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A Torre do Relógio · O terceiro contato — Rodrigo M Rodovalho

Por Rodrigo M Rodovalho

Nunca se sabe se é dia ou noite quando você se aproxima daquela torre de pedras. O clima está sempre chuvoso, a falta de sol e o vento frio fazem do lugar, um lugar triste e desolado. Ela está sozinha no meio do nada, não se vê mais nenhuma construção ou sinal de civilização.

O terceiro contato

O terceiro contato

A dupla vem discutindo aos berros, andando em frente, sem tirar os olhos um do outro. A mulher está com sua jaqueta na mão, segurando com muita força e raiva. Ela grita com o companheiro sem perder o ritmo. Ele também está gritando e andando, como se tivessem ensaiado aquilo. Ele anda segurando seu braço direito, machucado, mas a força para discutir não se esvai. Eles gesticulam enquanto caminham, e quando se dão conta, já estão próximos da torre.

Eles só param a discussão quando a mulher tropeça em algo no chão, e quase caí. O homem a segura pelo braço e ela xinga. Ela se recupera quase que instantaneamente, se livrando dele. Ambos procuram pelo que quase a derrubou, mas a areia está lisa ali, salvo onde seus pés deixaram marcas. A discussão continua até a chuva começar. O chão começa a escurecer, pela umidade da água na areia. A mulher joga a jaqueta na cabeça para se proteger da chuva que, de repente, se torna forte. Cada pingo que cai, vem seguido de outro mais pesado. O homem protege a cabeça com o braço que não está machucado. Suas jaquetas de couro os protegem das pancadas cada vez mais fortes, mas até elas têm um limite, e a chuva se torna insustentável.

Eles se protegem encostados na face da torre onde a chuva pouco afeta, onde é suportável ficar sem ganhar hematomas. As pancadas no chão fazem um barulho incômodo, a umidade não incomoda, mas o frio sim. A chuva se arrasta por horas, e não parece querer dar uma trégua.

A mulher nota um som estranho, como uma batida sem ritmo, mas diferente, e não sabe de onde vem. Olha em volta, mas não consegue distinguir a origem do som. Até que, depois de muito se concentrar, ela percebe o local exato da origem do som. Mas é estranho, pois não tem nada ali, a não ser poças de água da chuva.

Durante algum momento enquanto aguardavam, discutiram novamente por várias vezes. Mas agora já estavam cansados física e psicologicamente para continuar. Ambos sentaram no chão molhado, se se importar com esse detalhe. O braço do homem ainda doía, enquanto ele o segurava. A mulher, encostada nele apoiara a cabeça em seu ombro, e ambos adormeceram.

Quando o sono finalmente cessara, mas não por completo, a mulher desperta de um sono agitado, cheio de sonhos ruins. Seu centro de gravidade a chacoalha de um lado a outro, apressadamente. E, de súbito, ela engole água, muita água. Acorda desesperada, procurando um lugar para se agarrar. Tanto ela quanto o homem estão se debatendo por suas vidas, na água. Ambos desnorteados, pensando sobre aquilo. Estavam em um deserto, agora estão no mar? Não, a água não é salgada. Ela o procura desesperadamente, e ele tenta se manter com a cabeça acima da água, mas tem dificuldade, usando apenas um braço. O outro dói muito quando ele o agita. Eles se encontram e se agarram. Tossem a água para fora da boca, tentando se recuperar. Ela o abraça, mas logo percebe sua dificuldade. A mulher o puxa, arrastando para se segurarem em uma das janelas.

Passado o susto, e agora recompostos, eles avaliam a insana situação. Em um piscar de olhos, o lugar foi inundado pela chuva. Mas onde ela represara? Até onde a vista alcança, a água domina. E eles não podem ter dormido tempo o suficiente para a água subir assim. Outra coisa que agora os apressa: granizo. Bolas de gelo enormes começam a acertar a água. Uma delas passa de raspão pela cabeça da mulher, que segura seu parceiro, encostados na face da torre. Outras pedras de gelo jogam estante água neles. E a velocidade com que as pedras caem aumenta rapidamente, produzindo um som ensurdecedor, criando pânico nós dois. Eles precisam se abrigar, e rápido. Mas onde ir? As janelas não se movem, não existe porta, e a torre é muito alta para esperarem a água subir. As pancadas de gelo estão cada vez mais perigosas.

Então a mulher pede ao seu companheiro para tentar se segurar sozinho, pois lhe ocorreu algo, e ela precisa mergulhar a procura de salvação. Ela respira fundo e desce pela primeira vez. O pânico toma conta dela quando ela vê que as pedras de gelo tem o tamanho de sua cabeça! Se alguma dessas acertar alguém, é morte certa. A quantidade de pedras chegando na água e afundando é surreal. Ela sobe.

A mulher orienta seu companheiro a usar as vinhas para ficar em um ponto onde a chuva seja tão perigosa. Ele segura em uma das vinhas pegajosas e grita de dor. Não era o braço machucado, mas sim a queimadura do líquido que escorre pela vinha. Sua mão queima a ponto de escurecer. Ele afunda e retorna quando ela o puxa. Ele mostra a mão trêmula e queimada, e ela o leva de volta ao local onde estavam. Assim que chegam, estilhaços de gelo voam por cima de suas cabeças, assustando-os.

Ela precisa descer novamente, e achar rápido aquele pedaço de metal. Ela se lembra do som estranho enquanto a chuva caía, antes de adormeceram. Ela se lembra vagamente da direção do som, e seu sonho agitado havia lhe confirmado que ali tinha algo. Ela se lembra do sonho, onde uma cobra de metal lhe agarrara o pé e a puxava para o ninho. Depois, claridade! Cegante! E ela estava acordada novamente. Então ela nada na direção de onde vinha o som, e vê, no ponto onde uma pedra de gelo acertou, havia um quadrado escuro no chão. Então ela nada até lá, mas precisa subir novamente. Olha para trás - seu parceiro ainda segurando na janela, agora com as duas mãos -, pega mais fôlego e desce pela terceira vez. Ela chega no local e percebe que não existe como puxar a porta. Ela tenta encontrar uma brecha, uma fenda que a ajude, mas não consegue. Uma pedra de gelo cai em cima da porta, acabando com a mínima esperança, e ela entra em desespero. Está cansada e sem fôlego.

Seu companheiro surge então, a agarra firme, e a leva para a superfície. Ela se recupera e olha assustada para ele, sem entender onde está o homem ferido que deixara na torre. As pedras de gelo continuam caindo ao lado deles, e ele explica rapidamente que conseguiu quebrar uma das janelas para se segurar melhor. Quando enfiou a mão necrosada lá dentro, sentiu um calor reconfortante, e teve suas forças restauradas. Sentia-se revigorado como nunca. Uma pedra passou raspando pela cabeça da mulher, e ambos puxaram fôlego e desceram. O homem retirou as pedras que se acumularam na porta, e ela procurou novamente por uma brecha. Mas dessa vez viu que pequenas bolhas brotavam de algum lugar ali.

A mulher ainda estava cansada e quase sem ar. Ele então lhe deu um beijo, e soprou em seus pulmões. Uma pedra de gelo o acertou no ombro, e o fez girar. Ela o segurou, colocou a mão em seu rosto, e o viu acordado, mas com uma careta, tendo sangue flutuando atrás dele. O homem levantou o polegar, em seguida direcionou seu indicador para baixo e desceu até a porta, ela o seguiu e apontou para as bolhas.

Ambos batiam com os calcanhares no local com toda sua força e, lentamente, as bolhas cresciam e aceleravam. Em um último esforço, eles buscaram uma pedra de gelo e a usaram para terminar o trabalho. Assim que a porta cedeu, ambos foram sugados para a escuridão, quase sem perceber.