O FILHO DO INVERNO
As sombras do poder da deusa envolviam as asas de Zéfiro, e, como se fossem feitas de gravetos, as asas do deus foram prensadas pela materialização da escuridão até serem esmagadas. As pupilas do deus dilataram pela dor insana que sentia. Theminaris era como uma loba raivosa que avançava com sabedoria, rosnando em direção ao predador menor que ameaçava seu filhote. A deusa falou em alto e bom-tom, para que Ikarus ouvisse:
PRIMEIRA LIÇÃO:
“As sombras nos rodeiam desde nosso nascimento.
Não tema a elas...
Abrace-as e elas guiarão seus passos.”
Ikarus ouviu, piscou e respirou fundo, permitindo-se ser envolto por aquela escuridão que não o consumia, mas fazia parte dele como um todo. O semideus afundou completamente nas sombras de sua mãe e foi teletransportado para a posição onde Despoina estava antes. As sombras tiraram Ikarus de perto de Zéfiro e o levaram para onde estaria seguro, atrás de sua mãe.
Zéfiro tentava se libertar usando suas pétalas de rosas, que voavam em direção a Despoina; mas, antes que acertassem a deusa, elas eram congeladas pela presença do zero absoluto: o estado gélido divino que congelava até mesmo moléculas e átomos. Esse estado emanava do corpo da deusa, fazendo com que as pétalas fossem desintegradas em um pó translúcido cristalino assim que tocavam seu corpo.
Despoina cerrava os punhos, e algo parecido com fogo surgia deles, revestindo-os. Eram chamas brancas, as chamas do zero absoluto. A deusa era o destaque daquele cenário envolto em escuridão; seus cabelos brancos pareciam brilhar conforme se moviam com seus passos calmos. Os lábios pálidos no semblante sombrio proferiram a segunda lição para Ikarus.
SEGUNDA LIÇÃO:
“O gelo queima como o fogo.”
A deusa parou em frente ao corpo aprisionado de Zéfiro e, ainda com um olhar de soberba, falou friamente, desprezando-o:
— Isso é por tocar no meu filho.
Theminaris colocou-se em posição, como uma boxeadora em um ringue. Os punhos, envoltos em chamas brancas, brilharam.
BLAM!
Um cruzado de esquerda acertou o maxilar de Zéfiro. O poder do zero absoluto que emanava dos punhos de chamas brancas congelava a pele, os ossos e até mesmo as células no local onde o golpe acertara, ganhando assim uma cor negra, como as sombras que os rodeavam.
Aquilo era a morte das células do deus, necrose instantânea, causada pelas queimaduras de gelo divino. BLAM! Despoina acertou outro soco no osso occipital do deus. A potência do soco foi tanta que quebrou o local, fazendo o olho de Zéfiro saltar para fora do crânio. Despoina aproveitou e o arrancou para torturar a divindade.
Zéfiro nem mesmo podia gritar, pois sua boca estava preenchida, como se as sombras agarrassem a língua do deus. Ikarus observava, agora, sem medo ou dificuldades emocionais. O pequeno sentiu esperança e resquícios de felicidade ao ver o deus com uma expressão de dor aguda estampada no rosto.
BLAM, BLAM, BLAM!
Os ossos faciais do deus haviam sido quebrados; ele sofria um espancamento divino com a fúria de mil avalanches. Minutos se passavam com Despoina socando o rosto e o corpo de Zéfiro. O deus já estava sem forças, e a deusa do gelo, esgotando-se pela intensidade dos golpes desferidos. O sangue dourado de Zéfiro formava uma poça no chão, tingindo a armadura e a pele branca da deusa. Do corpo dele, o sangue escorria por pequenas rachaduras na pele, que havia ficado negra devido às queimaduras causadas pela temperatura negativa dos golpes. Partes da pele e dos ossos que não sofriam queimaduras eram simplesmente desintegradas pela força absoluta do zero absoluto.
Theminaris estava com o rosto e os punhos igualmente ensanguentados pelo líquido vital dourado da divindade. A deusa desferiu outro golpe, cravando as unhas em forma de garras no peito de Zéfiro e, em seguida, afundando a mão dentro dele. O olho restante do deus revirava de dor enquanto Despoina afundava o braço até tocar no coração, que pulsava fraco pelos danos sofridos ao corpo. Zéfiro tentava desesperadamente se desvencilhar das sombras de Theminaris, mas suas forças já estavam esgotadas.
A deusa não perdeu tempo: puxou o coração do deus para fora do peito, arrancando-o por inteiro. O coração dourado de Zéfiro passou a pulsar na mão da deusa do gelo. As sombras que o seguravam foram recolhidas para a poça de sombras no chão. O deus lutava para se manter de pé, com as pernas trêmulas e a visão embaçada, mas sorriu ao olhar para o rosto ensanguentado da deusa à sua frente.
— Haha… hahaha... e-eu... — O deus caiu de joelhos no chão. Tocou o peito aberto, olhando para Despoina, que mantinha seu ar de soberania. Zéfiro suspirou, ainda sorrindo, sem dentes, com a boca completamente ensanguentada. — V-você vai pagar, p-por... todos... os seus... pe… ca...dos...
A visão do deus ficava turva. Ele lutava para se regenerar, mas o dano das chamas brancas do zero absoluto impedia as células divinas que carregavam o Icorium de se restaurarem. O Icorium era a essência divina dos deuses na corrente sanguínea, responsável por tornar o sangue deles dourado e garantir seus atributos divinos. Despoina ouviu as palavras do deus e, em seguida, esboçou um pequeno sorriso de canto por alguns segundos enquanto mostrava o coração de Zéfiro para ele. Logo depois, ela voltou à expressão fria.
Theminaris, com suas chamas brancas, incinerou o coração de Zéfiro em zero absoluto. O deus caiu ao chão, debatendo-se, como se estivesse tendo espasmos ou uma convulsão intensa, urrando de dor extrema — gritos que certamente poderiam ser ouvidos de longe. Gritou e esperneou:
— AAARRGHHH, AAAARRGHH, OOHWW!
O deus vomitou o próprio sangue, e em seguida arfou em desespero. Theminaris apertava o coração do deus com sua mão e unhas e, por fim, o esmagava, explodindo-o, impedindo por completo o deus de se regenerar naquele momento. Zéfiro deu um forte espasmo ao ter o coração esmagado. A deusa recolheu suas chamas brancas, caminhando calmamente ao redor do corpo de Zéfiro, até, por fim, parar atrás dele. Theminaris limpou o sangue do rosto e olhou para Ikarus, que assistia a tudo em silêncio, para então proferir a terceira lição a seu primogênito.
TERCEIRA LIÇÃO:
“Para matar uma divindade imortal, é necessário desmembrá-la.”
Todos os deuses eram imortais, o que significava que, mesmo que seus corações fossem arrancados ou suas cabeças decepadas, ainda assim continuariam vivos. A única forma de vencer completamente os deuses era desmembrá-los em pedaços, separando-os e impedindo que se reunissem.
O deus permaneceria vivo, mas, enquanto seus membros não fossem reunidos ou colocados próximos uns dos outros, ele não poderia se regenerar em sua totalidade. A única que conhece o segredo para retirar a imortalidade de um deus é Nyx, a deusa primordial das sombras. Desmembrar um deus era a única forma de garantir uma vitória absoluta em combates de "Morte". Foi assim que o monstro Typhon venceu Zeus no passado.
CRACK, CLASHH, SPLASSH!!!
Despoina arrancava as asas cor-de-rosa de Zéfiro, e o sangue voava em filetes conforme as asas rosas quebradas pelas sombras caíam na neve, decorando-a junto do sangue dourado. O deus dos ventos começava a se arrastar na neve em desespero, a expressão em sua face revelava o terror que sentia. Theminaris observava-o se rastejar, era como se ela visse um inseto prestes a ser esmagado.
— B-Bóreas... Nono... Notus... Eurus… — Zéfiro rastejou por metros clamando pelo socorro de seus irmãos, mas era tudo em vão, sem que percebesse, rastejou até os pés de Ikarus, que o observava com o mesmo semblante frio de Theminaris.
Ikarus também queria vingança pela morte de seus pais, ele não tinha piedade alguma do deus que seguia murmurando e clamando por ajuda. Theminaris se abaixou calmamente, levando ambas as mãos pálidas nas laterais da cabeça de Zéfiro, apertou-as com força enquanto colocava um pé nas costas do deus, forçando-o a ficar imóvel, prensado contra o solo.
RASGH…
Theminaris puxava sem piedade a cabeça de Zéfiro, que começava a se desprender do tronco, a pele do pescoço do deus começava a rasgar: era possível ver veias e artérias ficando aos poucos à mostra conforme o sangue escorria.
RASSHH…
A deusa flexionava seus músculos fazendo mais força, rasgando ainda mais, até a espinha ficar visível. O olho rosado restante de Zéfiro parava aos poucos de brilhar, a boca do deus estava totalmente aberta, como se estivesse dando um grito de dor silencioso conforme o sangue escorria dela... e em um último ato...
CRACK, SPLASHH!
Bloco de imagem
Theminaris arrancou a cabeça de Zéfiro, filetes de sangue voaram na neve, no rosto de Ikarus e em Despoina, que agora segurava a cabeça do deus pelos fios loiros do cabelo. A deusa do gelo imediatamente congelava o novo troféu adquirido, para então pendurá-lo em sua cintura.
Minutos se passavam enquanto a deusa limpava a bagunça feita, terminando de desmembrar o corpo do deus. Após retirar todo o sangue do próprio corpo e de sua armadura, Theminaris caminhou em direção ao seu filho. Ikarus estava caído no chão, encolhido próximo às árvores congeladas. Os olhos do pequeno fitavam sua mãe em silêncio.
O semideus sentia pontadas de dor em seu peito; o soco de Zéfiro causara um enorme dano. Seus ossos e órgãos só se mantinham estáveis graças à energia de Despoina, que auxiliava na manutenção do congelamento interno das fraturas e danos no corpo do semideus. Os ventos já não estavam tão fortes como antes, e a temperatura em Oymyakon subia alguns graus. A deusa estava pronta para partir. Devido a isso, caminhou em direção ao semideus, parou em frente a ele e o fitou.
— Consegue andar? — Theminaris perguntou.
O pequeno, por mais que tentasse, não conseguia evitar olhar para a cabeça de Zéfiro, que estava pendurada na cintura de sua mãe. Ele negou com a cabeça; o semideus estava fraco demais após o surto divino que se manifestara.
— Elliot e a vovó Helena... morreram — o semideus falou, abaixando a cabeça, triste.
Ele se lembrava dos homens que matou, olhou para as suas pequenas mãos sujas de sangue seco, assim como suas unhas. Ele sentia o cheiro de ferro do sangue dos bandidos que matara, e aquilo revirava seu estômago.
— Entraram em casa e os mataram — disse Ikarus, com os olhos vidrados, revivendo a morte de seus parentes. — Vovó jurou pelo rio Estige… ela foi queimada, e a-agora... ela... ela tá amaldiçoada, a alma dela vai ser amaldiçoada...
A criança tentava desabar em lágrimas, mas a frieza emocional, manifestada pelos poderes que herdara de sua mãe, o impedia de chorar. Desesperou-se por não conseguir, e ali, cada soluço que dava enquanto entrava em crise de pânico fazia seu pequeno corpo doer com dores agudas: aquilo era uma tortura para uma criança que sentia a necessidade de expressar sua dor.
Despoina observava a aflição de seu filho. Ela conseguia sentir o desespero e o desamparo que a criança vivenciava. E ali, a deusa percebeu que o pequeno pensava estar sozinho, órfão no mundo, o que a fez ficar aflita, pois tudo era culpa dela.
— Por minha causa, as pessoas da cidade morreram... mas por que elas não vieram ajudar? — Ikarus se perguntava, enquanto começava a perder suas forças. A dor o desconcentrava.
O pequeno ficou em silêncio quando ergueu o olhar, pois viu algo que jamais esqueceria em toda sua vida. Theminaris sentiu o coração acelerar, aflita pelo trauma que claramente havia causado no filho. Aquela deusa sanguinária, vingativa e impiedosa via a indignação de seu filho e se colocava no lugar dele. Ela conhecia bem o sentimento de estar só, o sentimento de perda de controle.
A infância de Ikarus fora manchada por sangue, profanada pelas consequências da linhagem que ele carregava — assim como Theminaris carregava o fardo de ser fruto de um abuso, de ser abortada, odiada, rejeitada e amaldiçoada por sua própria existência.
A deusa ajoelhou-se na neve; não sabia ao certo o que fazer, mas se lembrou de que, no passado, Themis a aninhava quando ela se perdia em seu próprio caos. E, assim, a deusa trouxe Ikarus para perto de si, abraçando-o com carinho, com uma delicadeza tão grande quanto o amor que sentia pelo filho.
Despoina afagava os cabelos do pequeno enquanto o confortava. O consolo materno fez com que Ikarus desabasse em choro, derramando lágrimas. O abraço e o amor da deusa envolveram-no por completo.
— Me perdoe por não chegar a tempo... eu tive problemas, mas agora estou aqui por você... — Despoina disse, levantando Ikarus do solo em seu abraço, segurando-o no colo.
O garoto soluçava.
— Eu vou ficar sozinho? — Ikarus perguntou, entristecido, pensando em como seria voltar para Oymyakon depois do que fizera. Sua casa fora queimada, e ele não tinha nem mesmo onde morar.
Theminaris sentiu seu coração se partir com a dor do filho, mas olhou nos olhos dele para passar toda a confiança que podia.
— Não, você nunca mais estará só. Vou te ensinar a sobreviver; você viverá como um deus e abandonará o mundo mortal. A partir de hoje, começará sua jornada.
Despoina abraçou novamente o semideus; uma chuva de flocos de neve rodeava os dois, formando um vórtice de gelo. A deusa decidiu quebrar códigos e infringir leis, desafiando o destino ao tomar tal decisão.
A criação de um semideus por uma divindade era estritamente proibida devido a uma série de riscos associados aos danos irreparáveis que o semideus poderia causar no mundo mortal, especialmente se ele se tornasse caótico, o que era extremamente provável. No entanto, não havia mais o que ser feito.
O descontrole e a fúria de Ikarus dizimaram toda uma cidade, causando aproximadamente quinhentas mortes. Despoina sabia que, se não levasse seu filho, alguma organização que intermediava entre o mundo mortal e o divino o levaria — ou pior, mataria o semideus. Ela não permitiria isso.
O coração de Ikarus começava a se acalmar. O abraço de sua mãe o confortava naquele momento de agonia, luto e tristeza. O pequeno apertava a mãe, retribuindo o gesto, enquanto engolia o choro. Ele sentia uma vibração por todo o corpo; aquela era a energia divina da deusa se entrelaçando à de Ikarus. O semideus via os flocos de neve rodopiando ao seu redor, sentindo o vento gélido e agradável no rosto. Tudo começava a desaparecer.
Theminaris se teletransportou com seus poderes para seus domínios, em algum lugar no mundo onde o clima frio predominava. Ikarus foi levado para uma jornada sem volta, pois...
As engrenagens do destino
já giraram há muito tempo.