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Einar - O Caçador Solitário · O REFÚGIO NA FLORESTA — Samuel Vidal

Por Samuel Vidal

Para um caçador solitário, o passado é uma fera que ele não consegue matar. Einar se contenta com sua vida de exílio nas florestas geladas, onde a única companhia é o eco dos fantasmas de uma vida esquecida. Assombrado por pesadelos de uma vila em chamas e por uma tragédia que sua mente se recusa a revelar, ele busca apenas o silêncio. Mas o silêncio está prestes a ser quebrado por um grito. Uma mulher misteriosa trará a guerra até sua porta. Quando encontra Aileen, uma jovem curandeira fugindo de criaturas de pesadelo, o instinto de Einar é protegê-la. O que ele não sabe é que ela carrega o legado de uma linhagem antiga, e sua presença acende um poder há muito adormecido. Juntos, eles se tornam o alvo de um mal implacável, liderado por um ser que não apenas os caça, mas que parece conhecer cada um de seus medos. O equilíbrio entre os mundos está se desfazendo. E eles podem ser a causa. Forçados a uma fuga desesperada, guiados por um guardião enigmático, Einar e Aileen mergulham em uma trama de deuses adormecidos, selos quebrados e uma guerra cósmica. Para sobreviver, eles precisarão decifrar os segredos de seus próprios poderes — a marca sombria que corrompe Einar e a luz curativa que desperta em Aileen. Separados em reinos hostis, um de gelo e desespero e outro de beleza e engano, eles precisam encontrar o caminho de volta um para o outro antes que Ymir, desperte de seu sono eterno.

O REFÚGIO NA FLORESTA

A neve lançava seu manto branco sobre a floresta de Snowpeak. Einar respirou fundo, o ar gélido do inverno nórdico queimando seus pulmões.

Cada árvore se erguia como uma guardiã naquela vastidão silenciosa. Ele ajustou as peles grossas e manchadas de sangue sobre os ombros largos, vestígios de um alce particularmente teimoso, e continuou sua ronda ao redor da cabana.

O chão, um tapete de musgos e folhas caídas, abafava seus passos, transformando-os em sussurros. Os troncos nodosos, decorados com líquenes prateados, contrastavam com o verde escuro dos pinheiros, e o ar gélido carregava um perfume intenso de pinho e terra molhada.

Einar era uma figura robusta, de ombros largos e músculos esculpidos pelas inúmeras caçadas nas florestas densas e montanhas traiçoeiras.

As peles que vestia, cuidadosamente curtidas, não apenas o protegiam do frio implacável, mas também contavam histórias.

A costura irregular em um dos ombros revelava um encontro próximo com um urso, e o remendo de couro mais claro na calça era o resultado de uma queda em uma ravina traiçoeira.

Uma espada de mão única pendia em sua cintura, a lâmina polida e afiada após anos de uso. O punho de madeira escura, adornado com entalhes rúnicos desgastados, se encaixava perfeitamente em sua mão.

Nas costas, um arco feito de teixo, sua madeira escura lustrosa pelo uso constante, era a marca de um caçador experiente e mortal.

O rosto de Einar, parcialmente coberto por uma barba ruiva e grossa trançada rudemente, era marcado pelas linhas profundas do sol e do vento.

Cada passo que dava ao redor de sua cabana, cada olhar que lançava à paisagem, mostrava um homem em total sintonia com seu ambiente.

Seus olhos azuis, incisivos como o gelo, examinaram a floresta. Inclinou a cabeça, captando o leve estalo de um galho quebrado a distância – um aviso sutil de que nem tudo estava em paz.

Não muito distante dali, o murmúrio do rio chegava fraco até Einar. Seu curso serpenteava por entre a floresta, em alguns pontos coberto por uma camada de gelo fino, em outros, correndo livremente em pequenas corredeiras. O som da água era constante, como um canto do rio.

A cabana de Einar era quase parte da floresta feita com troncos de pinheiro enegrecidos pelo tempo, e parecia brotar do chão. O teto inclinado mantinha o interior seco e acolhedor mesmo nas noites mais cruéis do inverno. Pequenas janelas de vidro embaçado permitiam que a luz entrasse, revelando um interior simples e rústico.

No centro, uma lareira de pedra aquecia o ambiente, com o fogo crepitando em estalos rítmicos e lançando sombras que dançavam pelas paredes.

O cheiro de pinho queimado e carne defumada impregnava o ar. Peles de urso e lobo cobriam o chão de terra batida, abafando o frio que vinha de baixo.

Uma mesa de madeira maciça, arranhada e marcada por anos de uso, exibia um padrão de runas entalhadas à mão, era ali que Einar planejava suas caçadas, realizava suas refeições e refletia sobre os enigmas do seu passado. No canto da cabana, uma cama simples, feita de madeira e coberta por grossas peles de rena.

Era ali que Einar encontrava algum alívio para o cansaço do dia, mas também onde enfrentava os sonhos que assombravam suas noites.

Acima da cabeceira, um pequeno talismã feito de ramos entrelaçados e pedras rúnicas pendia — uma relíquia de proteção. Era um presente de um viajante que ele ajudou certa vez, com a promessa de que as runas trariam visões da verdade.

A cada noite, enquanto a cabana era envolta pelo silêncio da floresta, Einar mergulhava em sonhos vívidos. Flashes de lugares distantes e rostos desconhecidos dançavam em sua mente, como fragmentos de memórias que escapavam de seu alcance.

Naquela manhã, enquanto caminhava ao redor da cabana, Einar sentiu o estômago roncar de fome. Decidido a caçar algo para o jantar, ele ajustou seu arco nas costas e começou a seguir por um caminho estreito que serpenteava entre os troncos altos e sombreados.

Os olhos de Einar, treinados para detectar o menor movimento, varriam o ambiente em busca de sinais de atividade. Ele parou por um momento, inclinando-se para observar pegadas frescas de cervo impressas na neve suave — um indício promissor. Movendo-se com a leveza de um predador, seguiu as marcas, mantendo-se a favor do vento.

Então, o silêncio foi quebrado. Um estalo seco ecoou entre as árvores.

Einar congelou.

Seus olhos se estreitaram. Um calafrio percorreu sua espinha. Ele girou lentamente, flecha pronta. Nada.

Mais à frente, encontrou um cervo pastando calmamente. Mas algo estava errado — a criatura parecia inquieta, os olhos arregalados, os músculos tensionados.

Antes que pudesse agir, uma sombra cruzou entre as árvores, rápida demais para identificar. Um ruído gutural, distante, reverberou pela floresta.

Einar abaixou-se instintivamente. O coração disparado. As árvores, antes aliadas silenciosas, agora pareciam esconder segredos.

Ele esperou.

Silêncio. Apenas o som do vento sussurrando entre os galhos.

O cervo fugiu num salto brusco, desaparecendo na neblina. Einar manteve a flecha armada por mais um minuto, até que o frio em seus dedos o forçou a abaixar o arco.

Ainda alerta, Einar decidiu seguir por uma trilha lateral, mais estreita, em busca de outro animal. Seus olhos captaram novos rastros, menores, mais leves — talvez uma lebre. Movendo-se com cautela, contornou um grupo de pinheiros e avistou o pequeno animal próximo a um tronco caído, farejando o chão em busca de alimento.

O esforço e a paciência de anos de caça culminaram em um único momento.

Ele mirou. Respirou fundo e soltou a corda.

A flecha cortou o ar com um sibilo e atingiu o alvo com precisão. A lebre caiu na neve sem som.

Einar se aproximou rapidamente, ajoelhou-se e murmurou uma breve prece, carregada de respeito e gratidão pela vida que havia ceifado — um ritual silencioso que refletia sua reverência pela natureza e pelas leis da sobrevivência.

No caminho de volta, colheu cogumelos comestíveis e raízes de aroma picante entre o musgo. A floresta parecia observá-lo, em silêncio cúmplice.

Na cabana, Einar acendeu a lareira e colocou uma panela de ferro sobre a chama, adicionando um pouco de gordura de cervo para dourar os pedaços da caça do dia. À medida que a carne selava, uma fragrância rica e defumada envolveu a sala, misturando-se com o calor reconfortante do fogo.

Ele picou os cogumelos e as raízes grosseiramente, adicionando-os à panela com um punhado de ervas secas das prateleiras — tomilho selvagem e alecrim, colhidos nas proximidades. O som de sibilos suaves preencheu a cabana enquanto os ingredientes se misturavam.

O guisado fervilhava lentamente, liberando deliciosos vapores aromáticos. Einar mexia ocasionalmente, permitindo que os sabores se unissem em um caldo encorpado, com notas amadeiradas e um toque picante das raízes. Uma fragrância terrosa, quente e levemente agridoce preenchia o ambiente, tornando o refúgio ainda mais acolhedor.

A cada mexida, sentia-se mais conectado à terra e ao momento presente, como se o ato de cozinhar fosse também um ritual de silêncio e memória.

Quando finalmente se serviu, o primeiro bocado trouxe uma sensação imediata de calor e satisfação. A carne derretia na boca, envolta no sabor terroso dos cogumelos e no leve ardor das raízes, uma experiência deliciosa que celebrava a conexão de Einar com a terra ao seu redor.

Naquela noite, enquanto a cabana mergulhava no silêncio da floresta, Einar adormeceu, o calor da lareira preenchendo o espaço com um conforto acolhedor. Como se estivesse sendo guiado pelas brasas que crepitavam na lareira, ele adentrou o limiar do sono — e logo se viu envolto em um sonho. As imagens em sua mente, nebulosas e instáveis.

Em meio à neblina, Einar distinguiu um rio. A água corrente refletia o brilho pálido de uma lua distante, mas o ambiente ao redor era indistinto, como se observado através de uma lente embaçada.

Então, ele vislumbrou uma figura, uma silhueta indefinida correndo próxima à margem do rio. A pessoa parecia estar fugindo em pânico e pedindo ajuda. Einar tentou se aproximar, seu impulso de ajudar crescendo dentro dele, mas cada passo tornava a visão mais disforme e distante.

Ele conseguia ouvir uma voz com um tom desesperado: – Alguém me ajude, socorr…

Einar despertou suando frio, o coração tão acelerado que parecia querer escapar por sua boca. A imagem do sonho persistia, ecoando em sua mente como uma melodia inacabada. Isso o deixava em estado de alerta e sem entender o que tinha acabado de acontecer.

Sentou-se na beira da cama. Em silêncio.

Mas sentia... algo lá fora. Um arrepio percorreu sua nuca.

A escuridão da cabana parecia mais densa após o sonho perturbador. Levantou-se lentamente e dirigiu-se a uma pequena bacia de cobre ao lado da lareira, onde a água fresca o ajudou a clarear os pensamentos.

Determinou-se a investigar pela manhã, quando a luz do dia trouxesse clareza às sombras. Com essa decisão, voltou para a cama, seu olhar fixo nas chamas que dançavam na lareira, até que o sono profundo o tomou novamente.