REVELAÇÕES AO AMANHECER
Os primeiros raios de sol surgiam por entre as árvores e iluminavam suavemente a janela da cabana. Einar acordou com uma determinação renovada.
As imagens do sonho ainda dançavam em sua mente, vívidas e inquietantes. Seu peito arfava levemente, como se tivesse acabado de sair de um pesadelo. Havia algo mais do que lembrança — uma urgência sutil, como se o próprio sonho o tivesse convocado para algo além da compreensão.
Após um rápido desjejum, ele conferiu suas armas, garantindo que o arco e as flechas estivessem em perfeito estado. O talismã rúnico, pendurado no pescoço, parecia pulsar suavemente contra sua pele, como se estivesse tentando guiá-lo.
Com passos firmes, Einar deixou a cabana, mergulhando na tranquilidade da manhã. O som sereno do rio ao longe chamava sua atenção,tal como em seu sonho. Ele seguiu o conhecido caminho pela floresta, atento a cada movimento ao redor.
À medida que se aproximava do rio, Einar sentiu uma crescente expectativa.
— Será que o sonho foi uma visão real? — murmurou ele, mais para a floresta do que para si mesmo.
Os pássaros cantavam suavemente ao longe, mas o som do rio parecia ser seu verdadeiro guia. Ao alcançar a margem, a determinação de Einar se solidificou. Ele parou, respirou fundo e se preparou para enfrentar o mistério que a floresta guardava.
Einar deteve-se por um momento à beira do rio, um leve véu de névoa dançava sobre a superfície gelada, tornando a cena quase etérea, como se a natureza aguardasse em silêncio algo prestes a acontecer. A água corria suave, refletindo o brilho do sol nascente em uma dança de luzes sobre o gelo.
Examinando a área, seus olhos captaram pegadas parcialmente cobertas pela neve da noite anterior. Inclinando-se, ele percebeu que não eram de nenhum animal conhecido, e a sensação de familiaridade do sonho voltou a inundá-lo.
Mas uma coisa estava incomodando Einar — era o silêncio absoluto. Desde a saída da cabana, ele não havia escutado nenhum animal pela região. Nem o farfalhar dos galhos, nem o som do vento entre as árvores. Nem mesmo os pássaros estavam voando por ali.
As pegadas o guiaram até uma pequena cachoeira escondida entre as rochas. O som da queda d’água era a única melodia que quebrava o silêncio opressor da floresta, e Einar sentiu que estava se aproximando de algo importante.
A energia no ar parecia mais densa ali. Ao se aproximar da borda do rio para chegar mais perto da cachoeira, Einar notou manchas escuras na neve:
Rastros de sangue.
Ele se ajoelhou, examinando as marcas com atenção.
— O que aconteceu aqui? — sussurrou para si mesmo, enquanto seu coração acelerava com a descoberta.
Levantando-se, Einar contornou cuidadosamente a cascata. Atrás do véu da água, avistou a entrada de uma caverna, meio escondida pela vegetação.
Ao adentrar a caverna, Einar percebeu que a temperatura caía ligeiramente, o ar carregando um frescor úmido. As paredes rochosas refletiam o som suave de gotas d'água que pingavam ritmicamente das estalactites acima.
Mais à frente, ele notou mais rastros de sangue, agora um pouco mais marcados. O alerta de Einar disparou enquanto ele seguia com passos medidos, cada movimento cuidadoso para evitar fazer barulho desnecessário.
Ele parou um instante, inclinando-se para tocar uma das pedras cobertas de musgo, sentindo a umidade sob seus dedos. Respirando fundo, os sentidos aguçados, Einar desembainhou sua espada e continuou a avançar pela caverna.
Um ruído súbito fez seus instintos entrarem em alerta. O som de pedras deslocando-se ecoou pela escuridão à frente.
Einar avançou pela caverna até chegar a uma sala ampla, suas paredes de pedra refletindo o brilho fraco de uma luz sobrenatural.
De repente, uma presença gelada atravessou o ar da caverna, fazendo os pelos da nuca de Einar se eriçarem. Uma sombra espessa tomou forma nas paredes, e o som ao redor pareceu cessar por um instante.
Então, uma figura emergiu das sombras — um ser que Einar nunca esperaria encontrar nas profundezas da floresta.
No centro, viu uma criatura de costas, envolta em sombras e bruma, sua presença dominando o espaço. A aura da criatura era impressionante e sufocante. Envolto em mantos etéreos que ondulavam como névoa, seu aspecto espectral emanava um frio intenso. A foice que segurava, adornada com runas geladas, parecia vibrar com um poder antigo. Os olhos, brilhantes e penetrantes, eram focos de uma luz que Einar instintivamente soube que não pertencia a este mundo.
Perto do altar de pedra no centro da sala, um leve movimento chamou sua atenção — um pedaço de tecido esvoaçava sutilmente próximo a uma pedra. Einar estreitou os olhos e se aproximou, percebendo então a silhueta de uma jovem caída no chão.
Sua respiração era leve, quase inaudível, e o rosto pálido denunciava o estado frágil em que se encontrava. A criatura sussurrava em um idioma desconhecido, palavras antigas que ressoavam nas paredes como um cântico hipnótico.
Quando a criatura ergueu a foice, prestes a desferir seu golpe, Einar entrou na sala. Então ela parou abruptamente, sentindo a presença intrusa. Virou-se lentamente, seus olhos brilhando intensamente enquanto encarava Einar.
O confronto foi imediato. A criatura avançou rapidamente, e Einar, com reflexos aguçados, desviou por muito pouco, evitando que a foice atingisse sua garganta.
Einar sentiu a adrenalina tomar conta. Ele se movia com agilidade, cada ataque era calculado para manter a criatura à distância e evitar um golpe fatal. As paredes da caverna reverberavam com ecos dos golpes e do rosnado do adversário.
No calor do confronto, a criatura proferiu palavras em um idioma desconhecido. As frases ecoavam pela caverna, ressoando como um cântico antigo:
— ᚨᛃᚢᛞᛖ ᛗᛖ ᚨ ᛚᛁᛒᛖᚱᛏᚨᚱ — entoou a criatura.
Einar não entendia as palavras, mas sentia o poder e a intenção por trás delas.
— Ainda tão cego... — murmurou a criatura com escárnio. — Tantos anos vagando entre árvores e neve, e nem sequer reconhece aquele que já o viu tombar.
Einar franziu o cenho, o coração acelerando.
— Está... falando comigo?
— Ah, então você ainda ouve. Que avanço! — a criatura riu, o som seco como gelo rachando. — Diga-me, Caçador, quantas vidas você já esqueceu? Quantos rostos já apagou de sua mente?
Einar deu um passo atrás, confuso. — Quem é você?
— Se ao menos soubesse... Seria mais divertido. Mas não. — A criatura deslizou pelo chão como fumaça viva, circulando Einar. — Ainda não é hora. Ainda não...
O riso ecoou pelas paredes, impregnado de arrogância e algo mais sombrio: familiaridade.
Em um momento crítico, Einar encontrou uma abertura, golpeando a criatura com precisão, porém sua espada simplesmente a atravessou, sem encontrar resistência, deixando-o confuso.
Percebendo que não sofreria danos, a criatura manifestou uma expressão de malícia e satisfação. Aproveitando a abertura, ele desferiu um golpe preciso com sua foice, atingindo o peito de Einar.
O impacto foi suficiente para rasgar o peitoral protetor de Einar, causando um corte leve, mas algo no ataque era incomum. A dor irradiava de maneira diferente, como se um frio cortante se espalhasse a partir da ferida, deixando Einar atordoado.
Ele levou a mão ao peito. Ao afastar a túnica rasgada, viu algo além do sangue: uma marca escura, de contornos irregulares, como se tivesse sido queimada em sua pele. Ela pulsava em tons azulados, como se respirasse. Um frio antigo irradiava daquele ponto, distinto do clima lá fora — era uma sensação que se entranhava sob a carne e parecia aumentar aos poucos.
Einar sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Aquilo não era uma ferida.
Era uma presença.
Um eco sombrio deixado pela criatura.
A intuição lhe dizia que essa marca não cicatrizaria com o tempo — e, pior, talvez tentasse apagá-lo por dentro.
Einar, acostumado a ferimentos de batalha, mas aquilo realmente havia causado um dano maior do que apenas físico. Era dano mental também.
Com a respiração ofegante, Einar recuou alguns passos, avaliando a situação e tentando ignorar a dor enquanto buscava entender como enfrentar uma força que ele até então desconhecia.
Foi nessa hora que o colar de Einar ficou à mostra, revelando o talismã rúnico que ele sempre carregava. Aquela era a mesma peça que o viajante lhe presenteara, com a runa de proteção Algiz delicadamente entalhada.
Quando o sangue do ferimento em Einar tocou o talismã, uma reação inesperada ocorreu. O colar começou a emanar um brilho intenso, e uma aura protetora envolveu Einar, crescendo como um escudo cintilante ao seu redor.
A luz pulsante parecia repelir o frio cortante da ferida, restaurando a clareza da mente de Einar. O impacto surpreendeu a criatura, que recuou e fixou seus olhos no talismã.
Einar deu um passo à frente, percebendo que a criatura recuava diante do brilho intenso do talismã. Sabendo que os ataques comuns não haviam surtido efeito, ele decidiu usar o medo do inimigo contra ele.
Com determinação feroz, Einar avançou, segurando sua espada com ambas as mãos. Ele desferiu um golpe poderoso em diagonal, de cima para baixo, sua lâmina cortando o ar com precisão.
O ataque atingiu o braço, arrancando um grunhido de dor da criatura. A ferida brilhou com uma luz etérea, perturbando-o em sua essência. Em um movimento ágil e desesperado, a criatura recuou, desaparecendo nas sombras da caverna, deixando um rastro de bruma.
Einar, respirando fundo, manteve a lâmina erguida. O silêncio denso que se seguiu ao confronto parecia reverberar dentro dele, como se o tempo hesitasse antes de seguir em frente.
Por um instante, sentiu o peso do que havia enfrentado — e do que ainda poderia surgir dali. Permaneceu em postura defensiva, os olhos fixos na escuridão, ciente de que havia conquistado uma vitória momentânea. Ainda assim a cautela permanecia.
Com a criatura desaparecendo nas sombras, Einar concentrou-se na jovem desmaiada no chão da caverna. Aproximando-se cautelosamente, ele se ajoelhou ao lado dela, notando seu frágil estado de consciência.
— Você está segura agora — murmurou Einar, cuidadosamente erguendo-a.
Sem saber o que a havia levado até ali, sua determinação de ajudá-la crescia a cada instante.
Carregando-a com cuidado, Einar se preparou para a jornada de volta à cabana. O caminho parecia ressoar com promessas de resposta, o eco das águas do rio e suas pisadas suaves marcando seu progresso.
Ao chegar à segurança de sua cabana, Einar acomodou a jovem em sua cama, assegurando-se de que estava confortável.
Enquanto observava a respiração tranquila dela, pensamentos inquietos o assaltaram. Ele, que por tanto tempo caminhara sozinho, sentia agora um novo peso em seu espírito — conseguiria confiar nela? ou seria uma outra armadilha?
Ao mesmo tempo, ele começou a sentir algo que a tempos ele havia esquecido: a sensação de proteger alguém.
Era uma responsabilidade que ele não pedira, mas que começava a se enraizar nele.
Quem era aquela jovem?
Por que a criatura tentou matá-la?
Ele puxou uma cadeira para junto da cama e sentou-se, o peso do cansaço e da batalha finalmente tomando conta. Assim, adormeceu, vigiando a jovem e esperando por respostas que a nova aurora poderia trazer.