O segundo contato
O segundo contato
A figura humana vem cambaleando, arrastando os pés em algo que se parece com uma corrida, onde o corredor já não tem mais forças para tal. A pressa do homem não é pela chegada em si, mas pela fuga que vem empreendendo a algum tempo. Ele vê na torre do relógio um lugar seguro, mesmo sem conhecê-la. Ele não ousa olhar para trás, pois, se o fizer, acredita que não conseguirá escapar da fera. Ele segue em seu ritmo ofegante e desesperado lutando pela vida, sorrindo por ter encontrado um ponto seguro. Ele reza para ter forças caso precise escalar, mas reza também para que tenha uma porta aberta.
Ele finalmente alcança a torre. Nada de porta na face à sua frente. O sentimento de tristeza o leva às lágrimas, mas não desiste. Agora, pela primeira vez, tem coragem e olha para trás. A fera que o seguia não está mais ali. O que teria acontecido com ela? Ela parecia tão obstinada a alcançá-lo. O homem olha para o céu escuro e frio e agradece a Deus, mas se mantém cauteloso, olhando em volta enquanto mantém a mão em seu ponto seguro. Ele cria uma conexão com a torre, sua salvadora. Agora anda mais firme, ereto, mas ainda lentamente, ao redor dela, procurando a entrada. Não vê janelas, apenas um brilho saindo do vidro do relógio, lá no alto. Uma volta completa na torre, e ele finalmente encontra a porta. Uma porta escura e fosca, como carvão. Ela é mais alta que as portas comuns, e seus rebites e ferrolhos são da mesma cor.
Seu medo da fera perseguidora retorna, mas ele olha em volta e não a vê mais. Está seguro, mas ainda existe a urgência: e se a fera voltar? E se ela só estiver dando a volta para me surpreender? Ele precisa correr e entrar logo. O homem, enquanto tenta recuperar o fôlego e um pouco das forças, procura pela maçaneta, mas não encontra nada. Como vai entrar? Ele então força a porta para dentro, empurrando com o ombro, enquanto coloca toda sua força nas pernas e nos pés. Ainda está fraco, e a porta não se mexe. Ele olha de um lado a outro e dá mais uma volta na torre, agora com mais calma e um pouco menos cansado. Não vê nem ouve ruídos da fera. Ele se convence que ela se fora. Agora, mais calmo, consegue pensar melhor. Ele se senta encostado na porta e acaba adormecendo sem perceber.
Ele acorda terrivelmente assustado, e olha freneticamente para os lados. Não vê nada nem ninguém, a não ser a torre logo atrás de si, o horizonte cinza e a si mesmo. Agradece aos seus por ainda estar vivo. Ele se convence que a fera foi embora, caso contrário estaria morto e estraçalhado aos pés da porta sinistra. Ele está recuperado, mas faminto. Ele sente que agora vai conseguir abrir a porta e procurar por comida e abrigo.
Ele tenta empurrar novamente, mas ela não se move. Tenta de todas as formas abri-la de fora para dentro, sem sucesso. Vai tentar puxá-la, e também se mostrará sem resultados.
Ele estuda as dobradiças e todo o metal do conjunto, procurando uma brecha, mas acaba desistindo. A fome já o alertava a tempos, e agora o castigava violentamente. Ele pensou em bater educadamente - visto que, de forma brusca, ninguém o atendeu -, mas riu disso e tentou. Nada.
Por fim, desiste de tentar. Chora, e entrega seu corpo à fadiga e a fome. Fecha os olhos, e seu corpo cai a frente. Ele acerta o rosto no chão, pois sente o gosto da areia na boca. Alho está estranho. Ele não estava tão longe assim da porta, estava a poucos centímetros. Ou a torre se afastou dele ou ...
Com uma energia desconhecida, vinda sabe-se lá de onde, ele olha em volta. Não vê nada a frente, somente um breu sem fim. Mas consegue olhar para trás, e vê seus pés sob a luz fraca do exterior. Sem pensar duas vezes, ele rola seu corpo inteiro para dentro, e a porta se fecha.