Prologo
Tóquio, 1886.
Havia uma valsa que o Japão não sabia dançar.
Não era a que tocavam no Rokumeikan, sob lustres de cristal e luzes a gás, enquanto vestidos europeus arrastavam suas caudas pelo parquete recém-polido.
Essa, o Japão aprendera.
Ou pelo menos aprendera os passos.
Um, dois, três.
Um, dois, três.
As mãos dos homens repousavam sobre cinturas femininas. Luvas brancas escondiam dedos que ainda hesitavam em se tocar. Risos eram calculados, inclinações de cabeça ensaiadas, e cada sorriso tinha um propósito.
Os estrangeiros observavam. Os japoneses sorriam.
E, no dia seguinte, os jornais decidiam quem havia dançado bem demais.
Shiori Matsudaira costumava pensar que aquela era a parte mais curiosa da modernidade: ninguém precisava dizer que estava fingindo.
Todos sabiam.
Ainda assim, continuavam dançando.
Anos depois, ela ainda conseguia se lembrar do cheiro daquele salão.
Cera no assoalho.
Perfume francês.
Fumaça de carvão entrando pelas frestas das janelas.
E alguma coisa mais difícil de nomear — talvez o cheiro do medo escondido sob seda e renda.
Foi ali que ela aprendeu que algumas prisões não precisavam de grades.
Às vezes, bastava um sobrenome.
Às vezes, um contrato.
Às vezes, uma aliança colocada no dedo de uma mulher antes mesmo que alguém perguntasse o que ela desejava.
E, às vezes, bastava um homem olhar para você como se já soubesse qual seria o seu futuro.
Shiori passou boa parte da juventude tentando escapar dessas coisas.
Não sabia, naquela época, que também existiam prisões feitas de palavras.
Uma folha dobrada.
Uma página arrancada.
Uma frase escrita às pressas escondida dentro de um livro.
Uma resposta que chegava quando ninguém deveria estar esperando por ela.
Foi assim que começou.
Não com uma declaração. Não com um beijo.
Nem sequer com uma mão estendida para conduzi-la à pista de dança.
Começou com uma carta que nenhum dos dois deveria ter escrito.
E continuou com muitas outras.
Talvez fosse isso que tornasse aquela história tão perigosa.
No salão, eles eram exatamente aquilo que o mundo esperava que fossem.
Nas cartas, podiam ser outra coisa.
Podiam dizer o que pensavam. Podiam discordar. Podiam confessar aquilo que jamais ousariam pronunciar diante de uma sala cheia de olhos. Podiam, por algumas páginas, esquecer seus sobrenomes.
E talvez tenha sido esse o primeiro erro.
Porque, quando duas pessoas descobrem que podem ser livres uma diante da outra, fica muito difícil voltar a ser prisioneiro depois.
Shiori não sabia disso quando entrou no Rokumeikan pela primeira vez.
Naquela noite, tudo o que sabia era que o espartilho apertava demais, que a música era estrangeira e que havia homens suficientes naquela sala para transformar sua vida em um contrato antes que ela chegasse em casa.
Ela ainda não sabia o nome da valsa que aprenderia a dançar.
Nem sabia que, entre centenas de pessoas, encontraria justamente aquele homem — o único que, mais tarde, descobriria que amar também podia significar abrir mão do direito de escolher pelo outro.
E o único que ela, por muito tempo, julgaria incapaz de compreendê-la.
Mas isso aconteceu depois.
Primeiro veio a dança.
Depois, as cartas.
E, entre uma coisa e outra, uma revolução pequena o bastante para caber entre duas páginas de um livro.