ENGRENAGENS DO DESTINO
Local: Antártida
Data: 16 de abril de 2008
— Este garoto não é o seu passado, ele é seu filho e precisa da mãe — disse uma deusa encapuzada, cujos cabelos ruivos voavam ao vento, graças à fria brisa do local, para uma deusa de cabelos brancos, pálida como a neve, que estava diante dela.
Sua pele era fracamente iluminada pela luz do dia nublado no vasto campo de gelo puro no qual se encontrava. O vestido e o capuz brancos indicavam a importância daquela deusa: ela era uma divindade reclusa, que um dia teve grande importância no cosmos.
A deusa de cabelos brancos vestia um sobretudo de couro de urso polar, calças de couro pretas e botas da mesma cor. Seus olhos, de cor cristalina, lembravam flocos de neve caindo do céu durante uma vasta tempestade e refletiam a sensação que ela sentia em seu coração naquele momento: uma vastidão de emoções reprimidas por sua natureza fria. Ela era chamada por muitos pelo título "Despoina".
— Ele não está pronto! — afirmou Despoina para a deusa encapuzada, com irritação na voz.
— A sua natureza luta dentro do garoto neste exato momento; a verdadeira natureza dele vai se revelar, e, quando isso acontecer, será tarde demais — dizia a deusa, enquanto caminhava atrás de Despoina.
As duas estavam no meio do mar da Antártida, e, por onde a deusa de cabelos brancos passava, a água congelava a metros de distância, devido à presença divina que emanava de seu corpo.
— O Olimpo colapsou, e, como consequência do Caos, você foi uma das divindades que, depois de muitos séculos, teve a oportunidade de entrar em fertilidade, dar à luz. Sua esterilidade foi curada! — a olimpiana se apressava em chamar a atenção daquela divindade, que parecia, pela primeira vez em toda sua existência, indecisa sobre o que fazer. — Você entende o que isso significa? Outros também tiveram filhos, o clima no mundo divino é incerto, e os semideuses certamente serão, mais uma vez, peões nesse embate que já começou. Seu filho precisa de você agora! Antes que seja tarde demais! Temos apenas onze anos antes da guerra começar!
A deusa de cabelos ruivos caminhava até passar à frente da deusa do gelo, que respondeu de imediato:
— Tenho muitos inimigos, travo impasses há anos com os quatro ventos. Meu pai, Poseidon, me detesta, assim como minha mãe, Deméter. Eles jamais perdoariam uma criança nascida de mim. Meu filho não pode se envolver com o nosso mundo — a deusa do gelo parou e olhou fundo nos olhos da deusa encapuzada.
— Despoina, por favor, se seu filho não estiver a salvo com você, com quem estará? Eu não poderei protegê-lo. Já fiz meus sacrifícios; não deixarei a tragédia se repetir mais uma vez — a deusa encapuzada cerrava os punhos conforme lágrimas se formavam em seus olhos. Sua íris vermelha brilhava na esperança de que a deusa do gelo compreendesse a gravidade da situação.
— Meu filho não sofre ameaça alguma. Ele não possui sangue divino o bastante para ser notado pelos deuses ou pelos mediários — os olhos cristalinos, que lembravam gelo e neve, frios, entraram em uma ligação única e desafiadora com os olhos vermelhos e flamejantes da deusa encapuzada.
Quando os olhares de ambas se cruzaram, uma guerra de forças de vontade foi travada, como animais selvagens que se encontram na natureza; aquela que tivesse maior determinação venceria o impasse, sem o uso de agressão.
E ali, os olhos cristalinos e gélidos da deusa do inverno colidiram contra os esperançosos olhos flamejantes da deusa, que preferia não revelar sua identidade, embora Despoina soubesse quem ela era. A deusa ruiva deu um passo à frente; Despoina não recuou, mas permitiu o avanço. Ela estava determinada a impor sua força de vontade sobre a deusa do inverno.
— Você subestima sua natureza, subestima o sangue olimpiano que corre nas veias do seu filho. Acredite em mim: dê as costas para ele agora, e não só o passado te assombrará, mas o presente e o futuro também. Tenha quantos inimigos quiser, eu repito: Ikarus não faz parte do seu passado, ele é o seu presente. E o futuro do seu nome em nosso mundo — a ruiva falou com uma voz autoritária, deixando claro o quanto estava determinada em suas ações.
Despoina, ao ouvir tais palavras, relembrou brevemente sua vida no cosmos. Ela era filha biológica de Poseidon e Deméter. A deusa da agricultura, no passado, procurava por Perséfone, sua filha, que havia sido raptada por Hades. Quando Deméter percebeu que Poseidon, o deus dos mares, estava atrás dela, transformou-se em uma égua para fugir dele. Poseidon a encontrou, assumiu a mesma forma equina e a estuprou, mesmo sendo sua própria irmã, deixando-a grávida.
Deméter, enojada de seu irmão Poseidon, decidiu renegar as crianças que cresciam em seu ventre e, assim, deu à luz prematuramente em uma caverna onde estava, solitária, lamentando o rapto de sua primogênita, Perséfone. De seu ventre, nasciam duas crianças: uma pequena deusa, pálida, que nem sequer chorou, e um pequenino potrinho igualmente branco, nascido da forma divina equina que Deméter e Poseidon assumiram.
Devido à fúria que sentia, à depressão pela perda de Perséfone e à dor da segunda violação seguida que sofrera, a deusa achou necessário descontar a frustração de alguma forma. Deméter decidiu punir as crianças. Ela não conseguiria matá-las, por serem imortais, mas as amaldiçoou com toda sua força de vontade.
A deusa da agricultura tornou sua filha estéril ao colocar a mão no ventre da recém-nascida e, em seguida, a amaldiçoou ao decidir abandoná-la sem um nome. Deixou também o potrinho e, assim, saiu da caverna, na esperança de que eles nunca vissem a luz do dia.
O deus equino criou seis asas devido ao esforço que fez para conseguir sair do buraco. Pegou a irmã, que chorava de dor, mordeu o braço da deusa bebê e a colocou sob suas costas. Mesmo fraco e prematuro, esforçou-se para salvar a própria irmã. Assim, fugiu da caverna, chorando junto com sua irmã, ambos em busca de alimento, abrigo e alguém que cuidasse deles.
Os recém-nascidos foram encontrados por Themis, uma das titãs primordiais, cujo domínio divino era a lei natural, a justiça e a ordem. Themis foi a segunda noiva de Zeus e, posteriormente, quando o rei se casou com Hera, a titã tornou-se conselheira dele. Themis, entristecida e com o coração partido pelo que Deméter havia feito, decidiu cuidar das crianças em segredo. Adotou-as como se fossem suas, amamentou-as e as criou.
A titã, na esperança de que a pequena deusa seguisse o caminho da justiça, decidiu dar a ela um nome que lembrasse o seu: “THEMINARIS”, um nome que caiu no esquecimento, pois pouquíssimos mortais o conheciam, chamando-a apenas de DESPOINA ou, para alguns, DESPINA. E ao potrinho alado, que nasceu com seis asas, chamou de Arion, um deus equino que também não foi muito lembrado pelos mortais, exceto pelo fato de que, certo dia, Hércules, um herói, veio a tomá-lo e domá-lo, transformando-o em sua montaria.
Despoina cresceu com problemas de equilíbrio, instabilidade de seus dons divinos e uma ira crescente. Em determinado momento, não pôde mais ser contida por sua mãe de criação, Themis. Assim, a deusa desenvolveu uma esfera ou inclinação divina rara: sua esfera de poder primária era o gelo, devido ao desejo de ser mais forte que seus pais, e a secundária, as sombras, por ter nascido na escuridão e sempre estar acompanhada dela.
Milhares de anos depois, os mortais gregos a cultuaram como uma deusa dos mistérios. Como divindade nascida de dois olimpianos, Despoina tinha direito de nascença a um lugar no Olimpo menor, junto aos deuses menores, que não faziam parte do conselho dos doze olimpianos. Porém, Despoina foi amaldiçoada a viver nas sombras, abandonada sem um nome em seu nascimento: até mesmo o nome que Themis lhe dera foi proibido de ser pronunciado, para não trazer desonra a Poseidon e Deméter.
Despoina era temida por todas as criaturas marítimas e da natureza, pois seu frio era destrutivo, e sua essência divina existia para acabar com os domínios agrícolas de sua mãe, Deméter, e congelar os domínios de seu pai, Poseidon. Quando Poseidon e Deméter souberam dos domínios divinos da filha renegada, buscaram destruí-la, pois seu poder colocava em risco seus próprios domínios.
Assim, Despoina, reclusa, sem nunca poder pisar em solo olimpiano, jurou dedicar sua existência a destruir tudo que seus pais adoravam. Viveu movida por vingança e, durante sua trajetória, fez muitos inimigos, que eram aliados de seus pais.
Ali estava Despoina, de frente à divindade encapuzada, enfrentando uma difícil decisão: deixar o passado de vingança de lado, pelo bem de seu filho, que tinha apenas sete anos, ou seguir com seus planos, esperando que o filho permanecesse oculto, sem que outros deuses notassem sua existência, algo que, no fundo, ela sabia que não seria mais possível. A força de vontade que a deusa ruiva colocou em sua ação fez com que Despoina se sentisse obrigada a começar a ceder e ouvi-la. Afinal, ela escondia segredos que podiam mudar o destino do cosmos.
— Ikarus já nasceu manifestando seus dons, ele cresceu com seus cultistas o ensinando que não é um mero humano. Se ele não estivesse correndo riscos, por que o tirou da Grécia e o enviou para a Rússia? Para uma vila de pescadores... Não seja tola! — a divindade repreendia a deusa do inverno, que abaixava o olhar, pensativa.
Despoina sentia um pressentimento crescendo em seu peito.
— Semideuses já estão sendo recrutados por ambos os lados do Olimpo, alguns até mesmo contra a vontade. Eu só consigo imaginar o pior acontecendo caso algum dos aliados de Zeus ou de seu pai encontre seu filho — continuou a deusa ruiva.
Ela colocou uma mão no ombro de Despoina, enquanto, com a outra, entrelaçava seus dedos aos da divindade do inverno.
— Despoina, eu já te disse tudo o que sei. Vá buscar seu filho agora. Viaje com ele, ensine-o a se proteger, cuide dele, e, quando completar a maioridade mortal, envie-o ao cosmos para que decida o próprio destino — a deusa ruiva pressionava Theminaris, usando uma voz pacífica, carregada de amor e empatia, apertando sua mão e ombro.
— Isso é contra a regra estabelecida pelos deuses; não podemos conviver com os humanos, muito menos com filhos mortais — Despoina respondeu com o olhar fixo na vastidão do campo gélido que ela havia criado sob o mar.
— Os tempos mudaram, estamos à beira do precipício. Uma guerra travada por manipulações começou, e isso mudará para sempre o curso da história do cosmos, dos humanos e dos deuses. Não há como voltar mais, a profecia já foi feita — disse a deusa encapuzada, enquanto lágrimas começavam a rolar por seu belo rosto. Ela tinha uma natureza pacífica e, por isso, sentia o peso da guerra sobre os ombros. O que estivesse ao seu alcance seria feito para salvar quem fosse possível.
Ouvindo isso, junto de uma lufada de vento carregada de neve, Despoina gritou, irritada, com a ruiva:
— QUERO POUPAR MEU FILHO DESTE MUNDO DIVINO HIPÓCRITA!
Ela entendia o ponto de vista da divindade, mas não podia concordar. O nascimento de Ikarus havia feito a deusa do inverno experimentar uma emoção que nunca sentira antes: esperança.
Despoina estava feliz, tinha vontade de continuar vivendo por algo que não fosse vingança ou destruição e, por isso, preferia amá-lo à distância, vendo-o crescer por etapas, a metros de distância, invisível aos olhos do menino: tudo pela segurança dele. O mundo divino já havia tirado muito de Despoina, bem antes de ela poder ter ou conquistar algo; uma brecha no destino a permitiu ter um filho, e ela não deixaria que nada nem ninguém fizesse mal ao semideus.
— As regras já foram quebradas, regras do destino e da ética divina. Você recuperou sua fertilidade graças às brechas do mundo divino, que foi abalado. Então, quebre as regras, Despoina, mantenha seu filho seguro até que ele mesmo consiga se proteger; eu vou esconder vocês com minha presença, se necessário. Salve seu filho — falou, aflita, na esperança de que Despoina aceitasse sua proposta.
A deusa do inverno não compreendia o motivo de a olimpiana estar tão abalada, nem por que se preocupava tanto com uma mera deusa do inverno, esquecida pelos deuses e renegada pelo Olimpo.
— Não preciso da sua ajuda! Mas por que me ajudar? — questionou Theminaris, irritada. Sua voz demonstrava que se sentia superior à ruiva e que não precisava de proteção alguma.
— Porque é assim que eu sou. Não fui abençoada com filhos, mas com uma eterna prisão — disse ela.
A deusa ruiva, no passado, fora alvo dos cortejos de Zeus e de muitos outros deuses, mas preferiu a castidade eterna a sofrer abusos e casamentos forçados. Refugiou-se, escondendo-se e caindo no esquecimento dos deuses. A divindade olhou dentro dos olhos de Despoina e algo incomum aconteceu.
A deusa do inverno entrou momentaneamente em uma espécie de transe. A encapuzada estava compartilhando visões com Theminaris, e isso confirmou a aflição que a deusa do gelo sentia, libertando-a das dúvidas. A ruiva se aproximou mais alguns centímetros da deusa, que estava incrédula com tudo o que havia visto, e, numa voz baixa, quase inaudível, sussurrou, enquanto as lágrimas rolavam de seu rosto:
— Está acontecendo tudo de novo.
Despoina, se não fosse pálida por sua natureza divina, teria empalidecido após tudo que viu nos olhos daquela deusa pacifista, que também fora excluída do meio dos olimpianos. Havia muito a ser feito. Em poucos anos, uma guerra começaria e, por isso, ela decidiu se apressar, afinal, não iria abandonar seu primogênito como haviam feito com ela no passado.
Aquela deusa encapuzada estava se ocultando de todas as outras divindades por um motivo específico. Ela sabia demais, sabia de segredos que nenhum outro ser no cosmos conhecia. E agora, Theminaris entendia o porquê.