não está a salvo ainda.
A mulher continua subindo, agora com mais facilidade, até alcançar o topo da torre. Ela estranha o fato da parte mais alta estar mais desgastada que a base e o corpo. Será o vento quem castiga severamente a estrutura? Umidade do ar? Talvez ela se preocupe com isso depois que se sentir segura novamente. Então ela chega ao topo, e ali ela encontra um piso de madeira com um alçapão. Ele é feito de madeira, mas uma madeira tão escura e opaca que o primeiro pensamento é pensar que aquilo é feito de carvão. E está perigosamente em um nível baixo. Ela precisará se soltar da borda para pousar no piso.
O vento e o frio a pressionam cada vez mais a tomar uma decisão. O frio está insuportável ali, e o simples pensamento de que o interior da torre pode estar mais quente é o suficiente para que ela se solte, pulando para o canto oposto da parede, para o caso de o piso ceder, e ela conseguir se agarrar ao que estiver preso à parede, se o mesmo estiver preso a uma parede.
O piso não cede, e ela suspira em alívio. Ele nem range nem balança. Está tão firme quanto as paredes. Ela leva a mão ao alçapão sem pensar duas vezes, abrindo-o. O ar quente a atinge, e ela pula para dentro, sem pensar duas vezes.