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A última Espada do Norte · O inverno — MatheusNL

Por MatheusNL

Em uma terra farta. Grãos, caça e frutos. Até que o clima mudou. Trouxe morte. Trouxe corrupção. E das cinzas, nasceu a única esperança. Zanther Drake é o último descendente de uma família de guerreiros das montanhas extremas do Norte. Num continente que devora os fracos e cospe os pedaços, ele precisará ser mais que um caçador. Precisará se tornar uma ruptura que este mundo jamais esquecerá.

O inverno

O ano era 100 D.C.N. – depois da conquista do norte.

Após anos muito produtivos com a caça e fartas colheitas, os ventos do norte estavam prestes a sofrer uma drástica mudança.

Nos primeiros dias daquele ano, uma mudança notável era destacada no céu, nuvens que pareciam não ter fim, como uma parede de cinzas.

Naqueles primeiros dois meses, os animais começaram a emigrar para outras regiões, como se estivessem fugindo de algo, somente os mais adaptados a diversos climas estavam se mantendo naquela região outrora abundante em espécies.

No quarto mês, o solo já sentia a falta da luz solar abundante e começou a sofrer a perda de algumas espécies de frutas, árvores outrora belas e verdes, agora somente com galhos secos, poucas folhagens.

Chegando ao sexto mês, um vento congelante carregado de uma chuva de neve jamais vista cai sobre a terra nortenha, deixando campos belos em mares brancos de neve.

Oitavo mês, as casas do interior já tinham suas portas travadas pela neve alta. Uma dessas cidades do interior muito afetada por essa mudança drástica foi a cidade de Cameron, uma área onde a caça era o forte das famílias dessa região, cercada por várias florestas e montanhas.

Em algum lugar floresta adentro, nas redondezas de Cameron, um grupo de quatro caçadores buscava animais para extrair peles para roupas quentes.

Um homem robusto, de aproximadamente um metro e noventa, barba castanha salpicada pela geada, cabelos grandes mas não compridos, ficou para trás com seu filho, aparentemente ensinando a caçar.

— Zanther, fica perto de mim.

Ele puxou o garoto para perto com o braço esquerdo, varrendo os arredores com os olhos.

— Essa floresta tem predadores muito grandes. Maiores que nós.

Após uma caminhada de alguns minutos, alguns barulhos chamaram a atenção de Gray. Após se agachar e analisar o solo, notou algumas pegadas.

Mesmo com a neve caindo, o animal que passou por ali era grande e pesado, porque suas pegadas ainda não haviam desaparecido. Caminhando mais dez metros atrás de algumas árvores caídas, uma grande mancha de sangue já congelado formando um rastro enorme até atrás do aglomerado de árvores caídas, Gray colocou Zanther embaixo de um tronco de árvore que formava uma aparência de cabana que se localizava a três metros das árvores caídas.

Voltando a andar em direção ao rastro, ele se aproxima analisando o ambiente todo, galhos caídos, pegadas do tamanho de uma roda de violão, seu coração começou a bater mais rápido, mas como um caçador que já vivenciou muitas caçadas, ele controla sua respiração e continua avançando em direção à origem do sangue, levando as mãos à cintura, ele pega seu machado e já ajeita o arco em seu tronco, logo em seguida ele confere se as flechas no compartimento em sua cintura estão bem colocadas, prontas para serem usadas.

Finalmente, após dar a volta, ele acha a origem e de início ele se surpreende com um alce de aproximadamente dois metros e dois de altura.

Como aparentava ser um macho enorme com uma galhada grande e robusta, pesando aproximadamente oitocentos quilos, o animal estava despedaçado, ele chegou perto do corpo morto para analisar, tentando ver o que teria matado algo daquele tamanho e ainda despedaçar a carcaça de tal forma, quando bateu seus olhos sobre o animal viu uma coisa peculiar, marcas de garras que aparentemente seriam de um urso ou algo similar, mas daquele tamanho?

Ao olhar, se espanta, deixando sua respiração presa por alguns intervalos de tempo entre um a dois minutos antes de se controlar novamente.

Ao se agachar e se voltar a analisar o cadáver.

— Aaaaaa!

Gray ouve gritos dos caçadores que estavam na frente fazendo reconhecimento, ele corre até Zanther o mais rápido possível, após notar que ele está bem.

— Zanther, fica aqui, não sai enquanto eu não retornar.

Sacando o seu segundo machado da sua cintura que estava preso ao seu cinto, ele se vira já correndo em direção aos gritos.

Após dez minutos, ele começa a escutar estalos como se fosse ossos partindo e metal cortando carne, ao chegar na origem do grito seus olhos arregalaram e o coração que antes calmo acelera a mais de cem batimentos.

Um urso negro repleto de flechas em todo seu tronco e costas, um machado fincado em sua cabeça, repleto de cicatrizes, nota-se que o animal tem nitidamente sinais da batalha contra o alce, olhando rapidamente em volta, o nortenho vê que seus dois batedores que também eram bons caçadores estão em estado grave.

Greguene está em pedaços, partido ao meio, os seus braços espalhados por ambos os lados sem sua cabeça, suas vísceras e sangue transformando a cena da neve como uma tinta vermelha em tela branca.

Zilian estava sem um braço, totalmente ferido por cortes e arranhões sem forças para lutar, encostado em uma árvore na frente da grande besta, que aproximadamente sobre as duas patas batia facilmente mais de três metros e seis de altura, a fera pesava mais de mil e duzentos quilos.

Gray, em uma tomada rápida de decisão, arremessa em direção à besta uma de suas armas, seu machado percorre uma distância de seis metros, rapidamente cravando na parte lateral do ombro do animal, que enfurecido se vira e começa a perseguir ele.

O homem robusto corre em direção às árvores caídas, buscando usar o terreno a seu favor. Seu nível de adrenalina era tão alto que a única coisa que ele ouvia era seu coração e o barulho daquilo o perseguindo.

Derrubando os troncos das árvores, notou a limitação do animal. O guerreiro guardou seu machado na cintura e puxou o arco, já pegando duas flechas de uma única vez, esticou até as cordas estalarem e atira na direção do rosto do urso.

A fera avançava ferozmente contra ele, mas é atingida no focinho e na testa, próximo ao olho, limitando ainda mais a visão do animal.

Mas sua corrida teve uma parada brusca, ele cometeu um erro: não percebeu que ficou muito próximo da parede da montanha, agora também estava encurralado.

Com o animal descontrolado avançando na direção, destruindo troncos de árvores com enormes rugidos, o caçador segurou a flecha e a colocou no arco.

Virou-se para o urso e correu em sua direção. O monstro, por instinto, lançou sua pata imensa contra o peito do homem, que se jogou de joelhos por baixo do ataque, as garras passando a milímetros de seu peito.

— Aaaaaaa!

Gray grita bravamente enquanto passa pelo ataque e tensiona o arco em direção ao pescoço do animal.

— Vamos ver se você aguenta isso, sua aberração!

Soltando a corda do arco, a flecha percorreu o ar como um piscar de olhos e atravessou o pescoço da fera, ficando no meio entre a entrada e a saída, o sangue pingava, sua traqueia com certeza foi atingida.

O animal se chocou com as árvores mortas na encosta da montanha. O caçador se levantou pensando consigo que o animal outrora já devia ter sido abatido com tal ataque.

Para sua infelicidade, não deu tempo de se virar.

Seu único reflexo foi erguer o arco na frente das suas costelas direitas.

Por puro instinto.

A pata do urso o atingiu em cheio.

Algo se quebrou. O estrondo do movimento da fera em sua direção aconteceu sem tempo para reação. O homem foi arremessado pelas árvores, quebrando galhos e dando cambalhotas por quase doze metros.

Ele se levantou com sangue pingando de suas vestes. O arco que usava não segurou o impacto totalmente e ele teve diversas escoriações.

Levantou-se com o braço direito dormente, notando que estava fora do lugar. Movimentou-se até uma árvore quebrada e forçou o braço com um movimento rápido para baixo, após se escorar. Colocou-o de volta no lugar.

Recompôs-se e pegou o machado do chão. Ao longe via-se sua postura diferente: olhos estreitos, sangue pingando, sua roupa de armadura de couro cortada. O cabelo castanho caído para baixo, com aparência de quem estava suado.

O animal soltou um rugido rouco pela flecha atravessando seu pescoço e disparou em direção ao caçador.

Ele se manteve parado enquanto encarava a criatura vindo em sua direção. Apenas apertou firmemente o machado e se preparou, sem alterar a postura.

A besta chegou a 2 metros de distância, a uma velocidade de aproximadamente vinte e cinco quilômetros por hora, e saltou em sua direção com as duas patas para estraçalhá-lo.

Entretanto, o homem já esperava por isso. Quando o animal saltou, ele somente sorriu e se impulsionou por baixo da fera que já estava no ar, feroz em sua direção.

Mesmo passando por baixo, foi atingido, cortando um pouco seu ombro e peito. Mas ao mesmo tempo fez uma alavanca com o braço esquerdo, acertando o machado com tanta força que podia-se ouvir todas as costelas do lado lateral direito do peito do urso se partindo.

E suas vísceras saindo pelo estrago que o machado causou.

O urso que passou voando grunhiu de dor e se chocou sem forças contra as árvores. Elas se partiram com o peso do animal.

Gravemente ferido, ele não se movia mais.

Gray levantou-se. Olhando para sua esquerda, notou que seu filho assistiu a tudo. Mas seu olhar pairou atrás do garoto.

A uns cinco metros do menino havia um total de três lobos da neve. Observavam a situação e estavam prontos para agir.

O caçador estava a sete metros deles. E sem perder nenhum segundo, pegou o machado ensanguentado e se impulsionou para frente, percorrendo essa distância.

Ao mesmo tempo, os lobos avançavam. Foi uma explosão física que nem sequer parecia humana.

Ele atingiu o primeiro lobo e o derrubou. O segundo já havia mordido sua perna, mas teve sua cabeça arrancada com um único movimento do machado.

O terceiro animal avançou em suas costas. Virando-se rapidamente, ele segurou a fera por baixo e a arremessou para a direita.

Recuperando sua postura, os animais o rodearam. Observavam o homem com o machado sangrando, mas ainda em pé.

Os dois lobos avançavam ao mesmo tempo, mirando as pernas e o pescoço de Gray.

Mas ele, com um movimento limpo, acertou o cabo do machado no queixo do primeiro animal, derrubando-o. Usou o braço como escudo para se defender do segundo lobo.

Fez um movimento de giro com o machado e acertou a barriga da fera, rasgando-a em diagonal, quase inteira.

O lobo no chão, atordoado, não teve nem chance e sofreu um pisão no pescoço, seguido de um golpe do machado no crânio, matando-o instantaneamente.

Voltando até seu filho, ele o pegou e colocou nas costas. Quando se virou, viu uma figura estranha que reconheceu dos livros da família. Algo que era muito pior que um animal selvagem qualquer.

Ele se virou rapidamente, correndo até a vila que ficava a dez quilômetros de onde estavam. Sua corrida estava pesada, com o filho nas costas, e a neve era alta.

— Pai, o senhor foi incrível

Dizia Zanther em suas costas.

— Nunca se vanglorie de uma vitória. Isso te deixa cego

Ofegante, enquanto corria, ele voltou a falar.

— Você, meu filho, tem o meu sangue. Você não tem o direito de perder para ninguém além de você mesmo. Mas não deixe suas vitórias engolir sua bondade e humildade com os que estão à sua volta. Seja melhor que isso.

Gray agilizou seus passos porque à distância escutou a misteriosa criatura uivar. O som estridente rasgava todo o silêncio daquela noite clara, como se a lua gritasse de ira.

Gray sentia seu corpo arrepiar. O medo é uma reação natural do ser humano, pensou, vendo seu filho assustado pelo barulho.

— Se acalme. Vou acabar com isso, meu filho. Essa coisa não pode continuar viva, vai matar a cidade toda.

Continuando correndo, ele finalmente chegou na cidade. Assim que passou da entrada, gritou em tom ríspido e imponente:

— Quem fala é o capitão de caça e espadachim Gray Drake! Vocês ouviram a fera na floresta. Os guerreiros que foram comigo foram mortos e os animais grandes estão violentos por causa da presença daquilo!

— Os guerreiros experientes! Sei que vocês são somente sete, mas venham comigo. Se não pararmos aquilo agora, todos vamos morrer! Espero vocês em duas horas, em frente à entrada!

E tornou a correr para sua casa.

Entrando, ele deixou Zanther no chão e sua esposa veio ajudá-lo, retirando suas roupas.

— O que fez isso, Gray? Você está ferido. Senta aqui, vou costurar seus ferimentos.

Ela se espantou com os cortes. Mas ele sentou na cadeira e ela cortou as roupas de couro o mais rápido possível. Após pegar uma tesoura na mesa, pegou uma agulha e uma bacia de alumínio. Foi até o quarto e voltou com álcool. Despejando na vasilha, ela pegou uma linha, molhou nela, e com um pano limpou todos os ferimentos.

— Você é um idiota, sabia? Eu disse pra você não levar o nosso filho! Agora olha você. Machucado. Aposto que estava se exibindo e deu tudo errado. Eu não quero ter que catar seus pedaços e...

Gray segurou a boca dela e a beijou.

— Não tive a oportunidade de me exibir. Eu não esperava aquele urso se levantar, Elena.

Ela começou a costurar os cortes.

— Gray, não quero te perder para o inverno.

— Você não vai, Elena!

Após terminar de costurar, Gray já se levantou e foi até a sala. Pegou o cutelo que estava sobre uma tábua com carne seca que ele deixou para fazer sopa e acertou o chão, abrindo um buraco.

Ele pegou uma caixa. Abrindo-a, viu sua antiga armadura usada por sua família, esquecida por esse mundo. Começou a vestir a armadura que, aparentemente, parecia pesada. Mas por ser de um metal leve e muito resistente, o tornava tão ágil quanto sem ela.

Coberto por um pano, havia uma espada longa de duas mãos, feita de aço escama de dragão. Material raro neste mundo. Ele se equipou, foi até Elena, segurou-a pela cintura e a beijou.

— Gray... volte para mim?

Ele só balançou a cabeça e deu um sorriso.

— Eu vou voltar.

Ele passou a mão na cabeça de Zanther, que estava com os olhos cheios de lágrimas. Caminhou até a porta da frente, abriu e saiu.

Seguindo até a entrada da vila, lá estavam os sete guerreiros da vila: dois arqueiros e cinco cavaleiros aposentados da guarnição. Todos experientes em combate.

— Vamos matar aquela coisa.

Disse Gray, segurando a espada contra sua cintura, caminhando rumo à floresta com os sete homens ao seu lado, como sua sombra.