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Entre os fios do destino · Capítulo 2 — R. Nunes

Por R. Nunes

E se existissem conexões invisíveis na Terra, que contém as memórias e o tempo? E se algumas pessoas fossem capazes de acessá-las? Clara é uma carioca, sarcástica e pouco disposta a aceitar respostas sem questioná-las. Ela aprendeu a conviver com uma sensação difícil de explicar: a de que, mesmo cercada de pessoas as conexões verdadeiras e um sentimento genuíno de pertencimento nem sempre caminham juntos. Uma viagem a Glastonbury, na Inglaterra, muda completamente o rumo de sua vida. Transportada para a Inglaterra de 1830, descobre a existência das Linhas de Ley: conexões invisíveis que atravessam a Terra, carregam suas memórias e permitem acessar forças que a humanidade há muito tenta compreender. E a magia talvez não seja tão sobrenatural quanto parece. Entre um livro antigo, registros incompletos e acontecimentos que desafiam a lógica, Clara começa a desvendar uma história que atravessa séculos. Há quem queira compreender as Linhas e há quem pretenda controlá-las, mesmo que isso signifique romper conexões e destruir aquilo que não consegue dominar. Para impedir que esse conhecimento se transforme em instrumento de poder e destruição, ela precisará aprender a enxergar o que existe além do visível, e compreender que preservar o passado não significa aprisionar o futuro. Porque o passado é registro. O futuro é possibilidade. E o presente é onde se acessa.

Capítulo 2

Quatro meses depois

Depois de passar um mês em cada país do leste asiático, onde vivi coisas incríveis, conheci culturas diferentes e ampliei minha visão de mundo, finalmente cheguei a Londres.

Foi tudo tão maravilhoso, que precisei registrar isso de forma física, senti que redes sociais e nuvem não faziam jus a intensidade de tudo. Criei então um diário de viagem, onde registrei as fotos favoritas dos lugares, escrevi minhas percepções e sentimentos de cada um. Se tirasse uma foto em um restaurante que gostei, escrevia sobre como foi toda a experiência ao lado da foto. Estava cada vez mais íntimo, minhas melhores lembranças.

Depois que me apresentei no Hostel que ia trabalhar, fui conhecer a cidade e comprar alguns itens pessoais. Três semanas se passaram em uma velocidade que não registrei e acabou meu contrato com o Hostel. Em vez de correr para outro voluntariado, decidi me dar um tempo para ser apenas turista.

Minha lista do que fazer na Inglaterra incluía locais de gravação de filmes e séries, pontos históricos — o que mais amava — e lugares que possuem históricas místicas.

E por isso decidi ir em um evento em Glastonbury, a um festival bem famoso, e aproveitaria para ficar alguns dias para curtir a cidade.

Iria aproveitar para descobrir mais sobre o livro. Ele não saía da minha cabeça. E Glastonbury parecia o lugar certo para isso, uma vez que o livro falava das linhas de Ley. Além disso eu ainda não conseguia explicar a conexão que sentia com ele.

A cidade é envolvida em mitos maravilhosos a respeito da colina Glastonbury Tor, a lenda do Rei Arthur, mitologia celta e a linha de Ley de St. Michaels. Tudo se mostrava conectado, e para qualquer amante de livros de fantasia, parecia o lugar ideal para descansar antes de seguir o intercâmbio.

Como seria uma viagem curta, paguei para deixar a maioria das coisas no armário do hostel, afinal precisei comprar uma mala extra para caber tudo que comprei — me empolguei um pouco no skincare.

Eu queria montar um look meio místico e meio festival. Apostei em um vestido preto de mangas 3/4 largas, longo e apertado no busto mas bem solto do quadril em diante, com decote quadrado, botões por toda a linha vertical na frente, um cinto de couro grosso e botas sem salto. (Bem pinterest)

E para completar, uma bolsa lateral, bem riponga para se destacar. Deixei meus cabelos ondulados e pretos soltos, usando uma maquiagem leve, que realçava meus olhos castanhos. A inspiração era bruxa moderna, se é que existe esse estilo.

Dei uma última olhada no espelho e fui para Glastonbury.

No ônibus fretado pelo evento, a caminho do festival, comecei a ler o livro para me distrair e já chegar no espírito do místico.

Na primeira página dizia:

Revelações das Linhas de Ley

São como veias pulsantes que percorrem os cantos mais profundos da terra, transportando o poder de épocas passadas e os ecos do futuro. São traços invisíveis, mas igualmente reais, que ligam lugares de poder.

Os pontos Temporais são como portais ocultos, onde o tecido do tempo se torna mais fino, permitindo a passagem entre o passado, o presente e o futuro. São lugares de poder, impregnados de história e mistério, onde os limites da realidade começam a desaparecer.

“Meu Deus, isso é insano, eu devia ter lido mais antes!”

Ao longo dos séculos, desde o início da civilização, templos majestosos, monumentos esquecidos e santuários sagrados foram erguidos sobre essas linhas espirituais, como se alguém soubesse, mesmo sem entender, onde a Terra pulsava mais forte.

É como se a própria natureza ali sussurrasse verdades que o mundo esqueceu de ouvir.

Há uma linha que corta a Inglaterra em vibração. Uma linha que pulsa sob a terra e se revela apenas aos que ainda sabem sentir.

Ela começa ao sul, em St. Michael’s Mount,

Segue por Glastonbury Tor, passando entre os círculos de Avebury,

em direção à Bury St. Edmunds, e termina em Hopton

Junto a isto, encontrava-se um mapa antigo da Linha de St. Michel

[o mapa não importou]

Cada página que eu lia ficava ainda mais instigada a saber tudo. Tinha esse mapa antigo, nome de pessoas que eram conectadas as linhas, várias ilustrações de monumentos e templos, artefatos e lista de lugares — incluindo meu destino — Glastonbury. Comecei a me sentir a própria Indiana Jones, em uma aventura mágica.

Fiquei tão imersa lendo, que quando percebi havia chegado. Não parecia que tinham passados duas horas, mas dois minutos.

Fui direto para o local do evento, para não perder nada. Como ficaria em uma tenda, teria onde deixar as coisas.

No caminho fui admirando a beleza da cidade, era um lugar que parecia ter sido tirado de um conto com uma pitada de design de interiores. As construções de pedra com telhados antigos, algumas coloridas com uma mistura de modernidade, tão mágico. Até os postes eram fofos.

Me senti inspirada e leve, como em muito tempo não sentia.

Ao entrar no evento, fiquei de queixo caído com a vastidão a explorar. Palcos gigantes e bem estruturados, tendas por todo redor, barracas de camping e muita, muita gente. Tudo com muita cor e vida, variedades de comidas, bebidas, artesanatos, vendiam tudo que se possa imaginar. A cada passo meu coração saltava de empolgação, estava na cara que eu era turista.

— Lembra o rock in Rio — Carioca ama comparar o mundo todo com o Rio

Segui andando e absorvendo a atmosfera a caminho da tenda, quando passei em frente ao poço dos desejos. Mas ao contrário do que se espera do nome, não era uma fonte ou um poço para se jogar moedas e fazer pedidos. Era mais simbólico. Parecia ser uma extensão de um palco, feito de madeira, com enfeites de fitas e luzes, com área interna e externa, para um momento de descanso. DJ e bandas ao vivo intercalavam apresentações.

Peguei um panfleto que dizia: “O lugar onde você pode dar asas aos seus desejos mais ousados e realizar seus anseios mais profundos. Reviva tudo o que te inspira, porque no Poço dos Desejos – onde os sonhos se tornam realidade – a esperança é eterna!”

— Será que é verdade? Estou precisando — sorri

Me senti tão inspirada, que tirei uma foto com a câmera instantânea e colei no diário. Resolvi escrever sobre meus desejos e sentimentos registrando este momento.

— Quais são meus anseios mais profundos? Hum… — mordi a caneta enquanto pensava — Não ter que me preocupar com dinheiro — me repreendi mentalmente — … não, muito superficial … encontrar o amor… — balancei a cabeça me auto criticando — não é tão profundo assim…

Busquei na minha mente e coração ser verdadeira comigo mesma. Pensei por mais um tempo e escrevi o que veio.

— Me sentir pertencente, acolhida… me sentir em casa. — Suspirei.

Senti um vazio ao pensar nisso, um certo medo até, de nunca experimentar esse sentimento. Guardei meu diário e segui explorando — não estava ali para um momento

introspectivo, e sim para me divertir. Precisava de uma bebida, isso sim.

Após deixar as coisas na tenda, algumas horas se passaram entre shows, comidas, bebidas e compras. Já estava entardecendo, estava cansada, meus pés e coluna doíam, e com várias sacolinhas de compras cheias de bugigangas que amei.

Enquanto caminhava em direção novamente ao acampamento, para descansar um pouco antes dos shows noturnos, uma tenda chamou minha atenção. Dizia na placa: “Receba o que precisa e não que o deseja”.

Li várias vezes.

Aquilo incomodou de um jeito estranho, como se a frase estivesse falando comigo. Me arrepiou inteira… olhei para um lado, depois para outro, decidindo se deveria entrar. Mas minha curiosidade aflorou de novo e tive que ver o que era.

A tenda não tinha fila. Diferente das outras, parecia quase ignorada.

Ou… como se não chamasse atenção. Ao entrar fui recebida por uma mulher vestida de cigana de meia idade, olhar doce e com um sorriso meigo, com cabelos ruivos longos, olhos tão azuis e penetrantes que me fez sentir desconfortável, — bem estereotipada para o meu gosto.

— Olá Clara, vejo em você desafio e aventuras

Travei meio segundo.

— Interessante — falei meio cética, em tom analítico — como sabe o meu nome?

— Eu sei muitas coisas sobre você — o sorriso parecia congelado em seu rosto.

— Sei…

Desconfiada comecei a trabalhar todas as hipóteses. Que talvez ela poderia ter me visto mais cedo me apresentando a alguém, que poderia ter um talento ao estilo “O mentalista” ou o mais absurdo, ter um dom real.

— Hum… como funciona o seu trabalho?

— Eu faço uma sessão, onde realizo uma leitura completa de você e da sua energia.

Pensei em recuar. Mas não vou negar, achei diferente:

“Por que não? Pode ser divertido!”.

Aceitei fazer a sessão apesar do sentimento incômodo.

— Certo! — pigarreei — vou dar uma chance. Eu quero entender melhor um livro e…

— Certo, vamos começar então? Venha, sente-se aqui! — Apontou para uma cadeira

— Está bem...

Apesar de achar grosseria a forma que me interrompeu, concordei com um misto de ansiedade e animação, sem nem ao menos perguntar o preço.

Sentei meio receosa do que ia acontecer, mas me permiti viver toda a experiência mística. A cigana acendeu algumas velas e um incenso forte.

— Me dê suas mãos, preciso sentir sua energia.

Suas mãos eram frias, mas suaves. Ficou um tempo de olhos fechados e respirando em completo silêncio. Parecia que ela estava ouvindo algo dentro de mim. Após um momento

de olhos cerrados e inspirando em total silêncio, ela os abriu com um sorriso sinistro que me arrepiou até a espinha, olhou nos fundos dos meus olhos e disse:

— Você carrega memórias que não são só suas.

Meu coração falhou uma batida.

— Você evita certas coisas… sem saber explicar. E quanto mais tenta ignorar, mas elas voltam.

— Isso é… — tentei falar, mas minha voz saiu mais baixa do que eu esperava — genérico.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Então por que você está tremendo, Clara?

Só então percebi. Minhas mãos estavam geladas e tremendo. Tentei puxar levemente a mão de volta, mas hesitei sem saber por quê. Mas o pior de tudo aquilo era a forma que ela me encarava. Parecia ver através de mim.

— Você se sente sozinha e sem propósito. Seu passado tem dor, mas também superação. Você é resiliente. Está em um momento de transição, buscando amor de várias formas: romântico, familiar e próprio.

Puxei bruscamente minhas mãos. Me abracei em uma tentativa de aplacar o frio que me consumia. A íris da cigana pareceu mudar por um momento em tons amarelados. Cambaleei para fora da cadeira querendo me afastar daquilo. Mas ela me alcançou e segurou meus ombros

— Seu caminho está entrelaçado pelas linhas do destino. Ligado a isso de um jeito que você ainda não vê direito. Tudo o que você viveu te trouxe até aqui, mesmo que você não entenda.

— Me solta — foi tudo que consegui falar

Me soltou. Não me movi. Não podia.

Ela saiu para procurar algo. Lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto, mesmo eu tentando controlar. Como ela poderia saber tanto sobre mim? Não era o tipo de coisa que se vê no Instagram. Íntimo demais para ser sorte.

Fiquei angustiada, mesmo sendo uma pessoa aberta a crenças, esse momento me deixou apavorada. Teria saído correndo se minhas pernas não tremessem tanto.

Quando ela retornou, trazia consigo uma bolsa que lembrava uma valise pequena e antiga. Me analisou como quem vê algo inevitável

— Não chore minha jovem, não tenha medo do destino. O medo não muda o que já começou.

— Como assim? Como sabe tanto sobre mim? — perguntei confusa em um sussurro

— É assim que trabalho, se lembra? Eu te li

Falou como se fosse óbvio, sorrindo de maneira tranquila. Aquele sorriso me atormentaria por um bom tempo. Então minha ficha caiu

— Sério? Uma bolsa? Isso não faz sentido! Olha, eu não sei se você tem dons de verdade,

se é uma golpista, ou algo assim…, mas não vou sair daqui sem respostas.

Eu me alterei, a brincadeira se tornou séria, sentia que precisava de mais explicações do que ela estava fornecendo

— O destino nem sempre faz sentido, mas essa bolsa é sua, cabe você aceitar ou não. E sobre o que pensa de mim, não posso mudar. Cabe a você com o tempo entender. — disse sem se alterar

— Quanto te devo? — Eu só queria sair dali e respirar.

Paguei o valor da sessão — 20 euros — agradeci, peguei a bolsa e fui à procura de um lugar afastado.

Antes de sair completamente, olhei para trás. Por um segundo, tive a impressão de já ter vivido aquilo.

"Um déjá vu?"

Precisava me acalmar, a minha ansiedade dava indícios que ia aflorar. Andei sem olhar para nada, apenas tentando encontrar um lugar silencioso e afastado. De alguma forma, consegui chegar à tenda.

Após um tempo sentada e de tomar um pouco de água, comecei a voltar ao normal, e refletir melhor sobre o que aconteceu.

Peguei a bolsa para ver o que tinha de tão especial.

— Que ótimo, é só uma bolsa velha, caí num golpe. Sair do Rio pra passar por isso na Europa, é uma afronta

Exasperei jogando a bolsa no colchão, mas ao olhar com mais atenção para ela ri da ironia.

— Pelo menos é bonita.

Com a mente mais tranquila, fui namorar meus mimos.

— Vamos ver meus recebidos pagos — não sou fútil, mas amo comprinhas

Tirei tudo que havia comprado das sacolas e dos embrulhos, estava ansiosa demais para esperar terminar o festival.

Comprei um relógio de bolso, que aparentava ser antigo, e me lembrava do meu avô. Era de prata, ou acreditava ser, pelo preço nunca se sabe. Havia uma gravação em latim, mas não consegui ver a tradução pois estava sem internet.

— Pelo menos ainda funciona — o alisei com os dedos

Também havia um saco de moedas antigas.

— Vocês vão ficar lindas emolduradas em uma mesa de centro de vidro. O saco, posso encher de papel, e colocar enfeitando uma estante perto dos livros de época.

Continuei mega animada vendo o restante, tinha algumas bijuterias, um xale vintage, um leque igual de Bridgestone, um conjunto de escrita antiga — com uma pena, papéis e tinta.

— Pelo menos tudo combina com a bolsa. Até que a golpista tem bom gosto — ri enquanto guardava tudo dentro dela

Depois de me deleitar mais do que devia com as compras, preferi passar tudo que estava na minha bolsa para a que ganhei — ganhei não, comprei por 20 euros — para evitar muito volume de bagagem.

Ao fazer isso, notei o livro sobre o colchão e resolvi ler mais. Retomei a página em que havia uma espécie de poema…

No livro antigo, segredos dormem

Nas páginas velhas, um eco sussurra

Um portal se abre, a alma se afunda…

O tempo fechou, um trovão ressoou e a tenda balançou um pouco com o vento. Parecia que uma tempestade estava chegando do nada, olhei em volta

— Ótimo, a Inglaterra e suas chuvas do nada!

Continuei a leitura.

No coração da escuridão, a verdade se revela

O mistério convida, no limiar do tempo, a jornada se inicia.

Havia uma pequena frase em outra língua que não conhecia. Mas de alguma forma consegui ler

‮      .‬

Nie si iereth iyi fieme ari dhishe.

Ao finalizar o verso, o ambiente se tornou frio e mais frio, até ficar gelado e escuro, ao ponto de sair fumaça da minha boca.

Me apavorei.

Minha respiração pesou, uma névoa densa começou a me cercar, me cegando a volta. O medalhão que usava começou a brilhar. Várias luzes em formatos de linhas emanavam do livro rodeando meu corpo.

Minhas roupas esquentaram, mas era confortável, não queimava minha pele. Uma vibração percorreu meu corpo, como se estivesse se alinhando, duas vibrações se tornando uma.

Me senti sem equilíbrio, mesmo sentada.

Estava cada vez mais gelada e fraca, enquanto minhas roupas estavam cada vez mais quentes.

Meu coração deveria estar acelerado tamanha era a angústia, mas batia na mesma frequência que sentia dominar meu corpo.

Em meio a escuridão, vi uma luz muito forte, que parecia estar saindo de mim ao mesmo tempo que saiam do livro.

Achei que estava morrendo. E meu pensamento foi "Morrer não dói"

A morte tinha um voz suave, como uma música relaxante. Repetia em coro: "Eu e as linhas estamos entrelaçadas pelo destino"

Então … a luz explodiu em minha volta. Não senti mais o calor e nem o frio que me consumia.

O mundo simplesmente sumiu em escuridão, e me entreguei a ela.