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A ultima Valsa - Livro 1 · Capítulo 1 — Ghost

Por Ghost

Tóquio, 1883. Era Meiji. O Rokumeikan foi construído para civilizar o Japão. Para os nobres, é uma armadilha de ouro: espartilhos apertados, valsas escandalosas e sorrisos ensaiados para diplomatas estrangeiros. Para Shiori Matsudaira, é a última chance de salvar uma família que finge riqueza enquanto desmorona por dentro. A Viscondessa de Gelo, como é chamada nos salões, tem 21 anos e um único talento: observar as mentiras que os outros tentam esconder. O que ela não percebe é que está sendo observada desde o início por Takahiro Yamagata — o herdeiro militar que carrega o peso de um império nas costas e a culpa de uma ordem que destruiu as terras da família dela. Ele sabe quem ela é. Ela não faz ideia de quem ele é. Quando Shiori deixa um bilhete anônimo nas páginas de Orgulho e Preconceito, um desabafo que nunca deveria ser lido, Takahiro responde. E assim começa um jogo perigoso de cartas, debates e confissões que se escondem atrás de máscaras sociais. Nos salões, eles se odeiam. No papel, eles se despem. Mas Tóquio é uma cidade de fofocas, dívidas e alianças políticas. Entre um conde corrupto que quer Shiori como troféu, um primo disposto a tudo pelo título e uma mãe que enterrou seu próprio coração por dever, os dois precisam decidir: continuar dançando conforme a música do governo ou ousar dançar a própria valsa? Não é sobre amor. É sobre escolher quem ser.

Capítulo 1

Azabu, Tóquio — Novembro de 1883

Havia um silêncio que Shiori Matsudaira conhecia bem.

Era o silêncio das casas que fingem dormir. O silêncio que se instala nos corredores antes do amanhecer, quando as paredes ainda guardam o frio da noite e os criados caminham descalços sobre o tatame para não perturbar os senhores. Shiori crescera ouvindo esse silêncio. Sabia reconhecê-lo como se reconhece o próprio nome: pela textura, pelo peso, pela forma como pousava sobre as coisas.

Mas o silêncio daquela manhã era outro.

Era um silêncio que escutava.

Ela parou no alto da escada. A luz pálida de novembro atravessava os painéis de papel e desenhava retângulos sobre o assoalho escuro, como se alguém tivesse aberto as janelas do céu e esquecido de fechá-las. Em algum lugar do jardim, uma folha seca raspou contra as pedras antes de ser levada pelo vento. O cheiro fraco de carvão queimado subia da cozinha.

Nenhuma criada. Nenhum som de passos. Nenhuma voz de seu pai reclamando que o chá havia esfriado.

Shiori desceu os degraus devagar, uma mão apoiada no corrimão de madeira escura. O quimono de seda cinza — discreto, elegante, escolhido pela mãe — farfalhava a cada movimento com um som que parecia alto demais naquela quietude.

A casa Matsudaira ainda parecia uma casa de gente rica.

Esse era o problema.

Os biombos antigos continuavam no mesmo lugar, com suas pinturas de garças e ramos de ameixeira. Os vasos de porcelana repousavam sobre os aparadores como sentinelas imóveis. O brasão da família permanecia entalhado nas portas de madeira, polido até brilhar.

Mas Shiori começara a perceber as ausências.

Havia menos flores nos arranjos. Menos carvão nas braseiras. Menos criados atravessando os corredores. E, havia duas semanas, a carruagem principal permanecia parada no pátio quase todas as manhãs — não porque não fosse necessária, mas porque não havia dinheiro para o cavalo.

Ela passou os dedos pela madeira do corrimão. Uma camada fina de poeira ficou na ponta de sua luva.

Shiori franziu a testa.

A casa nunca tivera poeira.

Era uma coisa pequena. Ridícula, talvez. Mas foi aquilo que finalmente a convenceu de que algo estava profundamente errado. Não as contas que desapareciam da escrivaninha do pai. Não os sussurros que cessavam quando ela entrava numa sala. Não as joias da mãe que sumiam, uma a uma, do cofre de laca.

A poeira.

Porque a poeira significava que alguém havia deixado de se importar.

Shiori continuou pelo corredor até a ala oeste, onde ficavam os aposentos de seu pai. A porta do escritório estava entreaberta — um descuido que jamais teria acontecido em tempos melhores. Ela ia passar direto. Não era seu lugar escutar conversas de adultos. Não era próprio de uma moça bem-educada demorar-se onde não fora chamada.

Então ouviu:

— Venda os cavalos.

A voz de Nobuyuki Matsudaira veio baixa. Não era a voz que ele usava nos salões — aquela voz treinada para projetar autoridade e desdém. Era outra coisa. Mais rouca. Mais velha.

Shiori parou.

— Já vendemos dois, senhor.

A resposta veio de Kenzaburo, o administrador. Ela conhecia aquela voz desde a infância, quando ele a carregava nos ombros pelo jardim e lhe mostrava como identificar as flores pelo cheiro.

— Então venda o terceiro.

Houve um silêncio. Shiori ouviu o som de papéis sendo mexidos — folhas de papel de arroz, finas como pétalas, que pareciam gritar sob os dedos do pai.

— E a carruagem?

— Também.

Shiori ficou imóvel. O quimono de seda pareceu pesar mais sobre seus ombros.

— Se vendermos a carruagem — a voz de sua mãe cortou o silêncio como uma lâmina —, como iremos ao Rokumeikan?

Shiori aproximou-se um pouco mais da porta. Não deveria. Sabia que não deveria. Mas seus pés moveram-se sozinhos, como se o corpo já soubesse o que a mente ainda relutava em admitir.

— Não iremos — respondeu o pai.

O silêncio que se seguiu foi tão completo que Shiori conseguiu ouvir o vento do lado de fora. Conseguiu ouvir o próprio coração. Conseguiu ouvir o leve estalar da madeira da casa, como se a própria estrutura estivesse rangendo os dentes.

Ela olhou para a própria mão. A luva branca escondia seus dedos. Por alguma razão, sentiu vontade de arrancá-la. De sentir o ar frio na pele. De sentir alguma coisa que não fosse aquele peso surdo no peito.

— Nobuyuki...

A voz de Akiko estava diferente. Mais baixa. Mais cansada. Shiori conhecia todos os tons da voz da mãe — o tom de anfitriã, o tom de esposa, o tom de mãe que repreende sem elevar a voz. Mas aquele era novo. Aquele era o tom de alguém que já perdeu uma batalha antes mesmo de começar a lutar.

— Não temos escolha, Akiko.

— Sempre existe uma escolha.

— Não quando os credores estão esperando diante do portão.

Shiori sentiu o estômago apertar.

Credores.

A palavra não era nova. As últimas semanas estavam cheias dela — sussurrada pelas criadas, interrompida quando ela entrava numa sala, escondida atrás de expressões como dificuldades temporárias, ajustes financeiros, questões de propriedade. Mas seu pai nunca havia dito a palavra em voz alta. Nobuyuki Matsudaira era um homem que jamais pronunciava em voz alta aquilo que preferia fingir que não existia.

Até agora.

Shiori aproximou o rosto da fresta. Seu pai estava sentado atrás da escrivaninha de madeira escura, e parecia menor. Talvez fosse a postura. Nobuyuki sempre parecera um homem que ocupava o espaço ao redor dele por direito divino — ombros eretos, queixo elevado, olhos que avaliavam o mundo como se o mundo devesse algo a ele.

Naquela manhã, porém, os ombros estavam curvados. Uma das mãos apertava uma folha de papel com tanta força que os nós dos dedos haviam perdido a cor. Ele parecia um homem que envelhecera dez anos durante a noite.

Akiko estava diante dele. Uma das mãos repousava sobre o ventre, e o tecido do quimono se elevava suavemente sob seus dedos.

Grávida.

Shiori sabia disso, naturalmente. Sabia desde o verão, quando a mãe começara a usar quimonos mais largos e a evitar os banquetes longos. Mas, vendo-a daquele jeito — com a mão protetora sobre o ventre, os olhos fixos no marido, o rosto pálido na luz cinzenta da manhã —, percebeu pela primeira vez que a criança não era apenas uma criança.

Era mais uma boca. Mais uma despesa. Mais um futuro que precisaria ser comprado.

— O empréstimo vence antes do inverno — Nobuyuki disse.

Akiko fechou os olhos. Por um momento, Shiori viu sua mãe como ela realmente era: não a Viscondessa impecável que ditava modas nos salões, mas uma mulher de quarenta e seis anos que carregava o peso de uma casa nas costas e um filho no ventre.

— Quanto?

Ele não respondeu.

— Nobuyuki.

— Demais.

A palavra saiu quase sem voz. Shiori prendeu a respiração.

O pai puxou uma gaveta e retirou um pequeno maço de documentos. As folhas estavam amassadas nos cantos, como se ele as tivesse lido e relido inúmeras vezes, procurando uma passagem que não existia, uma saída que não havia sido escrita.

— As terras de Musashino já estão comprometidas. A renda das propriedades caiu. O banco não aceitará outra extensão. E...

Ele parou.

Akiko esperou.

— E o quê?

Nobuyuki passou a mão pelo rosto. Um gesto cansado. Um gesto que Shiori nunca o vira fazer antes.

— Se eu não encontrar um comprador para a parte leste das propriedades, perderemos a casa.

Shiori sentiu frio.

Não nas mãos. Por dentro. Um frio que começou no estômago e subiu pela espinha, como água gelada sendo derramada lentamente sobre sua pele.

A casa.

Ela olhou para o corredor. As paredes de madeira escura. Os biombos com pinturas de garças. O jardim onde passara a infância correndo entre as pedras do caminho. A sala onde Tsukiyo tocava piano até o pai mandar parar, porque a música não pagava dívidas. A varanda onde Asami passava horas inventando vestidos para bonecas de papel. O pequeno quarto onde Hikaru dormia cercado de brinquedos de madeira que ele mesmo esculpira.

A casa inteira pareceu mudar de tamanho. De repente, já não era uma herança. Era uma coisa que podia ser perdida. Uma coisa que podia ser vendida. Uma coisa que podia desaparecer como poeira levada pelo vento.

— E Shiori?

O coração dela bateu uma vez. Forte. Como se alguém tivesse batido na porta do peito.

Nobuyuki ficou em silêncio.

— Ela precisa ser apresentada nesta temporada — continuou Akiko. A voz estava firme agora, mas havia algo por baixo dela. Algo duro. Algo calculado. — Se houver uma possibilidade de...

— Eu sei.

— Então precisamos decidir.

Shiori sentiu a garganta fechar.

Não precisou ouvir o resto. Conhecia aquela conversa. Toda moça de uma família como a sua conhecia. Era a conversa que acontecia em todas as casas da nobreza, em todas as famílias que fingiam não estar desesperadas. A conversa que transformava filhas em moeda de troca. Em pontes entre famílias que, em qualquer outra circunstância, jamais dividiriam a mesma mesa.

Um casamento podia salvar propriedades. Podia pagar dívidas. Podia preservar um nome.

Podia transformar uma moça de vinte e um anos em uma assinatura no rodapé de um contrato.

Ela deu um passo para trás. A madeira do corredor rangeu sob seu pé, e o som pareceu ecoar pela casa inteira.

Dentro do escritório, tudo ficou imóvel.

Shiori virou-se. Não correu — não seria capaz de admitir para si mesma que estava fugindo. Mas caminhou depressa, os pés deslizando sobre o tatame com a prática de quem conhecia cada centímetro daquele chão.

Afastou-se do escritório. Atravessou o corredor. Passou pela sala onde o piano de Tsukiyo permanecia fechado, coberto por um lençol branco como um fantasma. Passou pela varanda onde Asami costumava brincar. Passou pelo quarto de Hikaru, onde o irmão mais novo dormia enrolado em cobertores, alheio a tudo.

Chegou à janela do fim do corredor. Abriu-a.

O ar frio de novembro bateu em seu rosto como uma bofetada. Shiori apoiou as mãos no parapeito e respirou. Uma vez. Duas. O ar encheu seus pulmões, frio e limpo, com o cheiro de terra molhada e folhas secas.

Lá fora, o jardim estava coberto de folhas caídas. O velho bordão de pedra que levava ao pavilhão de chá desaparecia sob um manto de vermelho e dourado. E, perto do muro, uma única camélia florescia — teimosa, solitária, vermelha como sangue contra a palidez da estação.

Shiori olhou para a flor por um longo momento.

Uma tsubaki. Florescendo fora de época. Como se o mundo tivesse se esquecido de avisá-la de que já era tarde demais.

Atrás dela, a casa permanecia em silêncio. Mas agora ela sabia o que aquele silêncio escondia.

Não era pobreza. Ainda não.

Era pior.

Era o instante exato antes de uma família descobrir quanto de si mesma estava disposta a vender para continuar parecendo rica.

Ela ficou ali por muito tempo, os dedos enroscados na madeira fria do parapeito, os olhos fixos na camélia. O vento agitava as folhas secas no jardim, e cada rajada parecia trazer consigo uma pergunta que Shiori ainda não sabia como responder.

O que ela estaria disposta a sacrificar?

A mãe já havia sacrificado. Shiori sabia disso agora, embora ainda não compreendesse completamente. Havia algo nos olhos de Akiko naquela manhã — algo que ia além do cansaço, além da preocupação com dívidas. Algo que parecia luto. Como se a mãe estivesse de luto por uma vida que nunca vivera.

Shiori fechou a janela.

O som da madeira se encaixando no batente ecoou pelo corredor vazio. Ela ficou parada, ouvindo o silêncio voltar a se instalar, como água preenchendo uma cova.

Então, do outro lado da casa, ouviu um som. Um acorde de piano. Suave, hesitante. Tsukiyo, acordando cedo, tocando algo que ela não reconhecia — uma melodia triste, em tom menor, que parecia vir de muito longe.

Shiori encostou a testa na janela.

A camélia continuava lá fora, teimosa, florescendo contra a estação.

Ela também era uma flor fora de época.

Só esperava não ser colhida antes de ter chance de florescer.