O FILHO DO INVERNO
Ikarus, um pequeno semideus, filho da deusa do inverno, encontrava-se caído no chão. O garoto não sabia onde estava, mas sentia como se estivesse em um coliseu, um campo de luta dos romanos das histórias e aulas que seu pai e sua avó lhe davam. Holofotes iluminavam sua pele, que lembrava a neve do inverno. Os cabelos cacheados estavam bagunçados, e sangue escorria de sua cabeça até os fios brancos dos cachos. Seus olhos cristalinos lembravam as finas camadas de gelo que se formam em superfícies no inverno, quando iluminadas pela luz solar. O pequenino, de apenas sete anos, cerrava os dentes, irritado por estar com medo.
Nada fazia sentido. O ambiente, as luzes, o som das vozes — tudo parecia vir de um sonho distorcido, um pesadelo do qual ele não conseguia acordar. Ele havia sido treinado para enfrentar qualquer situação, mas nada o preparou para esse vazio opressor. Durante toda a sua vida, fora proibido de fraquejar por aqueles que o criaram, mas o terror que sentia fazia suas emoções, que sua frieza emocional tentava encobrir, transbordarem em lágrimas e soluços.
O garotinho se levantou do chão e começou a correr pelo pátio em busca de cobertura, de refúgio. Ikarus tentava gritar, pedir por ajuda, mas a voz não saía; todas as suas súplicas e gritos estavam entalados em sua garganta. Ele sentia que algo o seguia, algo invisível e aterrador, como uma sombra que se movia mais rápido do que sua mente podia compreender. Conforme corria, os holofotes o acompanhavam, como se estivesse sendo filmado ou como se estivesse em um show; vozes podiam ser ouvidas vindo do que parecia ser uma arquibancada logo acima dele.
BA-TUM-BÁ-TUM-TUM...
O coração do jovem semideus pulsava, quase saía pela boca. Ikarus não conseguia se manter calmo; as vozes na arquibancada clamavam por sua morte e, agora, uma imensa sombra emergia atrás do semideus. O olfato aguçado do pequeno detectou um cheiro podre, que lhe causava náuseas. Uma criatura, que ele tinha certeza de que era do tamanho de um poste de luz, ou até maior, o seguia.
O instinto assassino daquele monstro assolava o garoto. Ele também sentia calafrios e espasmos musculares percorrendo-o, como se fosse explodir em ansiedade. O peso de toneladas daquela criatura causava um tremor no solo, e Ikarus percebeu. Ele não conseguia controlar a velocidade das próprias pernas, perdia o equilíbrio e caía no chão, rolando até bater na parede que ficava na extremidade do pátio de combate.
O semideus tentou se levantar, mas a presença daquela criatura o paralisava. Ele não conseguia discernir que tipo de monstro ou criatura era aquela; o medo, as lágrimas, a tensão do momento faziam sua visão ficar turva, como se tudo estivesse envolto em névoa. As asas do monstro se abriram, e os olhos vermelhos caóticos cintilavam. Ele levantou uma pata e, com a ponta de sua garra, atacou o semideus.
Ikarus mal teve tempo para pensar, apenas viu a névoa que envolvia a criatura se mover. A grande garra da criatura se estendeu em um golpe perfurante; Ikarus queria chorar, pedir ajuda ao pai, à sua avó ou até mesmo à sua mãe, mas não havia ninguém ali. Ele soltou o ar num grito abafado, viu seu sangue voar para todos os lados: a garra da criatura havia destroçado seu torso por completo, atravessado todos os órgãos — coração, rins, pâncreas, fígado, intestino, estômago... como se fossem feitos de papel. Tudo escurecia. Ikarus sabia o que acabara de acontecer: a morte o levou, e a última coisa que viu antes de morrer foi o sorriso largo, psicótico e repleto de dentes pontiagudos da criatura que se aproximava para devorar sua cabeça.
— Cof, cof, cof, ahh, ah!!!
Ele acordou do pesadelo, tossindo, soltando gritos abafados. Tocava o próprio peito para ver se ainda estava vivo; suas pernas tremiam e seu coração batia tão forte que o som parecia ensurdecer sua audição. O olfato aguçado do garoto lhe dizia que estava em casa, seguro, e o cheiro podre não estava mais lá. Os olhos cristalinos do pequeno semideus percorriam o quarto. O ambiente era iluminado apenas pela lua nova que brilhava no céu; os raios de luz atravessavam a janela, revelando alguns soldadinhos, uma espada de madeira, livros de contos, histórias, filmes e até mesmo cartuchos de videogame — alguns espalhados pelo chão, outros organizados em prateleiras.
O garoto se lembrava dos ensinamentos da sua avó: “Se estiver com medo, procure respirar fundo”, e assim o fez. O pequeno se sentou e encarou os flocos de neve que caíam do céu. Ele não conseguia se lembrar direito do que sonhou, mas sabia que era horrível. De alguma forma, seu corpo se lembrava: um cheiro podre, dor no peito, aquilo era estranho para ele.
Mais uma vez, o menino olhou ao redor do quarto em que estava. Ele percebeu algo que o fez se assustar: deparou-se com uma silhueta que se movia por entre as sombras, caminhando rumo à luz da lua que atravessava a janela do quarto, localizado no segundo andar da casa de madeira. Aquela presença lhe era familiar, mas ele não a reconhecia. O menino, apesar de nervoso, tomou fôlego, permitindo que o oxigênio adentrasse seus pulmões, e encheu-se de coragem.
Local: Rússia/Oymyakon
Data: 16 de abril de 2008
Horário: 2 horas
— Q-quem é você? — perguntou em tom baixo, atento a qualquer sinal de agressividade da figura que apareceu em seu quarto em plena madrugada. O ser, até então desconhecido, revelou-se como uma mulher alta, de um metro e oitenta. Conforme caminhava em direção a Ikarus, a luz do luar a iluminava: sua pele clara como a neve brilhava ao receber os raios lunares. Ikarus sabia quem ela era, mesmo sem nunca ter visto a deusa; a agitação que sentiu pela presença dela logo se dissipou, deixando apenas um misto de calmaria e proteção.
— Você sabe quem sou, Ikarus. Está com medo? — A deusa de cabelos brancos ondulados parou em frente à cama do semideus.
Despoina observava o cabelo cacheado de seu filho, quase idêntico aos fios ondulados que ela tinha. Os olhos frios da divindade fitavam cada centímetro de sua prole, admirando a criança que ela havia colocado no mundo. O semideus sabia que aquela deusa era sua mãe. O pequeno balançou a cabeça em negação, respondendo, assim, à pergunta de sua mãe. Ele não estava com medo.
— Ótimo, preciso que me escute com atenção e me obedeça, certo? — A deusa falava; sua voz gélida fazia o semideus redobrar a atenção. Despoina colocou ambas as mãos dentro de seu sobretudo de pele de urso polar. Ikarus se manteve em silêncio. Os olhos cristalinos do pequeno fitavam a mãe; às vezes ele desviava o olhar, envergonhado, mas logo voltava a fitar, curioso, ainda que com um pouco de receio, afetado pelo pesadelo que tivera há poucos minutos.
— Humanos estão invadindo sua casa neste exato momento. São bandidos, algo comum de acontecer em vilas pobres como esta. Você precisa fugir, eu já estou vindo te buscar. — Despoina estava preocupada, embora não demonstrasse isso para seu filho.
— Mas e quanto ao meu pai e minha avó? — Ikarus questionou; ele não iria fugir sozinho. Deixar sua família não era uma possibilidade para o pequeno, que era leal àqueles que cuidaram dele desde o nascimento.
Despoina caminhou até a beirada da cama do semideus e colocou a mão no rosto dele, que não estava contente com a ordem da mãe. A deusa, ao perceber as emoções de seu filho, foi obrigada a repreendê-lo.
— Eles não são sua verdadeira família, são meus cultistas. Vão ficar bem. Do contrário, estão preparados para morrer para te dar a chance de viver. Não deixe o sacrifício deles ser em vão. Levante-se e corra para a floresta, agora. — Despoina estava impondo sua vontade sobre o semideus, que entendia a gravidade pelo tom de voz de sua mãe, embora não compreendesse o que ela quis dizer com "não são sua verdadeira família".
Ikarus concordou com a cabeça, em silêncio. Havia tantas coisas que ele queria perguntar à deusa, mas, antes que o semideus pudesse dizer algo, ela levou a outra mão ao rosto do pequeno e o apertou gentilmente. Aproximando-se dele, a deusa fitou os olhos de seu filho e, em um sussurro, que penetrou a mente do garoto como uma flecha, ordenou:
— Agora, acorde, Ikarus.
O semideus acordou, caindo no chão de seu quarto, ao ouvir barulhos vindos da porta da frente da casa.
— Eu sonhei com um... monstro, e... minha mãe... no mesmo sonho? — perguntou-se o garoto, confuso. Estava tonto, como se tivesse acabado de ser girado no ar pelo pai durante uma brincadeira. Caído no chão, o semideus olhava para o teto, tentando se concentrar para se levantar, e novamente outro barulho:
BLAM!
No andar de baixo, a porta da frente da casa do semideus havia acabado de ser arrombada por um grupo de homens armados. Os olhos de Ikarus vidraram ao ouvir o estrondo; vidros pareciam ser quebrados, e um cheiro de fumaça, como se algo estivesse queimando, subiu ao olfato aguçado do semideus. Ikarus ouviu algo:
— Fuja!
Uma voz roubava o espaço dos pensamentos do semideus, ordenando-lhe que fugisse. Era a voz de sua mãe. Ikarus chegou à conclusão, naquele mesmo instante, de que não fora apenas um sonho; algo de ruim estava acontecendo, e ele precisava fugir. O semideus se levantou do chão, levou a mão até a maçaneta do quarto e tentou abrir a porta — que parecia não querer ceder, sendo necessária muita força para puxá-la. Ele ouvia gritos e sons de móveis sendo quebrados. Um pequeno choque percorreu seu corpo, como se estivesse pegando o caminho errado em sua rota de fuga.
— Quem são vocês, seus filhos da puta! — Elliot, o homem que desempenhava o papel de pai na criação de Ikarus, perguntava, enquanto apontava um revólver em direção aos invasores.
Elliot era forte e, mesmo na situação em que se encontrava, mantinha uma postura imponente. A barba cheia e grisalha, junto do olhar sanguinário, revelavam a natureza daquele homem: era como um urso protetor que se erguia contra os invasores. Infelizmente, Elliot não pôde atirar para matar, pois, se o fizesse, sua mãe poderia acabar sendo morta, já que havia sido feita refém.
Ikarus conseguia ouvir a voz de seu pai. O semideus se abaixou e, do segundo andar, olhou para o primeiro, para ver do que se tratava aquela invasão. Todos os intrusos usavam máscaras pretas e carregavam armas de alto poder de fogo, além de estarem muito bem agasalhados para o frio de Oymyakon. Mesmo Ikarus sendo apenas uma criança, ele era muito esperto e sabia que aqueles homens não eram meros bandidos. Eles pareciam mercenários.
— Não é nada pessoal, amigo. São apenas negócios! — gritou o bandido, que parecia ser o líder.
O invasor estava em frente a Elliot, apontando uma espingarda de caça em direção ao peito dele. Próximo à cozinha, um homem jogava líquido sobre os móveis da casa com um galão; pelo cheiro, Ikarus pôde identificar que se tratava de gasolina. O objetivo daquele invasor era atear fogo, para não deixar evidências do crime. Aquilo era péssimo, pois a casa deles ficava muito afastada do resto do povoado de Oymyakon, então, se um incêndio ocorresse, a ajuda demoraria muito para chegar.
— Mate-os logo, Elliot, não coloque tudo em risco! — gritou Helena, a mulher que desempenhava o papel de avó de Ikarus.
Um dos bandidos estava forçando a senhora contra o chão. Ver sua avó, que tinha mais de setenta anos, sendo humilhada daquela forma fez o semideus cerrar os dentes, irritado. Ikarus queria fazer algo para ajudar; pensou em pegar um vaso da decoração e arremessá-lo do segundo andar, ou então pular em cima de um deles. Mas, devido ao treinamento que recebera de Elliot, soube que impulsos emocionais podiam ser fatais em momentos de vida ou morte. O pequeno pensou:
“Mantenha-se frio.”
Sem pensar duas vezes, Ikarus correu de volta para seu quarto, indo em direção à janela enquanto ouvia os gritos de Elliot com os invasores: parecia que estavam lutando. O semideus forçou o corpo contra a janela de madeira, que se abriu por completo. Em seguida, olhou para baixo, calculando o quão alta seria a queda em sua tentativa de fuga.
Dez metros, no mínimo.
Ikarus respirava fundo, determinado. Ele não iria fugir, não podia deixar sua família; aquelas pessoas iriam pagar por destruir sua casa, ameaçar Elliot e maltratar sua avó.
— Eu não sou humano, sou um semideus, a neve me protegerá! — o pequeno falou para si enquanto subia no vão da janela. Os flocos de neve entravam em seu quarto, dançando junto ao vento que tocava seus cachos brancos. “Eu não sou humano”, repetia para si.
Ikarus cresceu sabendo que era um semideus. Sendo treinado pelo pai e educado pela avó, era mais rápido e mais forte que um humano comum. E, assim, fechou os olhos; enchendo-se de coragem, pulou da sacada de sua casa. Os flocos de neve dançaram em volta do corpo do semideus em queda, como se o abraçassem. A noite invernal de Oymyakon era uma das mais frias do mundo, a madrugada sombria e densa, e a única fonte de luz era a lua. Ikarus sentia a adrenalina percorrer por todo o seu corpo enquanto a neve no chão ficava mais próxima, mas não sentia medo algum. Afinal, ele possuía a frieza emocional de sua mãe.
PLOFT!
A neve recebia o corpo do semideus como uma mãe que recebe o abraço de um filho correndo desgovernado ao encontro dela. Ikarus sentiu como se houvesse caído de apenas alguns centímetros de altura, levantou-se rapidamente e começou a correr. Para muitos, locomover-se na neve, principalmente em amontoados, era algo cansativo, mas para Ikarus era como uma caminhada simples. O semideus não usava blusas, jaquetas ou botas, apenas um fino pijama, pois era comum para ele caminhar na neve sem calçados. Ikarus Kaice não sentia frio.
— O que eu faço? Preciso ajudar! — murmurava o garoto enquanto caminhava em direção à janela da sala de sua casa.
— Pare com isso! Deixe-nos em paz! — A voz de Helena foi ouvida por Ikarus. O semideus apressou-se para ver o que estava acontecendo.
BLAM! BLAM!
Dois tiros consecutivos. Ikarus olhou pela janela e viu seu pai, Elliot, baleado no chão; o sangue corria lentamente pelo piso de madeira de sua casa. A avó de Ikarus agora estava prestes a ser amordaçada; os bandidos riam e faziam perguntas para Helena, mas o semideus já não conseguia mais raciocinar sobre o que estavam falando. Um sentimento destrutivo e vingativo nascia no coração daquela criança. Ikarus, do lado de fora da casa, encarava fixamente pela janela o corpo de Elliot caído no chão. Conforme o sangue escorria, ele ouvia e via sua avó paterna, que estava amarrada no chão, chorando pela morte do filho, preocupada com o neto, sem poder fazer nada.
A temperatura de Oymyakon no inverno já era extremamente fria por si só, mas, naquele momento, a temperatura ao redor da casa da família de cultistas diminuía gradativamente, e os vidros da janela começavam a formar grossas películas de gelo puro. O semideus manteve-se petrificado com a morte de Elliot; as lágrimas rolavam por seu rosto e congelavam logo em seguida. O sentimento sombrio no coração dele o dominava, até que, por fim, tudo ficou escuro. O semideus agora teria suas ações guiadas pela vingança.
VRAMMM-BRAM-BRAM-BRAAM-VRUMMMM
Poucos minutos se passaram até que o som de uma motosserra pôde ser ouvido por todos que estavam na sala da casa. Os bandidos entreolharam-se e, antes que pudessem reagir, uma pequena criança entrou correndo pela porta da frente, carregando uma motosserra que era do mesmo tamanho, ou até maior, que sua própria altura. A máquina de cortar lenha do pai de Ikarus pesava mais de oito quilos, mas, naquele momento, não tinha peso algum nas mãos daquela criança possessa pela ira.
— Mas que porra? — murmurou um dos invasores, enquanto via o garoto correr em sua direção a uma velocidade incomum.
VRAAAMMMM SLAASHHH BRAM-BRAM...
Ikarus desferiu um golpe lateral com a serra, acertando o abdômen do primeiro invasor. Os dentes da motosserra engoliam a blusa, o colete e as roupas do homem, até chegar à carne, que era dilacerada brutalmente. Sangue voava para todos os lados da sala. O rosto inexpressivo, frio e pálido de Ikarus era pintado pelo vermelho sangue das vísceras que caíam no chão.
— Matt! Caralho! Peguem o merdinha com vida! — o líder dos invasores gritou pelo comparsa que, ao tentar fugir da ira de Ikarus, teve mais de suas vísceras espalhadas pela sala. O homem até tentou fugir, mas a perda de sangue e o terror de ver o próprio intestino caindo para fora do corpo o fizeram desmaiar, e, em poucos instantes, a morte o abraçou.
O semideus era rápido: flexionou as pernas e pulou, subindo em cima do sofá. O pequeno correu com a serra em mãos, como se fosse um brinquedo infantil e, ao chegar na ponta do sofá, saltou para cima da mesa da cozinha, que ficava próxima. Ele caçaria sua segunda presa, o que estava jogando gasolina nos móveis de sua casa.
— N-não!... — gritou o invasor, levantando o galão de gasolina em frente ao corpo para se proteger. Ikarus jogou a motosserra para trás do corpo e desferiu um golpe vertical que dilacerou o galão, para então acertar precisamente a clavícula do segundo invasor. O garoto apertava com toda a força o botão da serra.
VRAAAAMMMMMM!!!
A carne era obliterada, o osso da clavícula do invasor foi partido como um graveto. Ikarus forçava a máquina, que adentrava impiedosamente o tronco do criminoso; o terror do homem era amplificado pela expressão fria de Ikarus. Os olhos do semideus estampavam o caos que ele sentia. Dentro dele, o caos crescia a cada respiração. A dor da perda, a fúria, o ódio — tudo pulsava dentro de Ikarus como uma tempestade incontrolável. Ele não era mais apenas uma criança. Era algo muito pior.
— O filho da puta matou o Anderson, cacete! Sua aberração! — gritou o terceiro invasor, puxando os pés de Ikarus de cima da mesa e derrubando-o no chão. A motosserra caiu ligada logo ao lado do pequeno, que lutava para se soltar do agarrão do invasor. — Vou arrancar esses seus olhos, seu bostinha! — o terceiro invasor dizia, colocando os polegares dentro dos globos oculares de Ikarus, que lutava para impedir que seus olhos fossem estourados ou afundados para dentro do crânio.
— Desmaia esse filho da puta! Merda! Fizemos muito barulho, David! Precisamos ir embora e levar ele agora! — gritava o líder para seu comparsa, mirando uma escopeta na direção dos dois que lutavam no chão.
Ikarus precisava se soltar, o homem em cima dele era muito pesado. O pequeno abriu a boca e mordeu o pulso de seu agressor com tanta força que suas veias foram rompidas, e o sangue começou a jorrar.
— ARGH, CARALHO! — gritou o invasor, em seguida socando o nariz de Ikarus, que, por um segundo, viu tudo escurecer. O semideus não perdeu tempo: aproveitou a abertura e se esticou para segurar o cabo da motosserra com suas pequenas mãos.
O invasor tentou impedir Ikarus, mas ele foi mais rápido. Girou o corpo em alta velocidade, tornando impossível desviar do golpe. Os dentes da motosserra acertaram o pescoço do agressor de Ikarus, rasgando o pomo-de-adão, artérias e veias, fazendo o sangue jorrar novamente para todos os lados. O semideus aplicou mais força e, em menos de cinco segundos, decapitou o terceiro invasor.
A avó de Ikarus olhava assustada, preocupada com o neto. Helena não conseguia falar, pois estava amordaçada, mas lutava para se libertar. O último invasor mirou a arma na direção do semideus; ele tremia, apavorado, pois nunca imaginou que veria tamanha ferocidade vinda de uma simples criança.
O medo percorria suas veias. Os olhos do invasor tremiam, e ele mal conseguia manter a arma firme. Nunca havia sentido algo assim antes — como se o próprio ar ao redor de Ikarus estivesse carregado de morte. O banho de sangue que havia ocorrido até então assustaria qualquer um.
— Você realmente é uma aberração, moleque. Não vou me sentir culpado por matar você — o homem dizia com a mão trêmula.
O líder invasor apontava a arma com uma mão trêmula, hesitando por um segundo. Ele sabia que estava lidando com algo além de sua compreensão, algo monstruoso dentro de uma simples criança. O dedo dele tocava o gatilho, mas, por um breve instante, ficou congelado. Seria possível vencer aquilo?
De alguma forma, Ikarus exalava uma pressão espiritual amedrontadora de forma inconsciente. O pequeno semideus estava decidido a empenhar toda sua força de vontade para matar. O líder invasor apontou a arma em direção à cabeça do semideus, que estava a poucos metros de distância.
Ikarus acelerava o motor da motosserra: ele teria de ser rápido, pois já sentia o peso da máquina esgotando seus músculos. Os segundos pareciam durar uma eternidade; o invasor colocou o dedo no gatilho da arma. Helena, no chão, amordaçada, tentava gritar para que o neto fugisse ou fizesse algo para não ser morto. A tensão do momento fez os sentidos de sobrevivência do semideus aflorarem. Ikarus gritou em ira:
— VOU TE MATAR POR FERIR MINHA FAMÍLIA!
O lado divino do semideus o dominava, o sangue destrutivo de Despoina ansiava por vingança. Helena, ao ouvir as palavras de seu neto, não se conteve e derramou lágrimas de tristeza por ver seu descontrole. A ternura humana que seu amado neto possuía se esvaía pelo desejo de destruição. O invasor sentia na pele o perigo; sua vida estava por um fio, então não se importou: mirou a escopeta na direção do semideus e apertou o gatilho.
BLAAAM!
O lado divino do semideus o dominava, o sangue destrutivo de Despoina ansiava por vingança. Helena, ao ouvir as palavras de seu neto, não se conteve e derramou lágrimas de tristeza por ver seu descontrole. A ternura humana que seu amado neto possuía se esvaía pelo desejo de destruição. O invasor sentia na pele o perigo; sua vida estava por um fio, então não se importou: mirou a escopeta na direção do semideus e apertou o gatilho.
CLEENNK!
O tiro de uma escopeta era mortal quando efetuado em alvos próximos, pois o dilaceramento era muito maior. Ikarus viu o homem apontando a arma em sua direção, levantou a motosserra para se proteger enquanto corria, sem se importar em ser atingido. o som "CLEENK" ecoou quando as balas acertaram a lâmina Ainda assim, ele não parou de correr, Ikarus e o líder invasor colidiriam em três segundos:
Três segundos. Ikarus mantinha a motosserra erguida, mirando no tronco do bandido à sua frente. O som da corrida dos pequenos pés do semideus no chão de madeira era ensurdecedor para o homem, que tentava encontrar uma brecha para matar o garoto.
Dois segundos. O invasor, inconscientemente, por medo da morte, apertou novamente o gatilho de sua escopeta. O tiro foi desajeitado, mas, ainda assim, sua trajetória acertava levemente de raspão o ombro do semideus; o sangue de Ikarus explodiu no ar mas ele nem sequer piscou pela dor que sentiu.
Um segundo restante. O semideus saltou com a motosserra em mãos. O invasor se perguntava se havia realmente valido a pena a vida de crime. Fora contratado para roubar uma casa e sequestrar um garoto, não esperava encontrar um demônio em forma de criança. Ele via os olhos vidrados do garoto no ar, como um animal predando, faminto e furioso.
Zero. A ponta da motosserra acertou o estômago do invasor; o corpo de Ikarus colidiu contra o do homem, que caía para trás conforme a motosserra adentrava seu estômago. A dor era surreal, a ponto de ele morder a própria língua enquanto se engasgava com o sangue que jorrava de sua boca pelo estrago; assim, a serra destroçava seus órgãos. A última coisa que aquele homem viu antes de morrer foram os olhos irados de uma criança de apenas sete anos, ou melhor...
Os olhos de um animal selvagem.
Logo após a morte do último invasor, Ikarus soltou a motosserra e limpou, com as mangas do pijama, o sangue de seu rosto. O cheiro de queimado o despertou para a sã consciência. O semideus olhou em volta e viu o fogo se alastrando pelos móveis da casa; o cheiro de sangue no ar e a bagunça feita o deixavam trêmulo. Ele viu sua avó, Helena, caída no chão, com uma poça de sangue ao redor; o semideus franziu o cenho, confuso, e correu em direção a ela, ajoelhando-se no sangue.
— V-vovó? Vovó! — gritava, balançando o corpo da idosa. Helena levantou a cabeça com dificuldade, olhando nos olhos do neto. Ikarus rapidamente removia a mordaça da boca da avó e tentava desfazer o nó que a amarrava.
— Ikarus, meu pequeno, você está bem? — Helena perguntou. Os olhos âmbar da avó paterna do semideus o fitavam com ternura e preocupação; lágrimas escorriam de seu rosto, ainda entristecida e preocupada.
— Desculpa, vovó, desculpa — o semideus dizia, enquanto lágrimas rolavam de seu pequeno e pálido rosto. As amarras feitas nas mãos da avó eram muito grossas e apertadas, ele não conseguiria desfazê-las apenas com as mãos. — Vou pegar uma faca... — murmurou.
Ao se levantar, viu o fogo que envolvia a cozinha. Helena suspirava pesadamente, colocando a mão na costela. Ela não iria dizer, mas o tiro disparado em direção à motosserra que Ikarus segurava havia ricocheteado e a atingido: a idosa não tinha muito tempo restante.
— Ikarus, venha aqui — Helena ordenou, chamando a atenção do neto, que chorava, assustado.
— E-eu preciso te soltar, vovó. A casa está pegando fogo. A gente tem que fugir, me ajude a carregar o pai, a mamãe mandou eu fugir — Ikarus dizia, caindo no chão próximo à avó. Ele a abraçava, tentando, de alguma forma, trazê-la consigo.
— Você precisa sair daqui, filhinho. Vovó e papai vão ficar bem — Helena disse. Mesmo amarrada, ela levantou os braços para trazer o neto adotivo para perto, abraçando-o e beijando sua testa.
— Mentira, não vão não! — Ikarus falava em desespero, sua voz ficando aguda pelo choro.
— Quando estávamos na Grécia, eu prometi te levar a um parque de diversões... Você se lembra disso? — Helena perguntou enquanto o fogo se alastrava.
Ikarus, ao ouvir a pergunta da avó, chorava ainda mais.
— S-sim — dizia em soluços, com o rosto afundado na clavícula da avó, com medo de se separar dela.
— Juro pelo rio Estige que cumprirei essa promessa. Eu e seu pai vamos ficar bem, contanto que você saia da casa agora — Helena disse, obrigando o neto a olhar em seus olhos. Ikarus sabia que promessas feitas pelo rio Estige, sagrado para os deuses do submundo, nunca poderiam ser quebradas, ou a pessoa seria amaldiçoada pela eternidade.
Ele sabia que a avó não mentiria para ele: pelo menos, era o que o pequeno acreditava em sua inocência juvenil. O som de um vazamento de gás começou a ser ouvido. Helena sabia do que se tratava e não podia deixar o neto ficar perto dela. Olhou nos olhos do pequeno e falou com uma voz autoritária:
— Vá! Certamente sua mãe está a caminho, você tem que fugir agora. Vamos ficar bem. Fuja, e não olhe para trás! — falou para Ikarus.
O pequeno balançava a cabeça em negação, mas confiava na palavra de sua avó, que sempre cuidara dele. Então, se levantou, sem olhar para trás, e, em meio a soluços e lágrimas, correu pela sala. Seus pequenos pés tocavam as poças de sangue, pulavam para evitar rastros de fogo, e, ao chegar próximo à porta da frente da casa, o inevitável aconteceu.
BOOOOOMMMMMM!!!!
O fogo entrou em contato com o vazamento de gás, causando uma grande explosão que, por pouco, quase acertou as costas do semideus. A força da explosão o lançou metros no ar; ele caiu de costas sobre o vidro da van dos invasores, que quebrou com o impacto do corpo do garoto, fazendo-o perder a consciência devido à exaustão e ao dano sofrido. O som da explosão havia sido ensurdecedor, assim como o som dos estilhaços do vidro da van. Tudo havia acontecido tão rápido... o garoto só queria fugir dali, com seu pai e sua avó, para enfim encontrar sua mãe e ficar em segurança, mas suas esperanças foram destruídas...