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Entre os fios do destino · Capítulo 1 — R. Nunes

Por R. Nunes

E se existissem conexões invisíveis na Terra, que contém as memórias e o tempo? E se algumas pessoas fossem capazes de acessá-las? Clara é uma carioca, sarcástica e pouco disposta a aceitar respostas sem questioná-las. Ela aprendeu a conviver com uma sensação difícil de explicar: a de que, mesmo cercada de pessoas as conexões verdadeiras e um sentimento genuíno de pertencimento nem sempre caminham juntos. Uma viagem a Glastonbury, na Inglaterra, muda completamente o rumo de sua vida. Transportada para a Inglaterra de 1830, descobre a existência das Linhas de Ley: conexões invisíveis que atravessam a Terra, carregam suas memórias e permitem acessar forças que a humanidade há muito tenta compreender. E a magia talvez não seja tão sobrenatural quanto parece. Entre um livro antigo, registros incompletos e acontecimentos que desafiam a lógica, Clara começa a desvendar uma história que atravessa séculos. Há quem queira compreender as Linhas e há quem pretenda controlá-las, mesmo que isso signifique romper conexões e destruir aquilo que não consegue dominar. Para impedir que esse conhecimento se transforme em instrumento de poder e destruição, ela precisará aprender a enxergar o que existe além do visível, e compreender que preservar o passado não significa aprisionar o futuro. Porque o passado é registro. O futuro é possibilidade. E o presente é onde se acessa.

Capítulo 1

Rio de Janeiro, 10 de setembro 2022

O dia estava agradável, calor, mas nem de longe o famoso Rio quarenta graus. Estava andando pelo centro, bem carioquinha com meu short jeans, camiseta branca, tênis, óculos escuros e ecobag. Apenas mais uma na multidão a caminho de um sebo garimpar.

Tinha finalizado um livro de romance, clichê eu sei, mas eu amo essa realidade alternativa — já que não dei muita sorte nesta parte da minha vida. E queria continuar o pique da leitura e aproveitar minha folga.

É simplesmente maravilhoso essa busca, não é? Sei que é gostoso comprar um livro novo em qualquer formato, seja online ou físico. Mas sou fascinada pela emoção do que pode ser descoberto nesses lugares, é sempre uma surpresa gostosa.

Então iniciei minha exploração pelo desconhecido, esperando encontrar algo que superasse a última leitura. Afinal, quem não fica com ressaca literária? Um sentimento de “fiquei órfã” quando acaba um livro ou uma saga. De que o próximo tem que prender mais que o último — louco, eu sei — mas real na vida de um leitor feroz.

E para a caçada ficar ainda mais interessante, sempre vou a um sebo que nunca fui. Assim não crio vício de saber o que tem e perder esse sentimento de: “O que vou encontrar hoje?”

O da vez era meio escondido, descobri por acaso, buscando outro lugar que vi na internet. Ele parecia uma mistura de antiquário com livraria e misticismos. Era aconchegante e bagunçado, com livros e objetos antigos por toda parte, que ornava de uma forma única.

Suspirei ao entrar e avaliar o todo.

Fui olhando primeiro para as capas e títulos — sim me julguem — e conforme me chamava a atenção eu lia a contracapa quando tinha, ou a introdução quando não tinha. Fui espaço por espaço, canto por canto, me perdendo para me permitir encontrar. Quando vi um livro que me chamou a atenção. Parecia um alfarrábio.

A capa era de couro antigo marrom, com marcas esculpidas e símbolos que pareciam um idioma de livro de fantasia, nunca havia visto algo assim. Eu sorri, por um momento, essa pequena descoberta me fez sentir feliz. Peguei o livro com delicadeza, tal qual uma bibliotecária diligente.

O abri, cheirei e por alguns segundos divaguei naquele instante.

As páginas eram amareladas e gastas, e o cheiro… como explicar? De coisa guardada por muito tempo, mas não de um jeito ruim. Algumas páginas estavam com pequenos rasgos e marcas do tempo, lembrava muito um grimório medieval.

— Olá você!!!

Ao folhear, percebi que era escrito com uma caligrafia cursiva e bem desenhada, em diversos idiomas. Inglês, latim, alemão, espanhol e até um que nunca havia visto. Continha imagens feitas à mão de paisagens, símbolos, constelações, mapas e tantas outras. Na primeira página estava assinado por uma mulher chamada Evelyn Morgan e mencionava as linhas de Leys. Tudo indicava ser uma espécie de diário ou registro de estudo.

— Parece um livro tirado de um livro — disse a mim mesma sorrindo e acariciando o livro com os dedos — An Account of the Ley Lines - Evelyn Morgan 1830

Fiquei tão intrigada, meu lado investigativo atingiu um nível inimaginável. Queria saber tudo sobre o livro e sobre ela, senti que tinha ganhado na loteria dos mistérios literários.

Sou uma pessoa curiosa por natureza, e isso me coloca em situações complicadas — para dizer o mínimo. Então dá pra imaginar meu nível de empolgação. Estava nas nuvens de felicidade. Não pensei duas vezes e fui até ao caixa onde o dono estava:

— Bom dia! — disse com um sorriso de orelha a orelha empolgada — Vou levar este por favor. Quanto custa?

— Bom dia minha jovem! Somente este? Não quer garimpar mais um pouco? Recebi vários livros novos ontem — Falou com sorriso na voz

— Bem que eu queria poder… mas estou economizando… mas seu sebo se tornou o meu favorito! E olha que já fui em praticamente todos desse Rio de janeiro.

— Isso eu duvido muito — falou rindo

Ele me fitou com um olhar desafiador, e despertou meu lado competitivo

— Se realmente é uma exploradora, vou descartar os locais mais comuns e conhecidos. Já foi em Nova Iguaçu?

— Está me desafiando? — gargalhei — Pois bem, já fui sim.

— Ok, ok… só mais um…me deixe pensar…Vilar dos Telles… agora quero ver?

— Nossa! Por essa não esperava… mas para sua decepção já fui. Faço isso desde os meus 14 anos, podemos fazer isso o dia todo — se tornou impossível saber quem ria mais. — Ahhh meu amigo… se quer saber, já fui até em Xerém — o encarei com tom desafiador brincalhão

— Aceito minha derrota, cara senhora — fez uma mesura zombeteira — é sempre bom conhecer uma leitora tão feroz.

— É sempre bom encontrar pessoas que alegram o nosso dia

— Não posso discordar! Bom… aos negócios então… me deixe ver isso para você

Ele olhou e inspecionou o livro com uma expressão confusa e pesquisou algo no computador.

— Esse aqui não tem a minha etiqueta, nem consta nos meus inventários, e eu sou muito organizado com meus livros.

— Sim, eu percebi. Foi o sebo mais organizado que já fui. Será que alguém esqueceu aqui?

— Pouco provável, você praticamente abriu a loja, não teve cliente antes de você — disse ele em tom risonho

— Então não vou poder levar? — fiz uma carinha de caramelo sem dono

— Vamos fazer o seguinte, pois gostei muito de você, e admiro seu entusiasmo pela leitura. Eu te dou o livro, afinal não posso vender algo que não é meu. Se… — fez uma pausa dramática me deixando ansiosa — fizer uma doação para uma instituição de caridade que eu apadrinho.

— Ahhh que maravilha…fechado!

Como eu estava empolgada com a minha conquista, fiz uma doação extra. Saindo da loja com um sorriso estampado no rosto e entusiasmada para chegar em casa para ler meu livro, meu celular vibrou com uma mensagem, que mudaria tudo pra mim.

Como eu disse, um momento feliz para vários ruins.

***

Em um momento eu estava aproveitando a felicidade simples do cotidiano e em outro estava vivendo uma das minhas maiores dores na vida — a perda do meu avô. Estava em pé em frente a sepultura, vendo o caixão descer pouco a pouco. Toda uma história se encerrando, uma vida. Foi inevitável nesse momento um filme passar em minha mente.

Perdi meus pais muito nova, Joseph Sullivan foi a única família que me restou, fui criada por ele desde os meus 8 anos de idade.

Meu avô no início não era a figura mais amorosa que se espera — especialmente no Brasil — onde as famílias são em sua maioria, extremamente carinhosas. Ele era inglês, e com 22 anos conheceu a minha avó em uma viagem que fez ao Brasil de férias.

Foi a típica história de amor à primeira vista, aquelas contadas com ar nostálgico e meloso, onde as famílias não aceitavam muito bem. Ficaram namorando à distância por cartas até ele finalizar os estudos e conseguir um emprego no Brasil.

Levou 3 anos.

Sempre achei estranho fazer tanta questão de alguém assim. Se esforçar tanto, ainda mais naquela época. Hoje, com tudo mais fácil, já parece difícil.

Isso teve um impacto gigantesco na minha vida amorosa, queria encontrar alguém que me fizesse esforçar sem me sentir exausta por isso. E receber em igual medida.

Como resultado, estava solteira aos meus 27 anos. Não que fosse um problema, mas me fez sentir insegura por nunca ter amado. Com medo de ter criado padrões tão altos que não podem coexistir com a realidade.

Eles estavam casados por 30 anos quando ela faleceu. Eu tinha 1 ano, então não tenho lembranças dela. Depois disso, meu avô se fechou. Um luto longo, silencioso. E anos depois, perdeu o único filho e a nora.

— Clara? — o pastor me chamou com delicadeza

— Sim

— Está na hora — me fitou com uma mistura de carinho e pena — as flores

Segui o esperado e joguei uma rosa branca solitária no jazigo. Outros me seguiram, um a um prestando sua última homenagem.

Eu não conseguia me ancorar ao presente, era um borrão e ações ensaiadas.

Minha mente estava revivendo o momento que cheguei na casa dele.

Me sentia uma intrusa naquela época. Tinha o visitado poucas vezes antes, e tudo muito rápido, sem tempo de criar qualquer laço. E de repente, estava ali. Uma criança tentando entender o que tinha sobrado da própria vida.

Ao me mudar para a casa dele foi o período mais solitário que vivi.

Ele era rígido com a rotina, estudos e horários — especialmente com os horários. Me colocou em uma escola particular cara, bilíngue de inglês britânico. Preencheu meus dias com atividades, uma atrás da outra. Dizia que assim não teria tempo de fazer “merda”.

Fiz de tudo um pouco. Balé, teatro, natação, artes marciais, idiomas. Nada do que começava terminava, não me sentia pertencente, não tinha amigos, minhas notas eram medianas e não me alimentava bem.

Estava sofrendo.

A escola então o chamou, sugeriram terapia. Ele aceitou, meio sem saber o que fazer com aquilo. Fez toda a diferença na minha vida. Consegui evoluir aos poucos, aceitando cada fase do luto e me descobrindo como indivíduo.

Ao longo do tempo, ela começou a chamar meu avô para conversar, pois eu era menor de idade, e o familiar responsável precisava estar envolvido, e isso mudou alguma coisa. Pequena, mas suficiente. Ele passou a tentar, do jeito estranho dele.

A finitude me fez questionar sobre a vida.

— Meus pêsames — ah é, eu estava no velório. Quem era aquele senhor? Como eu conhecia pouco meu avô, não sabia quem era 90% das pessoas presentes.

— Obrigada! Ele sempre falava do Senhor — não me julguem, é o que querem ouvir. Ele jogou sua rosa e se afastou.

Agora estou aqui, me despedindo dele, vivendo mais um luto e ficando sozinha mais uma vez. O som da tampa do jazigo marcou o fim, recebi todos os abraços e condolências, ouvi palavras que não registrava, e fui pra casa perdidas em meus pensamentos.

Até hoje eu me considero uma pessoa mediana. Sinto que não evolui como gostaria. Não sou inteligente o bastante para ficar rica com a minha mente, mas também não sou burra. Não sou bonita o bastante para ganhar a vida com a minha aparência, mas também não sou feia. Sou simpática e agradável para conhecer pessoas, mas não boa o bastante para mantê-las na minha vida. E ainda, o terrível hábito de não terminar muitas coisas que comecei.

Parafraseando uma série “Sou sempre um quase”.

Consegui focar nas artes marciais, pois me ajudava no tratamento da ansiedade, e há dois anos inclui yoga. A meu ver, minha vitória mesmo eram os idiomas, pois queria viajar pelo mundo. Hoje falo 4 fluentes (Inglês, francês, coreano e espanhol), bom, 5 se contar a língua materna português.

Mas na vida acadêmica, não mudei muito. Quatro semestres de psicologia, mas acabei desistindo e vendo que não era o que queria. Mais quatro semestres de nutrição, desanimei. Tentei História, algo próximo ao meu vício de leitura, desisti no quarto semestre.

Por último a biomedicina, inspirada pelo meu apego de autocuidado com a pele. Sétimo semestre e queria desistir, mas prometi à psicóloga que tentaria mais um pouco. Ela alegou que faltava tão pouco.

Pelo menos venci a marca do número quatro.

Engraçado como quase tudo parava antes de ir pra frente. Nunca no começo. Nem no fim. Exatamente no meio.

Mesmo com tudo que evolui, não consegui fazer amizades duradouras, apenas colegas. Não tenho mais família, como filha única de pais filhos únicos, não possuo primos ou tios.

Um vazio me consumia, não conseguia chorar ou sentir tristeza, apenas uma ausência de tudo.

Ao chegar em casa só havia silêncio e solidão.

Já foi um lar, onde dois seres presos em seus lutos aprenderam a se amar e cuidar um do outro. E agora era só uma casa, e teria que fazer tudo sozinha.

**

Seis meses depois

Enquanto estava sentada esperando o embarque do meu voo, segurei e olhei para o meu medalhão — uma herança de família — algo que sempre me trazia conforto e me fazia lembrar dos meus pais. Ele tinha uma pedra lilás incrustada e uma marcação atrás ilegível.

Enquanto o admirava, refleti sobre como tudo se desenvolveu nesses últimos meses.

Fiquei no piloto automático, e apesar de conseguir terminar a faculdade, a três meses perdi meu emprego de quase dez anos — belo presente de natal. Ao que parece, as empresas “humanizadas” têm prazo para o luto.

Apesar da minha performance ter diminuído, ainda era melhor que muita gente. Mas não importa que tivesse trinta pessoas que faziam menos que eu. O que conta é que eu fiz menos que minha antiga versão.

Seguindo a máxima de quando a vida te der limões, faça uma caipirinha (ops, limonada), aproveitei minha demissão e juntei o valor da herança (que não era muito), minha poupança da vida, rescisão, FGTS, aluguei a casa e coloquei tudo em uma carteira digital internacional. Fiz o programa da fundação Oswaldo Cruz para quem vai viajar por muito tempo para fora do Brasil, e tomei todas as vacinas e medicamentos. Além disso, fiz um checkup odontológico e de saúde (só Deus sabia quando eu teria acesso a uma saúde nível Brasil), e me inscrevi em um site de intercâmbio voluntário.

Larguei tudo para enfim fazer a viagem pelo mundo que tanto sonhei. Não era da forma que planejei, mas era o momento de fazer isso por mim, precisava de um recomeço.

— Última chamada para embarque para o aeroporto de Guarulhos no portão 10

Arrancada de meus pensamentos com a chamada de embarque para o voo, fui em direção ao portão. Minha jornada de recomeço se iniciava, e apesar de toda empolgação, vinha um medo do desconhecido.

Eu relamente me desfiz de tudo, e isso por si só já era uma loucura, vendi ou doei o que dava e fiquei apenas com o essencial. E apesar de ter um apego aos meus livros, doei e comprei um Kindle — seria mais fácil para ler na viagem. O único que não tive coragem de me desfazer foi o livro misterioso, após tudo que houve, não consegui lê-lo e nem comprar novos livros.

Agora tudo que tenho se resume a uma mochila com itens pessoais, de higiene, maquiagem, skincare e uma mala de mão.

Ao entrar no finger, conforme ia descendo e me aproximando da aeronave, sentia que ia deixando uma parte de mim para trás, era um novo capítulo na minha vida.